sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A arrecadação com as bets e o dinheiro do apostador que não chega ao consumo- FSP

 Guilherme Klein

Professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (Made-USP)

Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou a medida provisória que proíbe as bets no Brasil. Desde então, o tema domina o debate público, sinal do peso que o setor ganhou em poucos anos. A discussão vai da saúde pública ao financiamento dos clubes de futebol, e o Congresso ainda terá de decidir se converte a MP em lei.

Mesmo quem reconhece os danos das bets costuma fazer uma ressalva: a proibição teria um custo econômico, sobretudo para as contas públicas. Vale, então, olharmos com atenção para esse argumento.

Mãos de pessoa seguram um celular branco com capa azul, exibindo um jogo colorido na tela. A pessoa veste suéter bege e calça preta, sentada com o aparelho próximo ao corpo.
Aplicativo de aposta online em celular - Allison Sales - 3.out.2024/Folhapress

Em análise de agosto, o Centro Celso Furtado e o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) estimam que as famílias perderam R$ 62,5 bilhões com apostas online em 2025. Esse número é grande, mas ainda tende a subestimar o efeito total na economia.

Ao levarmos em conta que o dinheiro gasto em apostas deixa de ir para bens e serviços que movimentam mais a economia, esse efeito se multiplica. Um exemplo claro é o de alimentação fora de casa: ao pagar a conta em um restaurante, parte do valor é utilizada para remunerar os fornecedores dos ingredientes, outra para pagar os cozinheiros, uma terceira vira salário dos garçons e assim por diante.

Todos esses pagamentos geram uma nova rodada de consumo, o que faz com que a economia gire. É o que chamamos em economia de multiplicador. No caso das bets, esse encadeamento é mínimo, e só parte pequena do dinheiro gasto retorna à economia.

Em estudo do Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP), levamos em conta esse efeito multiplicador do consumo e estimamos que, em 2025, as bets podem ter retirado até R$ 114 bilhões dos demais setores da economia. É importante notar que esses valores já descontam estimativas do que as bets gastam no país —salários, publicidade, patrocínios, outros serviços e o consumo gerado pelos lucros—, com base em estudos encomendados pelo próprio setor e em hipóteses favoráveis a ele. Ou seja, mesmo levando em conta a renda que as bets fazem circular na economia, o efeito sobre os outros setores da economia é muito negativo —equivalente a algo entre 30% e 40% de todo o crescimento de 2025.

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O argumento econômico que tem sido mais usado para criticar a MP é o de que o governo estaria abrindo mão de arrecadação com a proibição. É preciso ter clareza de que esse argumento não parece se sustentar.

Parte expressiva da arrecadação do governo vem de impostos sobre consumo. Ao reduzir de forma tão importante a atividade nos demais setores, nossos cálculos indicam que as bets geraram uma perda de arrecadação entre R$ 23 bilhões e R$ 44 bilhões em 2025. Mesmo descontados os cerca de R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com a tributação das apostas, a perda líquida fica entre R$ 14 bilhões e R$ 35 bilhões. Para comparação, o custo total da isenção de Imposto de Renda aprovada em 2025 e que afeta 15 milhões de pessoas custa cerca de R$ 28 bilhões.

O custo para a sociedade é ainda maior quando se consideram os danos à saúde. Estimativas do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) indicam que os danos associados a apostas e jogos de azar custam pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano. Parte desses custos, como o tratamento, recai sobre o SUS e agrava o efeito sobre as contas públicas.

É importante mencionar também que, além desses efeitos negativos no PIB e no Orçamento público, há evidência de que as bets agravam o endividamento das famílias e podem aumentar a desigualdade.

Na linguagem econômica, custos que uma atividade impõe ao restante da sociedade são chamados de externalidades. A resposta usual é tributá-la: o imposto reduz o consumo e gera receita para compensar os danos. Em princípio, esse poderia ser o caminho para as bets.

Com as evidências disponíveis, porém, não está claro se há tributação alta o suficiente que permita o funcionamento das bets e, ao mesmo tempo, gere arrecadação que compense seus custos.

O que sabemos é que, tal como funcionava até agora, o setor impunha prejuízos enormes aos demais setores da economia e às contas do governo.

TV Globo cancela debate após desistência de Flávio Bolsonaro e ausência de Lula- FSP

 A TV Globo cancelou o debate presidencial que ocorreria nesta quinta-feira (1º) depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL) desistir de participar da sabatina. O presidente Lula (PT) já havia comunicado a emissora que não iria ao debate e daria entrevista ao Flow Podcast.

A decisão da Globo foi tomada após decisões do Judiciário que interferiram na logística inicial do debate. A ministra do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito vazio de candidatos.

