domingo, 16 de novembro de 2025

Maior obra ferroviária do país vai levar grãos de MT para porto de Santos; veja vídeo, Alex Sabino, FSP

 Os trilhos de aço estão empilhados. Esperam o avanço da obra no interior de Mato Grosso. A fábrica de dormentes, a base de concreto para suportar e distribuir o peso dos trens, acumula peças de 400 kg de concreto antes da instalação. Até 2030, deverão percorrer 743 quilômetros.

"Vocês não estão acostumados com esse calor, não?", pergunta o operário que viajou de São Luís, no Maranhão, para Rondonópolis (215 km de Cuiabá). Ele foi contratado para participar da maior obra ferroviária no país.

"Tem gente de todo lugar do Brasil aqui", diz.

Trem de carga com locomotivas azul e verde atravessa ponte elevada sobre rio de águas barrentas. Vegetação densa e verde cobre as margens do rio sob céu parcialmente nublado.
Trem passa por ponte já construída de ferrovia da Rumo em Mato Grosso - Zanone Fraissat/Folhapress

O gerente da fábrica de dormente explica o funcionamento das máquinas com sotaque do Triângulo Mineiro. O chefe da segurança do trabalho, que morava em Santo André, no ABC paulista, pede cuidado com as faíscas da solda.

Eles são uma fração dos 5.000 trabalhadores envolvidos na primeira fase da Ferrovia Estadual do Mato Grosso, construída pela Rumo Logística. A obra vai colocar trilhos entre Rondonópolis e Lucas do Rio Verde, no norte do estado. O projeto é criar um corredor ferroviário para escoar a produção de grãos em Mato Grosso para a malha paulista da empresa e, dali, para o porto de Santos.

Das cerca de 150 milhões de toneladas de grãos exportadas pelo Brasil em 2024, por volta de 40% foram produzidas no estado.

O investimento total da ferrovia é estimado entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões e 100% do dinheiro será pago pela Rumo. A companhia acredita que o projeto deve gerar 145 mil novos empregos diretos e indiretos. Serão construídas 22 pontes, 21 viadutos e 2 quilômetros de túneis.

Com orçamento de R$ 5 bilhões, o primeiro trecho terá circulação de trens nos 211 km que separam Rondonópolis e Campo Verde. Desse total, 160 km vão entrar em operação em 2026. São cinco mil postos de trabalho gerados até o momento, o que representa 60% de todas as vagas disponíveis em Mato Grosso em obras de infraestrutura.

Para especialistas no tema, o Brasil dá passos para reverter uma tendência de desvalorização de ferrovias. Uma visão iniciada com o Plano Nacional de Viação no final da década de 1950. A prioridade passou a ser a instalação da indústria automobilística. Consequência do lema do presidente Washington Luiz (1926-1930), para quem governar era construir estradas.

"Era uma tentativa de condenar as ferrovias à extinção", afirma Aureo Pasqualeto Figueiredo, especialista em transporte ferroviário e diretor da Faculdade de Engenharia da Unisanta (Universidade Santa Cecília), em Santos, cidade que tem 100 km de trilhos para servir ao porto.

"A ideia no passado sempre foi de uma integração hidroviária e ferroviária. Não tem sentido um caminhão levar carga por 2.000 km. Ele é econômico em um percurso de até 500 km", completa.

O Brasil tem cerca de 31 mil km de ferrovias para transporte de cargas. A Associação Nacional de Transportes Ferroviários estima que quase a metade desse total está desativada, subutilizada ou não são economicamente sustentáveis.

De acordo com números da Fundação Dom Cabral, no ano passado, as ferrovias eram responsáveis por 27% do transporte de cargas no país.

Na Ferrovia Estadual do Mato Grosso, a base da obra está em Rondonópolis, cidade conhecida por ser um caldeirão de influências provocadas pelo fluxo migratório de Nordeste, Sul e Sudeste. No calor superior a 30 graus, os moradores de origem sulista buscam nos supermercados o tererê, a erva que se torna com água gelada, não quente, como o chimarrão.

É também onde está o principal terminal da Rumo, que recebe 1.600 caminhões por dia e movimenta 22 milhões de toneladas por ano.

O primeiro terminal construído por causa da nova estrutura será em Dom Aquino, na região de Campo Verde, com capacidade de movimentação anual de 10 milhões de toneladas.

