terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Expectativas ‘fatiadas’, Cida Damasco ,OESP

Vacilos de Bolsonaro expõem insegurança sobre Previdência mais adequada ao País

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo
10 Dezembro 2018 | 05h00
A semana terminou com uma “nova” reforma da Previdência. Fatiada, inicialmente restrita à fixação da idade mínima e talvez escorada na proposta de Temer. Aquela proposta execrada por Onyx Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil e até o momento formalmente responsável pela articulação política do governo Bolsonaro. Mais um capítulo da interminável série “O que fazer com a Previdência”, que tem no mínimo um “spoiler” por semana e um enredo em constante mutação. Sabe-se lá, portanto, qual será a reforma que vai vingar das conversas dos próximos dias. 
Não há sombra de dúvida que a reforma da Previdência é o objeto dos desejos dos mercados e do setor produtivo e foco dos planos de ajuste fiscal que circulam há bom tempo nos debates acadêmicos e políticos – e ganharam eco, inclusive, na campanha eleitoral. Mas, pelo número de vezes que o futuro presidente e seus assessores anunciaram os rumos da reforma e pelo número de vezes que eles recuaram nesses rumos, dá para imaginar que, na melhor das hipóteses, não há segurança no grupo de Bolsonaro sobre qual é a reforma mais adequada para as necessidades do País. Por mais adequada, entenda-se a mais eficiente para evitar o colapso das finanças públicas, a mais capacitada para ajudar a reduzir as desigualdades sociais e, por fim, a mais viável para emplacar no Congresso. 
Bolsonaro declarou na semana passada que a reforma começaria pela fixação de uma idade mínima “dois anos acima”, sem especificar de que base esse cálculo partiria – hoje não há idade mínima e, na proposta formatada no governo Temer e estacionada no Congresso, foram estabelecidos pisos de 65 e 62 anos, respectivamente para homens e mulheres. Essa parte, segundo Bolsonaro, teria condições de ser votada ainda no primeiro semestre de 2019. O restante ficaria para depois. O futuro presidente também não disse mais nada sobre o que está incluído nesse restante, mas é possível concluir que se refere, por exemplo, a mudanças importantes para equiparar os sistemas de aposentadoria dos servidores públicos com os dos trabalhadores do setor privado, outro ponto fundamental da reforma. 
Além disso, seria empurrado ainda mais para a frente o projeto sobre a introdução do regime de capitalização, para quem ingressar no mercado de trabalho. Preferido do ministro Paulo Guedes e inspirado no modelo chileno, esse regime prevê que cada trabalhador faça uma espécie de poupança, para bancar sua aposentadoria, diferentemente do regime de repartição, hoje em vigor, em que as contribuições de patrões e trabalhadores na ativa cobrem as aposentadorias dos mais velhos. De acordo com reportagem publicada na edição de sexta-feira do Estadão, estão sob avaliação três alternativas de reforma: a primeira do especialista Fabio Giambiagi, a segunda da dupla Arminio Fraga e Paulo Tafner (Ipea) e a terceira dos irmãos Arthur e Abraham Weintraub (Unifesp). E, no final das contas, pode sair uma quarta proposta, mistura das três anteriores. 
A quase confissão de Bolsonaro de que uma reforma da Previdência mais ampla não teria trânsito no Congresso decepcionou quem apostava que o novo presidente aproveitaria seu período de graça para levar adiante uma agenda mais ousada, com medidas amargas mas tidas como urgentes. Segundo cálculos de técnicos, a fixação da idade mínima permitiria um corte de gastos de R$ 20 bilhões em cinco anos, apenas um quarto do que seria obtido com mudanças mais abrangentes que constam da última versão da proposta de Temer. Por enquanto, os mercados têm se movido mais ao ritmo dos solavancos da economia internacional, mas nada garante que seja mantido o crédito à evolução da economia doméstica sob Bolsonaro, se os vacilos do presidente eleito se acentuarem. 
É fato que uma reforma da Previdência não deve ser imposta de cima para baixo, sem um debate. Mas esse debate tem de ser organizado em torno de uma proposta estruturada – o que, para muitos observadores, ainda deve demorar. É fato também que reformas da Previdência não se esgotam num único governo – portanto, na opinião de muitos analistas, melhor mesmo seria tocar agora alguma reforma, concentrada em mudanças essenciais, do que partir para algo mais radical, com pouquíssimas chances de completar seu trajeto no Congresso. 
Há, porém, um temor generalizado de que Bolsonaro e seu time não tenham mesmo opiniões convergentes sobre o tema e venham trazendo a público ideias conflitantes, em vez de primeiro amadurecer internamente as discussões. Mais ainda, há fortes dúvidas se, com essas idas e vindas, o resultado final será contornar ou se submeter antecipadamente às pressões que virão mais adiante.
*CIDA DAMASCO É JORNALISTA

