sexta-feira, 14 de julho de 2023

ESTADÃO / POLÍTICA Jorge Quem é o secretário exonerado pelo prefeito de São Paulo por dizer que ‘planeta se salva sozinho’

 


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SÃO PAULO – À frente da Secretaria da Mudanças Climáticas do município de São Paulo desde maio de 2021, Antonio Fernando Pinheiro Pedro foi exonerado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) nesta quinta-feira, 13, após repercussão de declaração do secretário durante fórum de discussão sobre mudanças climáticas. O chefe da pasta disse que o “planeta se salva sozinho” do aquecimento global e que a Terra não será salva pelas pessoas. Segundo a prefeitura, o pedido de exoneração foi feito pelo próprio Pinheiro Pedro.

Advogado e consultor ambiental, o ex-secretário é sócio de um escritório de advocacia chamado Pinheiro Pedro, de onde esteve afastado desde quando assumiu a Secretaria da Mudanças Climáticas. Estudou na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) entre os anos de 1978 e 1984 e fez especialização em Direito Privado e Processo Civil.

Antonio Fernando Pinheiro Pedro foi exonerado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) nesta quinta-feira, 13
Antonio Fernando Pinheiro Pedro foi exonerado pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB) nesta quinta-feira, 13 Foto: Divulgação/Antonio Fernando Pinheiro Pedro

No currículo dele, constam passagens por grupos relacionados ao meio ambiente, como a presidência da Comissão de Meio Ambiente da Ordem dos Advogados do Brasil na sessão de São Paulo (OAB-SP) e do comitê de Meio Ambiente da Câmara Americana de Comércio (Amcham), além de consultorias para o Banco Mundial e órgãos de justiça ligados à Organização das Nações Unidas (ONU).

Pinheiro Pedro tentou se candidatar duas vezes. A primeira foi em 2002, filiado ao Partido Verde, quando disputou a vaga de governador de São Paulo. Na época, obteve 52 mil votos (0,27% dos votos válidos). Após 12 anos, em 2014, concorreu como 1º suplente de senador no Estado, mas também não obteve sucesso.

Declaração foi rebatida por procuradora

Política

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A exoneração de Pinheiro Pedro veio após a repercussão da fala do ex-secretário em junho de 2023 ganhar repercussão nas redes sociais. No lançamento do Fórum Permanente de Mudanças Climáticas e Desastres Ambientais na sede paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), afirmou que o “planeta se salva sozinho” do aquecimento global e que a Terra não será salva pelas pessoas.

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“O planeta não será salvo por nós. Ninguém salva o planeta Terra. Geralmente, ele se salva sozinho. Ele o faz a quatro bilhões e trezentos milhões de anos, e muda o clima em todo esse período. Quando o planeta se salva, ele geralmente se livra do que está na superfície dele. Já o fez várias vezes”, disse. “Nós somos parte do problema para a vida na Terra neste momento, mas a nossa solução é muito pequena. Os fatores são de ordem geológica, cósmica e solar”, disse.

A explanação dele foi rebatida pela procuradora federal Georgia Sena Martins, doutora em Geociências pela Unicamp, que o chamou de “negacionista”. “Desculpa, mas o senhor está negando toda a existência deste fórum, toda a ciência, todos os relatórios do IPCC, todos os estudos feitos até hoje. O senhor é um negacionista”, disse. “O que o senhor está falando não tem qualquer fundamento científico. O senhor está falando com base em achismos. Estamos em um fórum de mudanças climáticas e o senhor está negando as mudanças climáticas e falando um rosário de besteiras.”

Após a exoneração, Pinheiro Pedro afirmou em nota que foi vítima de “difamação”. “Sou leal e não permitirei que esse lixo difamatório atinja o gabinete do prefeito. Por isso, peço minha demissão”, justificou o secretário. A Prefeitura disse, por meio de nota, que Nunes esteve reunido com Pedro na tarde desta quinta e que a exoneração foi a pedido do secretário.

