domingo, 16 de novembro de 2025

O futuro sustentável sonhado pelo arquiteto chinês que morreu no Pantanal, Eliane Trindade- FSP

 

Pequim (China) e São Paulo

Ele vestia uma camisa vermelha e calça cáqui, o mesmo estilo descontraído com o qual aparece em seus últimos registros com vida no Pantanal, a maior planície alagada do mundo.

"Estou ansioso para retornar ao Brasil e finalmente visitar o Pantanal, um verdadeiro território-esponja", disse o professor Kongjian Yu, então diretor da Escola de Arquitetura e Paisagismo da Universidade de Pequim, ao se despedir da equipe do documentário "Smart Cities – as Cidades do Futuro", em 28 de junho.

Ele reservara a tarde de sábado para a entrevista para o longo documental brasileiro, uma coprodução da DNS Play Cinema e do Canal Azul, com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026.

Homem asiático veste camisa vermelha e sorri para a câmera. Ao fundo, estante com livros e objetos, além de planta à esquerda.
O arquiteto chinês Kongjian Yu durante entrevista para o documentário "Smart Cities - As Cidades do Futuro", em Pequim, três meses antes de morrer em acidente aéreo no Pantanal - Fábio Berringer/Divulgação

Acompanharam a entrevista conduzida por mim, como roteirista do documentário, o diretor Fábio Berringer, o produtor local, Filipe Porto, jornalista brasileiro radicado em Pequim, e o cinegrafista chinês Zhang QinZheng.

Referência mundial por ter criado o conceito de cidade-esponja, o professor se mostrou acessível desde o primeiro contato por email. Sem traço de estrelismo, ele encarou com um sorriso no rosto as filmagens na sede da Turenscape, seu escritório localizado no parque científico do campus.

Discorreu por mais de uma hora sobre como tornar as cidades e o planeta mais resilientes às intempéries climáticas. Pediu para regravar algumas passagens durante o papo em inglês para tornar mais compreensível seu pensamento.

Ao final do encontro, passeou com a equipe pelos corredores da Turenscape, enfeitados por fotos de alguns dos mais emblemáticos projetos urbanísticos e paisagísticos entre os mil que levam sua assinatura em 250 cidades na China e no exterior.

Didaticamente, ele foi mostrando os conceitos na prática. Com entusiasmo, relatou que estava se preparando para retornar ao Brasil em setembro para participar da Bienal de Arquitetura em São Paulo.

A ida ao Pantanal fazia parte de documentário que estava rodando pelo mundo. Sonho que findou em um acidente aéreo em 23 de setembro, numa tentativa de pouso ao anoitecer em uma fazenda em Aquidauana, no Mato Grosso do Sul.

Dois homens estão em um corredor branco com piso brilhante. Um deles veste camisa vermelha e calça bege, gesticulando enquanto fala. O outro usa camiseta preta e calça bege, ouvindo atentamente. Na parede à direita, há quadros alinhados refletindo a imagem do homem de camisa vermelha.
O arquiteto Kongjian Yu com o brasileiro Fábio Berringer, diretor do documentário "Smart Cities", no Turenscape, escritório do professor em Pequim - Filipe Porto/Divulgação

A morte trágica do renomado arquiteto chinês aos 62 anos tira de cena um pensador que pregava a integração cidade e natureza e a união entre os saberes acadêmico e ancestral. Um arquiteto nascido em um vilarejo da China que aprendeu, ao sabor das monções, a respeitar a força das águas.

Aprendizado transposto para pranchetas e maquetes que incorporam seu mantra "a água não é inimiga", ao propor intervenções baseadas na natureza para evitar os impactos de enchentes de dimensões diluvianas como as que devastaram o Rio Grande do Sul, em 2024.

Quis o destino que a sua morte prematura ocorresse em um território que funciona como uma esponja natural, com alternância de cheias e secas. Um sistema próprio de regulação hídrica, a exemplo dos desenhados pelo professor.

Entre seus cartões de visita estão os jardins flutuantes ao longo do rio Yongning em Taizhou, na China, e o parque florestal Benjakitti, na Tailândia.

