domingo, 16 de novembro de 2025

Inteligência artificial cria oportunidade de ouro para o populismo de esquerda, Alvaro Machado Dias, FSP

 Costumamos tratar as ideologias políticas como quem freia num cruzamento: esquerda ou direita. Mas, no cérebro e nos grupos, o mapa é outro. Lembra o voo de um avião. A altitude separa a liberdade econômica da igualdade. A longitude contrapõe tradição e diversidade.

O repúdio ao intervencionismo estatal costuma acompanhar o apreço pela tradição em boa parte dos países. Porém, essas associações são arbitrárias. A esquerda econômica é bastião do tradicionalismo em várias ex-repúblicas soviéticas, enquanto o fusionismo, uma forma de intervencionismo conservador, predomina no Kremlin e na Casa Branca.

Fachada do Palácio do Planalto

Nos últimos anos, virou consenso que a esquerda brasileira chegou a um beco sem saída, guiada pela ênfase na pauta identitária em um país conservador. O paralelo são os Estados Unidos, onde a reação enérgica dos republicanos rendeu-lhes vitórias acachapantes.

A tese se apoia em dados mostrando que falta apoio popular à visão dominante na FFLCH. Daí a conclusão: Lula seria o último representante de uma linha política em declínio. Creio que essa tese esteja inteiramente errada. O cenário oposto é muito mais provável. Se isso será bom ou ruim cabe a cada um julgar. Prefiro concentrar-me na modelagem de cenários.

Entre 1985 e 1995, políticas de austeridade fiscal se disseminaram pela América Latina. O resultado, além do ajuste das contas públicas, foi a onda rosa de 2003 a 2013: Lula, Kirchner, Chávez, Lagos, Gutiérrez, Mesa, Morales, Bachelet, Correa, Ortega, Lugo e Mujica. Cinco das seis eleições presidenciais deste século foram vencidas pela esquerda no Brasil, enquanto no subcontinente como um todo as vitórias da direita também seguiram o bolso do eleitor.

É claro que isso pode estar mudando, e a dimensão dos costumes estar ganhando importância excepcional, mas o cenário é improvável, posto que a independência sociocognitiva dos eixos faz com que o voto se oriente sobretudo pelo que mais pesa para o eleitor.

A população pobre do Nordeste é mais conservadora que a classe média catarinense, mas vota na esquerda por considerar o ativismo estatal mais relevante que a opinião do padre ou do pastor. Já nos Estados Unidos, as cidades têm fronteiras étnicas e a imigração é um tema candente, o que torna os temas da identidade muito mais relevantes.

É justamente aí que entra o fator determinante para a política da segunda metade da próxima década: a inteligência artificial. A tecnologia tende a ampliar desigualdades e, com ela, a importância da pauta econômica na América Latina. Até Peter Thiel, protagonista de meu Malvado Preferido, reconhece que a proletarização dos mais jovens fortalece o socialismo.

O discurso contra o domínio algorítmico tende a catalisar nacionalismo e aflição, em campanhas exaltando o ativismo estatal para gerar empregos e taxar o output das IAs. E quem terá mais chances de dominar essa pauta: a direita populista ou a esquerda populista?

Que mensagem vai ecoar mais entre os jovens sem estágio e os idosos com expectativa de vida alongada: a do empreendedorismo ou a renda básica universal em patamares capazes de sustentar até a classe média? Não se iluda com as planilhas que mostram a inviabilidade desse plano. Elas não são nada diante do desespero para encontrar uma tábua de salvação.


Vira-latas climáticos em tempos de COP30, Marcos de Vasconcellos, FSP

 Enquanto os líderes globais discutem culpados e caminhos para frear a marcha da extinção na COP30, um estudo me chamou mais atenção do que qualquer discurso noticiado: um paper divulgado pela Fundação Getulio Vargas mostrando como a nossa bioenergia tropical é frequentemente subestimada, para não dizer sistematicamente penalizada, pelas regras adotadas por países desenvolvidos.

A conclusão é desconcertante justamente porque é simples. Quando avaliamos o ciclo de vida completo de um veículo —da produção dos parafusos ao descarte no ferro-velho— os carros brasileiros abastecidos com etanol emitem menos gases de efeito estufa do que veículos elétricos e híbridos produzidos e usados na Europa, nos EUA ou na China, mas as métricas usadas pela ciência internacional criam vantagens artificiais para estes.

A imagem mostra uma linha de montagem em uma fábrica de automóveis. Vários carros em diferentes estágios de montagem estão alinhados, com trabalhadores realizando tarefas em cada veículo. O ambiente é industrial, com equipamentos e ferramentas visíveis ao redor. Há também estruturas metálicas e prateleiras com peças e componentes.
Fábrica da Toyota em Sorocaba (SP), que está em expansão no Brasil e projeta produção de modelos híbridos-flex nacionais - Bruno Santos - 18.mar.25/Folhapress

A metodologia da FGV faz a conta do "berço ao túmulo". No Brasil, o etanol vem majoritariamente de uma cadeia renovável e de alta eficiência, enquanto a matriz energética nacional (que alimenta as fábricas e tudo o mais) se apoia em hidrelétricas.

Na Europa, a produção de veículos depende muito de carvão e gás; nos EUA, o gás é dominante; na China, o carvão ainda dita o ritmo da produção. Quando se coloca tudo no mesmo denominador, incluindo o combustível usado pelo veículo e a vida útil da bateria, a vantagem tropical aparece.

Mas essa eficiência é normalmente descartada por órgãos internacionais, porque os parâmetros são definidos por realidades que não são as nossas. Entre outras coisas, recriminam o uso de etanol por suporem que a área de plantio poderia ser de floresta, sem imaginar os pastos recuperados com cana-de-açúcar, por exemplo, ou sistemas de segunda safra.

Pode parecer um detalhe técnico, reclamar da conta feita para analisar nossos carros. Mas, veja bem, o setor de transporte é justamente o principal entrave para a descarbonização da economia brasileira, segundo a avaliação internacional da Climate Strategies. Eles apontam que o país não tem alternativa econômica para substituir o diesel em caminhões de longa distância.

Juntando os dois estudos, talvez tenhamos um bom caminho para encontrar nosso caminho na liderança do movimento climático, ainda que nossa opção por enterrar as ferrovias continue custando alto.

A conta para cumprir metas realistas de transição energética é cara. Segundo a Moody’s, o Brasil precisará investir até 2% do PIB (Produto Interno Bruto) por ano para chegar onde pretende em 2030. É um valor que obriga escolhas: onde investir, quando, e com qual retorno climático?

Seguir modelos importados, sem considerar nossas vantagens naturais e tecnológicas, pode ser a forma mais cara, e mais lenta, de descarbonizar.

Queremos liderar a transição energética global, mas acabamos de autorizar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, para abastecer as cadeias globais. Comentei em outro texto: é difícil ocupar o centro do debate climático quando o país-sede ainda resolve suas próprias ambivalências energéticas.

Nelson Rodrigues dizia que sofremos de "complexo de vira-lata", a sensação permanente de que só é bom aquilo que vem de fora. Talvez o primeiro passo para avançar seja justamente abandonar o vira-latismo climático e exigir que o mundo nos meça pelo que realmente entregamos.