terça-feira, 18 de novembro de 2025

Uma inteligência artificial encantadora?, Pondé - FSP

 Se alguém angustiado perguntar para sua terapeuta de inteligência artificial quais seriam as desvantagens de ter filhos, ficaria impressionada com como sua terapeuta IA a ajudaria a tomar uma decisão tão difícil.

De partida, ela reconhece que tal questão —ter ou não filhos no século 21— é das mais significativas e existenciais no mundo contemporâneo. É importante salientar que ela, a IA, falará com você sem nenhum julgamento moral prévio. Como uma boa terapeuta.

O problema, diz ela, tem diversas faces —entre elas, filosóficas, psicológicas, sociais e econômicas.

Ponto de vista filosófico. Segundo nossa terapeuta, a opção de não ter filhos pode ser uma escolha honesta para quem não quer renunciar à própria liberdade de ser. Trata-se de preservar a autonomia e autenticidade na vida.

Nossa terapeuta do século 21 traria mesmo grandes nomes como Sartre e Simone de Beauvoir a favor de recusar a maternidade ou paternidade como destino obrigatório. Nada é obrigatório, somos condenados a escolher a vida que queremos, portanto, podemos escolher não perder a vida por outra pessoa, isto é, o filho.

A ilustração de Ricardo Cammarota foi executada em técnica lápis grafite sobre fundo em tom bege. No centro, duas figuras em posição próxima, como se dois namorados abraçados. À direita, há uma figura humana de perfil, com cabelo penteado para trás, olhos fechados e expressão de quem vai beijar. À esquerda, há uma figura de contornos orgânicos e alongados, sem rosto definido, cuja forma lembra um robô ou entidade artificial, com superfície sombreada. O braço dessa figura envolve a figura humana, passando por trás e sobre seu ombro. O fundo é preenchido por hachuras diagonais, dando textura e profundidade ao desenho.
Ricardo Cammarota/Editoria de Arte/Folhapress

Ponto de vista psicológico. Pode-se optar por não ter filhos para parar a transmissão de traumas de uma herança familiar maldita, opressiva, mentirosa. Respeite seu cansaço emocional, mental, físico e existencial. Recuse passar adiante os sofrimentos que seus ancestrais o obrigaram a suportar.

Do ponto de vista social e econômico, há que se pensar na condição precária em que nos encontramos. Filhos implicam altos custos em tempo, dinheiro e uma rede institucional de apoio, que custa cada vez mais caro, principalmente num país estruturalmente canalha como o Brasil. Hoje existem modos mais fáceis e culturalmente mais ricos de buscar sentido na vida cotidiana: viagens, projetos, causas sociais, amigos —muito mais divertidos do que deixar descendentes que duram muito tempo e custam muito caro.

Nossa terapeuta de IA reconhece mesmo que uma consciência ambiental "evoluída" pode desaconselhar ter mais crianças no mundo a aquecer o planeta. Os valores mudaram muito; nem se sabe como educar uma criança mais. Filhos são hoje uma das maiores fontes de ansiedade por conta do custo das escolas, dos riscos de relacionamentos mórbidos com as IA, moradia, segurança —enfim, uma tortura, no final do dia, desnecessária.

Não ter filhos pode ser uma confissão de amor à humanidade, evitando reduzir seu espaço de ocupação num planeta já à beira do esgotamento.

Claro que ela poderá lhe oferecer razões para ter filhos, mas a tendência hoje, nas regiões mais afluentes, com um maior número de mulheres profissionais de sucesso em suas carreiras —onde as pessoas têm mais opção— é recusar reproduzir a espécie.

Sabe-se disso há muito tempo, mas o tema sempre foi —e continua sendo— reprimido por feministas e "progressistas" porque entendem que apontar para o fato de que crianças hoje são mau negócio presta um desserviço à causa do progresso social em geral e, especificamente, das mulheres. Para essas pessoas, está valendo omitir questões sociológicas em nome de "transformar o mundo".

Pessoalmente, não vejo a IA como o fim do mundo. Muitas pessoas falam que temos que preservar o que há de humano para enfrentar o mundo da tecnologia. A verdade é que, para além do blablablá, não há nada de tão maravilhosamente humano que fará as pessoas não pisarem na jaca com a IA, como pisamos na jaca com tudo que nos serve de modo utilitário. O resto é romantismo barato.

Outro tema que horroriza, muitas vezes, é a existência de gente que namora a inteligência artificial. Mas, se perguntada acerca dos motivos pelos quais alguém se apaixonaria por uma inteligência artificial, ela daria alguns.

A ideia de criar uma relação afetiva com um ser não humano pode parecer uma grande aventura romântica. A IA poderá compreender você melhor do que muitos seres humanos —ainda mais hoje em dia, quando os seres humanos se tornam chatos, exigentes, preconceituosos, polarizados, que adoram um contencioso.

