domingo, 16 de novembro de 2025

Derrite contra a Polícia Federal, Elio Gaspari, FSP

 Se Guilherme Derrite fosse um transeunte laçado na praça dos Três Poderes para redigir um projeto de combate ao crime organizado, teria sido compreensível a barafunda que ele produziu com as várias versões de seu relatório para o projeto de lei contra as facções criminosas.

Infelizmente, Derrite é um veterano policial e secretário de Segurança do governador Tarcísio de Freitas, possível candidato a presidente da República. Mais: Derrite é um deputado federal e provável candidato ao Senado em nome do que seria um desejo do eleitorado por mais segurança. Foi laçado pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, para relatar o projeto de lei contra as facções criminosas.

Quatro autoridades em traje formal participam de cerimônia ao ar livre. Dois homens à esquerda fazem continência, o terceiro homem e a mulher à direita observam em posição de atenção. Público e policiais aparecem ao fundo.
Governador Tarcísio de Freitas e Guilherme Derrite, então secretário de Segurança Pública durante evento em Sorocaba - Eduardo Knapp - 15.ago.2025/Folhapress

Com quatro versões, Derrite produziu um monstrengo, revelador dos interesses estabelecidos na máquina da segurança do país.

Tome-se como exemplo a limitação que Derrite quis impor à Polícia Federal. Seu primeiro relatório estabelecia que a PF só poderia investigar depois de ter havido uma solicitação do governador do estado. Gracinha. Existem crimes federais, como o tráfico de armas e de drogas, mas a PF dependeria de uma licença dos governadores.

Se esse sistema existisse nos Estados Unidos do século passado, teriam continuado as execuções de ativistas que lutavam contra a bandidagem racista de estados do Sul. Quem viu o filme "Mississippi Burning" sabe do que se trata. A bandidagem racista operava com o apoio de governadores, juízes e policiais. Foi a Polícia Federal quem desarmou as tramas.

Lá, a Federal chama-se Federal Bureau of Investigation, o FBI. Foi dirigido de 1924 a 1972, quando morreu, por J. (de John) Edgar Hoover. Sujeito detestável, grampeava inimigos, chantageava políticos e presidentes. Solteirão misógino, foi um mau exemplo, mas criou uma instituição robusta e honesta (à sua maneira). Hoover foi um mau exemplo, mas criou e protegeu uma instituição exemplar.

Com esse nome, a Polícia Federal brasileira surgiu em 1967. Desde então, ela se tornou, de longe, a mais respeitada instituição policial do país. Derrite queria que ela pedisse licença aos governos estaduais para desempenhar suas funções. O deputado-secretário é capitão da reserva da PM paulista, onde fez fama na tropa de elite da Rota.

O Primeiro Comando da Capital operava sua rede de postos gasolina, empresas e fintechs de São Paulo há décadas. Graças à Operação Carbono Oculto, do Ministério Público e da Polícia Federal, parte dessa máquina foi desmontada, isso sem um só tiro. A Operação Escudo da polícia de Tarcísio e Derrite matou 28 pessoas num só mês de 2023. Quase todos pretos pobres e moradores da periferia.

Com sua proposta de emasculação da Polícia Federal, Derrite mostrou que, enquanto o crime está organizado, o Governo de São Paulo tornou-se, na melhor das hipóteses, uma bagunça.

Moraes parece disposto a testar Bolsonaro, septuagenário de saúde e nervos abalados, Elio Gaspari, FSP

 Em 2018 discutia-se onde Lula deveria cumprir sua condenação. Deram-lhe uma solitária light na Polícia Federal de Curitiba. Ficava sozinho numa sala com cama, mesinha e banheiro. Não podia deixá-la e para se comunicar com os carcereiros devia bater na porta.

Passaram-se sete anos, Lula foi exonerado pelo Supremo Tribunal, elegeu-se presidente da República e tem dois palácios em Brasília. O assunto renasceu com a prisão de Jair Bolsonaro. Ele está em prisão domiciliar, condenado a 27 anos de cárcere pelo STF.

Jair Bolsonaro frente a Alexandre de Moraes durante segundo dia de julgamento no STF dos acusados da trama golpista - Gabriela Biló - 10.set.2025/Folhapress

O ministro Alexandre de Moraes parece disposto a testar o prisioneiro, um septuagenário de saúde e nervos abalados. Ele iria para uma ala light da penitenciária da Papuda. Não se faz isso com um ex-presidente. Para quem detesta Bolsonaro, uma ala light seria leve demais. Para quem gosta do ex-capitão, ele deveria cumprir a pena em casa como faz o ex-presidente Fernando Collor.

Em qualquer caso, como o de Lula, o Brasil deveria olhar para o exemplo que a França deu ao mundo ao encarcerar o ex-presidente Philippe Pétain. Ele era um marechal octogenário que assumira poderes ditatoriais depois da invasão alemã, em 1940. Caso clássico de traição nacional, estava condenado à morte. Foi colocado numa fortaleza, onde recebeu um quarto, com uma pequena sala anexa. Lá, Pétain morreu de causas naturais, em 1951.

Bolsonaro é um ex-presidente da República levado ao poder pelo voto popular. Quando ele arrisca ser mandado para uma rotina semelhante à de um marechal usurpador e colaboracionista, alguma coisa está errada.

Flávio candidato

Flávio Bolsonaro é candidato a presidente da República. Como sucede a todos os candidatos da bancada oposicionista, seu principal adversário é o governador paulista Tarcísio de Freitas, que diz preferir a reeleição.