segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O clique da glória e da amargura- Ruy Castro - FSP

 A foto, excepcional, correu o mundo em 1973. Mostrava um soldado americano, prisioneiro de guerra durante cinco anos no Vietnã, desembarcando recém-libertado numa base aérea na Califórnia. O homem é um major e se chama Robert Stirm. Está fardado, de costas para a câmera, e sua bela família corre euforicamente para abraçá-lo. São duas meninas, uma já adolescente, dois garotos e a esposa. Parecem estar no ar, os pés fora do chão, e a alegria em seus rostos é indescritível. A foto é de Slava Veder, também americano, da Associated Press.

Veder morreu há um mês, aos 99 anos. Sua foto lhe rendeu o Prêmio Pulitzer e fama pelo resto da vida. Stirm morreu em 2025, aos 92, mas, para ele, ao contrário, ela só lhe provocava amargura. Não porque lhe lembrasse o longo cativeiro na selva, mas porque, ao se reunir com a família naquele momento, já sabia que seu casamento estava destruído. Dias antes de voltar, recebera uma carta da mulher contando-lhe que, na ausência dele, ela se apaixonara por outro homem e, embora aquele caso já tivesse acabado, convencera-se de que não era feliz no casamento e queria o divórcio.

Stirm não esperava por aquilo. O que o fizera sobreviver à fome, às torturas e às execuções simuladas na prisão fora a esperança de reencontrar sua família, recuperar o tempo perdido com a mulher, acompanhar o que restava da adolescência das crianças. E, ao descer do avião, sentia-se como se o chão que pisava não existisse. O casamento acabara e eles concordaram em esperar um ano para a separação, o que aconteceu.

A história chegou à imprensa na época e, por algum tempo, foi tão conhecida quanto a foto. Para sorte de Stirm, seu rosto não aparecia na imagem, poupando-o de ser apontado nas ruas. Mas todos sabiam dela nos quartéis. Promovido a coronel, ele abandonou a vida militar.

Veder e Stirm passaram as muitas décadas seguintes ligados pela foto. Com frequência, participavam de cerimônias envolvendo os veteranos daquela guerra absurda. Mas, para Stirm, o Vietnã nunca acabou.

Mesa azul exibe um lenço rosa, um par de sandálias pretas, uma colher branca, duas bolsas enroladas cinza e uma bolsa preta com etiqueta. Ao fundo, fotografia em preto e branco mostra cinco pessoas correndo em rua.
A fotografia 'Burst of Joy', de Slava Veder, é exibida em programa de antiguidades - Reprodução PBS

Flávio quer ampliar mandato, e presidente que ficou 6 anos foi um desastre, Elio Gaspari, FSP

  

Flávio Bolsonaro quer ampliar o mandato do presidente da República de quatro para até seis anos. O último presidente com mandato desse tamanho foi o general João Baptista Figueiredo. Um desastre.

Homem no centro, vestindo camisa azul clara, fala animadamente para vários microfones de diferentes emissoras. Pessoas ao redor, algumas vestindo verde e amarelo, demonstram apoio com gestos e sorrisos. Ambiente parece ser ao ar livre à noite.
O candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) em coletiva de imprensa após resultado das eleições, em seu QG de campanha, em Brasília - Gabriela Bilo - 4.out.26/Folhapress

Ele assumiu aos 61 anos com a imagem de um cavalariano atlético. Na realidade, era um cardiopata e tinha a coluna vertebral arruinada. Nas suas palavras, sentia "dor de dente na bunda".

Infartou, fez uma cirurgia cardíaca, desentendeu-se com o vice e adotou um comportamento errático. Para não passar a faixa a José Sarney, deixou o palácio por uma porta lateral.

Pediu para ser esquecido e foi.

Diferenças

Enquanto o PT passou a semana lavando roupa suja e encardida há anos, Flávio Bolsonaro saiu pelo Brasil costurando alianças. De Augusto Cury a uma fatia do MDB.

Aviso

Nos termos em que está formulada, a promessa de Flávio Bolsonaro de um ajuste inicial de 2% do PIB (equivalente a R$ 250 bilhões) é um terreno na Lua, em área nobre na cratera Copérnico.

Moraes está disposto a cair atirando

A determinação do ministro Alexandre de Moraes, mandando que Eduardo Bolsonaro comece a cumprir a pena de quatro anos e dois meses de prisão em regime semiaberto, mostra que ele está disposto a cair atirando.

Homem calvo veste terno cinza, camisa branca e gravata azul, sentado em cadeira vermelha, olhando diretamente para a câmera com expressão séria. Fundo neutro cinza e preto.
O ministro Alexandre de Moraes, durante sessão da Primeira Turma do STF - Pedro Ladeira - 16.jun.26 /Folhapress

O ministro e a torcida do Flamengo sabem que ele será o primeiro a ser impedido se os bolsonaristas conseguirem os 54 votos de senadores necessários para baixar a lâmina.

É preferível ser impedido por sentenças contra os golpistas e os Bolsonaros.

    Moraes está disposto a cair atirando

A decisão do ministro não afeta o cotidiano de Eduardo, pois ele vive nos Estados Unidos. Se o seu irmão for eleito presidente, precisará primeiro perdoá-lo, para depois nomeá-lo ministro das Relações Exteriores.

