terça-feira, 18 de novembro de 2025

COP30 precisa ser clara na comunicação, não apenas em técnica, Joisa Dutra, FSP

 Joisa Dutra

Semana passada acompanhei a primeira semana da COP30, em Belém. Vieram muitos alertas —e preocupações— sobre a capacidade do país não apenas de sediar o evento, mas de exercer alguma liderança na agenda de descarbonização. Uma ambição que convive com desafios geopolíticos e institucionais que não desaparecerão tão cedo.

Grupo de indígenas com pintura corporal e cocares coloridos marcha segurando cartaz com a frase "A morte da floresta é o fim das nossas vidas" em destaque.
Indígenas participam Marcha do Povos, em Belém, durante a COP30 - MAURO PIMENTEL/AFP

Escrevo ainda durante o evento —portanto, é um olhar parcial. Não sou novata em COP, tampouco veterana. Mas noto que seguimos confiando demais na ideia de que, no fim, tudo dá certo e que nossa hospitalidade resolve qualquer contratempo. Pena. Poderíamos ter entregado mais. O país tem talento e profissionalismo de sobra.

Quem permaneceu nas bolhas de carros oficiais e lounges exclusivos talvez tenha percebido menos, mas os perrengues estavam lá: congestionamentos, motoristas desorientados e falhas de organização. Seguimos adiante, porém naquele modo tão nosso — "improvisa e torce".

Participei de uma painel sobre resiliência climática nas redes de transmissão de eletricidade —tema central da transição energética. Sessão densa, disputando atenção com painéis mais chamativos.

E ali algo me marcou: quatro representantes de povos indígenas acompanharam tudo, dois na primeira fila. Quando abriu a rodada de perguntas, pediram a palavra. Estavam preocupados com a possível redução de incentivos à geração solar no norte de Minas Gerais.

À primeira vista, parecia um tema lateral; mas não era. A pergunta deles era direta: por que rever um instrumento que permite produzir energia limpa localmente justo num momento em que tanto se fala de descarbonização, segurança, empoderamento do consumidor e justiça?

A cena sintetiza o desafio maior: resiliência não é só engenharia, mas confiança, previsibilidade e comunicação. Seu questionamento não era sobre técnicas de rede, mas sobre coerência e inclusão.

No mesmo dia, a IEA (Agência Internacional de Energia) divulgou o Energy Policy Review 2025 do Brasil. Entre as recomendações: rever o net metering. Principal motor da geração solar distribuída, o mecanismo permite que o consumidor compensar parte do seu consumo com a produção de energia elétrica. A projeção da Agência chega a 70 GW de solar em telhados em 2030 — expansão extraordinária, mas que acende alertas sistêmicos: riscos econômicos, técnicos e aumento curtailment (cortes forçados de geração).

A indústria solar reagirá, como sempre. A IEA já subestimou a expansão de renováveis, é verdade. Mas desta vez o alerta converge com análises independentes — inclusive do NREL — sobre a necessidade técnica e econômica de ajustar incentivos dessa natureza conforme a escala cresce.

O problema não está na tecnologia, mas na ausência de um roteiro claro: o acordo era rever esses incentivos regulatórios em 2019. Os ajustes não se materializaram; ao contrário, cravamos em lei. Continuamos sem capacidade de sensibilizar políticos e a opinião pública sobre os riscos sistêmicos de manter incentivos descolados da evolução técnica da rede. E, ao mesmo tempo, falhamos em explicar por que subsídios cruzados acabam prejudicando justamente quem não pode produzir sua própria energia - e que pode ter menos renda.

E é aqui que volto aos representantes indígenas —e à minha memória de reguladora percorrendo o país em audiências públicas de revisão tarifária. Ali, como agora, a questão central não era tarifa, fio, sinal locacional ou tarifa B1. Era comunicação, escuta e capacidade de traduzir escolhas técnicas em impactos compreensíveis.