Ao anunciar sua saída do cargo, o secretário ainda sustentou que não tentou diminuir a influência dos seres humanos nos efeitos climáticos do planeta. “O fato de declarar que o planeta Terra passa por ciclos há quatro bilhões de anos e, por óbvio, sempre se ‘salvou’ sozinho, em nada se confunde com os esforços da humanidade para sobreviver e manter condições de clima e interação ecossistêmica”, defendeu em nota.

Leia a íntegra da nota do secretário

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NOTA À IMPRENSA

Caros amigos,

Muito se diz e pouco se faz a respeito da resiliência e adaptação da humanidade em face das mudanças climáticas.

Na Prefeitura de São Paulo, resolvi FAZER, e obtivemos enormes avanços na área da gestão climática – que tornaram a gestão paradigma internacional.

Sob a batuta do Prefeito Ricardo Nunes, ampliamos a cobertura vegetal da Cidade de São Paulo, de 48% para 54%, em dois anos.

Estamos em vias de entregar uma frota de quase dois mil ônibus elétricos, executando o maior programa de descarbonização do transporte público no continente.

Embargamos mais de 200 hectares de áreas ilegalmente loteadas, em mais de 50 operações de defesa das águas, recuperando terreno num combate sem precedentes contra a especulação imobiliária, levada a cabo pelo crime organizado.

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Implementamos um Plano Climático para a cidade, com resultados mensurados e registrados em relatório, apresentado publicamente na data de ontem, 12 de julho, e já em sua segunda edição anual, envolvendo todas as secretarias e órgãos municipais.

Implantamos pelo segundo ano um Plano Preventivo de Chuvas de Verão, com o menor índice de danos nos últimos 18 anos, enfrentando o pior índice de precipitação de chuvas dos últimos cinco anos.

Fazemos, portanto, nossa parte no esforço global de enfrentamento às alterações do clima.

No entanto, fomos surpreendidos pela divulgação de uma gravação, montada fora do contexto, com objetivo difamatório, que busca extrair das declarações feitas conclusões absurdas.

Com efeito, as afirmações em nada se confundem com nossos esforços humanos de sobrevivência e manutenção das condições de clima e temperatura, que permitam resiliência e interação ecossistêmica.

O fato de declarar que o planeta terra passa por ciclos há quatro bilhões de anos e, por óbvio, sempre se “salvou” sozinho, em nada se confunde com os esforços da humanidade para sobreviver e manter condições de clima e interação ecossistêmica. Há uma sutileza nisso tudo. Nós estamos tentando melhorar nossa resiliência, se falharmos, o planeta seguirá procedendo a seus ciclos, com ou sem nós.

Não somos Deus, não determos poder sobre processos físicos que transcendem nossa capacidade. Essa constatação é de humildade e de alerta – jamais foi uma negação do protagonismo humano nas alterações sofridas na atmosfera do planeta, desde a revolução industrial.

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Nada do que foi dito, se enquadra no contexto “negacionista” impingido de forma difamatória nas redes sociais. Muito menos a ação efetiva da gestão se enquadra nesse conflito artificialmente criado.

Fui vítima de um crime: DIFAMAÇÃO. Tenho quatro décadas de trabalhos dignos desenvolvidos em prol do meio ambiente de da construção da própria legislação ambiental e do clima.

Os loteadores ilegais, o crime organizado, os lacradores, os levianos, foram o alvo de nossa gestão. Espero que com minha saída não vençam.

A lealdade é a cicatriz no caráter do ser humano. Sou leal e não permitirei que esse lixo difamatório atinja o gabinete do prefeito. Por isso peço minha demissão.

Obrigado.

Antonio Fernando Pinheiro Pedro

ESTADÃO / SÃO PAULO Obra de túnel parada há 5 anos na região da Chucri Zaidan será retomada; veja onde

Entregues parcialmente em 2018, as obras viárias complementares ao prolongamento da Avenida Chucri Zaidan serão retomadas pela Prefeitura de São Paulo neste semestre. Essa etapa envolve a retomada da construção do túnel sob a Avenida Cecília Lottenberg (antiga Rua José Guerra) e a implementação de uma rampa de acesso para ciclistas junto à Ponte Laguna, no distrito Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Especialistas ouvidos pelo Estadão divergem se a passagem subterrânea terá impacto efetivo em reduzir os engarrafamentos na região.

