terça-feira, 21 de abril de 2026

‘Time Flávio’ pode perder para si mesmo —como o Botafogo de 2023, Juliano Spyer, FSP

 

A notícia do apoio que Flávio recebeu da Assembleia de Deus Ministério Belém, no início do mês, já saiu de pauta. Mas o que aconteceu nos bastidores continua reverberando: o descontentamento de lideranças evangélicas com o pré-candidato do PL. Não é uma insatisfação isolada. Ela aparece sobretudo no silêncio —na ausência de adesões entusiasmadas. Mas ganhou voz, na própria reunião da AD Belém, com o pastor Marco Feliciano.

Em uma cobrança que talvez tenha sido tramada para vazar, ele perguntou a Flávio: "Quando é que você e sua família passarão a tratar os evangélicos com a reciprocidade que a gente merece, em vez de uma relação de via única?"

Dois homens em pé atrás de grade metálica em ambiente urbano. Homem à esquerda veste camiseta azul e fala ao microfone com expressão intensa. Homem à direita usa camisa amarela da seleção brasileira e observa com expressão séria. Prédios de vidro ao fundo.
Ato na avenida Paulista com o pastor Silas Malafaia e o senador Flávio Bolsonaro, em março - Allison Sales - 1º.mar.26/Folhapress

O pano de fundo é um acordo frustrado: a promessa de que um nome com ligações às igrejas —Feliciano e Cezinha de Madureira eram os cotados— ocuparia uma das vagas do PL ao Senado por São Paulo.

O que sobra para essas lideranças é criar constrangimentos calculados. Porque elas se tornaram reféns do bolsonarismo por ao menos três razões.

Primeiro: foram os grandes responsáveis por transformar Jair Bolsonaro em ser divino, no sentido literal —incensado como parte do plano de Deus para salvar o Brasil das trevas. Não podem agora ir contra essa suposta profecia.

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Não são prioridade do PL também porque rejeitaram Flávio de saída —pior: foram dos primeiros a defender abertamente a dobradinha Tarcísio-Michelle.

Terceiro, e mais pragmático: se não apoiarem Flávio formalmente, quem apoiarão no segundo turno? Depois de duas eleições presidenciais demonizando a esquerda, sua única forma de permanecer próximo ao poder é se submeter.

O pastor Silas Malafaia, um dos que defenderam a alternativa a Flávio, resumiu sua perspectiva: "Todos os meus deputados estão no PL, não tenho como apoiar outro", disse a O Globo. Esse nó aponta para duas estratégias. A primeira já foi vocalizada: a Assembleia de Deus Madureira formalizou apoio a Caiado. A Universal pode seguir caminho parecido.

As duas têm musculatura real —membros, templos, pastores, infraestrutura de comunicação— e distância suficiente do bolsonarismo para negociar com quem chegar ao segundo turno.

As demais lideranças vão atuar —usando uma metáfora do futebol— jogando paradas. Farão o mínimo para continuar em campo, sem entrar em bolas divididas, mantendo distância suficiente para, ao longo da campanha, se protegerem dos escândalos de Flávio. A mensagem enigmática que Michelle Bolsonaro publicou nos stories no dia 13 captura esse clima: "Abraão perde o espaço, mas não perde os princípios."

Queiramos ou não, as igrejas se tornaram organizações políticas de peso. São espaços de sociabilidade, câmaras de eco para ideias, mobilizadoras de referências simbólicas fortes —e, no caso das grandes, detentoras de infraestruturas de comunicação sofisticadas e capilarizadas.

Em 2023, o Botafogo chegou às rodadas finais com 13 pontos de vantagem e viu o título quase certo escapar pelas mãos —por tensões internas que desorganizaram o próprio time. Quem aposta em Flávio está olhando para a tabela. Deveria olhar para o vestiário.

domingo, 19 de abril de 2026

De Fortaleza a Auschwitz, Marcelo Leite, FSP

 Em nove dias em Cambridge, Massachusetts (EUA), topei com duas referências espantosas a campos de concentração. A primeira: "currais do governo" construídos em Fortaleza nas secas de 1915 e 1932. A outra: um sobrevivente de Auschwitz que buscou tratamento com LSD para a "síndrome KZ".