A transição energética só será justa e inclusiva se também for comunicada e entendida. Resiliência de redes não existe sem confiança no processo. E confiança não se constrói com siglas e gráficos, mas com clareza, consistência e disposição real de explicar.

A COP30 deixou isso escancarado: não basta ambição, metas ou megainvestimentos. Sem diálogo transparente e compreensão ampla sobre os desafios e trade-offs do setor elétrico, o risco não é apenas técnico —é político.

E a política, como sabemos, não perdoa vácuos de explicação.


Precisamos ser capazes de responsabilizar as plataformas de tecnologia por fraude, Martin Wolf, FT FSP

 Em abril deste ano, o FT publicou uma coluna minha sobre um "deepfake" no Instagram, uma das plataformas da Meta. Um ex-colega havia me alertado sobre isso em março, porque o vídeo falso fingia ser eu. Mas esse Martin Wolf dava conselhos de investimento, algo que eu jamais faria. O FT convenceu a Meta a retirar o conteúdo. Mas ele logo reapareceu. Estávamos jogando "whack-a-mole" com golpistas.

No fim, fui incluído em um novo sistema da Meta que usa tecnologia de reconhecimento facial para combater esse tipo de golpe. Funcionou: os deepfakes desapareceram. Minha conclusão é que a Meta pode detê-los, se estiver realmente determinada a fazê-lo.

Fotografia de uma pessoa com o rosto coberto usando um celular representa um hacker - releon8211/Adobe Stock

Infelizmente, isso não aconteceu antes de eles terem sido amplamente disseminados. Um colega me disse que havia pelo menos três deepfakes diferentes e várias imagens manipuladas circulando em mais de 1.700 anúncios com pequenas variações no Facebook e no Instagram. Dados da Ad Library da Meta mostraram que esses anúncios alcançaram mais de 970 mil usuários apenas na UE, onde as regulações exigem que as plataformas divulguem esses números. No mundo, o número de pessoas expostas deve ter sido múltiplas vezes maior.

Muitas pessoas que conheço tiveram a mesma experiência. No início deste mês, um comunicado da Berkshire Hathaway alertou o público para não cair em vídeos que fingiam mostrar o próprio Warren Buffett, divulgados no YouTube. O comunicado acrescentava que "Buffett está preocupado com o fato de que esse tipo de vídeo fraudulento está se tornando um vírus em expansão".

Duas reportagens recentes revelam a escala do que está acontecendo. Uma delas, de Jeff Horwitz, da Reuters, foi publicada com o título "Meta está ganhando uma fortuna com uma enxurrada de anúncios fraudulentos, mostram documentos". Ele afirma que "a Meta projetou internamente no fim do ano passado que ganharia cerca de 10% de sua receita anual total, ou US$ 16 bilhões, veiculando anúncios de golpes e produtos proibidos, segundo documentos internos da empresa".

"Um conjunto de documentos inéditos revisados pela Reuters", continua o texto, "também mostra que o gigante das redes sociais, por pelo menos três anos, falhou em identificar e interromper uma avalanche de anúncios que expôs bilhões de usuários do Facebook, Instagram e WhatsApp a esquemas fraudulentos de comércio eletrônico e investimento."

A reportagem observa que "grande parte da fraude vinha de anunciantes agindo de forma suspeita o suficiente para serem sinalizados pelos sistemas internos de alerta da Meta". Ainda assim, as evidências mostram que a empresa só bane anunciantes se seus sistemas preverem com pelo menos 95% de certeza que eles estão cometendo fraude. Então, o que acontece quando a probabilidade é menor? Segundo a Reuters, "a Meta cobra taxas mais altas".

Esse é um sistema projetado para aumentar a lucratividade de anúncios considerados altamente prováveis de serem fraudulentos. O pior de tudo é que os algoritmos da Meta garantem que pessoas que clicam em golpes provavelmente verão ainda mais deles.