Como o senhor resume o conceito de cidade-esponja? É uma solução baseada na natureza para resolver problemas de inundações e secas urbanas, ao criar cidades resilientes. É uma solução holística, que usa a paisagem natural para reter a água, desacelerando seu fluxo. A chave de uma cidade-esponja é a oposição à infraestrutura cinza convencional, construída sobre um sistema de tubulações de concreto e de drenagem.

Uma cidade-esponja abraça a água, que não é inimiga. É um conceito de como usar a natureza para resolver múltiplos problemas, particularmente aqueles relacionados ao clima.

Como aplicar esse conceito para prevenir e mitigar inundações como as do Rio Grande do Sul? Em países coloniais como o Brasil, copiamos a infraestrutura de cidades desenvolvidas de países europeus, onde o clima é bastante ameno e o padrão de precipitação distribuí-se de forma uniforme. No Brasil, é o oposto. Durante a estação chuvosa, a cidade recebe muita água em um período curto de tempo. Além do que, o país já não conta como antes com a vasta paisagem natural coberta de árvores e de grandes zonas úmidas, com rios e lagos. Com a agricultura mecanizada, limpa-se a vegetação, nivela-se o solo, lagos desaparecem. São quilômetros e quilômetros de fazendas de soja, trigo, milho, sem nenhum lugar para a água. Enquanto isso, criam-se sistemas de drenagem e barragens.

Em cidades como São Paulo não há espaço para reter água durante a temporada de tempestades fortes. Dessa forma, toda a água é despejada no rio e inunda a cidade. As barragens entram em colapso. Por isso, é urgente para o Brasil adotar esse conceito de cidade-esponja. Ou melhor, planeta-esponja. Não se trata apenas de área urbana, mas também da paisagem ao redor. É a fazenda-esponja, o litoral-esponja, a cidade-esponja.

É fundamental criar zonas úmidas e manchas de floresta como solução para reter o máximo possível de água. O que significa descanalizar, usar a própria natureza para fazer essa retenção.

Como nasce o conceito? Vem da cultura das monções. A ideia de cidade-esponja foi inspirada por esse fenômeno atmosférico típico do Sul e Sudeste asiático. Nasci em uma pequena vila na província de Zhejiang, onde há tempestades fortes, durante a estação das monções. Então, desde muito jovem aprendi como reter a água no período de inundações para reutilizá-la na estação seca. É um conhecimento ancestral sobre como lidar com a alternância de inundações e secas provocadas pelas monções, de forma a manter o equilíbrio hidrológico. E assim temos uma paisagem sustentável e uma bacia hidrográfica sustentável.

Uma cidade precisa dar espaço suficiente à natureza e criar infraestrutura baseada na água, que funcione como um sistema vivo. Assim teremos cidades que respiram, absorvem água e devolvem à natureza o que dela recebem

Kongjian Yu

arquiteto e urbanista chinês

Então, o futuro também é ancestral? Sim. Temos que olhar para o passado, para a experiência acumulada ao longo dos séculos. Estamos falando de milhares de anos de cooperação com a natureza, que nos mostram como criar uma paisagem resiliente. É por isso que esses conhecimentos ancestrais podem ser inspiração para tornar o nosso planeta mais resiliente diante das mudanças climática.

Na China, nos últimos 40 anos, construímos mais de 600 cidades muito rapidamente, mas esquecemos desse conhecimento ancestral para lidar com inundação. Construímos valas de concreto, sistemas de drenagem e de tubulação, seguindo o modelo europeu e americano. É por isso que 60% das cidades chinesas falham, sofrem com inundações hoje em dia, porque aquelas infraestruturas cinzas, feitas de concreto, tubos e bombas, não são resilientes. Agora o governo chinês passou a adotar a cidade-esponja como uma política nacional. O que significa que cada cidade deve criar áreas úmidas para coletar e reciclar água das chuvas e recarregar o aquífero.

Uma cidade precisa dar espaço suficiente à natureza e criar infraestrutura baseada na água, que funcione como um sistema vivo. Assim teremos cidades que respiram, absorvem água e devolvem à natureza o que dela recebem.

Por que as chamadas cidades inteligentes são associadas somente à tecnologia? No sentido estrito, cidade inteligente é dependente de big data e IA, mas a natureza é igualmente inteligente. Em milhões de anos de evolução, a natureza cria soluções inteligentes. Cidade-esponja é um desses tipos de inteligência. Aliás, o conhecimento baseado na natureza e a tradição indígenas, por exemplo, também podem ser integrados à tecnologia moderna como IA. Você pode criar uma cidade muito inteligente baseada em conhecimento indígena para identificar onde ela é mais vulnerável a inundações, por exemplo.

