sexta-feira, 15 de maio de 2026

Mauro Calliari - O futuro das bancas de jornal, FSP

 Ontem vi dois meninos parados numa banca perto de casa. Eles tinham o álbum da Copa do Mundo nas mãos e esperavam ansiosamente pelos seus pacotinhos, para começar a juntar as quase mil figurinhas das 48 seleções.

A primeira vez que saí sozinho de casa foi justamente para comprar figurinhas na banca da esquina, a do João, lá pelos meus oito anos. A expedição foi um sucesso e voltei centenas de vezes para comprar a revista Placar, os quadrinhos da Disney e do Mauricio de Sousa, o Jornal da Tarde, a Folha. Até hoje leio jornal em papel; a esquina é outra, o jornaleiro —o Auro— é outro, eu provavelmente sou outro, mas o prazer em pegar o jornal e ler durante o café da manhã é o mesmo.

A imagem mostra uma banca de jornal com uma variedade de revistas e jornais expostos. A banca está organizada em prateleiras, com capas visíveis de diferentes publicações. À direita, uma mulher está de pé, usando uma máscara facial. O ambiente é iluminado e a banca é coberta por uma lona azul na parte superior.
Revistas expostas em banca de jornal em São Paulo - Karime Xavier - 28.mar.20/Folhapress

As bancas têm esse caráter local e estimulam a intimidade com a vizinhança. Elas já foram pontos de lazer, notícias e encontros. Eram tão importantes que ganharam o espaço mais nobre das cidades: as calçadas. Em São Paulo, as bancas podem ocupar até 50% da área da calçada, desde que tenham o termo de permissão de uso. São concessões públicas que dão preferência à pessoa física, com uma cota para pessoas mais velhas ou portadores de deficiência.

O Brasil já teve centenas de jornais e as pessoas corriam para as bancas para saber as notícias. Durante a década de 1990, a Folha e o Estadão disputavam a liderança com mais de 500 mil exemplares por dia cada um, com picos ocasionais de um milhão. Hoje a audiência das versões digitais supera em muito o número de jornais impressos, dos quais uma parcela ínfima é de vendas avulsas.

Como consequência, o número de bancas despencou. Em São Paulo, das 5.000 bancas existentes no início dos anos 2000, sobraram apenas 1.700 mil em 2020. O curioso é que, segundo a prefeitura, o número voltou a subir um pouco nos últimos anos e hoje existem exatas 2.148 licenças de funcionamento na cidade.

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O aumento dos últimos anos tem a ver com a mudança do caráter das bancas. Se antes vendiam publicações, hoje elas oferecem uma miríade de produtos, abrangendo quase tudo o que alguém pode precisar em seus deslocamentos: balinhas, pilhas, cigarros, bolachas, brinquedos, água de coco, guarda-chuvas, capinhas de celular, refrigerantes, chaveiros, bonés e, meu preferido, jornais velhos embalados para o xixi dos pets, num inesperado memento mori para os jornalistas vaidosos.

Há ainda aquelas bancas que se especializaram. A banca Tatuí se transformou numa simpática livraria, a banca Curva, antes de ser destruída por uma árvore, era um verdadeiro centro cultural. Outras estão oferecendo serviços que ficaram sem espaço na nova organização imobiliária: chaveiros, xerox, encanadores, serviços gerais.

Se as bancas se reinventam, também a legislação precisa se atualizar. Será que o comércio tradicional, que paga aluguel em imóveis, sente a concorrência das bancas, que acabam vendendo as mesmas coisas ao redor de estações de metrô e outros lugares movimentados? Também é bom rediscutir aquelas bancas que servem apenas como veículo para ações de ‘ativação’, como gostam os marqueteiros. Uma delas pintou a lata de roxo e vendia exclusivamente latas de uma marca de bebida. Apesar de simpática, é uma ação de utilidade e legalidade discutíveis.

Há ainda um grande número de bancas que ficam fechadas, ocupando espaço público nobre sem oferecer nada em troca, diminuindo a fluidez de quem anda e prejudicando a segurança. Melhor que a prefeitura as retire ou que as troque por alguma outra atividade que valorize as calçadas.

Talvez não sem alguma dose de saudosismo, mas também por esperança na vitalidade urbana, torço muito para que as bancas não acabem e que achem modelos para se modernizarem. Como mostra a empolgação com as figurinhas, o produto impresso tem seu fascínio e provavelmente se manterá por tempos ainda, com os livros, as palavras cruzadas, os quadrinhos, as revistas e produtos editoriais criativos. Se não todas, mas uma grande parcela das bancas talvez consiga emular a experiência do ponto de encontro, de leitura e integração com a vizinhança.