"A fronteira agrícola em Mato Grosso cresce principalmente no norte do estado. O sul tem pouca área de ampliação", afirma Natália Marcassa, vice-presidente de regulação e sustentabilidade da Rumo Logística.

O interesse na obra é também pelo modelo, inédito no país. É a primeira autorização estadual para a construção de uma ferrovia. Não se trata de concessão por um determinado número de anos e que depois voltará a ser licitada. Toda infraestrutura é da Rumo, que será proprietária por cem anos.

"Se fosse uma concessão, o patrimônio seria do poder público e seria arrendado pelo prazo de contrato. A autorização de ferrovia é possível no ordenamento jurídico brasileiro a partir de 2022 com a nova lei de ferrovias. A gente teve muito desafio. O primeiro foi entender este novo modelo e lidar com o ente regulador estadual, que é menos estruturado do que o federal, que tem quase 30 anos", afirma Marcassa.

Há questões de licenciamentos a serem aprovados, de criar uma estrutura ainda inexistente e até tomar cuidado para não melindrar prefeitos das 16 cidades que serão cortadas pela nova ferrovia.

"É um modelo que serve de exemplo tanto para a Rumo quanto para outras empresas. A gente vê outras pedindo autorização. O pessoal da celulose...", finaliza a vice-presidente.

A Ferrovia Estadual do Mato Grosso será incorporada à malha de 13,5 mil km de trilhos da Rumo. São cerca de 1.200 locomotivas e 33 mil vagões em 10 terminais multimodais.

A construção poderá também desafogar o movimento no terminal de Rondonópolis, onde a fila de caminhões, no passado, fazia a Polícia Rodoviária telefonar para Weslley Ribeiro, gerente de operações da empresa. Era preciso fazer algo para desimpedir a rodovia vizinha. Hoje, os veículos pesados precisam esperar o chamado por meio de um aplicativo de celular quando estão a oito quilômetros de distância.

Próximo ao complexo está a Brado, companhia do grupo Cosan (assim como a Rumo), que faz transporte de contêineres. As três maiores indústrias de farelo do país estão em Rondonópolis: ADM, Bunge e Cofco.

A obra, quando finalizada, também vai servir na mudança de cenário que a Rumo vê no armazenamento e transporte de grãos. Ribeiro lembra que de janeiro a julho era a época da soja, depois substituída até dezembro pelo milho. Só que, em novembro deste ano, os trens da empresa continuam a transportar soja.

"Pode virar uma tendência", diz o gerente, lembrando que os trilhos de aço para transportá-la na nova ferrovia estão próximos de serem instalados.


Raio-X - Rumo Logística

Fundação: 2008
Controladora: Cosan
Funcionários: 9.244
Valor de mercado: R$ 29,4 bilhões
Receita líquida: R$ 13,9 bilhões (2024)
Principais concorrentes: Vale, VLI e MRS Logística

O repórter viajou a convite da Rumo Logística

Hierarcas de Brasília perderam horas de sono com prisão de ex-presidente do INSS, Elio Gaspari, FSP

 Com a prisão do ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, alguns hierarcas de Brasília perderam horas de sono.

A PF diz que o doutor recebia uma mesada de R$ 250 mil da quadrilha que roubava aposentados. Ele não seria o único felizardo a receber mimos. Nenhuma quadrilha paga R$ 250 mil mensais a uma só pessoa.

Homem de terno azul claro e óculos fala ao microfone em audiência pública. Fundo com painel geométrico cinza, público desfocado em primeiro plano.
O ex-presidente do INSS, Alessando Stefanutto, fala durante CPMI no Senado Federal - Gabriela Biló - 13.out.2025/Folhapress

Ken Burns fez mais uma

O documentarista americano Ken Burns, mago que recontou a história da Guerra Civil e da Guerra do Vietnã, pôs no ar sua história da Revolução Americana, que terminou com a criação dos Estados Unidos.

São seis episódios filmados em 169 lugares. Com 26 entrevistas, Burns recolheu 18 mil imagens e 1.900 mapas.

Ele começa colocando George Washington num pedestal mais modesto.

Em 4 de julho de 2026 a Declaração da Independência dos EUA completará 250 anos numa festa de grandiloquência trumpista. Dando voz a negros, índios e mulheres, Burns chegou antes, com mais equilíbrio.