Já o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes autorizou a participação de Renan Santos (Missão), que não participaria da sabatina porque seu partido não conta com o mínimo de cinco parlamentares exigido para comparecer. Antes, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, decidiu incluir Zema entre os integrantes do confronto.

À esquerda, homem de pele clara, barba grisalha, usando chapéu de palha e camisa vermelha, fala ao microfone com gesto de mão direita levantada. À direita, homem de pele clara, cabelo curto e escuro, veste camisa verde clara e segura microfone com a mão direita, gesticulando com a esquerda; usa adesivos de campanha eleitoral no peito. Fundo desfocado com iluminação e balões coloridos.
Montagem mostra o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) em eventos de campanha - Douglas Magno e Gledston Tavares - 21.ago.26 e 17.ago.26/AFP

Pouco depois, Flávio anunciou a desistência. "Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem que ser livre e as eleições limpas", escreveu o congressista em rede social.

Em nota, a TV Globo afirmou que a decisão de Estela Aranha sobre os púlpitos vazios torna inválido item das regras da emissora para o programa, "assinada por todos os partidos, inclusive o PT". Também cita a decisão de Gilmar para autorizar a participação de Renan Santos, afirmando ser contrária à lei estabelecida para convite a debates televisionados.

Para a emissora, as decisões interferem nas regras previamente acordadas, o que levou ao cancelamento do evento. Conforme a nota, foram impetrados recursos contra as duas decisões, mas a direção da Globo considerou não haver tempo hábil para revertê-las.

"Nosso dever é o de promover a democracia, mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais", afirmou a emissora.

A Globo transmitiu a novela "Quem Ama Cuida" no lugar do debate entre os candidatos.

Em nota, a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), a Aner (Associação Nacional de Editores de Revistas) e a ANJ (Associação Nacional de Jornais) disseram se solidarizar com a Globo e manifestaram indignação com o que chamaram de invervenção judicial nas regras do evento.

Afirmaram que "os excessos judiciais atropelaram o direito de os cidadãos terem acesso às propostas dos candidatos que, conforme prevê a lei eleitoral, já tinham sido convidados e se dispuseram a participar do debate".

"As entidades entendem que a interferência não se trata apenas de uma imposição de obrigações, sem previsões em lei, contra uma emissora privada. É, sobretudo, uma agressão à liberdade de imprensa ao forçar a condução do debate em desrespeito a regras acordadas há meses entre a emissora e os partidos", concluíram as associações.

Os candidatos à Presidência da República que foram à TV Globo nesta quinta atribuíram a Lula o cancelamento do debate. "Nós estamos vendo a Justiça a serviço do Lula", afirmou Romeu Zema (Novo).

A assessoria do ex-governador de Minas Gerais ainda afirmou em nota lamentar o cancelamento do debate, e disse as decisões da Suprema Corte são "um desrespeito a milhões de brasileiros que esperavam a oportunidade de conhecer e comparar as propostas dos candidatos".

Ronaldo Caiado (PSD) chamou as decisões da Suprema de "uma afronta à democracia brasileira". "O Lula provocou tudo isso. Ele foi provocado pelo Flávio na minha cidade, em Goiânia, dizendo ‘vai lá que eu vou lhe enfrentar’. E bateu em retirada", disse o ex-governador goiano.

Púlpito para entrevista coletiva nos estúdios da TV Globo, no Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress

Em nota, também afirmou lamentar a falta de debate, chamou o cancelamento de "atentado à democracia" e disse que "o que a Justiça fez hoje representa, nada mais, nada menos, que a destruição do processo eleitoral no país".

"O catalisador desse atentado foi, lamentavelmente, aquele que mais deveria mostrar apreço pelo nosso povo: O atual presidente da República. Luiz Inácio Lula da Silva atuou desde o começo da campanha para interditar o debate e evitar que o Brasil discutisse seu desgoverno", concluiu o ex-governador.

Augusto Cury (Avante) questionou se "o teatro da política precisa de um psiquiatra" assim que chegou à sala de imprensa após o cancelamento do evento.

Renan Santos se uniu a apoiadores em ato em frente à sede do jornalismo da Globo, e fez críticas a Lula e a Flávio. Simpatizantes do candidato do Missão já se reuniam no local desde cedo, e chamaram o senador de "fujão" e "frouxo".

Renan convidou Flávio para participar de debate e prometeu declarar voto ao adversário, se derrotado. "Flávio, tô aqui no Rio perto da tua casa. Bora parar num bar e fazer um debate de boa. Eu não falo de escândalos, tratamos apenas de propostas, xingamos juntos o PT. Se me derrotar eu tiro minha candidatura e declaro apoio a você", disse.

Mais adiante, o candidato chamou Flávio de Judas e Lula, de capeta. "Primeiro a gente tira o traidor, o Judas. Depois, a gente tira o capeta."