Sistemas inteligentes não precisam ser de alta tecnologia. Em muitos casos, tecnologias industriais não são necessariamente inteligentes. Hoje as cidades são muito lógicas, mas os sistemas elétricos, de drenagem e de transporte dependem de tecnologias muito sensíveis e que podem falhar.

Estamos falando mais de uma cidade sábia do que de uma cidade inteligente? Concordo. De combinar progresso tecnológico e sabedoria ancestral. A natureza é muito mais sábia do que qualquer um dos nossos sistemas projetados. Cidade é o lugar onde as pessoas ganham a vida, produzem para sobreviver. Por isso, temos que criar um sistema natural sustentável. A água deve ser limpa. É preciso ter biodiversidade, ar fresco, paisagens bonitas. Tudo isso melhora o convívio social. Cuidar do ambiente na cidade deve ser parte da vida das pessoas. Se você entender que a natureza é uma infraestrutura, aprenderá a conviver com ela e fazer um uso sábio do que ela nos oferece.

O professor Kongjian Yu concedeu entrevista a Eliane Trindade, editora da Folha Social+ e roteirista do documentário "Smart Cities - As Cidades do Futuro", em seu escritório na universidade de Pequim - Filipe Porto/Divulgação

Como imagina que serão as cidades em 2050? Cidade significa civilização. Então daqui a 20 ou 50 anos, eu imagino que teremos outro tipo de civilização. Vivemos nessa que chamamos de civilização industrial, com cidades baseadas em grande infraestrutura e sistemas mecânicos e elétricos. Em nome de industrialização e urbanização, nós praticamente destruímos o planeta inteiro. Cerca de 80% das zonas úmidas desapareceram. Destruímos as florestas. Nossas cidades se tornaram mais secas, quentes e poluídas. E o nível do mar está subindo.

Estamos agora entrando em outro tipo de civilização que, na China, chamamos de civilização ecológica. Ao combinarmos natureza, infraestrutura e inteligência artificial como um sistema, criaremos outro tipo de cidade mais sustentável, habitável e eficiente. Por exemplo, com mais carros autônomos andando sem motoristas nas ruas poderemos abrir maiores espaço para o verde e para a água porque não vamos precisar de tantos estacionamentos.

A cidade do futuro será baseada na natureza. Ao contrário do que fizemos nos últimos 300 anos, quando poluímos a maioria dos rios e solos. A cidade do futuro é simplesmente uma versão atualizada da civilização agrícola e da civilização industrial, integrada à inteligência artificial. Então, será mais eficiente e ecologicamente saudável.

Nas cidades do futuro, a natureza pode fornecer alimentos, ar fresco, água limpa. Será possível cultivar frutas na rua, recolher a água do telhado, ter tanques de peixes em jardins comunitários. Tudo será mais inteligente com o ser humano como parte desse sistema natural.

Como seu trabalho pode contribuir para esse futuro? Criando ecossistemas mais saudáveis, usando menos energia. Como designer e planejador de cidades-esponjas, posso remover concreto desnecessário ao longo dos cursos d'água, restaurar habitats naturais e usar a natureza para reciclar e reter água. Em todos os meus projetos, uso a água para criar ambientes mais produtivos e biodiversos. Criar cidades mais resilientes é criar cidades mais frescas e certamente mais bonitas.

A ideia de planeta-esponja é de cura. E nesse processo, a água é chave. Como se pode consertar o planeta? Fazendo uso inteligente da água para tornar as cidades e as paisagens mais porosas. Essa é minha visão do futuro: restaurar e curar nosso planeta tão degradado, entendendo que se pode transformar a superfície global abraçando a água. E, certamente, estou confiante porque construímos mil projetos nos últimos 30 anos. Sabemos que funciona.


Roberto Giannetti da Fonseca - O médico e o economista, FSP

  

Roberto Giannetti da Fonseca

Economista e empresário, é presidente da Kaduna Consultoria; foi secretário-executivo da Camex (governo FHC, 2000-02) e diretor titular de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp (2004-13)

É bem provável que muitos dos leitores tenham lido nos últimos dias artigos sobre a elevada taxa de juros que prevalece na economia brasileira.

