quinta-feira, 11 de junho de 2026

A lei Cidade Limpa não está a venda - opinião por José Serra - OESP

 Em março de 2006, assinei a Lei n.º 14.223, como prefeito de São Paulo. Muitos disseram que ela não sobreviveria à pressão do mercado publicitário, às liminares que viriam, ao lobby das agências e das empresas de mídia exterior. Sobreviveu. Sobreviveu porque era e é uma lei justa, tecnicamente bem construída e, acima de tudo, profundamente enraizada no interesse coletivo dos paulistanos.

Por isso, vejo com indignação o que a atual gestão municipal tentou fazer em março deste ano: usar o artigo 50 da própria Lei Cidade Limpa, que prevê termos de cooperação para melhorias urbanas, como cavalo de Troia para reintroduzir, pela porta dos fundos, exatamente o que a norma foi criada para eliminar. Refiro-me ao projeto Boulevard São Paulo – Avenida São João, que previa a instalação de painéis de LED de até 1 mil m² nas fachadas de edifícios históricos no cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João.
Uma Ação Popular ajuizada por cidadãos, entre eles o ex-vereador Andrea Matarazzo, o advogado Igor Tamasauskas e a arquiteta Danielle Santana, veio a público denunciar o que documentos oficiais já evidenciavam como malabarismos administrativos para lesar o patrimônio histórico, cultural e econômico da cidade.

É crucial que o significado da Lei Cidade Limpa seja bem compreendido para dar realce ao desatino que se enunciava. Quando a lei entrou em vigor, em 2007, São Paulo era uma das cidades mais poluídas visualmente do mundo. Não havia exagero na afirmação. Outdoors cobriam fachadas inteiras, luminosos piscavam em toda esquina, painéis de diferentes tamanhos disputavam a atenção dos nossos olhos nas principais avenidas. O espaço público havia sido colonizado pela publicidade privada sem nenhum critério estético, sem retorno proporcional ao município e, sobretudo, sem respeito ao patrimônio arquitetônico e histórico da cidade.

A lei foi reconhecida na Exposição Universal de Xangai e premiada na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Inspirou legislações em ao menos dez municípios brasileiros. Acima de qualquer prêmio, porém, a lei é patrimônio dos paulistanos. É o resultado de uma escolha coletiva: o espaço público da cidade não seria mais suporte publicitário a serviço do capital privado. Essa conquista não pode ser desmontada por um termo de cooperação assinado à revelia da população.
O artigo 50 da Lei Cidade Limpa foi criado com a intenção de dar amparo a ações de melhoria da zeladoria urbana (calçadas, mobiliário, praças), nunca para reintroduzir a mídia exterior que a própria lei veio eliminar.
O desvio fica ainda mais evidente no histórico: um vereador havia apresentado um projeto de lei (PL) para alterar expressamente a norma e viabilizar esse tipo de instalação. Não foi aprovado. O Executivo, então, usou um atalho, e alcançou o mesmo resultado por via administrativa, contornando a Câmara Municipal e o controle democrático que ela representa. O próprio autor do PL declarou que seu projeto “perdeu objeto”. A manobra está confessada.
A ardilosidade da burocracia que se usa de uma vitrine de participação cidadã é o ponto mais triste da tramitação da “ideia”. Das 14 perguntas no portal Participe+, 13 tratavam de problemas urbanos preexistentes. A única que tangenciou os painéis perguntava se o cidadão queria “informações visuais dinâmicas e conteúdo cultural”, jamais mencionando painéis de LED de até 1 mil m² com 30% do espaço a ser destinado a patrocinadores privados. E a votação ocorreu antes do prazo final da consulta, esvaziando o processo participativo. Talvez um providencial “acidente” administrativo.
As estruturas custariam cerca de R$ 39 milhões. As contrapartidas ao município seriam de R$ 6 milhões em três anos, menos de 16% do valor das instalações no espaço público. É uma concessão a preço de liquidação. E há risco adicional: as duas concessões publicitárias municipais de longo prazo, pontos de ônibus e relógios urbanos, foram dimensionadas com base na exclusividade garantida pela lei. A introdução de painéis gigantes pode gerar pedidos de reequilíbrio financeiro, criando passivo indenizatório para os contribuintes.
O professor Valter Caldana, da Universidade Mackenzie, alertou que a aprovação abriria caminho para a perda de um dos maiores patrimônios da cidade. Ele tem razão: uma vez criado o precedente, qualquer interessado poderá pleitear tratamento idêntico com base no mesmo artigo. A lei ficará formalmente intacta e materialmente morta, sendo corroída a cada exceção.
O centro de São Paulo tem problemas reais de insegurança, degradação, população em situação de rua. Mas nenhum deles se resolve com painéis luminosos de 1 mil m² que apenas tornam ainda mais evidentes as desigualdades sociais e a apropriação privada do espaço público.
Em março de 2006, assinei a Lei n.º 14.223, como prefeito de São Paulo. Muitos disseram que ela não sobreviveria à pressão do mercado publicitário, às liminares que viriam, ao lobby das agências e das empresas de mídia exterior. Sobreviveu. Sobreviveu porque era e é uma lei justa, tecnicamente bem construída e, acima de tudo, profundamente enraizada no interesse coletivo dos paulistanos.
Por isso, vejo com indignação o que a atual gestão municipal tentou fazer em março deste ano: usar o artigo 50 da própria Lei Cidade Limpa, que prevê termos de cooperação para melhorias urbanas, como cavalo de Troia para reintroduzir, pela porta dos fundos, exatamente o que a norma foi criada para eliminar. Refiro-me ao projeto Boulevard São Paulo – Avenida São João, que previa a instalação de painéis de LED de até 1 mil m² nas fachadas de edifícios históricos no cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João.
Uma Ação Popular ajuizada por cidadãos, entre eles o ex-vereador Andrea Matarazzo, o advogado Igor Tamasauskas e a arquiteta Danielle Santana, veio a público denunciar o que documentos oficiais já evidenciavam como malabarismos administrativos para lesar o patrimônio histórico, cultural e econômico da cidade.

