terça-feira, 18 de novembro de 2025

O agente secreto, mas não tanto, Vera Iaconelli, FSP

 A propaganda ressaltava o fato de que o porta-malas do Ford Galaxie 1968 era espaçoso. Para ilustrar a chamada, vê-se o bagageiro aberto com uma mulher deitada, a boca amordaçada e os braços presos atrás do corpo sob o slogan: "agentes secretos acham bastante razoável o espaço do porta-malas do Galaxie".

Fazia quatro anos que estávamos sob o jugo da ditadura e a desfaçatez da peça é a prova de que o perverso não se contenta com o próprio ato. Precisa exibi-lo para melhor gozar dele, pois a obscenidade é parte integrante da cena.

O infame anúncio nos remete às imagens que compõem o último filme de Kleber Mendonça, "O Agente Secreto".

Propaganda do Ford Galaxie de 1968
Propaganda do Ford Galaxie de 1968 - Reprodução

Desde a primeira tomada —uma abertura que já nasceu clássica— somos confrontados com o horror do qual a obra trata. A câmera sobrevoa o Fusca de Wagner Moura, impecável no papel, entrando num posto de gasolina de beira de estrada. Ela segue até a altura do chão de terra batida onde se vê, em primeiro plano, a sola dos pés de alguém coberto com um papelão. Tá lá o corpo estendido no chão. Nessa cena memorável, temos a estética, o assombro e o humor macabro que nos acompanharão durante três horas de projeção que passam voando.

A feiura impera nas locações, nos personagens, na arbitrariedade, na violência explícita. É o Brasil antiturístico, que Narciso acha feio. Mas se engana quem pensa que é uma obra restrita ao período que lhe serve de pano de fundo, anos de chumbo.

O que vimos recentemente no Rio de Janeiro —121 mortes perpetradas pelo poder público— prova que Mendonça fala de hoje, e está longe de carregar nas tintas.

A propaganda do Galaxie nos lembra postagens diárias de comemoração dessas mortes, de alusão ao extermínio de jovens negros e outros chorumes que circulam impunemente pela internet. Que se trate de um anúncio oficial da Ford serve para lembrar da participação do empresariado no financiamento da ditadura.

Como vimos na Operação Carbono Oculto, Faria Lima, crime organizado e políticos corruptos precisam falar a mesma língua para se manter no poder. A tentativa de enfraquecer a Polícia Federal depois da bem-sucedida operação, isenta de mortes, não aponta para outra coisa.

Mendonça também lembra que reportagem recente mostra que, durante a Guerra da Bósnia, vislumbrou-se uma oportunidade turística. Italianos entediados saíram de férias para fazer um esporte radical: atirar em homens, mulheres e crianças durante o conflito dos Bálcãs. Não estavam em trincheiras enlameadas em pleno front defendendo ideais ou territórios, mas sob prédios bem seguros, brincando de tiro ao alvo.

Afinal, quem compraria uma arma se não alimentasse o sonho nada secreto de atirar em alguém? Pelo prazer de treinar a pontaria bastaria o paintball. "Bacurau" forever.

"O Agente Secreto" tem pontas soltas no roteiro e a captação do som segue sendo um problema do nosso cinema, mas nada que arranhe a magnitude da obra.

Se não bastasse o feito, somos agraciados com o reencontro com a atriz Tânia Maria, num papel que homenageia todas as mulheres que, não participando dos desmandos masculinos no poder, nunca desistem de lutar contra eles.

Vida longa ao cinema de Kleber Mendonça e sua bela trupe denunciando a triste atualidade do mal.

'Novas Diretrizes em Tempos de Paz' retorna ao palco em montagem singular, FSP

 Originalmente apresentada em 2002, com destaque para as atuações de Tony Ramos e Dan Stulbach, a peça "Novas Diretrizes em Tempos de Paz", de Bosco Brasil, retorna em uma nova encenação que é bem mais que uma simples remontagem. Sob a direção de Eric Lenate e Vitor Julian, a produção se reinventa sem perder a essência, um processo impulsionado pelo estímulo do elenco original e por cinco meses de intensa pesquisa e desenvolvimento.

Esse mergulho aprofundado no texto permitiu a Lenate, que também interpreta o refugiado polonês Clausewitz, e a Fernando Billi, no papel do funcionário da alfândega Segismundo, construir performances de notável riqueza. Lenate ressalta o poder metalinguístico da arte como resistência, enquanto Billi confronta o arquétipo do vilão, retratando seu personagem como um burocrata que sempre se limitou a cumprir ordens, trazendo à tona a perturbadora questão da banalidade do mal.

