domingo, 19 de abril de 2026

O empurrão da história, Fernão Bracher. FSP

 O modelo abaixo, de maneira simples e sintética, permite captar as variáveis que descrevem esquematicamente a maior parte dos movimentos relevantes de nossas vidas. Ele foi idealizado por Rodrigo Hübner Mendes, cuja história ilustra a força da mudança por imposição: um tiro em uma tentativa de assalto, quando tinha 18 anos, resultou em grave comprometimento de seus movimentos, encerrando seus planos de uma carreira médica.

Hoje, mais de 30 anos após o acidente, o Instituto Rodrigo Mendes, fundado e dirigido por ele, dedicado à melhoria das condições de educação para as pessoas com deficiência, já beneficiou mais de 2 milhões de alunos em escolas públicas.

Acredito que todos prefiramos nos situar no hemisfério superior da imagem, seja para preservar uma situação que nos agrada, seja para conduzir projetos de forma planejada e refletida. Isso não impede que evoluções importantes em nossas vidas estejam relacionadas a fatos imprevistos que obrigaram a alterações de rota.

O mesmo que se aplica a indivíduos é também válido para empresas e mesmo nações. O modelo me veio à mente ao refletir sobre os impactos da crise energética provocada pela guerra no Irã e imaginar que —assim como ocorreu com Rodrigo— a alteração de planos possa ter resultados muito positivos.

A escassez de energia provocada pela guerra do Irã tem alcance global e seus efeitos serão duradouros —quando não definitivos—, ainda que o conflito venha a ser encerrado brevemente.

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Vale lembrar que cerca de 75% da população mundial vive em países importadores de petróleo e gás, nos quais a elevação dos preços e, muito pior, o espectro do racionamento provocam disfunções profundas na vida econômica. Isso é verdade especialmente na Ásia, destino de mais de 80% das exportações de óleo e gás natural liquefeito (GNL) através do estreito de Hormuz.

A reação imediata dos países asiáticos é recorrer a energias mais baratas e disponíveis, especialmente o carvão, e dar início a medidas que antecipam um racionamento mais radical —como limitar a presença física no trabalho e o uso de ar-condicionado— que fazem lembrar a situação que vivemos no "apagão" de 2001.

Os impactos da crise não se limitam naturalmente à Ásia. Na União Europeia, a Autoridade de Energia declara que "a crise será longa e os preços permanecerão elevados por muito tempo" e "todas as medidas, inclusive racionamento, estão sob análise".

O petróleo e o gás são commodities cujo preço é determinado nos mercados internacionais. Assim sendo, mesmo nos países produtores, detentores de amplos estoques e reservas, o impacto no preço se faz sentir. É o caso dos EUA, onde a gasolina acima de US$ 4 por galão provoca insatisfação generalizada. Mesmo no Brasil, onde a política de preços da Petrobras procura proteger os consumidores dos aumentos (à custa também dos acionistas minoritários, é bom lembrar), a crise tem graves reflexos, como os que afetam presentemente os setores dependentes de óleo diesel.

Como visto, os efeitos imediatos da crise —como costuma ocorrer após acidentes— são uma espécie de "salve-se quem puder", com cada país procurando conter os danos imediatos da maneira que for possível. Difícil encontrar beneficiários imediatos nesse cenário, a não ser as empresas produtoras de petróleo. Mas, mesmo nesse caso, os efeitos não têm a dimensão que se poderia imaginar; as ações dos principais grupos petrolíferos subiram nos 30 dias após o início da guerra, de 10% a 40%, enquanto os preços do petróleo aumentaram de 50% a 75%.

Houve, porém, um outro tipo de empresa cujas ações parecem ter se beneficiado da crise; as ações da BYD, produtora chinesa de carros elétricos, subiram cerca de 15% enquanto o valor de mercado das três maiores empresas chinesas de baterias elevou-se em cerca de 20% 30 dias após o início do conflito.

Se a apreciação das petroleiras é atribuível à elevação do preço do petróleo a curto prazo, cuja duração é, porém, incerta, a valorização das empresas chinesas deve-se à perspectiva de um vigoroso aumento na demanda por energia limpa, a curto, médio e longo prazo.

A crise evidencia mais uma vez e para além de qualquer dúvida os riscos da dependência de energia importada de outras regiões. Nada disso é novo.

A novidade potencialmente transformacional é que esta é a primeira crise global energética a ocorrer quando há ampla disponibilidade de equipamentos ligados à energia renovável —como painéis solares, baterias e turbinas eólicas— a preços acessíveis, possibilitando aos países importadores a superação de sua vulnerabilidade.

Assim como um terrível acidente levou à criação de um instituto exemplar, uma guerra resultante da iniciativa isolada de um único país poderá determinar uma aceleração definitiva na adoção global das energias renováveis, com benefícios significativos para todos. No que um articulista do New York Times chamou de "ironia trágica", terá sido o governo mais favorável aos combustíveis fósseis na história recente dos EUA a apontar esse caminho.

