domingo, 19 de abril de 2026

Empresas de energia renováveis suspendem quase R$ 40 bi em investimentos e avaliam deixar Nordeste, FSP

 João Gabriel

Brasília

Empresas do setor de energia renovável avaliam migrar do Nordeste, região de condições climáticas favoráveis à geração eólica e solar, para outros locais do Brasil, suspendendo investimentos próximos a R$ 38,8 bilhões entre 2025 e 2026.

O cenário se dá em razão de uma série de fatores. Além do lento crescimento da demanda por energia e o "curtailment" (corte forçado na geração), problemas já conhecidos, representantes do setor reclamam de uma recente elevação dos custos de operação, com a perda de vantagens fiscais e o aumento de exigências.

A imagem mostra uma turbina eólica em primeiro plano, com suas lâminas visíveis. Ao fundo, há uma paisagem montanhosa sob um céu colorido, onde o sol está se pondo, criando um efeito de luz dourada. A vegetação é visível nas encostas das montanhas, e o horizonte se estende com uma vista ampla.
Maior turbina eólica em operação no Brasil fica na Bahia - Divulgação WEG

Integrantes do governo Lula (PT) ponderam que os benefícios fiscais concedidos no passado para impulsionar essas fontes alternativas não são mais necessários, uma vez que elas já ganharam espaço na matriz energética nacional. Com o mercado consolidado, dizem, agora é necessário ajustar a política tributária, para evitar que vantagens às energias eólicas e solares gerem um desequilíbrio no sistema energético nacional, encarecendo a conta ao consumidor.

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa desde o último dia 27 de março, o Ministério de Minas e Energia não se manifestou até a publicação deste texto.

A maior parte dos empreendimentos de energia renovável está no Nordeste, região que é abundante em sol e vento. A pedido da Folha, a Absolar e a Abeólica (associações que representam respectivamente as geradoras de energia solar e eólica) calcularam o impacto da crise no setor.

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A primeira entidade afirmou que, durante o ano de 2025, 141 usinas devolveram suas outorgas. Elas somariam R$ 18,9 bilhões.

A Absolar acrescenta que, na comparação entre o projetado e o realizado no último ano, houve outros R$ 5,9 bilhões em investimentos frustrados.

Já a Abeólica disse que a desaceleração do crescimento do setor gerou cerca de R$ 14 bi em investimentos suspensos.

"Essa crise se agravou principalmente a partir de 2023, 2024 e o Nordeste, que recebe mais de 95% dos investimentos, está sofrendo. Nós temos inclusive fábricas no Nordeste demitindo e fechando por falta de investimento, de novos projetos", afirma Elbia Gannoum, diretora-executiva da associação.

A Casa dos Ventos, uma das principais empresas de renováveis do país, é uma das companhias que admite reduzir investimentos no Nordeste e recalcular sua rota para apostar em projetos em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul.

Procurada, a empresa informou que investe "tanto no Nordeste quanto em outras geografias".

Mato Grosso do Sul e o Rio Grande do Sul surgem como alternativas, pois, apesar de não terem condições climáticas tão favoráveis quanto as do Nordeste, estão mais próximos dos polos consumidores.

O aumento do custo de geração tem explicação em dois dispositivos aprovados em 2025, na Medida Provisória 1304. Esse texto nasceu da pretensão do governo em reorganizar o setor elétrico, que acabou frustrada pela força dos lobbies no Congresso.

A medida criou dispositivos para impulsionar o setor de baterias, com o objetivo de resolver o curtailment.

Esse corte forçado de geração ocorre porque a quantidade produzida por fontes renováveis varia de acordo com o vento e o sol. Em momentos de pico, é necessário tirar essas usinas da tomada para evitar uma sobrecarga que pode colapsar a rede nacional.

A medida, porém, traz prejuízo a essas usinas. Como mostrou a Folha, o país hoje desperdiça o equivalente a uma usina de Belo Monte em razão do curtailment.

Uma das formas mais eficazes de resolver o problema é usando baterias para guardar o excesso de energia gerado nas horas de pico para ser consumido quando o consumo aumenta.

A medida provisória estabeleceu que apenas podem ter acesso ao Reidi (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura), que dá desconto de impostos a usinas de geração solar e eólica, as que sejam integradas a sistemas de armazenamento.

Na prática, as entidades reclamam que isso limitou o poder de investimento de algumas empresas.

"O texto ocasionou um retrocesso, criando falta de isonomia para a fonte solar frente a outras tecnologias, ao restringir o acesso ao Reidi. Este tipo de requisito e limitação não existe para nenhuma outra fonte no Brasil", afirmou a entidade.

Outro dispositivo criticado é o repasse dos custos da reserva de capacidade para os novos empreendimentos. Essa reserva é a contratação de usinas para serem acionadas em momentos de baixa produção, mas alta demanda. Como as energias renováveis são intermitentes (não geram todo o tempo), há necessidade de contratar mais geradores de reserva.

A exigência imposta a novos empreendimentos, segundo a entidade, encarece o custo, desestimula novos investimentos e "pode pressionar economicamente os projetos de geração renovável".

Além disso, as entidades se queixam que a Aneel aprovou, em 2022, duas resoluções que aumentam a taxa a ser paga pelas geradoras de energia à medida que elas estão mais distantes dos principais polos consumidores do país, como o Sul e o Sudeste.