Essa profundidade de preparação posiciona a montagem como inspiração para artistas que buscam atualizar obras clássicas. A trama, ambientada em 1945 no porto do Rio de Janeiro, onde Clausewitz e Segismundo travam um conflito pela obtenção de um salvo-conduto, torna-se metáfora sobre memória e humanidade em contextos de opressão. A encenação ganha força adicional por suas escolhas estéticas: um cenário giratório que deixa o público simbolicamente preso a ciclos repetitivos de tirania, e uma trilha sonora incessante que cria uma atmosfera angustiante, estimulando a reflexão sobre traumas persistentes.

A temporada, que se inicia em São Paulo após a estreia na Festa Internacional de Teatro de Angra e segue no Teatro Estúdio até fevereiro de 2026, mostra-se assim ainda mais relevante no atual clima político. A peça aborda de frente temas como autoritarismo e a erosão da democracia, levando-nos a questionar até que ponto somos responsáveis por nossas ações ou apenas marionetes de processos históricos. Esta comparação entre a apresentação de 2002 e a de 2025 expõe como a mudança no zeitgeist político não apenas exige, mas também facilita novas leituras radicais, estabelecendo uma ponte crítica entre o passado e o presente e consolidando a obra como um importante estudo de caso para o teatro brasileiro.

Três perguntas para…

… Eric Lenate

Como diretor, de que maneira o atual clima político e social brasileiro moldou a sua abordagem e a leitura do texto de Bosco Brasil? Houve alguma cena ou fala que ganhou um peso radicalmente diferente hoje?

Sempre vai me despertar, no mínimo, inquietação, qualquer pessoa que repita a frase "eu estava cumprindo ordens" para justificar qualquer equívoco, ou qualquer ato ou atividade violenta, nefasta, executada por ela. Como Adolf Eichmann, "gerente logístico" do Holocausto de Adolf Hitler. E como Segismundo, personagem de nossa peça, um ex-torturador da Polícia Política do período do Estado Novo de Getúlio Vargas. Temos nos deparado, ao longo da história e em momentos do presente, com eventos de intolerância, destruição e cerceamento, geralmente dinamizados por cidadãos comuns, como você e eu, que vestem fardas ou as cores de seu país, em gesto simbólico de lealdade patriótica.

Mas sempre conseguimos perceber um certo padrão: estão a mando ou respondendo a estímulos diretos ou enviesados de uma figura de liderança. Ou um "salvador", porque essa figura de liderança por vezes assume contornos de um líder carismático quase messiânico. E quando você está imbuído da paixão por seu "Messias Salvador" e não analisando criticamente as atitudes e ordens de sua governança, a tendência de você agir e causar estragos por estar acometido de uma espécie de dissonância cognitiva é bastante grande.

O perigo da desconexão com a realidade e os fatos é enorme. Em ocasiões assim, "isso eu não devo, não quero fazer" talvez não seja uma reflexão muito nítida habitando nossa consciência, porque nossa bússola ética e moral pode estar com defeito. E não acredito que essas questões e preocupações sejam exclusivas da sociedade brasileira.

Uma palavra, especificamente, repetida algumas vezes no texto, nos chama bastante atenção: "sujeito". Bosco nos provoca à reflexão sobre essa palavra. Quando somos sujeitos de nossa própria história – como o sujeito que age sobre o verbo de uma frase –, que têm condições de agir de acordo com nossa própria vontade, orientados de acordo com uma espécie de bússola ético-moral? E quando somos figuras sujeitas a um determinado ordenamento histórico, sem capacidade de livre-arbítrio, seja por cerceamentos e impedimentos, por incapacidade própria de discernimento, ou mesmo até por esmagamento vindo de uma força muito maior?

O cenário giratório é uma escolha estética marcante. Poderia detalhar como essa ideia surgiu e o que ela busca representar, simbolicamente?

Entre tantas características que tornam "Novas Diretrizes em Tempo de Paz" uma obra de grande magnitude e importância, tanto pelo conteúdo quanto pela forma, é importante analisarmos o espaço e o tempo, duas categorias centrais para a construção dos sentidos da obra. Ambos estão marcados por uma ordenação ambígua, bastante condizente com o misto de alívio e perplexidade com que o mundo assistia ao fim da Segunda Guerra Mundial e ao fim do período varguista do Estado Novo, ambos findos em 1945.