Alexandra Moraes - Ombudsman - Jornal também precisa descer do salto na cobertura eleitoral, FSP

 Os resultados que geraram uma semana de críticas e autocríticas à campanha petista também respingaram na imprensa, acusada de ter afetado negativamente o desempenho de Lula (PT).

Já na reta final da campanha e diante dos primeiros resultados, a conversa havia virado praga para que os jornalistas voltassem ao "cercadinho" onde profissionais da mídia eram confinados e humilhados por Jair Bolsonaro (PL), que titereia o filho na corrida eleitoral enquanto cumpre pena.

Na era da IA, depois de duas décadas de redes sociais e de uma dinâmica de informação que esnoba Redações com muita facilidade, soa até otimista a atribuição aos jornais de todo esse peso nos resultados. Não à toa, rapidamente a conversa deixou a imprensa de lado para se concentrar em vídeos e viralização online.

Mas isso não diminui a responsabilidade nem a necessidade de reconhecer problemas concretos na maneira como o jornal olha não só para a esquerda mas também para a chamada direita ideológica. O descompasso entre os resultados do domingo e a cobertura evidencia a necessidade de "descer do salto" —algo cobrado, agora, dos dois presidenciáveis, mas essencial sobretudo ao jornalismo.

Eduarda Campopiano (PL) foi eleita com a maior votação deste ano para a Assembleia Legislativa de SP. Na história, ficou atrás apenas de Janaína Paschoal em 2018. Foi a terceira mais votada do país, depois de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos do PL.

Campopiano nunca havia recebido muita atenção da Folha. Seu nome aparecera cinco vezes de raspão no jornal: 4 neste ano (em texto sobre estratégia do PL com "mulheres conservadoras e candidata trans", no ranking de políticos mais influentes do Instagram, como coadjuvante de Pavanato em confusão na USP e como piada por ter sido interrompida, na Câmara de Praia Grande, por som de flatulência) e 1 em 2022, como "escada" para comentário de Eduardo Bolsonaro.

Um sapato feminino pisa sobre uma vírgula.
Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman - 11 de outubro de 2026 - Carvall/Folhapress

A falha não estava apenas na incapacidade de se antecipar ao fenômeno. Para apresentá-la com seus quase 2 milhões de votos, o jornal escolheu a caricatura da "antifeminista". Embora a própria neoeleita não saia muito do personagem, caberia ao jornalismo buscar um perfil mais complexo dela e do eleitorado que representa.

No nível nacional a coisa não foi muito melhor. Depois do resultado avassalador do PL e das mulheres do partido no Legislativo, a Folha concluiu que "a onda conservadora que ampliou sua presença no Congresso não produziu, na mesma proporção, uma onda de mulheres à direita", sem considerar a evolução temporal dessa presença.

O jornal ouviu duas pessoas com ideias semelhantes e avisou ao leitor/eleitor que aquilo que se desenrolava à frente de todo mundo não estava acontecendo. Apresentou, sem contraposição, a ideia de que a "identidade política dessas parlamentares pode dificultar acordos", o que sugeria empecilhos ideológicos exclusivos de um lado.

"A reportagem tem dado tratamento desrespeitoso e equivocado a deputados da direita", afirmou o leitor Tito Bernardi. "As pautas da deputada [eleita Campopiano] são tratadas como assuntos pitorescos, por não se encaixarem na limitada visão de mundo dos redatores da Folha."

Bernardi diz que o jornal "e seus jornalistas não perceberam a onda da direita" e "parecem seguir uma cartilha pré-concebida" sobre os políticos desse campo, "tratando-os como estranhos, esquisitos e fora da realidade, apresentando aos leitores uma visão distorcida e parcial". "A Folha pode e deve discordar das opiniões e propostas dos políticos. Mas para isso possui os espaços reservados para editoriais e opinião."

Também em relação aos colunistas houve queixas. O médico Raphael Câmara, conselheiro federal de medicina pelo RJ que foi secretário de Saúde na gestão Jair Bolsonaro, escreveu carta sobre proselitismo político no corpo opinativo do jornal. "E foi provado ontem [domingo da eleição] que não reflete a opinião do Brasil. A maioria votou em Flávio. Não porque sejamos nazistas e loucos. Mas porque defendemos valores." É possível discordar da visão política dos leitores, mas é difícil desafiar a percepção de distorção na cobertura.

Mas a atenção que faltou à direita legislativa parece ter sobrado para Flávio Bolsonaro. Alguns leitores viram uma cobertura que já o tratava como eleito. Para uma agora ex-assinante, a gota d’água foi a manchete sobre "‘redemocratização’ do país, acompanhada da linha-fina ‘diz que também ‘vai arregaçar com vagabundo’’, sem qualquer consideração".

Em texto posterior sobre a explicação do candidato do PL para "mudar a Constituição", o jornal afirmava que esse Bolsonaro, avatar do pai, "tem dito defender a democracia e o equilíbrio entre os Poderes". Em outra reportagem, o candidato afirmava que "o país não vive uma democracia plena", sem que houvesse ressalva à afirmação, feita diante de vários jornalistas.

Editorial da Folha reconheceu "fake news" na afirmação de Flávio de que o Brasil não vive uma democracia, mas a reportagem não mostrou a mesma convicção —diferentemente da certeza no caso de Nossa Senhora Aparecida. Fica a impressão de excesso de boa vontade, com contexto e questionamento insuficientes.