Meirelles aceita convite de Doria e será secretário da Fazenda em SP, OESP


Indicado foi presidente do Banco Central na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministro da Fazenda de Michel Temer

Ricardo Grinbaum, O Estado de S.Paulo
11 Dezembro 2018 | 10h33
O governador eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), vai anunciar nesta terça-feira, 11, Henrique Meirelles (MDB) como secretário de Fazenda do Estado em seu governo. A informação foi antecipada pela coluna Direto da Fonte, do Estado.
Presidente do Banco Central na gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministro da Fazenda de Michel Temer, Meirelles  foi candidato à Presidência neste ano e obteve pouco mais de 1% dos votos válidos na disputa.
Henrique Meirelles, do MDB, participa de evento na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro
Henrique Meirelles, do MDB, participa de evento na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro Foto: Fabio Motta/ Estadão
Meirelles é o sexto ministro de Temer indicado para o secretariado de Doria. Além dele, serão nomeados Rossieli Soares, na Educação; Gilberto Kassab, na Casa Civil, e Sérgio Sá Leitão, na Cultura; Alexandre Baldy, para os Transportes Metropolitanos; e Vinícius Lummertz, para o Turismo.
Com a indicação de Meirelles, Doria fecha sua equipe de governo. Veja todos os nomes:
SECRETÁRIOS DE ESTADO
1. Governo – Rodrigo Garcia
2. Segurança Pública – General Campos
3. Energia, Saneamento e Recursos Hídricos – Marcos Penido
4. Justiça – Paulo Dimas Mascaretti
5. Pessoa com Deficiência – Célia Leão
6. Agricultura – Gustavo Diniz Junqueira
7. Saúde – José Henrique Germann
8. Cultura e Economia Criativa – Sérgio Sá Leitão
9. Educação – Rossieli Soares
10. Casa Civil – Gilberto Kassab
11. Transportes Metropolitanos – Alexandre Baldy
12. Logística e Transporte – João Octaviano
13. Desenvolvimento Regional – Marco Vinholi
14. Habitação – Flávio Amary
15. Desenvolvimento Social – Célia Parnes
16. Desenvolvimento Econômico – Patrícia Ellen
17. Turismo – Vinicius Lummertz
18. Administração Penitenciária (SAP) - Nivaldo Restivo
19. Esportes - Aildo Ferreira
20. Fazenda e Planejamento - Henrique Meirelles

SECRETÁRIOS EXTRAORDINÁRIOS (ESPECIAIS)
1. Comunicação – Cleber Mata
2. Relações Internacionais e Invest SP – Julio Serson
OUTROS CARGOS DA ADMINISTRAÇÃO
1. Procuradora – Geral do Estado – Lia Porto
2. Presidente do Fundo Social – Filipe Sabará
3. Presidente do Conselho do Fundo Social – Bia Doria
4. Chefe de Gabinete – Wilson Pedroso
5. Presidente da Sabesp – Benedito Braga
6. Presidente da CETESB – Patrícia Iglecias
7. Presidente do Memorial da América Latina – Jorgem Damião
8. Presidente da Desenvolve SP – Milton Santos
SEGURANÇA
MILITAR
1. Secretário Executivo da Polícia Militar – Coronel Alvaro Batista Camilo
2. Comandante Geral da Polícia Militar – Coronel Salles
CIVIL
1. Secretário Executivo da Polícia Civil – Yousseff Abou Chanin
2. Delegado Geral da Polícia Civil – Ruy Ferraz