É crucial que o significado da Lei Cidade Limpa seja bem compreendido para dar realce ao desatino que se enunciava. Quando a lei entrou em vigor, em 2007, São Paulo era uma das cidades mais poluídas visualmente do mundo. Não havia exagero na afirmação. Outdoors cobriam fachadas inteiras, luminosos piscavam em toda esquina, painéis de diferentes tamanhos disputavam a atenção dos nossos olhos nas principais avenidas. O espaço público havia sido colonizado pela publicidade privada sem nenhum critério estético, sem retorno proporcional ao município e, sobretudo, sem respeito ao patrimônio arquitetônico e histórico da cidade.

A lei foi reconhecida na Exposição Universal de Xangai e premiada na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Inspirou legislações em ao menos dez municípios brasileiros. Acima de qualquer prêmio, porém, a lei é patrimônio dos paulistanos. É o resultado de uma escolha coletiva: o espaço público da cidade não seria mais suporte publicitário a serviço do capital privado. Essa conquista não pode ser desmontada por um termo de cooperação assinado à revelia da população.

O artigo 50 da Lei Cidade Limpa foi criado com a intenção de dar amparo a ações de melhoria da zeladoria urbana (calçadas, mobiliário, praças), nunca para reintroduzir a mídia exterior que a própria lei veio eliminar.

O desvio fica ainda mais evidente no histórico: um vereador havia apresentado um projeto de lei (PL) para alterar expressamente a norma e viabilizar esse tipo de instalação. Não foi aprovado. O Executivo, então, usou um atalho, e alcançou o mesmo resultado por via administrativa, contornando a Câmara Municipal e o controle democrático que ela representa. O próprio autor do PL declarou que seu projeto “perdeu objeto”. A manobra está confessada

A ardilosidade da burocracia que se usa de uma vitrine de participação cidadã é o ponto mais triste da tramitação da “ideia”. Das 14 perguntas no portal Participe+, 13 tratavam de problemas urbanos preexistentes. A única que tangenciou os painéis perguntava se o cidadão queria “informações visuais dinâmicas e conteúdo cultural”, jamais mencionando painéis de LED de até 1 mil m² com 30% do espaço a ser destinado a patrocinadores privados. E a votação ocorreu antes do prazo final da consulta, esvaziando o processo participativo. Talvez um providencial “acidente” administrativo.

As estruturas custariam cerca de R$ 39 milhões. As contrapartidas ao município seriam de R$ 6 milhões em três anos, menos de 16% do valor das instalações no espaço público. É uma concessão a preço de liquidação. E há risco adicional: as duas concessões publicitárias municipais de longo prazo, pontos de ônibus e relógios urbanos, foram dimensionadas com base na exclusividade garantida pela lei. A introdução de painéis gigantes pode gerar pedidos de reequilíbrio financeiro, criando passivo indenizatório para os contribuintes.