O consórcio ou empresa responsável pela obra terá o nome divulgado em 28 de julho, com um contrato de 36 meses e possível entrega em 2025. A licitação foi retomada com ajustes após a liberação do Tribunal de Contas do Município (TCM), que suspendeu o edital anterior por quatro meses ao constatar mais de 20 “infringências/irregularidades”, como o apontado sobrepreço em alguns itens.

O valor estimado foi reduzido de R$ 527 milhões para R$ 442 milhões. Segundo a Prefeitura, embora seja uma obra da Operação Urbana Água Espraiada, os recursos não virão dessa fonte, mas do Fundo de Desenvolvimento Urbano (Fundurb), voltado prioritariamente a obras de habitação e mobilidade.

Entradas do túnel na Av. Cecília Lottenberg começaram a ser construídas, mas obra está parada desde 2018
Entradas do túnel na Av. Cecília Lottenberg começaram a ser construídas, mas obra está parada desde 2018 Foto: Taba Benedicto/Estadão

Na prática, serão duas passagens subterrâneas, uma em cada sentido e com duas pistas da via, que é uma extensão da Chucri Zaidan, um dos principais endereços corporativos paulistanos. A extensão total chegará a cerca de 880 metros, voltados a funcionar como ligação alternativa à Marginal do Pinheiros.

Os acessos do túnel são hoje visíveis, pois foram parcialmente construídos antes da entrega parcial da obra. A justificativa para manter a construção inacabada por cinco anos foi que “fatores que consumiram mais recursos do que o previsto, como desapropriações e adequações de projeto”, conforme nota enviada pela gestão Ricardo Nunes (MDB). A Prefeitura diz que a passagem subterrânea vai promover “uma melhoria na mobilidade urbana da região”.

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O edital envolve, ainda, a instalação da rampa cicloviária em uma estrutura metálica junto à Ponte Laguna (voltada a conectar a região à outra margem do Rio Pinheiros) e o alargamento da Cecília Lottenberg entre as Ruas João Dória e Antônio de Oliveira em mais duas faixas — uma para a extensão do corredor de ônibus da Chucri Zaidan. Além disso, as obras incluem intervenções paisagísticas, a readequação das calçadas para a acessibilidade, o enterramento de redes áreas de energia e outros.

A retomada da obra deve findar reclamações constantes de uma parte das associações de bairro do entorno, que cobram frequentemente uma solução, por causa do trânsito da região e de questões sanitárias. Um dos aspectos mais criticados é que as entradas do túnel acumulam água parada e são um potencial foco para a proliferação de mosquitos, como o aedes aegypti. A Prefeitura diz que faz a limpeza frequente do local, a última no dia 1º.

A efetividade do túnel em desafogar o significativamente o trânsito na região divide opiniões entre especialistas. Outro ponto criticado é a destinação dos recursos da Operação Urbana Água Espraiada, pois grande parte foi voltada à construção de intervenções viárias para o fluxo principal de carros (como túneis, pontes e viadutos) e desapropriações. Em nota, a Prefeitura disse que está elaborando a licitação para construção de 173 unidades habitacionais de interesse social e para a contratação dos projetos de outras 416 unidades.

Moradores reclamam de acúmulo de água na entrada da obra parada
Moradores reclamam de acúmulo de água na entrada da obra parada Foto: Taba Benedicto/Estadão

Como o Estadão mostrou, a gestão Nunes estuda a retomada de outra obra parada de um túnel, na região do Parque do Ibirapuera, sob a Avenida Presidente Juscelino Kubitschek. A proposta foi colocada em consulta pública e envolve uma construção iniciada há mais de 30 anos.