O material da Reuters baseia-se em documentos produzidos dentro da Meta entre 2021 e 2025. O porta-voz Andy Stone disse à Reuters que os documentos "apresentam uma visão seletiva que distorce a abordagem da Meta em relação a fraudes e golpes", acrescentando que "combatemos agressivamente fraudes e golpes". Talvez. Mas, em nossa experiência, a Meta só agiu de forma eficaz após inúmeras reclamações do FT. Isso sustenta a hipótese de que ela pode agir, mas não tem pressa.

Como a Reuters também observa: "Uma apresentação de maio de 2025 da equipe de segurança [da Meta] estimou que as plataformas da empresa estavam envolvidas em um terço de todos os golpes bem-sucedidos nos EUA."

Esse "vírus", como Buffett descreve corretamente, não prejudica apenas as pessoas enganadas pelos anúncios fraudulentos. Há também o lado da oferta. Em outubro, o governo britânico publicou um documento afirmando que "no sudeste asiático, centros de golpes estão usando esquemas sofisticados, incluindo fraudes em que pessoas são atraídas para falsos relacionamentos amorosos, para enganar vítimas em escala industrial, inclusive no Reino Unido. Os responsáveis pelos golpes são frequentemente estrangeiros traficados, mantidos em cativeiro e forçados a cometer fraudes online sob ameaça de tortura."

Uma reportagem de Srinivasan Ramani, publicada no jornal The Hindu no início de novembro com o título "Como funcionam os centros de golpes no sudeste asiático?", relatou a fuga de cerca de 500 cidadãos indianos do "KK Park", um centro de crimes cibernéticos na cidade de Myawaddy, perto da fronteira com a Tailândia, no sudeste de Mianmar. Esse centro foi recentemente tomado pela junta militar do país.

O artigo explica que a "Global Initiative against Transnational Organized Crime (GI-TOC) chama essas instalações de complexos industriais semelhantes a prisões, onde milhares são traficados e forçados a cometer crimes cibernéticos. Traficantes publicam anúncios falsos de empregos com altos salários em tecnologia e marketing. Vítimas da Índia, China, Vietnã, Filipinas, África e América Latina são levadas a centros regionais como Bangcok, depois traficadas por terra e forçadas a atravessar fronteiras até Mianmar ou Camboja. Uma vez dentro dos complexos, protegidos por muros altos e guardas armados, os passaportes são confiscados. Dizem às vítimas que foram ‘vendidas’ e precisam trabalhar para pagar sua ‘dívida’, enfrentando jornadas de 12 horas operando golpes online. Os que se recusam sofrem tortura —espancamentos, choques elétricos, fome e isolamento."

Essas atividades, portanto, têm um número enorme de vítimas nos dois extremos. No meio estão empresas de redes sociais imensamente poderosas e lucrativas. A Meta afirma fazer o possível para conter essa praga. Mas isso é falso. Ela poderia, por exemplo, eliminar todos os anúncios financeiros que não possam ser comprovadamente legítimos com um grau muito alto de probabilidade. É o que se espera de qualquer editor. Mas as plataformas de redes sociais são diferentes. Tornou-se impossível responsabilizá-las pelo conteúdo que aparece em seus sites. Isso seria "censura".

No entanto, a Meta e plataformas semelhantes são cúmplices de fraude. Os custos disso não recaem apenas sobre os enganados e os coagidos. Incluem também danos à confiança. A proliferação em massa do que certamente serão falsificações cada vez mais convincentes é letal para o sistema financeiro.

A solução é óbvia. As pessoas deveriam poder processar as plataformas para obter reembolso total dos prejuízos decorrentes de terem sido enganadas pelos anúncios fraudulentos que elas publicam. Uma vez permitido isso, tais anúncios certamente desaparecerão. Fraude é crime. Lucro com fraude precisa ser interrompido.


Tarcísio obtém maioria alinhada à sua gestão no Tribunal de Contas de SP, FSP

 O deputado estadual Carlos Cezar (PL) será o novo conselheiro do TCE-SP (Tribunal de Contas de São Paulo) após ter sido aprovado, na tarde desta terça-feira (18), com o apoio de 89 dos 94 deputados da Alesp (Assembleia Legislativa).