O professor Valter Caldana, da Universidade Mackenzie, alertou que a aprovação abriria caminho para a perda de um dos maiores patrimônios da cidade. Ele tem razão: uma vez criado o precedente, qualquer interessado poderá pleitear tratamento idêntico com base no mesmo artigo. A lei ficará formalmente intacta e materialmente morta, sendo corroída a cada exceção.

O centro de São Paulo tem problemas reais de insegurança, degradação, população em situação de rua. Mas nenhum deles se resolve com painéis luminosos de 1 mil m² que apenas tornam ainda mais evidentes as desigualdades sociais e a apropriação privada do espaço público.

A Lei Cidade Limpa nasceu para defender a qualidade da vida urbana na capital. Defendê-la, em todas as instâncias, é um dever dos paulistanos que amam a cidade.

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Opinião por José Serra

EconomistaA Lei Cidade Limpa nasceu para defender a qualidade da vida urbana na capital. Defendê-

São Paulo terá a primeira usina do país para capturar e armazenar carbono do etanol de cana, Agência Fapesp

 Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – O Estado de São Paulo vai construir a primeira usina brasileira para captura e armazenamento de carbono emitido pela produção de etanol de cana-de-açúcar. O anúncio foi feito pelo governador Tarcísio de Freitas durante evento realizado ontem (10/06), em comemoração à Semana do Meio Ambiente. Na ocasião, foi assinado o termo de criação do Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio).

Trata-se de um novo Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD), financiado pela FAPESP, sediado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e implementado em parceria com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Semil), a Petrobras, o Grupo São Martinho e o escritório Rolim Goulart Cardoso Advogados. A missão da equipe será estudar a viabilidade e planejar a implantação da nova usina.

O Estado de São Paulo é o maior produtor de etanol e de açúcar do país, e a tecnologia conhecida como BECCS (sigla em inglês para Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono) permite, em tese, que esse etanol paulista venha a se tornar um combustível “carbono negativo” – ou seja, que mais retira do que adiciona carbono da atmosfera. Isso porque o processo de captura do CO liberado na produção do etanol e seu armazenamento no subsolo reverteria o balanço de emissões de gases do efeito estufa.

“A produção de etanol a partir da cana-de-açúcar já é considerada uma alternativa mais sustentável em relação aos combustíveis fósseis por emitir menos gás carbônico. Portanto, ao capturar esse gás e injetá-lo no subsolo, estamos removendo ativamente o carbono que já circulava no ciclo de vida da planta. Atualmente, o etanol ainda tem uma pegada de carbono positiva, mas, com a remoção, pode-se chegar a uma pegada de carbono negativa. Algo extremamente interessante para o setor sucroenergético e para o país”, avalia Bruno Souza Carmo, professor da Poli-USP e diretor do CTCCSBio.

Monetização

Segundo Carmo, a tecnologia para fazer essa captura e armazenamento de carbono já existe e, portanto, o maior desafio do novo centro será torná-la viável no contexto paulista e do setor sucroenergético. “O armazenamento de carbono não gera receita direta. Vamos estudar mecanismos de monetização, como mercado de carbono, compensações ambientais e políticas de incentivo”, afirma.

O centro terá atuação multidisciplinar, reunindo especialistas em engenharia, geologia, economia, direito e psicologia. Entre as principais frentes estão a avaliação da viabilidade econômica e a análise do arcabouço regulatório para viabilizar créditos de carbono. Nessa etapa, os pesquisadores também vão identificar por meio de estudos geológicos os locais mais adequados para instalar a usina e armazenar o CO capturado. Segundo Carmo, a planta precisa estar próxima de reservatórios salinos profundos, formações a mais de mil metros de profundidade e compostas por rochas porosas preenchidas por água altamente salina, ou seja, sem utilidade para o abastecimento humano.


Anúncio foi feito em evento realizado ontem (10/06), em comemoração à Semana do Meio Ambiente (foto: Daniel Antônio/Agência FAPESP)

Desenvolvimento em duas fases

O projeto terá duração de cinco anos, investimento total estimado de R$ 30 milhões e será implementado em duas fases. Na primeira, com duração de dois anos, a equipe vai prospectar locais para a instalação da usina e analisar o potencial de São Paulo para o uso da tecnologia. Para isso, serão considerados fatores como geologia, proximidade com usinas, infraestrutura, custos, impacto ambiental e percepção social. Na segunda fase, o projeto deve avançar para a implantação e funcionamento da nova usina.