Doutor em Engenharia com foco em Mobilidade Urbana, Luiz Vicente Figueira de Mello Filho descreve a obra do túnel como uma medida “do século passado” e na contramão do que é feito em outras metrópoles. Isso porque envolve uma obra viária para os carros e que, por consequência, estimula o transporte individual em detrimento do coletivo.

“Não vejo como uma alternativa que vá melhorar. Pode melhorar pontualmente, na inauguração, mas é uma questão de pouco tempo para que volte a ficar parado. Depois, o (aplicativo) Waze já mostra (como sugestão de percurso) e preenche rapidinho (de carros)”, explica. “Não vai resolver o problema, só vai aumentar o problema.”

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Também engenheiro, o vice-presidente do Crea-SP, Mamede Abou Dehn Júnior avalia que a obra tem potencial de atenuar uma área muito “gargalada” de trânsito. “Vai aumentar o escoamento. Dobrar o número de faixas naquele trecho. Com certeza, vai haver alívio no trânsito.”

O representante do Crea-SP também comenta que outras obras presentes no edital podem melhorar o deslocamento por transporte coletivo (com a expansão do corredor) e na mobilidade ativa, como a rampa cicloviária. “Hoje, é um problema (de segurança para) o ciclista dividir o espaço com o carro.”

Já o professor de Planejamento Urbano da USP e urbanista Eduardo Nobre avalia que essa licitação expõe o que chama de um problema sério das operações urbanas, que é a destinação de grande parte dos recursos para obras viárias e desapropriações, o que privilegiaria o setor construtivo e a população usuária de automóvel. Na avaliação do pesquisador, a prioridade da Prefeitura deveria ser voltada ao transporte coletivo e à produção de habitação para a população de baixa renda da região. “Há uma discrepância grande entre a demanda real da população que mora lá e a atuação do poder público.”

Outro ponto que o urbanista destaca é que o planejamento urbano voltado a grandes centros corporativos (os “central business districts”) tem se enfraquecido em meio ao crescimento do home office e das tecnologias. “A necessidade de construção desses espaços destinados a edifícios de escritório (como na região da Chucri Zaidan) diminuiu muito. Não é mais o mesmo de 20 anos atrás”, comenta. Além disso, cita que as referências internacionais desses espaços têm uma melhor oferta de transporte coletivo de massa, sendo menos dependentes do acesso por carro.

Quatro acessos do túnel começaram a ser construídos há mais de 5 anos e hoje estão fechados
Quatro acessos do túnel começaram a ser construídos há mais de 5 anos e hoje estão fechados Foto: Taba Benedicto/Estadão

Operação Urbana Água Espraiada tem contratos paralisados e obras parcialmente entregues

A Operação Urbana Água Espraiada obtém recursos especialmente por meio do leilão de créditos construtivos para a verticalização na região, os quais devem ser obrigatoriamente reinvestidos localmente. Criada por lei em 2001, essa operação urbana busca fazer grandes transformações na região de Santo Amaro e obteve uma receita total de R$ 3,9 bilhões, contabilizada até o fim de maio, porém nem todos os contratos foram cumpridos.

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A destinação desses recursos é avaliada periodicamente pela Caixa. Segundo o relatório de maio, 11 contratos da operação urbana estão paralisados ou suspensos, cinco foram encerrados sem a conclusão total da obra — como é o caso do túnel da Avenida Cecília Lottenberg — e 26 foram inteiramente concluídos.

Do total de recursos, a Operação Urbana Água Espraiada tem a destinação com a seguinte divisão: obras e serviços (R$ 1,4 bilhão), desapropriações em geral (R$ 865,8 milhões), habitação de baixa renda (R$ 601,8 milhões), transporte coletivo (R$ 390,1 milhões), desapropriações envolvendo habitação para baixa renda (R$ 354,6 milhões) e outros (R$ 280,1 milhões).

Em 2004, a Operação Água Espraiada previa mais de 3 quilômetros de passagem subterrânea na região, ligando a Rua João Dória à Avenida João Dias, junto com um parque linear. A principal obra chegou a ser licitada à época, mas não é mais cogitada pelo poder público.