Retornando ao princípio, observo que graves rupturas nos abatem e nos desviam do caminho; mas não nos dizem para onde ir. Trilhar um novo percurso, especialmente um que seja virtuoso, depende de clareza de pensamento, valores, coragem e determinação.

Concluo manifestando ao Rodrigo minha grande admiração.


Super-ricos de Nova York criticam plano de Mamdani de taxar segundas residências, FT FSP

 Nova York | Financial Times

Os super-ricos de Nova York estão em pé de guerra contra um novo imposto sobre segundas residências proposto pelo prefeito Zohran Mamdani e pela governadora do estado, Kathy Hochul.

O bilionário Daniel Loeb acusou o prefeito de "incitar guerra de classes" em uma publicação no X. Ele também disse que Mamdani estava expondo o investidor Ken Griffin, cuja cobertura de US$ 238 milhões em Manhattan foi apresentada em um vídeo que acompanhou a divulgação do novo plano tributário na quarta-feira (15).

"Não se pode taxar uma cidade rumo à prosperidade e não se atrai capital demonizando filantropos", disse Loeb, que fez grandes doações para impedir que Mamdani vencesse a disputa pela prefeitura em 2025.

Homem de terno escuro e gravata clara fala em púlpito azul com selo oficial e placa amarela com texto '100 DAY ADDRESS'. Fundo escuro.
O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, em discurso sobre os 100 primeiros dias de gestão - David Dee Delgado - 12.abr.26/Reuters

Mamdani, o prefeito socialista que assumiu o cargo em janeiro, disse que o imposto, que será aplicado a segundas residências avaliadas em mais de US$ 5 milhões (R$ 25 milhões), é direcionado aos "mais ricos entre os ricos" que "guardam sua riqueza em imóveis de Nova York, mas que na verdade não moram aqui".

O presidente Donald Trump se manifestou sobre a medida nesta quinta-feira (16), escrevendo em sua plataforma Truth Social que "o prefeito Mamdani está DESTRUINDO Nova York!.. as políticas de IMPOSTO, IMPOSTO, IMPOSTO estão TÃO ERRADAS".

A proposta, que a governadora democrata Hochul disse que será incluída no orçamento estadual nesta primavera do hemisfério norte, seria o primeiro novo imposto significativo sobre os moradores mais ricos da cidade desde que Mamdani foi eleito em novembro com um mote que incluía aumentar impostos sobre pessoas de alta renda.

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Hochul disse que o imposto proposto arrecadaria pelo menos US$ 500 milhões por ano para Nova York, que enfrenta um déficit orçamentário de vários bilhões de dólares.

Griffin possui um portfólio de propriedades nos EUA e em Londres, incluindo na Flórida, para onde transferiu a sede de seu fundo de hedge, Citadel, de Chicago em 2022.

A Citadel também está ajudando a desenvolver um novo arranha-céu para seus escritórios em Nova York, onde mais de 1.800 de seus funcionários estão baseados.

Alguns dos moradores mais ricos da cidade se uniram em apoio a Griffin. "Deveríamos aplaudir Ken por gastar US$ 238 milhões em NYC, não atacá-lo por fazer isso", escreveu no X Bill Ackman, o bilionário de fundos de hedge que gastou US$ 1 milhão se opondo à candidatura de Mamdani.

Ele acrescentou que, embora "Mamdani goste do slogan 'Taxar os ricos'", seus planos "vão prejudicar os grupos que ele supostamente está tentando ajudar".

Um porta-voz de Griffin não respondeu a um pedido de comentário.

Mamdani disse anterio mente ao FT: "Não tenho uma oposição reflexiva a nenhum setor específico, a nenhum indivíduo específico ou a nenhuma categoria específica de patrimônio líquido".

Mas a vitória surpreendente do progressista de 34 anos em uma campanha para prefeito alimentada por retórica populista gerou temores em Wall Street de que ele aumentaria impostos, com figuras como Loeb gastando grandes somas para tentar barrar sua candidatura.

A promessa de campanha de Mamdani de aumentar o imposto de renda sobre milionários foi bloqueada pela governadora moderada.

Noble Black, corretor do grupo imobiliário de luxo Corcoran, disse que clientes estavam ligando para ele desde que a notícia do imposto sobre segundas residências foi anunciada. "Essas pessoas não são cativas, os ricos que estão comprando aqui não precisam comprar aqui."

Black alertou que potenciais compradores ricos de segundas residências poderiam optar por ficar em hotéis, o que afetaria os "nova-iorquinos comuns" cujas profissões —de trabalhadores da construção civil a governantas e designers— sustentam "pessoas mais ricas que vêm e gastam dinheiro na cidade".

Mas algumas figuras do setor imobiliário de luxo da cidade não se mostraram preocupadas com o anúncio.

"Já passamos por isso tantas vezes, imposto sobre mansões, 11 de setembro... sempre que alguém duvida de Nova York, acaba sendo provado errado", disse Matthew Lesser, sócio sênior da corretora de casas de Nova York Leslie J Garfield, nesta quinta.

"Não acho que haverá impacto" no volume de transações na cidade, acrescentou.