A Absolar avalia que isso "aumentou os custos de uso da rede para usinas situadas longe dos centros de carga, especialmente no Norte e Nordeste" e "pode deslocar os projetos fotovoltaicos", o que já está acontecendo.

"Os atos normativos em questão foram resultado de mais de cinco anos de debate, e após aprovação, tiveram seus efeitos e aplicação modulada de forma a trazer previsibilidade e adaptabilidade dos agentes", rebate a Aneel.

Dada a insatisfação do setor e sua capacidade de mobilização de parlamentares no Congresso, há, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, um projeto para derrubar essas resoluções.

Representantes das renováveis afirmam ainda que o Executivo tem demorado para realizar o leilão de contratação de baterias, que poderia resolver o problema do curtailment e reduzir o prejuízo às usinas.

Reclamam que, ao invés disso, foi feito um leilão para reserva de capacidade cuja maior parte dos vencedores é composta por empresas de geração a gás e a carvão, combustíveis fósseis poluentes.

"A gente precisa realmente ter uma solução porque, do contrário, vamos perder oportunidade de investir num país que tem uma grande potencialidade diante da transição energética. A situação de fato é preocupante", diz Elbia.

Há uma avaliação geral de que a chegada de data centers poderia impulsionar o setor de energia, se abastecidos com renováveis, pois consomem quantidades enormes de eletricidade —por outro lado, são criticados por exigir muita água.

A criação de um programa nacional para esses empreendimentos, porém, está travado no Congresso Nacional.

MP-SP volta atrás após troca de promotor e pede condenação de Monark por fala sobre nazismo, FSP

 Marcos Hermanson

Brasília

O MP-SP (Ministério Público de São Paulo) voltou atrás de manifestação anterior e, após a troca de promotor, agora pede a condenação do influenciador Monark por danos morais causados por uma fala de 2022 em que ele defendeu a existência de um partido nazista no Brasil reconhecido por lei.

Em março, o promotor Marcelo Otavio Camargo Ramos havia se manifestado pelo arquivamento do caso, defendendo que as falas de Monark se enquadram na defesa abstrata "embora equivocada" da liberdade de convicção e expressão.

Em abril, Ramos foi substituído pelo promotor Ricardo Manuel Castro, que elaborou nova manifestação pedindo que o juiz desconsidere o pedido anterior da Promotoria e condene Monark ao pagamento de R$ 4 milhões.

Monark, um dos criadores do Flow Podcast - Adriano Vizoni - 1º.jun.22/Folhapress

Em nota, o MP-SP afirmou que o cargo do promotor responsável pelo caso está temporariamente vago, que Marcelo Ramos havia sido designado para ocupá-lo durante a segunda quinzena de março e de abril, mas que a designação para este segundo mês foi suspensa por decisão do procurador-geral de Justiça substituto, Plínio Gentil.

"Como se percebe, houve expressa defesa da criação de um partido nazista e da possibilidade de se declarar e agir como antijudeu, como se este tipo de partido e postura antissemita fosse decorrência do direito à liberdade de expressão. Não é", escreveu o novo promotor na última quarta-feira (15).

A defesa de Monark disse ver com espanto a mais recente manifestação do MP-SP e destacou que o promotor Marcelo Ramos foi substituído após pedir o arquivamento do caso.

"Na ocasião [da primeira manifestação], o Ministério Público corretamente reconhecera que as acusações veiculadas contra o apresentador se baseavam em 'leituras fragmentadas' de suas falas, tiradas de contexto", afirma em nota.

Os advogados de Monark também argumentam que o influenciador estava, na realidade, expressando sua ideologia anarquista, que segundo essa leitura, defende "liberdade de expressão e associação absolutas em face do Estado".

No dia 27 de março, uma portaria do MP-SP designou Marcelo Ramos para atuar como 2º promotor de Justiça dos Direitos Humanos até o dia 30 de abril.

No dia 31, uma nova portaria designou Ricardo Manuel Castro para ocupar a vaga na primeira quinzena de abril. No dia 7, outra portaria anulou os efeitos da primeira decisão para a segunda quinzena do mesmo mês.

No seu posicionamento, o MP-SP afirma que seus membros, "nos termos da Constituição Federal, gozam de independência funcional para atuar nos procedimentos nos quais oficiam."

O caso remete ao ano de 2022, quando, em conversa com os deputados federais Tabata Amaral (PSB-SP) e Kim Kataguiri (União Brasil-SP) no podcast Flow, Monark criticou o nazismo, mas defendeu a legalização de um hipotético partido nazista no Brasil.

"A esquerda radical tem muito mais espaço que a direita radical, na minha opinião. Eu acho que o nazista tinha que ter o partido nazista reconhecido pela lei. Se o cara quiser ser um antijudeu, eu acho que ele tinha direito de ser", disse Monark.

A fala de Monark precipitou a saída de patrocinadores do Flow e redundou no seu desligamento do podcast. Em 2023, ele se mudou para os Estados Unidos, alegando que o Brasil havia se convertido numa ditadura e que ele era um perseguido político –voltou ao país no ano passado.

Em março de 2024, a Promotoria de Justiça de Direitos Humanos do MP-SP ingressou com uma ação civil pública pedindo a condenação de Monark ao pagamento de R$ 4 milhões por apologia ao nazismo.