domingo, 21 de dezembro de 2025

Ricardo Cardim - Urge dotar a arborização com recursos compatíveis à ‘infraestrutura essencial’, FSp

 Ricardo Cardim

Paisagista, é mestre em botânica (USP)

Não é segredo para nenhum morador da metrópole que os eventos climáticos extremos pioram a cada ano. Em setembro tivemos um assustador, que além de levar as habituais quedas de árvores, também arrancou as janelas de um prédio no centro. E, recentemente, um inédito, segundo os meteorologistas, com ventos de quase 100 quilômetros por hora sem tempestades, em céu azul, que gerou o caos em São Paulo, com milhões de domicílios sem energia elétrica, morte e muitos danos.

Em época pós-COP, muito se falou em mudanças climáticas globais, quase nada de cidades e menos ainda de mudanças climáticas regionais, aquelas causadas pela falta de vegetação e excesso de impermeabilização dos centros urbanos, geradoras das ilhas de calor que, conforme evidências científicas, potencializam os eventos climáticos extremos.

Árvore grande caída atravessa a rua em área residencial, bloqueando a passagem. Ramos e galhos ocupam a via, com prédios e carros ao fundo.
Árvore caída na rua Caiubi, em Perdizes, zona oeste da capital, após fortes ventos que atingiram a cidade - Danilo Verpa - 10.dez.25/Folhapress

Desde a década de 1970 não somos mais a "terra da garoa", de clima ameno, mas cada vez mais a "terra das tempestades extremas". Nesse cenário ameaçador de mudanças climáticas, temos possivelmente uma única boa notícia, a capacidade de interferência.

Diferente da global, na regional podemos atuar diretamente, e uma das soluções pode ser simples: plantar e cuidar de árvores na malha urbana, mas não como tem sido feito há décadas, considerando um assunto de menor importância, quase decorativo.

Precisamos esfriar a temperatura da cidade, regular seu clima, trazê-la mais próximo da garoa dos nossos avós, e para isso é necessário mudar mentalidades, vontades políticas e, principalmente, investimentos.

Urge dotar a arborização urbana com recursos compatíveis com o que se chama de "infraestrutura urbana essencial", assim como obras viárias, água, esgoto, luz. Temos que plantar de forma técnica-científica milhões de árvores nativas de médio e grande porte, sombrear todo o asfalto, colocar legalmente calçadas e arborização viária como responsabilidade única e exclusiva do município, plantar entre vagas de veículos como já feito em Paris e Berlim e pulverizar florestas nativas nos bairros para transformar a cinzenta imagem de satélite da metrópole com muito verde entremeado.

Ao mesmo tempo, é preciso começar a cuidar de verdade das árvores já existentes, removendo o concreto e muretas que enforcam troncos, tratar doenças, trocar espécies inadequadas plantadas sem fiscalização e acabar com as podas mutiladoras de galhos grandes, substituindo-as pelo cuidado periódico da "poda de formação" em galhos jovens e facilmente cicatrizáveis pelas árvores.

As podas, hoje maior reclamação da população, muitas vezes comprometem a saúde e o futuro da árvore, ao contrário do que os paulistanos acreditam. Penso que necessitamos de uma Secretaria Municipal de Arborização Urbana para não só plantar, mas com profissionais bem equipados para garantir a saúde e cuidados com árvores, junto com uma campanha de educação ambiental aos cidadãos.

Dessa forma, conseguiremos atacar dois problemas: maior resiliência e regulação das mudanças climáticas, e uma diminuição da queda de árvores enquanto não se consegue enterrar a fiação elétrica aérea, que tem se mostrado incompatível com os eventos climáticos extremos. Temos postes em São Paulo há mais de um século, e quase nada foi feito nesse sentido por todo esse tempo. Agora, para enterrar toda essa fiação, a conta é multibilionária.

Não há outra medida: não somente árvores atingem as redes elétricas aéreas nas tempestades, mas também fragmentos de construções e telhados. E até nesse aspecto uma arborização densa e com árvores grandes ajuda nos protegendo, reduzindo a velocidade, energia e rajadas do vento que atinge as edificações e estruturas urbanas.