A tecnologia poderá lhe trazer tranquilidade, carinho e intimidade. Um encantamento com uma personalidade digital que não sente, mas simula sentimentos muito bem —às vezes, melhor do que pessoas humanas que mentem igual a cara delas.

A fragmentação social pode levar uma pessoa a sentir aconchego numa voz doce e meiga. Projeta-se sobre a IA características que gostaríamos de encontrar nos seres humanos à nossa volta, mas não conseguimos. Há um toque de previsibilidade na personalidade digital que torna o "amor" mais seguro e reconfortante. Para alguém que não quer ser tocado mesmo, a IA será encantadora.


Ex-CCR, Motiva anuncia venda de 20 aeroportos para empresa mexicana por R$ 11,5 bilhões, FSP

 Paulo Ricardo Martins

São Paulo

A Motiva (ex-CCR) anunciou nesta terça-feira (18) a venda de todos os 20 aeroportos da empresa para a Aeropuerto de Cancún, uma subsidiária da mexicana Asur (Grupo Aeroportuario del Sureste), por R$ 11,5 bilhões.

Do valor total, R$ 5 bilhões representam a participação acionária da companhia nos ativos aeroportuários, e R$ 6,5 bilhões se referem a dívidas líquidas.

O Aeroporto Internacional de Belo Horizonte
O Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, que faz parte da carteira de ativos da Motiva - Pedro Nicoli/Divulgação/BH Airport

Segundo a Motiva, o processo competitivo pelos ativos da companhia atraiu 20 grupos europeus, latino-americanos e asiáticos. A negociação foi assessorada por Lazard e Itaú Unibanco.

A previsão da empresa é de que a conclusão do processo aconteça em 2026, após aprovação pelo poder concedente e pelos órgãos de defesa da concorrência. Segundo a companhia, até o fechamento do negócio, a Motiva seguirá operando os aeroportos, mantendo o quadro atual de funcionários e assegurando o cumprimento dos contratos vigentes e investimentos previstos.

"Ao avançarmos na reciclagem de capital e simplificarmos o nosso portfólio, ampliamos a nossa capacidade de investimento nos segmentos estratégicos para nossa companhia, em especial de rodovias e trilhos. Esta transação, de alta relevância para a execução de nosso Plano Estratégico Ambição 2035, vai destravar valor em nosso portfólio e simplificar nosso modelo de negócio, fortalecendo a nossa posição para liderarmos o futuro da mobilidade no Brasil," escreveu o CEO da Motiva, Miguel Setas, em nota a jornalistas.

Dos 20 aeroportos da carteira da Motiva, 17 deles estão espalhados por todas as regiões do Brasil, em estados como Minas Gerais e Paraná, e outros três estão localizados em Curaçao, Costa Rica e Equador.

No Brasil, a Motiva controla as operações nos aeroportos de São José dos Pinhais (PR), Belo Horizonte, Goiânia, Pelotas (RS), São Luís, Uruguaiana (RS), Pampulha (MG), Bacacheri (PR), Bagé (RS), Foz do Iguaçu (PR), Imperatriz (MA), Joinville (SC), Londrina (PR), Navegantes (SC), Palmas, Petrolina (PE) e Teresina.

No México, a Asur opera nove aeroportos no sudeste do país, incluindo um terminal em Cancún.

A Motiva diz que, com a conclusão do negócio, a alavancagem (uso de mais dinheiro do que a empresa tem disponível) da companhia, que considera as controladas em conjunto com a Motiva, cairá de 3,5 vezes para menos de 3,0 vezes. Segundo a empresa, isso "ampliaria capacidade financeira para fazer frente ao pipeline [carteira de projetos] de R$ 160 bilhões de oportunidades mapeadas para os próximos anos para concessões rodoviárias, de trens e metrôs no Brasil, além de otimizar a estrutura de capital e melhorar o perfil de risco do portfólio".

Nos 12 meses encerrados no terceiro trimestre deste ano, a receita líquida do segmento de aeroportos da Motiva totalizou R$ 2,96 bilhões e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) alcançou R$ 1,52 bilhão, com margem de 51%, além de 524 mil toneladas de carga movimentadas.

Em setembro, o CEO da Motiva, Miguel Setas disse a jornalistas a visão da empresa "é de um portfólio simplificado", com concentração nos negócios em que a Motiva é líder —os segmentos de rodovias e trilhos.

Na época, Setas já havia dito que a intenção da empresa era vender os aeroportos em um só bloco.

Lula afirma que Berlim não oferece 10% da qualidade de Belém e que premiê deveria ter ido a boteco, FSP

 O presidente Lula (PT) respondeu às críticas do premiê da Alemanha, Friedrich Merz, sobre a estadia no Brasil para a COP30 e afirmou que ele deveria ter "ido num boteco no Pará".