Vale a pena refinar a legislação para usar as bancas ou o que quer que elas sejam no futuro como parte da estratégia pela vitalidade das calçadas.

Setor de milho espera evolução acelerada na produção do cereal, FSP (definitivo)

 Mauro Zafalon

São Paulo

Praticamente terminada a safra de verão, IBGE e Conab chegam mais próximos nas suas estimativas de safra para 2026. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que começou com uma estimativa de 333 milhões de toneladas na sua primeira previsão, apontou 349 milhões. A Companhia Nacional de Abastecimento espera um volume de 358 milhões de toneladas, 3 milhões a mais do que previa em outubro de 2025, quando fez a primeira estimativa.

evolução da safra de grãos foi rápida no Brasil nas últimas décadas. No começo deste século, o país ainda tinha uma produção total inferior a 100 milhões de toneladas, volume que foi atingido em 2001, segundo a Conab. Para o IBGE, o Brasil atingiu essa marca em 2003. Os 200 milhões vieram em 2015, e os 300 milhões, em 2023.

Colheita de grãos de milho em uma fazenda
Colheita de milho na fazenda Maria Julia, na cidade de Paragominas, no sul do Pará - Danilo Verpa - 25.ago.24/Folhapress

Soja e milho determinaram esse crescimento. O Brasil iniciou o século com produção de 32 milhões de toneladas, tanto de soja como de milho. Os dados deste ano indicam 180 milhões para a oleaginosa e 140 milhões para o cereal. A soja tem um volume maior atualmente, mas o milho vem com uma evolução mais acelerada.

Nos últimos cinco anos, a produção de soja cresceu 29%, e a de milho, 61%. Em um encontro da Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo), nesta quarta-feira (13) em Brasília, a aposta foi de que o cereal ultrapasse a soja em volume rapidamente.

A demanda por soja e por milho tem crescido muito. No caso da oleaginosa, o avanço se deve ao apetite da China. Já a procura pelo cereal vem muito do mercado interno. Dois setores movimentam essa demanda por milho: a indústria de etanol e o setor de proteínas. A produção de carnes deve manter o ritmo de crescimento, mas não tão acelerado como o da indústria de etanol.

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O avanço do volume produzido vem mais da aceleração da produtividade do que do aumento de área plantada, no caso do milho. A área que foi destinada à safra de verão e a que foi semeada na safrinha deste ano é 78% superior à do início dos anos 2000. A produtividade, no entanto, aumenta 151% no período. Os produtores do cereal acreditam que a média Brasil, que atualmente é de 6.214 kg por hectare, deverá evoluir muito nos próximos anos, uma vez que já supera 10 mil kg em Santa Catarina.

No caso da soja, a produtividade evolui em ritmo menor. O volume atual, de 3.689 kg por hectare, supera em 54% o do início do século. A área, no entanto, cresceu 261%. O milho segue o caminho da soja e, em boa parte do país, é semeado logo após a colheita da oleaginosa. Há muito espaço ainda para o cereal ocupar, tomando-se como base a área já ocupada pela soja.

A safra brasileira cresce, no entanto, baseada em poucos produtos. O volume dos três principais (soja, milho e arroz) soma 93% de toda a produção anual de grãos. O país começa a diversificar, e aumenta a área com outras culturas, como a de sorgo e de gergelim. Esses produtos, no entanto, ainda representam muito pouco em relação às principais culturas.

Sidney Oliveira, da Ultrafarma, e ex-auditor são acusados de organização criminosa pelo MP-SP, FSp

 

São Paulo

O MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo) denunciou, nesta sexta-feira (15), 11 pessoas sob acusação de integrar uma organização criminosa para um esquema bilionário de manipulação de créditos de ICMS na Sefaz-SP (Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo). São empresários, executivos, doleiros e fiscais implicados na fraude.

Entre os denunciados estão Sidney Oliveira, fundador da Ultrafarma, e o ex-auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, apontado pelos promotores como o principal articulador da estrutura que teria movimentado cerca de R$ 1 bilhão em propinas para liberar créditos tributários fraudulentos de ICMS a grandes empresas do varejo.

O Ministério Público pede a adoção de medidas cautelares contra o empresário, como uso de tornozeleira eletrônica, apreensão do passaporte, comparecimento mensal à Justiça e proibição de deixar a comarca onde reside. Se a acusação for aceita pela Justiça, os empresários viram réus no caso da fraude do ICMS.

