quinta-feira, 25 de novembro de 2021

FLÁVIO CONRADO, GABRIELLA MORENA E BOB LUIZ BOTELHO Por que precisamos banir as 'terapias de reversão sexual', FSP

 

Flávio Conrado

Doutor em antropologia cultural pela UFRJ, é ativista de direitos humanos e um dos coordenadores do Evangélicxs pela Diversidade

Gabriella Morena

Psicóloga e especialista em clínica sistêmica de famílias e casais, coordena o projeto Psis pela Diversidade, que presta apoio em saúde mental à população LGBTQIA+

Bob Luiz Botelho

Geógrafo e reverendo na Igreja Antiga das Américas, é membro da Fraternidade Teológica Latino-Americana e coordenador executivo do Evangélicxs pela Diversidade

O documentário "Pray Away" (Netflix), abordado em reportagem nesta Folha ("Ex-ex-gays abalam movimento pró-’cura gay’ nos EUA, mas braço brasileiro segue forte", 4/9), revela uma realidade que gostaríamos que já estivesse superada no Brasil.

Através de depoimentos de ex-líderes do movimento Exodus International, principal ministério de promoção de "cura gay" dos EUA por quase 40 anos e com presença em 17 países, a produção relata um dos episódios mais nefastos para pessoas LGBTQIA+ naquele país: cerca de 700 mil pessoas experimentaram alguma forma de "terapia de reversão sexual" através de iniciativas religiosas. No documentário tomamos conhecimento de uma organização que transmitiu formas de perceber e lidar com a sexualidade que ainda são vigentes e replicadas em diversas partes do mundo.

A missionaria Adriana Carla, que passou por "terapias de reversão sexual" - Leo Caldas - 22.ago.21/Folhapress

Aqui, na atuação de ministérios como Exodus Brasil, entre outros, pode-se ver como o tema das "terapias de reversão" está longe de ter sido equacionado pela resolução 01/99, do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que já completou 20 anos de vigência. Esta determina que não cabe a profissionais da psicologia o oferecimento de qualquer tipo de prática de reversão sexual, uma vez que a homossexualidade não é considerada patologia, doença ou desvio. No entanto, psicólogos defensores de tais "terapias", especialmente do meio evangélico, contestaram a resolução na Justiça. Em abril de 2020, o Supremo Tribunal Federal decidiu manter a normativa e a competência do CFP para orientar seus profissionais.

Esses psicólogos "reversionistas" representam bem o modo como grupos evangélicos têm lidado com o tema da diversidade sexual e de gênero em suas comunidades. Indicam apenas a ponta do iceberg de uma realidade que permanece submersa na experiência da maioria das pessoas LGBTQIA+ evangélicas e de suas famílias.

Se é verdade que a psicologia no Brasil tem feito esforços para se alinhar a investigações científicas sobre sexualidade e orientação sexual e orientar seus profissionais a respeito, também chegam a nós pessoas LGBTQIA+ que narram experiências de tentativas de "reversão sexual" vividas em suas igrejas, com psicólogos envolvidos nesse processo.

Centenas de igrejas, ministérios e comunidades "terapêuticas" em todo o país continuam usando a prerrogativa de sua liberdade religiosa para ofertar a possibilidade de mudança da sexualidade. Sem base científica e comprovadamente ineficaz, ela causa danos muitas vezes irreparáveis à saúde mental de pessoas LGBTQIA+ o recorrerem ao apoio de suas lideranças religiosas por imaginarem sua sexualidade ou gênero errado ou desordenado.

Profissionais "reversionistas" defendem que "uma pessoa homossexual infeliz com sua sexualidade tem o direito de procurar ajuda", mas este suposto acolhimento guarda, na verdade, uma perniciosa armadilha: quem procura apoio está assolado por dúvidas sobre si, sobre sua fé e com medo de rompimentos na família e na comunidade religiosa. O discurso de ajuda pode soar esperançoso, mas é extremamente violento. Por que tais profissionais não questionam a estrutura de exclusão a que pessoas LGBTQIA+ estão submetidas, contexto onde emerge sua sensação de inadequação, angústia e pedido de mudança?

Não é por acaso que países como EUA, Canadá, Alemanha, Portugal, México e Chile, para citar alguns, vêm discutindo e tomando decisões pelo banimento total dessas práticas, inclusive por parte de grupos religiosos. A própria ONU tem alertado sobre a interferência na integridade pessoal e autonomia de pessoas LGBTQIA+, sendo o modelo essencialmente discriminatório e violador dos direitos humanos.

Cabe-nos perguntar se continuaremos sendo negligentes especialmente com a vida de nossos adolescentes e jovens, que em sofrimento recorrem a suas lideranças religiosas. Estas, assumindo o discurso da "cura", os encaminham a práticas de reversão sexual, provocando ainda mais sofrimento.
Urge uma ação conjunta do Estado, da comunidade científica, da sociedade civil e das lideranças religiosas conscientes desse mal para combater tais práticas até que deixem completamente de existir.

Ruy Castro O empazuellamento do Brasil, FSP

 


Eduardo Pazuello, lembra-se? Ex-general do Exército na ativa e ex-ministro porcino da Saúde. Aquele que foi sem nunca ter sido. Já passou à história do Brasil. O futuro falará dele como símbolo da redução do Estado a um rebanho de invertebrados a mando de Jair Bolsonaro. Sua imortal frase "Um manda, outro obedece", dita para 200 milhões de brasileiros, não ficará apenas como expressão de uma pusilanimidade bovina, mas porque pode ter contribuído para a devastação de vidas pela Covid, já que avalizava a quebra de um contrato de compra de vacinas, ordenada por quem o tangia.

Mas é injusto concentrar o empazuellamento em Pazuello. Afinal, ele nunca foi o único pazuello do pedaço, e talvez nem o primeiro. Está em curso um processo de pazuellização em todas as instituições nacionais, com ênfase nas que garantem a imunidade de Bolsonaro e cáfila.

O futuro ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, por exemplo, cuja sabatina no Senado está agora por dias, será mais um pazuello no STF. Irá somar-se a Kássio Nunes Marques, que Bolsonaro classificou como "10% dele [Bolsonaro] no Supremo", e a outros que às vezes se juntam a Kássio em pazuellagens pontuais. Uma delas, a que trava o julgamento das rachadinhas de Flávio Bolsonaro e permite ao STJ empazuellar-se de braçada, dando a Flávio sucessivas vitórias. O empazuellamento final será a extinção desse caso.

E a CPI da Covid temia que, depois de meses levantando os crimes contra a vida praticados pelo governo durante a epidemia, tivesse seu relatório posto para dormir pelo procurador-geral da República, Augusto Aras. Pois não há mais o que temer. O relatório já ronca no berço esplêndido da empazuellada PGR.

Mas o grande empazuellamento, não por acaso, é o do Exército. Não importa quão cheios de vento, seus generais foram reduzidos a pazuellos por Bolsonaro, e isso também entrará para a história.