Como o movimento dos 'coletes amarelos' juntou direita e esquerda contra Macron na França, BBC News Brasil

A onda de protestos do movimento chamado de "coletes amarelos" na França abriu uma crise e levou às ruas tanto esquerda quanto direita contra o presidente, Emmanuel Macron.
No sábado, as manifestações mais uma vez terminaram em confronto com a polícia - até esta terça-feira, segundo o governo, quatro pessoas haviam morrido nos protestos e outras centenas ficaram feridas, incluindo dezenas de policiais.
O diálogo entre governo e manifestantes de um grupo heterogêneo sem organização, sem representantes oficiais e com uma lista hibrída de reivindicações é visto por muitos como impossível. A diversidade das exigências, ao mesmo tempo, reflete como quase todo o espectro político, da extrema-esquerda à extrema-direita, tenta tirar proveito da mobilização.
Lançado no início de novembro para protestar contra o aumento dos impostos sobre combustíveis, o movimento de contestação foi rapidamente ampliado a outras reivindicações ligadas ao poder aquisitivo, como o aumento do salário mínimo, e inúmeras outras exigências, incluindo até a renúncia de Macron.
A reunião que deveria ocorrer nesta terça-feira entre o primeiro-ministro, Édouard Philippe, e um grupo de "coletes amarelos" foi cancelada porque apenas um membro da delegação de manifestantes compareceria ao encontro, com o único objetivo de pedir a demissão do premiê.
Os demais haviam cancelado a presença alegando sofrer ameaças de morte nas redes sociais.
Essa é a segunda tentativa frustrada de conversa com o governo. Na semana passada, ocorreu algo semelhante: dos oito "coletes amarelos" convidados, apenas dois compareceram ao encontro com Philippe, que durou poucos minutos. Um deles também alegou ter sofrido ameaças de morte por parte de outros membros do movimento e deixou rapidamente o local.
Manifestantes vestidos com coletes amarelos - peça de segurança obrigatória nos carros franceses - protestam em frente ao Arco do TriunfoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionManifestantes vestidos com coletes amarelos - peça de segurança obrigatória nos carros franceses - protestam em frente ao Arco do Triunfo

Manifestações sem líderes

O diálogo é inexistente até o momento porque os "coletes amarelos" não têm um líder e muitos contestam a representatividade daqueles que se consideram porta-vozes do movimento, espalhados em várias áreas do país.
Diferentemente de maio de 1968 - que vem sendo relembrado por causa das destruições causadas no último sábado em Paris - o movimento dos "coletes amarelos" não têm um representante que cristaliza as reivindicações, como foi Daniel Cohn-Bendit na época dos protestos estudantis.
Os "coletes amarelos" (que levam esse nome por usarem a peça que é obrigatória como item de segurança nos veículos) se dizem apartidários e não querem ter ligações com sindicatos ou políticos.
Líderes de partidos da oposição têm feito duras críticas ao governo e tentam tirar uma vantagem política dos protestos.
Diferentemente também da grande onda de greves em 1995, os sindicatos foram relegados ao segundo plano na mobilização dos "coletes amarelos".
Os protestos têm reunido pessoas com posições opostas: militantes de extrema-esquerda, de extrema-direita e pessoas que se dizem não politizadas. Alguns afirmam participar de protestos pela primeira vez.
Em comum, elas expressam uma "exaustão" em relação à situação atual, de dificuldades econômicas decorrentes do baixo poder de compra e protestam contra a carga de impostos.
Outra dificuldade para o diálogo com o governo é a diversidade de reivindicações, que somam várias dezenas, muitas delas difíceis de serem atendidas - como a renúncia de Macron - e até mesmo contraditórias.
Há pontos comuns nas listas de exigências que circulam nas redes sociais, como o fim da alta dos impostos sobre combustíveis, o aumento do salário mínimo de 1,1 mil euros líquido (R$ 4,8 mil) para 1,3 mil euros, aposentadoria mínima de 1,2 mil euros (R$ 5,2 mil) ou a volta de um imposto sobre grandes fortunas nos moldes anteriores à reforma tributária promovida por Macron.
Mas há exigências em várias outras áreas, como proteção da indústria francesa, com a proibição de transferência de fábricas para países com mão de obra mais barata, o fim das políticas de austeridade, limites para preços de aluguéis e até tirar todos os sem-teto das ruas.
Sobre a imigração, uma das listas tem pontos contraditórios, como políticas de auxílio à integração de estrangeiros, enquanto defende a expulsão sumária dos que não conseguirem aprovação para pedidos de asilo.
Bombeiros trabalham na entrada de uma escola em Blagnac, no Sul da França, destruída por fogo quando os estudantes protestavamDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionBombeiros trabalham na entrada de uma escola em Blagnac, no Sul da França, destruída por fogo quando os estudantes protestavam