As defesas do empresário e do ex-auditor fiscal foram procuradas às 6h30 por email.

Um homem está sentado em uma cadeira de escritório, com as mãos apoiadas sobre uma mesa de vidro. Ele usa um terno preto e uma camisa branca, com óculos de armação escura. O fundo é composto por persianas de metal, criando um ambiente de escritório moderno e profissional.
Sidney Oliveira anunciando seu próprio canal de televisão, Ultrafarma TV, em 2023 - Divulgação

Esta é a segunda denúncia criminal apresentada neste ano contra Oliveira no âmbito da Ícaro. Desde fevereiro, ele responde por crime de corrupção. Procurada à época, a defesa do empresário não se manifestou sobre essa acusação.

A denúncia foi apresentada no âmbito da Operação Ícaro, conduzida pelo Gedec (Grupo de Atuação Especial de Combate aos Delitos Econômicos).

Segundo os promotores, Sidney Oliveira integrava o núcleo empresarial da organização criminosa. Para os promotores, a atuação do empresário não foi pontual, mas uma adesão "estável e permanente" ao esquema entre 2021 e 2025, período em que, segundo a investigação, a Ultrafarma teria pago propinas para obter vantagens na liberação de créditos tributários de ICMS.

De acordo com o MP-SP, o dono da Ultrafarma era responsável por autorizar os pagamentos destinados aos auditores fiscais envolvidos no esquema e mantinha contato direto com Silva Neto. Em mensagens interceptadas pela investigação, o ex-auditor aparece identificado como "amigo" ou "king".

A Promotoria afirma ainda que o empresário coordenava a logística das entregas de dinheiro vivo por meio de uma assistente pessoal. Conversas extraídas de celulares mostram, segundo os investigadores, ordens diretas para separação e entrega de valores aos fiscais.

Nas mensagens, a propina era tratada pelo codinome "vinho". Em um dos diálogos citados na denúncia, de maio de 2024, após ser avisado de que o "amigo" precisava de recursos, Sidney teria autorizado a entrega de "50" —valor interpretado pelo MP-SP como referência a R$ 50 mil em espécie.

Segundo a investigação, os pagamentos costumavam ocorrer na própria sede administrativa da Ultrafarma, em Santa Isabel, na Grande São Paulo. Dados de geolocalização do celular de Silva Neto, analisados pelos investigadores, indicariam a presença frequente do ex-auditor no local nas datas mencionadas nas conversas.

Em um dos episódios citados na denúncia, Silva Neto teria recebido R$ 250 mil em espécie dentro da sede da Ultrafarma.

Preso temporariamente em agosto de 2025 na deflagração da Operação Ícaro, Oliveira foi solto dias depois e teve todas as medidas cautelares revogadas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, porque ainda não havia acusação formal apresentada contra ele naquele momento.

A nova denúncia amplia o alcance da investigação. Segundo os promotores, o grupo atuava dentro e fora da máquina pública, conectando auditores fiscais, consultorias tributárias, empresários e operadores financeiros especializados em lavagem de dinheiro.

De acordo com a investigação do Gedec, o articulador central do esquema de corrupção e da organização criminosa era Silva Neto, enquanto ocupava o cargo de supervisor fiscal da Diretoria de Fiscalização (Difis) na Sefaz-SP, que permitia que ele supervisionasse o deferimento de créditos tributários e a cessão desses créditos a terceiros. Ele foi exonerado em agosto do ano passado e segue preso preventivamente no interior de São Paulo. O MP-SP pede a manutenção da prisão preventiva.

A nova defesa do ex-fiscal nunca se manifestou sobre o tema à reportagem.

Silva Neto era o responsável por manter contato direto com as varejistas, apresentar as ofertas de serviços ilícitos e ajustar os valores das propinas. Além disso, ele gerenciava a alocação de demandas entre os demais auditores fiscais do grupo criminoso.

Segundo a denúncia, Silva Neto mantinha planilhas com a relação completa das empresas atendidas, identificando inspetores e agentes fiscais vinculados a cada caso. Ele próprio se referia aos demais denunciados como a "sua equipe", de acordo com documentos obtidos pela Ícaro.

Silva Neto utilizaria a empresa Smart Tax Consultoria e Auditoria Tributária Ltda., registrada em nome de sua mãe, Kimio Mizukami da Silva, como base operacional e financeira para recebimento e circulação das propinas.

A evolução patrimonial de Kimio é tratada pela Promotoria como um dos principais indícios de lavagem de dinheiro. Professora aposentada e sem atuação conhecida na área tributária, ela declarou patrimônio de R$ 411 mil em 2021. Dois anos depois, os bens vinculados a ela ultrapassavam R$ 2 bilhões.

