sexta-feira, 7 de abril de 2023

O QUE A FOLHA PENSA Contra o saneamento

 

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Esgoto a céu aberto na Favela da 10, em São Paulo (SP) - Marlene Bergamo/Folhapress

Assinados por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), os decretos que alteram o marco legal do saneamento básico em favor de empresas estatais ineficientes representam grave retrocesso para a política social.

Movido por preconceitos ideológicos e sensível aos interesses mesquinhos de políticos provincianos, o petista arrisca prolongar o vexatório atraso do país, que ainda nega a coleta de esgoto a cerca de 100 milhões de brasileiros.

Falta de saneamento é afronta aos direitos humanos com consequências dramáticas para a saúde pública, inclusive na primeira infância, o que contribui para a perpetuação de desigualdades sociais.

Os decretos de Lula modificam dispositivos essenciais da lei, aprovada em 2020 pelo Congresso após longo período de tramitação.

De mais relevante, foram reabertos os prazos e facilitadas as condições para que estatais que não provaram capacidade financeira para cumprir a meta de universalização da coleta de esgoto até 2033 possam agora fazê-lo.

Essas empresas terão até o fim deste ano para apresentar a documentação, que precisará ser avaliada pelo regulador até março de 2024. Nos casos em que o histórico for insuficiente, a interessada poderá propor uma remediação, com prazo de cinco anos.

Na prática, os contratos de serviço antes prejudicados —em 1.117 cidades, ou cerca de 20% do total— poderão ser regularizados com muito mais facilidade.

O prazo para a regionalização dos serviços, que venceu em 31 de março, foi prolongado para 2025. Enquanto isso, os municípios poderão receber recursos federais.

Outro aspecto que gera controvérsia é a permissão, antes inexistente, para que companhias estaduais prestem serviços sem licitação em microrregiões e regiões metropolitanas. A garantia de qualidade do serviço será menor, portanto.

Por fim, foi eliminado o limite de 25% para a celebração de parcerias público-privadas, o que em tese pode ter impacto positivo para atração de investimentos. Com o favorecimento a estatais ineficientes, contudo, a flexibilidade pode apenas garantir sua permanência, como intermediárias.

É mais que duvidosa, assim, a afirmação do ministro das Cidades, Jader Filho, de que as novas regras abrirão espaço para R$ 120 bilhões em investimentos. O mais provável é que os aportes ocorram em ritmo mais lento e desigual.

Ao menos permaneceu a liberdade para que governos estaduais privatizem suas companhias, como pretendem São Paulo e Minas Gerais. Outros, como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, já o fizeram, total ou parcialmente. Será possível verificar quem avançará mais rapidamente nos próximos anos.

editoiriais@grupofolha.com.br

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Lira diz que decreto de Lula sobre saneamento gera retrocessos e defende mudança da lei, FSP

 

BRASÍLIA

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), disse à Folha que os decretos assinados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para revisar o marco do saneamento geram retrocessos e afirmou que as mudanças necessárias para o setor precisam ser feitas pelo Legislativo para alterar a legislação.

"Eu defendo a revisão da lei. A lei deixou muitas brechas para abusos nos estados. E o decreto traz retrocessos que precisam ser avaliados", declarou o presidente da Câmara.

Integrantes do Palácio do Planalto e do Ministério das Cidades têm se posicionado contra mudanças na lei do novo marco legal do saneamento. Em vez disso, defendem que os decretos, que regulamentam o setor (sem precisar de alterar a lei), são suficientes.

Em relação aos decretos de Lula, Lira criticou, por exemplo, a brecha para que companhias estaduais prestem serviços sem licitação e também a flexibilização das regras para estatais que ainda não conseguiram comprovar capacidade técnica e financeira para realizar investimentos.

Lula, Lira e Pacheco na diplomação do petista
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao lado dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) - Evaristo Sá/AFP

A possibilidade de o Congresso votar uma proposta para derrubar os decretos de Lula ainda não foi discutida. "Precisamos avaliar", disse o presidente da Câmara.

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Questionado sobre quando pretende pautar o projeto para alterar a lei do saneamento, Lira respondeu: "Muita rapidamente. A gente vai analisar agora o decreto. Tem um pessoal trabalhando [com isso] na frente parlamentar [da área de saneamento] e essas imperfeições precisam ser corrigidas na lei".