Os campos cearenses compõem a pesquisa da historiadora Kenia Sousa Rios, do Centro de Humanidades da Universidade Federal do Ceará. Ela participava de um painel sobre caatinga no "Lemann Dialogue 2026: Seis Biomas, Múltiplas Realidades, Um País", na Universidade Harvard.

Na mesa estavam Daniela Nogueira, da Universidade de Brasília, e Washington de Franca Rocha, da Universidade Estadual de Feira de Santana. Ao final, Marcia Castro, do Centro de Estudos Latino-Americanos David Rockefeller de Harvard, perguntou quem já tinha ouvido falar dos currais; ninguém levantou a mão.

Placas de madeira com mensagens escritas estão colocadas entre os trilhos de trem que levam à entrada do campo de concentração de Auschwitz, visível ao fundo sob céu nublado. Pessoas caminham próximas à entrada do local histórico.
Placas colocadas por participantes durante a "Marcha dos Vivos" internacional anual no antigo campo de extermínio de Auschwitz II-Birkenau, em homenagem aos milhões de judeus assassinados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, em Brzezinka, Polônia - Kacper Pempel - 14.abr.26/Reuters

A seca de 1877 foi uma das piores no semiárido, tangendo 100 mil refugiados para a capital do Ceará, que tinha 25 mil habitantes. Houve pânico com a invasão dos bárbaros, como se dizia. Em 1878 chegaram a ocorrer mil mortes num dia, relatou Rios.

Na seca de 1915, narrada em "O Quinze" por Rachel de Queiroz, o governo cearense reagiu com um primeiro campo de concentração para encurralar famintos, 18 anos antes da abertura de Dachau por nazistas.

Na de 1932, a segregação materializou-se em sete currais, com confinamento de 70 mil flagelados. Amontoavam-se até 20 mil retirantes em espaços para 2.000, condições em que proliferavam epidemias de varíola e febre amarela.

O semiárido já não exibe mais essa face da sociedade brasileira. Apesar de ainda concentrar a maior parte dos pobres do país, políticas de redução da miséria permitem que ninguém mais morra de fome nas estiagens a cada El Niño, como o que agora se avizinha.

Mas do que seremos capazes diante do flagelo se, confirmadas previsões científicas, o aquecimento global esquentar a caatinga em 5ºC e diminuir em 40% as chuvas até o final do século? Mantemos tradição em crueldade, basta ver a adesão à letalidade policial e a propensão a eleger um filhote Bolsonaro após a gestão genocida da pandemia pelo pai.

Lembremos Yehiel De-Nur, ou Ka-Tzetnik 135633, pseudônimo do escritor judeu que esteve em Auschwitz. Ouvi falar dele por Patricia Kubala na conferência "Psychedelic Intersections: Bridging Humanities, Religion and Law" (intersecções psicodélicas: fazendo a ponte entre humanidades, religião e direito), no Centro para o Estudo de Religiões do Mundo (CSWR, em inglês) de Harvard.

"Ka-Tzetnik" remete a KZ, campo de concentração na abreviação alemã também usada em ídiche. O interno 135633 testemunhou no julgamento do nazista Adolf Eichmann, em 1961, onde sofreu famoso colapso. Nos anos 1970, buscou tratamento com LSD para traumas na clínica do psiquiatra holandês Jan Bastiaans.

De-Nur morreu em 2011, aos 92 anos. Em 1983, durante entrevista ao programa de TV dos EUA 60 Minutes, explicou o desmaio 22 anos antes pelo choque de entender, ali, que Adolf Eichmann não era só aquele oficial nazista todo-poderoso, mas uma pessoa como qualquer outra:

"Fiquei com medo de mim mesmo", disse então De-Nur. "Vi que sou capaz de fazer isso [Auschwitz]. Sou... exatamente como ele."