O MP-SP sustenta que Kimio não era apenas uma "laranja" passiva, mas participava ativamente das movimentações financeiras e operações de lavagem de dinheiro sob orientação do filho. Os promotores pedem a adoção de medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica e retenção de passaporte. A reportagem não localizou a defesa de Kimio.

Uma funcionária de Silva Neto, apontada como responsável por receber o material das varejistas e pagar parte das propinas, também foi denunciada.

Também foi denunciado o casal Celso Eder Gonzaga de Araújo e sua mulher, Tatiane da Conceição Lopes de Araújo, integravam o núcleo financeiro e de lavagem de dinheiro da organização criminosa. Os promotores descrevem o casal como "lavadores profissionais" a serviço do grupo liderado pelo ex-auditor

Diante do risco de fuga e da existência de ativos de fácil ocultação e transporte, como joias e criptomoedas, o MP-SP pediu a prisão preventiva do casal. No momento da denúncia, ambos já estavam em prisão domiciliar em razão de outras frentes da investigação. .

Segundo a denúncia, a organização era dividida em quatro núcleos: agentes públicos, técnico-operacional, empresarial e financeiro. Entre os denunciados estão também os auditores fiscais Marcelo de Almeida Gouveia, solto na última quarta-feira (13), e Alberto Toshio Murakami —considerado foragido nos Estados Unidos, vivendo em uma casa no Tennessee avaliada em R$ 7 milhões, segundo os investigadores. Sua prisão foi decretada e ele está na Difusão Vermelha da Interpol. O Ministério Público pede a decretação de nova prisão preventiva.

Segundo o MP-SP, ambos usavam cargos estratégicos na Sefaz-SP nos postos fiscais de Osasco e Butantã para facilitar a tramitação dos créditos tributários suspeitos. Há registro documental apresentado na denúncia de que Murakami acompanhou Silva Neto pessoalmente à sede da Ultrafarma para o recebimento de propina em dinheiro vivo.

Segundo a Promotoria, parte da estrutura continuou operando mesmo após a primeira fase da Operação Ícaro, em 2025. Em março deste ano, segundo os investigadores, a contadora Maria Hermínia de Jesus Santa Clara foi encontrada com computadores da Sefaz-SP e certificados digitais vinculados a auditores fiscais.

Ela está presa. A reportagem não localizou a defesa de Maria Hermínia.

A crise provocada pela Operação Ícaro também atingiu a estrutura interna da Secretaria da Fazenda paulista. Segundo a Sefaz-SP, estão em aberto 61 procedimentos administrativos para investigar envolvimento nas irregularidades citadas na Ícaro, entre eles 16 disciplinares em andamento e 31 apurações preliminares para investigar desvios de conduta. Segundo a secretaria, 17 servidores permanecem afastados para apuração de possíveis irregularidades, com a suspensão de remuneração.

No dia 29 do mês passado, a Sefaz-SP anunciou a demissão de cinco auditores fiscais envolvidos em irregularidades. A secretaria diz ainda que novas apurações podem ser instaladas conforme o avanço das investigações.

Além da Ultrafarma, aparecem na investigação empresas como a Fast Shop e a Rede 28, rede de postos de combustíveis. Apenas no caso da Fast Shop, o prejuízo estimado aos cofres paulistas chega a R$ 1,04 bilhão, segundo a Promotoria.

EMPRESAS CONFESSARAM PARTICIPAÇÃO NA FRAUDE

Em acordos firmados com o MP-SP para evitar ações penais, sócios-proprietários e um diretor da Fast Shop admitiram participação no esquema e se comprometeram a devolver R$ 100 milhões aos cofres públicos.

Em paralelo, na última segunda-feira (11), a varejista de eletrônicos foi condenada pelo governo de São Paulo a pagar R$ 1,04 bilhão por corrupção, fraude tributária do ICMS, a maior penalidade já aplicada no país com base na Lei Anticorrupção.

A Fast Shop está recorrendo da multa e, por meio de nota, diz que "o processo administrativo mencionado está em curso e que não há decisão definitiva sobre o caso".

Rede 28 Postos de Combustíveis, que atua em São Paulo e no Paraná, também confessou ter participado do esquema, pagando mais de R$ 6,6 milhões em propinas para obter vantagens em créditos indevidos do ICMS. A rede firmou um acordo de não persecução penal com o MP, em 2025, no valor de R$ 5 milhões, para livrar ros executivos da denúncia criminal.