quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Dois presidentes e um mesmo discurso sobre a mídia, FSP

Sarney e Bolsonaro ouviram um galo cantar e o localizaram cada um em um lugar, mas erraram

No tempo em que televisores e antenas eram muito caros, o povoado Curtume, em Alagoas, montou sua “pracinha da TV”, onde as pessoas se reuniam diante do único aparelho da área. A sabedoria popular acabou por rebatizá-la de “praça da discórdia”, tamanho o desacordo sobre que canal assistir.
Corta para 2018, e o assunto em Curtume mostra como a tecnologia soterrou motivos para tal desavença. É com orgulho que se fala que numa capela da região, meses atrás, casou-se “o Whindersson” —um dos  principais youtubers do país.
O Brasil de José Sarney é o da Curtume antiga. Dizia na década passada o então presidente do Senado: 
“A tecnologia levou os instrumentos de comunicação a tal nível que a discussão é: quem representa o povo? Diz a mídia: somos nós. Dizemos nós representantes do povo: somos nós. A mídia passou a ser inimiga das instituições representativas”.
O Brasil de Jair Bolsonaro é o da Curtume de 2018. Disse nesta semana o presidente eleito: “O poder popular não precisa mais de intermediação. As novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes”. 
Os dois ouviram um galo cantar e o localizaram cada um em um lugar —ambos errados. A evolução tecnológica mudou muita coisa, mas a relação disso com o poder democrático difere da expressada por eles.
Não é papel da mídia, tampouco da sua vertente jornalística, substituir a representação parlamentar ou funcionar como garoto-de-recados entre o eleitor e seus representantes. Num imenso erro de compreensão, o novo presidente parece crer que solapa o jornalismo ao tuitar o nome de ministros e fazer lives.
A possibilidade de defender causas nas redes sociais traz avanço para a democracia. Mas isso não faz do país uma imensa ágora virtual. De comum entre o discurso dos dois presidentes em décadas diferentes, só a necessidade conjuntural de arrumar uma cortina de fumaça para os problemas apontados pela mídia.
 
Roberto Dias
Secretário de Redação da Folha.

O QUE A FOLHA PENSA Viagens na metrópole, FSP

Uso de transporte sobre trilhos cresce, mas há muito a avançar na mobilidade urbana na Grande SP

Passageiros na linha 3-vermelha, do metrô
Passageiros na linha 3-vermelha, do metrô - Eduardo Anizelli/Cotidiano
A principal mudança na utilização de transportes públicos na Grande São Paulo entre os anos de 2007 e 2017 foi o aumento da participação dos meios sobre trilhos. É o que mostra a pesquisa Origem Destino do Metrô, o mais expressivo retrato da mobilidade na região.
Realizado a cada dez anos, o levantamento serve como referência para a implementação de políticas públicas e reúne dados úteis para o investimento do setor privado, seja em transporte ou mesmo em projetos imobiliários. 
Juntas, as redes de trens da CPTM e do Metrô respondiam em 2007 por 7,9% das viagens. No ano passado, a fatia cresceu para 11,3%. No mesmo interregno, o ônibus perdeu espaço —sua participação caiu de 23,7% para 20,7%.
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Esses veículos seguem como principal meio de transporte público, com 8,6 milhões de viagens por dia, ante 3,4 milhões por metrô. Os automóveis, por sua vez, permanecem com a maior parcela dos deslocamentos —os mesmos 27,3% do levantamento anterior.
Inexistentes em 2007, os aplicativos de transporte individual aparecem pela primeira vez na pesquisa e já representam o triplo das corridas de táxi —362 mil contra 113 mil. Somados, táxis e aplicativos fazem 1,2% das viagens diárias.
São informações relevantes num contexto em que empresas do setor não revelam a quantidade de deslocamentos e de motoristas cadastrados, e a própria prefeitura tem acesso limitado aos dados.
Note-se que o uso dos aplicativos é certamente mais difundido, uma vez que as viagens para acessar estações de metrô, trens e ônibus não foram computadas. Segundo as companhias, elas representam fatia majoritária do total, o que soa bastante plausível.
A expansão das linhas do metrô local, que passaram de 61 km para 90 km nos dez anos que separam as duas sondagens mais recentes, foi fator decisivo para o aumento da quantidade de viagens sobre trilhos, bem como as ligações que se estabeleceram com outros modais, como ônibus e trens. 
Lamentavelmente, os progressos nessa área ficaram aquém das promessas de sucessivos governos paulistas que projetavam para o ano passado 60 km a mais do que de fato se implantou.
Embora o sistema como um todo tenha se tornado mais amplo, racional e eficiente, ainda há muito a avançar na mobilidade urbana na Grande São Paulo. Estender a rede de metrô, progredir no planejamento de modernos corredores de ônibus e reforçar a integração entre os modais são objetivos que precisam ser perseguidos.