"Tem algumas coisas na lei que a gente precisa aperfeiçoar. A gente [o Congresso] quando fez [o marco legal do saneamento em 2020] colocou os estados como principais condutores de um processo, para evitar uma condução por 5.500 municípios, mas isso, ao final, está dando problema, porque em todos os estados têm municípios a favor e contra ficar sob a mesma gerência. Então isso a gente tem que resolver", afirmou o presidente da Câmara.

Em 15 de março, Lira já havia defendido o aprimoramento da lei do saneamento, quando participou do lançamento da agenda legislativa dos operadores privados de saneamento 2023, realizada no Salão Nobre da Câmara dos Deputados.

Nesta quinta-feira (6), após a assinatura dos decretos do presidente Lula sobre o tema, Lira voltou a defender a necessidade de um projeto de lei.

O marco legal do saneamento, sancionado em 2020, definiu 2033 como meta para a sua universalização —ou seja, fornecer água para 99% da população e coleta e tratamento de esgoto para 90%.

Um dos principais pontos da lei foi barrar novos contratos de programa (firmados diretamente entre municípios e companhias estaduais de água e esgoto, sem licitação). Mas ainda há prazos para os que já estavam em vigor.

Em cerimônia no Palácio do Planalto, Lula assinou dois decretos de revisão da legislação para o setor nesta quarta-feira (5).

Haddad diz que vai escancarar bilionários que 'mamam no Orçamento público', FSP

 

BRASÍLIA

O ministro Fernando Haddad (Fazenda) disse nesta quinta-feira (6) considerar o sistema tributário brasileiro "muito injusto" e que o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pretende corrigir distorções taxando grandes empresas para reduzir privilégios de superricos que estão "mamando no Orçamento público".

"Eu, como cidadão, considero muito injusto nosso sistema tributário. Não acho justo fazer recair ajuste [fiscal] sobre quem está precisando de um empurrão para subir na vida, para crescer e para se desenvolver. E manter essas tetas abertas pelo Orçamento, sem transparência", disse.

"A minha vontade é listar o que está acontecendo. Para onde está indo o dinheiro público? Quando o cidadão souber o que está acontecendo, ele vai se indignar. ‘O meu salário não sobe para esse bilionário continuar mamando no Orçamento público?’", acrescentou. "Vamos escancarar isso para o país tomar uma decisão sobre o que ele quer ser."

Ministro Fernando Haddad (Fazenda) na saída da sede da pasta em Brasília - Ueslei Marcelino - 3.abr.23/Reuters

O ministro vem defendendo que é preciso cobrar impostos de quem não paga e quer restringir empresas que contam com benefícios fiscais concedidos por estados via ICMS de abaterem IRPJ e CSLL, dois tributos federais, ao fechar brechas legais para essa opção quando a atividade é de custeio (permitindo apenas para investimentos).

Segundo estimativa da Fazenda, o Estado brasileiro subvenciona custeio de empresas no patamar de R$ 88 bilhões. De acordo com o ministro, o governo avalia tributar cerca de 500 companhias de grande porte que se encaixam nessas condições.

"Não estamos falando da pequena empresa, da média empresa, não estamos falando sequer da grande empresa. Estamos falando de enormes empresas", enfatizou Haddad.

"De 400 a 500 empresas com superlucros, que, por expedientes, na minha opinião, ilegítimos, fizeram constar no sistema tributário, que é indefensável, como subvencionar o custeio de uma empresa que está tendo lucro. Se uma empresa está tendo lucro, por que o governo vai entrar com dinheiro subvencionando essa empresa?" afirmou.

O titular da Fazenda também comentou que o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, fez um cálculo que mostra que o país deixa de arrecadar cerca de R$ 300 bilhões com distorções tributárias.

"Ele [Roberto Campos Neto] próprio fez exercício no Banco Central sobre o rol de barbaridades do nosso sistema tributário, que está beneficiando quem não precisa, ele chegou à conta de R$ 300 bilhões", disse.

Haddad afirmou ainda que a última palavra cabe ao Congresso Nacional. "Se ele [Congresso] não quiser fazer com que as empresas bilionárias paguem um pouco a mais [de imposto] do que pagam hoje, porque pagam muito pouco, ele vai ter que olhar para o outro lado e cortar na carne de quem não tem, de quem está no osso."