O jornalista viajou a San Franciso a convite do Instituto Chacruna

Efeitos não antecipados da corrupção, Marcus André Melo, FSP

 Nada mais atual do que a afirmação do senador Jaques Wagner ao comentar a estratégia de reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014: "Estamos em campanha e tenta-se fazer palanque sobre um tema rejeitado pela população, que é a corrupção... Ninguém ganha eleição dizendo ‘sou honesto’. Até porque ninguém acredita".

Wagner errou em seu diagnóstico de que esse tema era "rejeitado pela população", mas acertou quando apontou para a questão da credibilidade de declarações sobre honestidade. Na atual conjuntura, a percepção de um "mar de lama" faz com que ninguém acredite que políticos sejam honestos. Que ministros do Supremo sejam honestos. Ou que diretores do INSS ou Banco Central sejam honestos.

Quando a corrupção é avassaladora, seus efeitos sobre os incentivos são sistêmicos. Como já analisei na coluna, a corrupção gera corrupção. À primeira vista, pode sugerir que ela dê lugar a um cinismo cívico generalizado, e que os cidadãos perdem a capacidade de se indignar. O efeito médio para os eleitores pode ser o de indiferença. Mas a corrupção não é categoria homogênea.

Logotipo do Banco Master com as palavras 'BANCO' e 'MASTER' em letras maiúsculas pretas, apresentando um efeito de desfoque e duplicação, sobre fundo branco.
Logo do Banco Master - Mauro Pimentel - 4.mar.26/AFP

A evidência acumulada na ciência política mostra exatamente o contrário: as pessoas distinguem entre tipos de corrupção. Marco Klasjna, Noam Lupu e Joshua Tucker em trabalho sobre comparativo experimental no Uruguai, Argentina e Chile, como parte do Lapop (Latin American Public Opinion Project), concluíram que a informação sobre a extensão da corrupção não afeta a punição de certos tipos de ilicitudes.

Isto é consistente com a forte rejeição em abstrato à corrupção, mas o pouco impacto efetivo em situações concretas (Boas, Hidalgo e Melo). Casos de enriquecimento pessoal geram forte reprovação moral e tendem a produzir punição eleitoral. Já formas de corrupção associadas à provisão de bens públicos —obras, programas sociais, transferências— são julgadas de forma ambígua. Nesses casos, as pessoas operam com trade-offs: ponderam corrupção contra desempenho, entrega de políticas, alinhamento partidário e lealdade identitária. São conhecidos os padrões "rouba mas faz" ou "rouba mas distribui", que cada vez mais têm sido substituídos pelo "rouba mas é da minha tribo".

No caso do escândalo do Supremo, é a defesa da democracia que tem sido mobilizada. Mas isso tem tido retornos claramente decrescentes. Aqui o aspecto crítico é a reversão de expectativas: ilícitos cometidos onde menos se suspeitava. Mas o julgamento moral dos envolvidos em corrupção no caso Master e no INSS não tem trade-off envolvido e, por isso, assume assim alta voltagem. E contrastam com a corrupção exposta em muitos casos de emendas ao orçamento, em que os efeitos são mitigados pela provisão de bens públicos.

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A reação do Supremo ao indiciamento de seus membros na CPI do Crime Organizado alimenta a espiral de indignação e o sentimento público de "mar de lama". O relatório hiperbólico apresentado pelo relator é reflexo das interferências brutais do próprio tribunal, do governo e da base parlamentar aos seus trabalhos. O relatório foi acusado de ser "eleitoreiro" —"de fazer palanque" (Wagner)— justamente porque incidirá nas urnas com alta voltagem. O "corte de orelhas" sobre o qual falei na coluna pode sair pela culatra.