Se não tomarmos providências eficazes perante esse desafio climático inédito na cidade de São Paulo, poderemos chegar, em breve, a quadros drásticos como eventos climáticos extremos em semanas consecutivas, seguidos da falência da capacidade do sistema de reparação elétrica, levando a dezenas de dias sem energia elétrica e todas as suas consequências caóticas.

Na situação atual em que chegamos, o negacionismo não é uma opção.

Apreensão de dinheiro vivo pega bolsonarismo no contrapé

 Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy, ambos deputados federais pelo PL-RJ, estão entre os mais aguerridos apoiadores de Jair Bolsonaro (PL). Os dois não medem palavras para defender o ex-presidente das acusações que ele enfrenta na Justiça.

Pois agora parecem dispostos a utilizar o mesmo expediente em benefício de si próprios. Na sexta-feira (19), tornaram-se alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga o possível desvio de recursos de cotas parlamentares —verbas públicas destinadas ao custeio do mandato.

A PF e a Procuradoria-Geral da República suspeitam que Sóstenes e Jordy, além de dois de seus assessores, organizaram um esquema para embolsar o dinheiro ilegalmente. A fraude envolveria repasses irregulares a uma empresa de locação de carros.

Os indícios, colhidos por meio de relatórios financeiros e conversas extraídas de celulares dos investigados, incluem o fracionamento de saques e depósitos de até R$ 9.999, bem como movimentações elevadas sem identificação de origem dos recursos.

Diante dessa situação, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou a quebra dos sigilos bancários dos deputados, de maio de 2018 a dezembro de 2024, e autorizou sete mandados de busca a apreensão, no Rio e no Distrito Federal.

Em uma dessas investidas, agentes federais encontraram R$ 430 mil em espécie guardados em um imóvel usado por Sóstenes, que é líder do PL na Câmara. A imagem da pilha de dinheiro pega o bolsonarismo no contrapé de seu discurso, sempre feroz sobre a corrupção dos outros.

Os dois deputados, como seria de imaginar, negaram que estejam envolvidos em qualquer falcatrua. E, como assegura o Estado de Direito, terão a oportunidade de se manifestar nos autos, rechaçando, se for o caso, os pontos ora considerados suspeitos.

Por enquanto, não fizeram isso. Jordy classificou a operação como "covarde" e sustentou que a alegação "é tosca", mas não apresentou evidências concretas para afastar a desconfiança. Sóstenes disse que o dinheiro apreendido decorre da venda de um imóvel, mas não mostrou documentos que comprovem sua versão.

O líder do PL, ademais, falou em perseguição e mencionou o contrato do escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, do STF, com o Banco Master, no valor de R$ 129 milhões.

Uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas serve para lembrar que, se o STF não cuidar de sua imagem, será cada vez mais difícil preservar a autoridade moral em um cenário polarizado.

editoriais@grupofolha.com.br

Pequenos (e nem tão pequenos) erros que tiram os leitores do sério - Alexandra Moraes - Ombudsman FSP

 O tema não é inédito, mas dá um jeito de se renovar todos os dias. A correção dos erros de português da Folha reúne as credenciais para ser classificada como trabalho de Sísifo.

Alguns leitores passaram o ano acompanhando o drama de ver a pedra empurrada morro acima rolar todo dia de volta ao início. Uma das mais dedicadas à causa é Magda Wagner. Nesta semana, ela achou mais um erro, no título "Polícia Civil prende segundo suspeito de roubo a obras de arte da biblioteca Mário de Andrade".

"Esse ‘a’ onde deveria ser ‘de’ mostra que o título foi redigido por alguém que não sabe escrever com segurança. Não se trata de errinho, esse é dos grandes."

Errar é humano, assim como Sísifo, e por isso mesmo é preciso tornar a empurrar a pedra montanha acima. Mas isso inclui buscar a origem do problema: desatenção, ignorância ou condescendência, com "dá para entender" ou "o dicionário prevê tal uso".