“Mesmo com a redução do escopo (para o túnel da Avenida Cecília Lottenberg) não foi possível concluir a obra do túnel, tendo sido executados apenas seus emboques”, justifica a Prefeitura no edital da licitação. A gestão também alega que a construção vai aumentar a “acessibilidade urbana da região sul” e que “sem a passagem subterrânea, a mobilidade na região ficou prejudicada, o trânsito ficou sobrecarregado, além de ser uma área inutilizada”, acrescenta.

Um comunicado veiculado pela gestão Nunes também afirma que as obras ligadas ao prolongamento da Chucri Zaidan “vem consolidar e expandir o eixo de desenvolvimento de um importante centro empresarial da metrópole”, formado pelas Avenidas Nações Unidas, Engenheiro Luís Carlos Berrini e Chucri Zaidan. 

ESTADÃO / ECONOMIA / NEGÓCIOS Mappin volta ao jogo do varejo após falência em 1999 e revés na pandemia; mas marca ainda tem apelo?

 


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Em 1999, o Mappin ia à falência por uma dívida de R$ 1,12 bilhão, encerrando atividades após 86 anos de existência. Anos mais tarde, em 2009, a rede varejista Marabraz arrematou a marca por R$ 5 milhões e levou dez anos para lançar um site de comércio eletrônico com o nome da finada empresa, por conta de entraves burocráticos. Para 2020, o plano era começar a inauguração de lojas físicas com a marca. Mas a pandemia mudou os planos, e até mesmo o novo site ficou fora do ar por mais de um ano.

Agora, o site foi reativado. Mas os especialistas em varejo têm muitas dúvidas se apenas o apelo de uma marca muito reconhecida tempos atrás será capaz de atrair compradores, num momento em que o comércio - especialmente o eletrônico - se torna mais e mais sofisticado.

Na atual configuração, o Mappin vende, especialmente, móveis para casa, segmento principal da Marabraz, uma rede popular especialmente nas camadas de renda mais baixa. Por isso mesmo, a marca é usada como um novo rosto da empresa, um novo canal de comunicação com um perfil de consumidor diferente daquele que compra nas lojas da rede. Porém, não apenas o sortimento de produtos oferecidos no site Mappin é similar, como até mesmo a interface do site é praticamente a mesma.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, a marca Mappin tem o apelo da nostalgia para as gerações mais velhas, mas terá de enfrentar um ambiente de negócios muito diferente do passado, se quiser realmente ter alguma relevância. Quem nasceu nos anos 1950 ou 1960 provavelmente vai se lembrar que as lojas da rede vendiam de tudo, sendo comparáveis ao papel exercido hoje no comércio eletrônico, por exemplo, pelo Mercado Livre.

Site do Mappin voltou ao ar em meados de 2023
Site do Mappin voltou ao ar em meados de 2023 Foto: Reprodução/Mappin/Estadão

Luiz Alberto Marinho, sócio-diretor da Gouvêa Malls, lembra que o Mappin teve um papel importante por ser uma loja de departamentos que atendia a diversas demandas de consumo, mas essa função foi assumida pelo comércio eletrônico e pelos shoppings centers nos últimos 20 anos.

“O grande trunfo do Mappin é a nostalgia, a lembrança da marca”, diz Marinho. O especialista afirma que a empresa precisará ter presença no varejo físico se quiser ter alguma chance de vingar no contexto de mercado atual. “Nenhum varejista tem chance de ser bem-sucedido vendendo apenas em um canal. Começar pelo digital é um bom caminho. O segundo passo é a loja física, porque não há espaço para uma marca puramente digital no mercado brasileiro”, afirma.

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Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), afirma que a marca, apesar de ter sido forte quase 25 anos atrás, não está mais na cabeça do público. As gerações mais jovens provavelmente nunca ouviram falar na empresa.