Anúncios do governo

Para tentar diminuir a crise com os "coletes amarelos" e iniciar um diálogo com os manifestantes, o primeiro-ministro francês anunciou nesta terça-feira algumas medidas.
A principal delas é a suspensão, por seis meses, dos aumentos de impostos e taxas sobre combustíveis, que deveriam vigorar a partir de 1 de janeiro. As tarifas de gás e eletricidade não aumentarão até maio do próximo ano.
"Nenhuma taxa merece colocar em perigo a unidade da nação", declarou Édouard Philippe, afirmando ainda que "é preciso ser surdo ou cego para não ouvir ou ver a ira dos franceses."
"Agora é o momento do diálogo. Tenho a convicção profunda de que quando colocamos franceses com vontade em volta de uma mesa, encontramos soluções. É o que proponho fazer", declarou o premiê ao concluir o discurso sobre as medidas, transmitido pela TV.
Logo após o anúncio do governo, "coletes amarelos" se disseram insatisfeitos, sinalizando que os protestos devem continuar.
"É tirar sarro dos franceses adiar por seis meses o aumento dos impostos sobre combustíveis. Esperávamos o cancelamento do aumento, não uma moratória", diz Benjamin Cauchy, membro do grupo "coletes amarelos livres".
Motoristas de ambulância se juntaram ao protesto e bloquearam o trânsito no entorno da Assembleia Nacional de Paris (ao fundo)Direito de imagemREUTERS
Image captionMotoristas de ambulância se juntaram ao protesto e bloquearam o trânsito no entorno da Assembleia Nacional de Paris
Eric Drouet, um dos autoproclamados porta-vozes dos "coletes amarelos", conclamou uma nova manifestação para o próximo sábado. "É triste, mas somos obrigados a manifestar nosso descontentamento. É o único meio de mostrar que praticamente todos os coletes amarelos não estão nada de acordo com as medidas anunciadas", diz Drouet, acrescentando que "de qualquer maneira isso continuará enquanto não houver mudanças reais."
Nas redes sociais, uma nova manifestação, a quarta, chamada de "Ato IV Macron cai fora!", está sendo convocada em Paris para o sábado.
Apesar da violência dos protestos - sobretudo em Paris, com destruições e saques com prejuízo estimado em vários milhões de euros - ter sido condenada pela maioria dos franceses, os "coletes amarelos" continuam tendo amplo apoio da população: 72% aprovam o movimento.
Os protestos têm causado prejuízos ao comércio, com queda nas vendas de Natal por conta de fechamentos de lojas e bloqueios nas estradas, além de hotéis e outros setores.
No sábado, quase 700 pessoas foram presas nos protestos na França, sendo mais de 400 em Paris. Somente na capital, a polícia lançou 10 mil artefatos, entre bombas de gás lacrimogêneo ou de efeito moral.