Atualmente, o Brasil possui apenas uma planta de captura e armazenamento de carbono no Estado do Mato Grosso, que é voltada para o etanol de milho. A usina paulista será a primeira dedicada ao etanol de cana.

No lançamento do novo centro, o governador Tarcísio de Freitas destacou a relevância da FAPESP no avanço científico do Estado. “Foi criado um instrumento poderoso, que fomenta a pesquisa, o desenvolvimento, a ciência. É um instrumento que funciona, que vai continuar funcionando", disse o governador. “São Paulo é um Estado que cresceu em produtividade, cresceu no agro, mas também cresceu em sustentabilidade", completou.

A secretária da Semil, Natália Resende, afirmou em comunicado divulgado pela pasta que o projeto está alinhado ao Plano de Ação Climática 2050 e ao Plano Estadual de Energia. “O BECCS é essencial para descarbonizar o setor agroindustrial paulista e manter sua competitividade internacional diante das crescentes exigências ambientais globais”, diz o texto.
 

Mortes: Tinha vasta experiência na administração pública e amava esportes, FSP

 Francisco Lima Neto

São Paulo

Clodoaldo Pelizzoni, 56, secretário municipal de Planejamento e Eficiência da Prefeitura de São Paulo, morreu na noite de terça-feira (9) enquanto jogava basquete com amigos, em Pinheiros, zona oeste da capital paulista.

Formado em administração pública pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), tinha mais de 30 anos de experiência em gestão de órgãos públicos.

"Era um homem culto, gostava de arte, de museu. Era um profundo conhecedor de blues e jazz, gostava de rock, música brasileira. Estudava muito. Tinha uma visão de mundo muito aberta", diz o amigo de mais de três décadas Edson Aparecido dos Santos, secretário de Governo da gestão Ricardo Nunes (MDB).

Homem de meia-idade com cabelo grisalho veste suéter cinza, camisa branca e gravata azul, está em pé com as mãos nos bolsos na plataforma de metrô. Trem metálico em movimento passa ao fundo, sob iluminação fluorescente em túnel subterrâneo.
Clodoaldo Pelizzoni no metrô de São Paulo; ele morreu aos 56 anos enquanto jogava basquete - Folhapress

Clodoaldo foi tesoureiro nas campanhas de Mário Covas, Geraldo Alckmin (PSB), José Serra e Bruno Covas (PSDB). Com exceção de Covas, que se elegeu prefeito, todos foram governadores de São Paulo.

"É uma função sensível em campanhas. Ele tinha competência profissional e experiência administrativa longa e tinha também a confiabilidade das pessoas. Era uma figura muito respeitada e admirada, embora fosse muito jovem", conta Aparecido.

No governo de São Paulo, foi diretor da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), diretor administrativo-financeiro da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, chefe de gabinete da Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social, superintendente do DER (Departamento de Estradas de Rodagem), secretário de Logística e Transportes e secretário dos Transportes Metropolitanos.

Na Prefeitura de São Paulo, atuou como secretário-adjunto de Governo a partir de 2023, até assumir, em 2025, a Secretaria Municipal de Planejamento e Eficiência.

O prefeito Ricardo Nunes disse que Pelizzoni era qualificado, dedicado e gentil.

"Ao longo de sua carreira, teve atuação destacada, especialmente na área de transportes, da qual era profundo conhecedor e estudioso. Em nossa gestão, deixou uma contribuição importante para o planejamento da cidade, incluindo a estruturação do orçamento climático da capital, hoje o mais completo do país. Sua partida representa uma grande perda para a administração pública e para todos que tiveram o privilégio de conviver com ele. Meus sentimentos à família e aos amigos", publicou em rede social.

"Além das excelentes características profissionais, era palmeirense fanático, levava os filhos ao estádio e gostava muito de esporte. Tanto que morreu numa quadra de basquete. Fez uma cesta, recuou, botou a mão no peito, levantou a mão e caiu. Eram cerca de 11h da noite. Tentaram reanimar por cerca de duas horas, mas não conseguiram. Foi infarto agudo do miocárdio", diz o Aparecido.

Conseguiu a cidadania italiana recentemente e alterou o sobrenome de Pelissioni para Pelizzoni, como era na origem da família.

Deixou a esposa Luciana, uma filha de três anos e dois filhos de 7 e 11 anos.