Vitória dos democratas

Depois de Nova York, Seattle elegeu a ativista Katie Wilson, de 43 anos, prefeita da cidade.

Ela nunca havia disputado uma eleição.

Milei prometeu e cumpriu

O presidente argentino Javier Milei prometeu se afastar do Mercosul e cumpriu. Está detonando a instituição e aproximando-se dos Estados Unidos.

Nos anos 1990, durante o governo de Carlos Menem, a chancelaria argentina anunciou sua disposição de manter uma "relação carnal" com Washington.

Deu na ruína da dolarização.


Fracassos de Derrite provam que direita sabe muito menos sobre segurança pública do que diz, Celso Rocha de Barros, FSP

 Os fracassos de Guilherme Derrite (PP-SP) na semana passada provaram que o bolsonarismo sabe muito menos sobre segurança pública do que gosta de pensar que sabe. Foi feio de ver, mas foi educativo.

Quando Derrite tornou-se relator do projeto de lei Antifacções proposto pelo governo Lula, a direita lhe deu duas tarefas. A primeira era equiparar as quadrilhas de traficantes de drogas a terroristas, abrindo caminho para uma intervenção de Trump no Brasil. A segunda era manter o combate ao crime sob controle dos governadores.

Deu errado, e não tinha como dar certo.

Cinco homens vestidos com ternos escuros e gravatas caminham por corredor interno iluminado por luzes de teto quadradas. O homem central veste terno preto com gravata azul clara e expressão séria. Outros homens ao redor também usam ternos formais, um deles gesticula com a mão direita enquanto fala.
O deputado federal e secretário de segurança de SP, Guilherme Derrite, na Câmara dos Deputados - Pedro Ladeira - 12.nov.25/Folhapress

Se o PCC ou o Comando Vermelho fossem organizações terroristas, combatê-los seria competência exclusiva do governo federal. Quem combate a Al Qaeda nos Estados Unidos? Não é o governo do Alabama. É o governo federal, que pode agir em todo o território americano, realizar acordos de cooperação internacional e mobilizar recursos muito mais amplos que os dos governos estaduais.

Mas se Lula assumisse o comando do combate ao crime organizado, os governadores bolsonaristas não poderiam usar o tema como bandeira na eleição do ano que vem.

Afinal, como mostrei nas últimas duas colunas, Cláudio Castro provou que é possível ganhar popularidade com operações de baixíssima eficiência —só 20 dos 100 criminosos que a polícia procurava no Complexo do Alemão foram presos, nenhum foi morto— desde que morra bastante gente.

O PL Antifacção é necessário justamente porque os governos estaduais não têm como combater organizações criminosas que atuam em vários estados e fazem parte de redes internacionais de tráfico de armas e drogas. Um esforço de articulação nacional é inevitável.

Uma das instituições-chave para investigar essas grandes organizações seria, portanto, a Polícia Federal. Mas Derrite tentou castrar a PF, exigindo que ela só realizasse investigações nos estados com autorização dos seus governadores. A maioria dos governadores brasileiros, é bom lembrar, é de alguma variedade de centrão.

É inconstitucional, é estúpido, mas é, sobretudo, suspeito: limitar a atuação da PF só ajudaria governadores que ganham suborno do crime organizado, ou que pretendem cobrá-lo quando puderem vender para o PCC ou para o CV blindagem contra a PF.

Após uma sucessão de fracassos e mudanças de posição diárias, Derrite voltou atrás.

Fez bem, mas suas desventuras mostraram que o bolsonarismo chegou na discussão real, prática, completamente despreparado. Não é surpresa: a política de segurança do governo Bolsonaro foi liberar o uso de armas e deixar que cada um comprasse a sua para enfrentar o crime por conta própria. Foi parte da tendência, que tanto mal fez ao país durante a pandemia, de Jair sempre escolher a política pública em que ele não precisava fazer nada.

Para a esquerda, o vexame da direita em um assunto que parecia dominar pode ter sido um alívio. Mas para o país é ruim que o número de pessoas capazes de discutir segurança pública seja ainda menor do que se pensava.

Como se viu na semana passada, cada vez que Derrite desistia de uma ideia estúpida, o projeto ficava mais parecido com a proposta original do governo federal. O projeto de Lula é bom, mas é uma pena que não haja uma oposição com quadros qualificados o suficiente para melhorá-lo.