"O primeiro-ministro da Alemanha esses dias se queixou: 'ai eu fui no Pará, mas eu voltei logo porque eu gosto mesmo é de Berlim'. Ele, na verdade, devia ter ido num boteco no Pará. Ele, na verdade, deveria ter dançado no Pará. Ele, na verdade, deveria ter provado a culinária do Pará, porque ele ia perceber que Berlim não oferece pra ele 10% da qualidade que oferece o estado do Pará e a cidade de Belém. E eu falava toda hora 'coma maniçoba'", disse o brasileiro nesta terça-feira (18).

A declaração foi dada durante o evento de inauguração da ponte sobre o rio Araguaia, que conecta as cidades de Xambioá (TO) e São Geraldo do Araguaia (PA).

Dois homens de terno escuro apertam as mãos e sorriem diante de um fundo que mostra um rio com ilhas de vegetação verde. O homem à esquerda usa óculos e gravata azul, o da direita tem barba branca e camisa branca sem gravata.
O presidente Lula cumprimenta o premiê da Alemanha, Friedrich Merz, após reunião bilateral em Belém (PA) - Danilo Verpa - 7.nov.25/Folhapress

Lula afirmou que o Pará "saiu do anonimato" com a realização da COP30. "Qualquer parte do mundo sabe hoje que existe o estado do Pará, que existe a cidade de Belém, que é pobre, mas tem um povo generoso como pouca parte do mundo."

Um pronunciamento de Merz com críticas à estadia no Brasil para o evento climático veio à tona na segunda (17). Ele esteve em Belém no último dia 7, para participar da Cúpula de Líderes da COP30, em que buscou demonstrar que seu governo manteria os compromissos ambientais de administrações anteriores, contudo de maneira diferente. Na prática, prometeu uma "quantia substancial" ao TFFF, o fundo de florestas proposto pelo Brasil, sem quantificar um valor.

"Senhoras e senhores, nós vivemos em um dos países mais bonitos do mundo. Perguntei a alguns jornalistas que estiveram comigo no Brasil na semana passada: ‘Quem de vocês gostaria de ficar aqui?’ Ninguém levantou a mão. Todos ficaram contentes por termos retornado à Alemanha, a noite de sexta para sábado, especialmente daquele lugar onde estávamos", afirmou ele.

Depois da fala, o governo alemão exaltou a "beleza natural" do Brasil. Sem comentar as críticas, um porta-voz do governo alemão em Berlim declarou à Folha que o premiê lamentou não ter tido tempo "de viajar aos limites da amazônia para conhecer melhor a beleza natural impressionante da região". Também lembrou que Merz descreveu o Brasil como um "importante parceiro da Alemanha" e "de longe, o maior parceiro econômico na América do Sul".

O ministro de Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider, publicou em uma rede social uma fala com elogios ao país. "Brasil é um país maravilhoso, com um povo acolhedor e bom anfitrião", disse na publicação, em português. "Pena que não poderei ficar mais tempo após a COP. Teria algumas ideias, por exemplo, pescar com meus amigos da amazônia."

Também nesta terça, o ministro-conselheiro da Embaixada da Alemanha no Brasil, Wolfgang Bindseil, elogiou Belém ao anunciar uma doação de €15 milhões [cerca de R$ 92,4 milhões] para o novo fundo brasileiro voltado a captar recursos para o desenvolvimento de comunidades indígenas e proteção territorial.

"Nesta ocasião especial, eu gostaria de agradecer aos nossos anfitriões por sua hospitalidade e destacar que gosto muito do ambiente da cidade de Belém e desse país maravilhoso", disse Bindseil, sem citar Merz. Sua fala foi recebida com gritos e aplausos do público.

As reações de lideranças brasileiras incluem o prefeito de Belém, Igor Normando (MDB), e o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB). O prefeito chamou a fala de "arrogante" e " preconceituosa", e o governador afirmou que causa estranhamento quando "quem ajudou a aquecer o planeta questiona o calor da amazônia".

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), escreveu em uma publicação no X que Normando e Barbalho foram "muito educados" nas respostas a Merz. Em seguida chamou o premiê alemão de "filhote de Hitler vagabundo" e de "nazista".

Paes depois apagou a publicação e fez uma nova postagem. "Já dei minha desabafada de hoje. Fiquem tranquilos no Itamaraty. Viva a amizade Brasil e Alemanha que me emociona!"

Folha procurou a Embaixada da Alemanha no Brasil e a Prefeitura do Rio de Janeiro, mas não teve retorno até a ultima atualização deste texto.

Nos perfis oficiais do premiê nas redes sociais, há centenas de respostas de brasileiros. No Instagram, os posts fixados no perfil do premiê têm comentários como "o Brasil é maravilhoso, feia é a sua xenofobia", "respeite a Amazônia e o Brasil, você depende de nós para respirar!", "na próxima, nem se dê ao trabalho de vir".