Como mostrou a Folha, a escolha consolida a influência do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre o tribunal pelos próximos 18 anos, com 4 dos 7 conselheiros do TCE alinhados à sua gestão.

Homem de terno azul e camisa branca segura microfone enquanto fala em evento com fundo escuro e luzes laranja.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), discursa em evento de negócios - João Valério/Divulgação Governo do Estado de SP

Cabe ao TCE fiscalizar o uso do dinheiro público e julgar as contas do governo estadual e dos municípios paulistas, à exceção da capital, que tem as contas analisadas pelo TCM (Tribunal de Contas Municipal).

O tribunal investiga questões sensíveis ao governo, como, por exemplo, se Tarcísio utilizou de forma irregular uma aeronave da Polícia Militar para participar de um ato convocado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em março deste ano, no Rio de Janeiro.

A investigação sobre o uso da aeronave foi aberta a pedido da deputada estadual Mônica Seixas (PSOL) e está sob relatoria do conselheiro Marco Aurélio Bertaiolli desde abril.

Bertaiolli foi um dos quatro nomeados para o TCE sob a gestão Tarcísio. Ele foi indicado pela Alesp, em 2023, por meio de uma costura política envolvendo o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, o secretário estadual de Governo e presidente do PSDGilberto Kassab, e o próprio Tarcísio.

Em 2024, a Alesp escolheu Maxwell Borges para o tribunal. O nome foi uma indicação do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), e também avalizada por Tarcísio. Já o ex-controlador-geral do Estado Wagner Rosárioempossado no início do mês, foi uma indicação pessoal de Tarcísio.

Líder da bancada do PL na Assembleia, Carlos Cezar é um dos aliados mais próximos de Tarcísio na Casa e o primeiro deputado em exercício a ser escolhido para o cargo em 34 anos. Ele ocupará a vaga de Sidney Beraldo, que se aposenta ao fim deste mês.

Uma cadeira no TCE, vinculado ao Poder Legislativo, é pleiteada há anos pelos parlamentares da Alesp. "Finalmente um deputado nosso", disse a petista Beth Sahão após o anúncio. Apenas a bancada do PSOL, com cinco deputados, não apoiou a indicação de Carlos Cezar.

Na semana passada, uma lista indicando o deputado para a vaga foi assinada por 89 parlamentares. Carlos Cezar foi sabatinado pelos seus colegas na manhã desta terça por pouco mais de duas horas e, no início da tarde, às 16h30, sua nomeação foi anunciada no plenário.

Com a entrada dele no tribunal, Tarcísio terá influência sobre o TCE até 2043, quando Bertaiolli, o primeiro indicado na atual gestão, completará 75 anos, idade que obriga os conselheiros a se aposentarem. Em tese, até lá, pela idade limite de atuação e sem considerar outros motivos como antecipação da aposentadoria, Tarcísio pode ter no TCE a maioria de membros indicados por ele ou por sua base política.

Pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular, Carlos Cezar está em seu quarto mandato como deputado estadual. Como conselheiro do TCE, ele terá salário de R$ 44 mil, fora auxílios, e um gabinete com 33 funcionários, sendo 31 deles comissionados –ou seja, de livre nomeação.

A primeira suplente do PL, que pode assumir a cadeira deixada pelo deputado, é a delegada Raquel Gallinati, que deixou o cargo de secretária de Segurança de Santos em setembro deste ano. Deputados da Alesp disseram à Folha que a movimentação do partido é para que outro suplente, o policial Flávio Gonçalves da Costa, conhecido como Tenente Bahia, fique com a vaga.

Há, ainda, outro cenário para a bancada do partido na Assembleia: a antecipação do retorno de Valéria Bolsonaro, que se licenciou no ano passado para assumir a Secretaria de Políticas Para a Mulher e precisaria deixar o cargo até abril do ano que vem para tentar a reeleição.

Já a liderança do PL na Alesp ficará com o deputado Alex Madureira.