A sensação de não saber muito bem onde estamos – mesmo com a indicação precisa do lugar em que a ação se passa –, nem o que ocorrerá a seguir – embora saibamos a data exata em que os acontecimentos se desenvolvem – acentua o contexto de encruzilhada histórica que a obra representa. Toda a ação se passa no escritório de uma repartição pública, no setor de imigração, na zona portuária do Rio de Janeiro de 1945.

Trabalhamos com elementos no cenário que emulam uma atmosfera "kafkiana": pilhas e mais pilhas de papéis e pastas que remetem a arquivos de depoimentos, formando uma espécie de labirinto dentro do qual os personagens se movimentam. São elementos cenográficos que elegemos como manifestação estética de uma burocracia infindável e assustadora.

A intenção é causar no público uma certa inquietação por ele não saber quantas daquelas "pendências" foram resolvidas ou aguardam por resolução. Pretendemos que este ambiente seja percebido pelo público como uma extensão física do personagem Segismundo, em toda sua aura e status de burocrata por excelência.

Não obstante, nossa intenção com essa escolha é criar para o público – apesar da determinação física do espaço geográfico – uma forte sensação de um "não-lugar". Não só pela sensação de indistinção que emerge da uniformidade austera e sem vida das cores e formas que utilizamos, mas também pela condição indeterminada que esse espaço revela para os planos de Clausewitz, o imigrante que chega ao Brasil em busca de refúgio e recomeço.

Ou seja, o espaço onde se desenrola o futuro do imigrante não é a porta de entrada para o país que ele idealizou, como também não é a Europa em guerra, que representa seu passado manchado pela violência do conflito. Estamos no limbo, em uma espécie de purgatório, onde será selado o destino de Clausewitz, seja para uma improvável redenção no Brasil ou para a perpetuação do pesadelo da guerra.

Estamos, portanto, em um lugar geograficamente determinado, mas subjetivamente indeterminável; circunscrito pelo "real", mas, ao mesmo tempo, tiranizado pelo arbítrio de Segismundo, que rompe os protocolos e regulamentos, lhe conferindo certa autonomia enquanto alega aguardar de seu governo as "novas diretrizes para tempos de paz".

Esta arquitetura cenográfica está disposta sobre uma plataforma circular de 6 metros de diâmetro, que gira em torno de si mesma sobre o palco, remota e lentamente, durante toda a duração do espetáculo. A intenção, com o uso desta plataforma giratória, é ressaltar para o público os aspectos ritualísticos e elípticos desta situação de indeterminação e espera, como também fornecer para o público perspectivas incontáveis de observação e adentramento nessa história.

O tempo dúbio, gravitando em torno de si próprio em uma conjuntura histórica nebulosa, de imprevisível transição – nem guerra, nem paz, só espera – e o não-lugar da sala de interrogatório reforçam o clima de impasse, urgência e sufocamento, como uma corrida ávida para a liberdade, pautada pela intermitente e incômoda buzina do navio que leva de volta os recusados.

Que conselho você daria para outros diretores que desejam revisitar textos clássicos ou consagrados do teatro brasileiro sem cair na simples reprodução?

Acredito que o primeiro passo possa ser estudar profundamente o texto e identificar os pontos de contato entre sua experiência como ser vivente e esse texto. Não necessariamente procurando alguma identificação de cunho biográfico, mas antes procurando entender que forças esse texto movimenta em você. O que o move a reencenar essa obra? Acredito que o próximo passo possa ser conseguir mapear quais questões o texto levanta que ainda são pertinentes para o hoje.

Textos acabam por se consagrar e se tornar clássicos justamente por agregarem, entre outras, duas características que considero principais: qualidade estética exemplar e relevância temática atemporal. Quando me deparo com a possibilidade de reencenar uma obra dramatúrgica que alçou o status de clássica, procuro sempre ficar atento aos elementos que podem atestar essas duas características. Enquanto essa análise ocorre, procuro estudar e entender de que maneira posso contribuir com uma materialização cênica singular desse texto.

Teatro Estúdio – rua Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, região central. Sex. e sáb., 20h. Dom., 16h. Até 8/2. Duração: 80 minutos. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em sympla.com.br