De fato, ano após ano, a alta taxa de juros praticada no Brasil atua assim como uma doença crônica, que persiste em inibir novos investimentos produtivos, tanto na expansão da capacidade instalada como na inovação tecnológica e na elevação da produtividade. Como resultado, temos observado nas últimas décadas um desempenho econômico medíocre. Não creio que seja necessário repetir aos atentos leitores toda a ladainha da teoria econômica já amplamente divulgada —de que a alta taxa de juros reduz a demanda agregada, que por sua vez impacta na redução dos preços de bens e serviços, e assim resulta na gradual queda da inflação.

Homem de terno escuro e gravata listrada olha para o lado esquerdo. Ao fundo, tela digital desfocada com padrões abstratos em tons de azul e branco.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo - Danilo Verpa - 10.out.2025/Folhapress

Combater a inflação deve ser sem dúvida uma "clausula pétrea" e também permanente em nossa agenda econômica. Isto não se discute. Mas cabe discutir, sim, quais ferramentas podem e devem ser utilizadas para haver melhor eficácia nesta tarefa —e principalmente como poderíamos mitigar os custos colaterais associados ao combate à inflação.

A taxa de juros é apenas uma das inúmeras "ferramentas" que podemos usar para atingir o mesmo objetivo. E talvez, entre outras, seja a mais dolorosa, a mais nociva, para nos livrar do risco da escalada dos preços.

tese da política monetária ortodoxa é inequívoca como princípio, assim como na medicina: ao se detectar um paciente com um foco de infecção, o antibiótico é o remédio obvio. Mas o que pode causar alguma divergência tanto na economia como na medicina é a dosagem recomendada e o período de tratamento.

Novamente repito uma obviedade ao afirmar que uma dose excessiva tanto de juros como de antibiótico pode causar efeitos nocivos ao paciente. Dependendo da overdose e do organismo do paciente, os efeitos colaterais podem ser extremamente prejudiciais a sua saúde, causando um risco e um sacrifício excessivos para se atingir o resultado da cura desejada.

Se a dose for então prolongada, o remédio pode perder sua eficácia e se torna inútil após um determinado período. Portanto, a dosagem recomendada e o período de medicação sempre devem ser cuidadosamente observados, seja por economistas como por médicos responsáveis.

Mas, afinal, qual é causa da inflação? Se a causa, ou as causas, não forem devidamente debeladas, seus efeitos irão ressurgir e o tratamento terá que ser renovado, causando nova depressão econômica e orgânica. Nas últimas décadas, a elevação cíclica da taxa de juros Selic nos leva a crer que o "foco infeccioso" permanece ativo e que precisa urgentemente ser eliminado.

Neste caso, o tratamento necessário para eliminar de vez o "foco infeccioso" seria não mais um tratamento paliativo, mas um tratamento definitivo de choque, como uma intervenção cirúrgica.

No caso da economia brasileira, a cirurgia se traduz numa politica fiscal que reduza gastos públicos na proporção necessária para gerar um superávit primário no Orçamento federal, já que o espaço para aumento da receita tributária encontra-se bastante limitado. Não há outro caminho possível —simples assim. Repetir os mesmos erros do passado esperando que os resultados sejam diferentes é um sinal de loucura, como afirmava o sábio Albert Einstein.

Concluo neste espaço indagando se o "paciente Brasil" quer de fato curado ser desta crônica doença ou, de forma irresponsável, aceita passivamente prolongar sua agonia econômica? A resposta a tal indagação poderia ser dada por qualquer um de nós brasileiros através do voto popular, pelo qual elegemos nossos governantes e representantes no Congresso Nacional.

Mas aí transparece um evidente paradoxo e um nítido conflito de interesses quando percebemos que, para novamente serem eleitos, muitos de nossos governantes e parlamentares não hesitam em promover uma verdadeira "farra fiscal" com novos e abusivos gastos públicos através de medidas populistas e aquelas famosas emendas secretas, agravando a saúde do "paciente Brasil".

Até quando resistiremos a tanta insensatez e irresponsabilidade por parte daqueles que comandam o nosso futuro? Muda, Brasil. Ou em breve estaremos todos infectados eternamente pela mediocridade degenerativa.