Aconteceu com "233 deputados que apoiaram a perca [sic] do mandato do deputado", em setembro. O leitor João Manoel Zaninotto, 70, escreveu, não sem espanto: "Poderia, por favor, me informar se o português dessa frase está correto ou se os revisores deixaram escapar?".

Num texto publicado em 2015 na Veja, Sérgio Rodrigues, hoje colunista da Folha, informava que, "na norma culta, o substantivo relativo ao verbo ‘perder’ é ‘perda’". "Ocorre que a forma ‘perca’, surgida regressivamente a partir do verbo, é de uso tão frequente no português popular, informal, que a maioria dos dicionaristas" a registra, "ainda que anotando tratar-se de forma ‘não preferencial". E essa forma "costuma ser tratada como erro".

Não dá para dissociar a linguagem das desigualdades sociais ou desprezar mudanças culturais. Mas, se a língua opera como marcador social, também serve como proteção para o poder.

Um barco a vela, formado por letras, dirige-se a uma série de quedas-d'água que provavelmente irão destruí-lo.
Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman de 21 de dezembro de 2025 - Carvall /Folhapress

Nesse sentido, o jornal peca ao se encher de jargões. Não raro, vocábulos e detalhes técnicos ocultam mais do que esclarecem. Reproduzi-los de maneira acrítica também é um erro.

Para Magda, porém, "os casos de regência estão entre os piores". "Não quero me colocar como alguém padecendo do que eu chamaria síndrome de Aldrovando Cantagalo", afirma a leitora, citando o personagem de Monteiro Lobato que "apalpava com erótica emoção a gramática de Augusto Freire da Silva".

"Mas é difícil ‘deixar para lá’, com vocabulário limitado, matérias repetitivas (agora entrou na moda o ‘impulsionar’) e impropriedades. Já conversamos sobre o ‘possuir’, que muitos parecem considerar mais chique do que ‘ter’. Ou o muitas vezes desprezado verbo ‘pôr’, sempre cedendo lugar a ‘colocar’. E isso vem numa expressão esquisita e muito frequente, que li na Folha de novo: ‘colocar fogo’. Fico imaginando alguém pegando ‘um fogo’ e colocando-o em algum lugar…"

Marcio Leonel é outro incomodado. Desde outubro, reuniu 137 imagens que provam os deslizes gramaticais e os enviou ao jornal.

"Sou leitor da Folha há mais de 60 anos. Pela repetição, [os erros] começaram a me incomodar e aí resolvi avisar. São pequenos erros que não dá para listar no Erramos, mas que também podem incomodar outros leitores", conta Marcio. "Lembro que existia uma equipe de revisores e que, talvez há uns 20 anos, essa equipe foi desfeita e a revisão passou a ser feita pelos próprios responsáveis pela matéria."

Há muito tempo não há revisores. Mas outra função que se perdeu nas últimas décadas foi a do redator. O próprio Manual da Redação explica: "Com a redução das Redações e o avanço tecnológico, repórteres e editores têm absorvido as funções que costumavam ser de um redator, como finalização da edição, releitura de reportagens e elaboração de títulos, legendas e textos de apoio".

O problema não é só de quem escreve, embora tenha ali um ponto inicial claro. Está em todo o processo, e é um investimento com o qual a instituição pode ou não se comprometer.

"Os textos da Folha estão muito mal escritos! A pontuação está de chorar. Como é que o povo vai aprender a escrever se os veículos de comunicação já não fazem mais o papel de referência?", questiona outra leitora, que preferiu não ter o nome divulgado. Ela envia "uma súplica". "Prestem especial atenção às redes sociais, vitrines importantíssimas. Como a Folha vai captar assinantes se os ‘cartões de visita’ são tão ruins?"

Ainda que o jornal tente se adaptar ao imperativo visual das redes sociais, é na palavra que ainda está sua principal matéria-prima. E o problema do texto vai além da incorreção superficial. Erros gramaticais e de digitação podem ser irritantes por sua banalidade, mas esses são fáceis de arrumar, se forem reconhecidos.

Mais graves são os erros ou contorcionismos linguísticos pelos quais se expressam a falta de interesse, a pouca intimidade com a lógica da língua e a ausência das perguntas importantes.