segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Flávio e a direita mostram força nas urnas- FSP editorial

 Depois de passar quase toda a campanha em segundo lugar na grande maioria das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro (PL) conquistou 47% dos votos válidos no primeiro turno, à frente dos 45% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não muito distante da maioria necessária para encerrar a disputa presidencial neste domingo (4).

Não se pode falar em surpresa. Nos últimos pleitos, o bolsonarismo mostrou mais força nas urnas do que nas sondagens de intenções, seja devido a eleitores que não declaravam abertamente suas preferências, ao voto útil antipetista ou a maiores taxas de abstenção no campo adversário.

O feito é particularmente notável porque a candidatura de Flávio mal foi levada a sério quando lançada por seu pai. Trata-se, afinal, de um político não apenas sem brilho próprio, dependente do sobrenome, mas também despreparado e, se não bastasse, com longo histórico de ligações com personagens das milícias do Rio —e, mais recentemente, com o corruptor Daniel Vorcaro.

O patriarca da família foi corretamente condenado por tentativa de golpe de Estado, e o indulto prometido pelo filho será uma afronta à democracia. Com tais credenciais, Flávio não conseguiu apoio de nenhum outro partido.

Seu PL, legenda secundária no país até abrigar o bolsonarismo, ampliou seu poderio nacional. Garantiu já no primeiro turno os governos dos três estados do Sul, de Roraima e Rondônia; estará no segundo turno no Rio e no Amazonas. Michelle e Carlos Bolsonaro conquistaram mandatos no Senado, para o qual a sigla teve votação avassaladora.

A direita obteve outras vitórias importantes, a começar pelos governos de São Paulo e Minas, os dois maiores colégios eleitorais, assegurados pelo Republicanos. Nos dois estados, postulantes conservadores conseguiram 3 das 4 vagas de senador.

O PT de Lula, por ora, se mantém restrito ao Nordeste, preservando Bahia, Ceará e Piauí. Disputará o segundo turno no Distrito Federal e no Rio Grande do Norte. Ex-ministras de Lula, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB), foram derrotadas na disputa paulista pelo Senado.

O presidente da República terá uma tarefa difícil na segunda rodada do pleito —até hoje, nunca o segundo colocado no primeiro turno conseguiu vencer a eleição presidencial. Os demais postulantes da corrida ao Planalto reúnem mais votos conservadores, que tendem a migrar para Flávio.

Cartuchos importantes já foram queimados, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda, o reajuste do Bolsa Família e a proibição das bets, sem resultados palpáveis. A próxima empreitada será a votação do fim da escala de trabalho 6x1.

Desde a recessão catastrófica produzida por Dilma Rousseff (PT) e a ascensão da direita populista, o discurso econômico e social do partido tem menos apelo —ainda mais quando os juros resultantes de sua política gastadora sufocam as famílias.

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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Hélio Schwartsman - O currículo de Flávio Bolsonaro -FSP

 O ponto forte da democracia é assegurar que governantes reprovados nas urnas entreguem o poder pacificamente, não favorecer a escolha de bons líderes —o que, infelizmente, ela não faz. A melhor prova disso é a possibilidade muito real de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente da República.

O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.

Homem de cabelos curtos e escuros veste camisa branca e está em ambiente interno com fundo escuro. Um grande círculo vermelho desfocado aparece em primeiro plano à direita.
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) - Brian Snyder - 29.set.26/Reuters - Brian Snyder/REUTERS

E quanto ao risco institucional? Um princípio elementar do Estado de Direito é o de que a culpa de um criminoso não se transfere para seus familiares. É Jair e não Flávio que foi, com seus corréus, condenado por tentativa de golpe. E é por isso que o senador está em pleno gozo de seus direitos políticos e pode concorrer à Presidência. Isso dito, é preocupante a ameaça de Flávio de subir a rampa ao lado do pai. Um indulto presidencial aos golpistas reverteria o que talvez seja o único avanço institucional que obtivemos na história no que diz respeito ao controle do Estado sobre militares.

O adversário de Flávio Bolsonaro, Lula, tem é claro sua própria lista de pecados, ainda que de outra ordem. Aludi a alguns deles numa coluna publicada poucos dias atrás. Nem deveria ser necessário dizê-lo, mas a tarefa do jornalismo de opinião é criticar, de preferência com propriedade, tudo o que pode ser criticado em qualquer campo político. Cabe ao jornalismo informar e subsidiar argumentações, não substituir a faculdade de julgar do eleitor, por mais imperfeita que seja.

O voto de quem não quer escolher- Priscilla Bacalhau FSP

 Quantas brigas por política ocorreram na sua família desde as eleições de 2018? Quantos relacionamentos foram rompidos, amigos de longa data que não se suportam mais? A polarização política se tornou parte da vida cotidiana brasileira. Nas últimas eleições, a situação culminou numa diferença de apenas 2 milhões de votos entre Lula e Bolsonaro. Ainda assim, há quem permaneça no meio.

De um lado, estão aqueles que não votam no bolsonarismo sob nenhuma circunstância. Não é uma rejeição a um único partido, até porque, se hoje a família está concentrada no PL, houve antes uma trajetória por diferentes legendas. Para esse eleitorado, a rejeição está associada ao conjunto de ideias e práticas identificadas com a extrema direita, às ameaças às instituições democráticas e às suas relações com milícias e crime organizado.

Do outro lado, estão os que não votam no PT de Lula sob nenhuma circunstância. No antipetismo, pesam as lembranças de escândalos de corrupção e as críticas à condução econômica e fiscal dos governos petistas. Há quem se sinta traído por Lula. Para estes, uma lista de políticas públicas bem-sucedidas dificilmente bastará para mudar sua posição.

Nesses polos, a escolha está mais baseada na rejeição a um lado que na identificação com o outro.
Mas há quem não se identifique com nenhum dos dois. São saudosos de uma terceira via viável, de uma alternativa às duas faces dessa polarização. São mães de família que enfrentam dificuldades concretas na criação dos filhos. São idosos que já ouviram muitas promessas não cumpridas. São jovens desesperançados que viram suas famílias se dividirem por causa de política e não veem sentido em tomar uma posição.

O que está em jogo para essas pessoas é como suas vidas serão afetadas pelo próximo governo. Saúde, educação, segurança, emprego, custo de vida. Na falta de esperança de que qualquer um dos principais candidatos possa trazer melhora na qualidade de vida, fica difícil escolher em quem votar. Na dúvida, a abstenção parece ser a saída.

É preciso reconhecer a dificuldade da tomada de decisão para esses eleitores. Nenhuma opção agrada, ou ambas desagradam fortemente, e é difícil comparar propostas quando as campanhas são majoritariamente compostas por ataques.

A abstenção pode ser a resposta mais fácil, mas também a mais ingênua. Um cidadão pode até abrir mão de exercer seu poder de escolha, mas sofrerá as consequências do resultado. Na nossa democracia, não existe ficar em cima do muro: todos serão afetados pela escolha alheia.

Por mais difícil que seja, vale a pena investir algum tempo para comparar o histórico dos candidatos. Quando nenhum nome convence, a decisão precisa ser feita por outros critérios. Quais evidências existem de que são qualificados para o cargo? Quais de seus projetos foram aprovados? Quem se beneficia de suas políticas e quem pode ser prejudicado? Quais são as denúncias que enfrentam?

Em uma eleição polarizada, votar não precisa significar ter o candidato dos sonhos. Pode significar comparar projetos, trajetórias, evidências e consequências. No fim, alguém precisa ser escolhido.

E o pior cenário para quem não gosta de nenhuma das opções pode ser deixar que os outros escolham por ele.