Ele criticou a decisão da emissora de não convidá-lo para o debate e disse que, até então, vinha sendo tratado com decência pela TV Globo.

"Eu fui o único a ser excluído do debate. Seria um debate de comadre. O Zema nunca faria uma pergunta difícil ao Flávio. Eles iriam todos, juntos, ficarem falando seus nadas ao redor de nada", afirmou.

Já o petista criticou o formato de debate das televisões para justificar a ausência. A afirmação foi feita em entrevista ao Flow Podcast. A transmissão teve pico de audiência em torno de 1,5 milhão de espectadores.

"Eu há tempos tenho questionado os debates da Globo", declarou o petista, que disse não gostar do tipo do debate promovido pela emissora. "Você não pode levar uma pessoa que tem 49% a debater com o que tem 1%", destacou, citando o seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e o chamando de "desqualificado".

A eleição presidencial de 2026 terá o primeiro turno com menos debates na televisão desde 1998, quando não houve confronto entre candidatos na TV.

Como mostrou a Folha, Lula chegou a considerar a possibilidade de participar do debate na Globo, mas depois prevaleceu a leitura de que ele seria o alvo de todos os demais candidatos, tendo tempo limitado de resposta.

Por que é tão difícil escolher deputados nas eleições?- Mauro Calliari - FSP

 A Folha conta que apenas 27% dos eleitores já escolheram seus candidatos a deputado federal e estadual. A dois dias das eleições que mobilizam o país, 3 em cada 4 brasileiros não conseguiram pensar em dois nomes. O que pode explicar esse aparente descaso?

Uma explicação é a gravidade em torno dos cargos majoritários. A preocupação com presidente, governadores e senadores é tão grande que parece tirar o peso de todas as outras escolhas. Outra é que a propaganda eleitoral, mesmo irrigada pelas verbas públicas, pouco ajuda a escolher alguém.

Plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo com fileiras de cadeiras e mesas vazias. No fundo, painel eletrônico exibe lista de nomes e votos. Três pessoas estão na área da presidência, e outras quatro estão nas laterais do salão.
Plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo - Rubens Cavallari - 16.set.26/Folhapress

Nos últimos dias, passei horas assistindo ao horário eleitoral e pensei em como seria difícil escolher alguém diante da evidente falta de tempo para se apresentar. Alguns martelam seu nome e seu número, com música e bordões extemporâneos (mesmo assim, para ser justo, acho que há menos candidatos exóticos que no passado).

Outros se colocam a serviço de uma causa genérica, como a educação, ou a segurança. Alguns gritam, muitos aparentam ter certezas invencíveis. Num mundo histriônico, sinto simpatia pelos que falam com tranquilidade e expõem problemas com clareza. Outros tentam ocupar um segmento, como o sociodemográfico (professores, delegados, mulheres) ou geográfico —"prometo defender a minha região". Quase todos se colam nos candidatos majoritários.

O problema maior talvez seja o próprio sistema eleitoral, que não adota o voto distrital, mas faz com que candidatos de várias regiões compitam entre si para representar seus estados. Apenas no Estado de São Paulo são 1.430 candidatos a deputado estadual. Como administrar isso?

No sistema distrital ou distrital misto, esse número seria dividido de tal forma que o eleitor pudesse escolher entre um punhado de candidatos, que poderiam se apresentar devidamente e que provavelmente já seriam conhecidos em seus distritos.

Mesmo no sistema atual, a maior parte das propostas parece pequena para a grandeza dos cargos. A promessa de brigar por mais verbas para sua região parece apenas perpetuar a sede por mais emendas parlamentares ou favores.

O pior é que há votações pendentes que vão impactar nossas cidades e nosso futuro, que exigiriam o oposto dessas propaladas virtudes de combatividade e gritaria: as notas do nosso estado na educação, os planos de segurança, o detalhamento de riscos e caveats contratuais com empresas nas privatizações, a concessão de espaços públicos para entes privados, o marco regulatório que pode financiar mais subsídio ao transporte público, a qualidade do atendimento no SUS, a falta de integração de fluxos nas nove regiões metropolitanas do estado, os imperativos energéticos diante da crise climática e o maior de todos, o risco de falta d’água. Não falta assunto complexo pela frente.

Nas grandes votações, vemos a floresta de braços levantados com o celular filmando suas narrativas para a base de eleitores. Essa visão algo teatral esconde a realidade do trabalho bem feito. Não é só lançar projetos de lei, é também e principalmente avaliar projetos do Executivo e de colegas, que exigem análises, uso de dados, consultas, tudo o que dá trabalho e não dá visibilidade.

Enquanto não temos voto distrital, que aproximaria eleitores de parlamentares, dá tempo de vasculhar a lista de candidatos para encontrar pessoas que pareçam dispostas a abraçar a complexidade e não se tornarem super-heróis das redes sociais.