“A operação da Marabraz é razoavelmente bem-sucedida, especialmente para a baixa renda. Podem investir em uma operação de e-commerce, mas me parece que o tempo do Mappin passou. Com Amazon e Magalu, o mercado hoje é outro. O saudosismo não será o suficiente. Será preciso ter uma operação muito bem acertada para competir no mercado atual”, afirma.

Procurada, a Marabraz não comentou sobre a volta do Mappin ao comércio eletrônico.

A origem do Mappin

A empresa foi fundada em 1913 como uma loja de departamentos filial da inglesa Mappin & Webb. O negócio foi trazido ao Brasil pelos irmãos Walter e Hebert Mappin. A primeira loja foi aberta na Rua 15 de Novembro, em São Paulo, compartilhando o espaço com a Mappin & Webb. Seis anos depois, com o aumento no número de clientes, o Mappin mudou-se para a Praça do Patriarca, no Edifício Barão de Iguape. Mais tarde, a sede foi para o número 131 da praça Ramos de Azevedo, em frente ao Theatro Municipal, onde permaneceu por 60 anos — local que, em breve, abrigará um Sesc.

Em 1936, os irmãos Mappin deixaram a sociedade, e suas ações foram compradas pelo empresário inglês Alfred Sim. Sob a nova gestão, a varejista retomou seu crescimento e mudou sua razão social para Casa Anglo Brasileira S.A. Entretanto, na década de 1940, a entrada de novas empresas varejistas afetou os negócios do Mappin, que acabou vendido em 1950 para Alberto Alves.

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Saldão no Mappin no Anhembi, em 1998
Saldão no Mappin no Anhembi, em 1998  Foto: EDU GARCIA /AE

Empresário do ramo do café, ele assumiu o comando da empresa com o filho Alberto Alves Filho. Na década seguinte, o Mappin adquiriu cinco lojas da Sears no Brasil. Com a morte do empresário em 1982, o negócio ficou com a viúva, Sônia Cosette Domit Alves.

O Mappin ficou conhecido ao longo da história como a loja de tudo. A empresa vendia desde roupas e produtos para a casa até motor para Fusca.

Antiga loja do Mappin no Centro de São Paulo
Antiga loja do Mappin no Centro de São Paulo Foto: ARQUIVO ESTADAO CONTEUDO

A operação da varejista prosperou apesar das crises econômicas e mudanças de moedas, mas o ano de 1995 foi marcado pelo maior prejuízo da sua história. No ano seguinte, Cosette vendeu a empresa a Ricardo Mansur, que também assumiu a rival Mesbla.

O fim do Mappin

O Mappin foi uma das 130 empresas que faliram entre 1995 e 1999, segundo estimativa da Eletros. Antes do fim, o então governador de São Paulo, Mario Covas, tentou salvar a varejista e fez até uma reunião no Palácio dos Bandeirantes com o administrador José Paulo Amaral e fornecedores para obter mercadorias consignadas. A tentativa foi em vão com a decretação da falência, no fim de julho de 1999. Algumas unidades foram arrendadas pelo Pão de Açúcar, o que ajudou a manter cerca de 800 empregos.

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Oficiais da Justiça lacraram a porta da loja do Mappin na Praça Ramos após decretação da falência
Oficiais da Justiça lacraram a porta da loja do Mappin na Praça Ramos após decretação da falência Foto: JF DIORIO/AE

O então deputado federal Luiz Antônio Medeiros (PFL-SP) tentou encontrar um comprador para o Mappin e considerou a decisão da Justiça precipitada. Pouco antes do fim da rede varejista, ele conseguira uma promessa de financiamento do BNDES.

Os especialistas consultados pelo Estadão à época da falência do Mappin atribuíram o fim da rede à má gestão. Posteriormente, Ricardo Mansur foi condenado por gestão fraudulenta do Mappin e da Credisul a 11 anos e meio de prisão, que seriam findados no segundo semestre de 2022. Mansur passou anos foragido. Chegou a se mudar para os Estados Unidos e retornou ao Brasil em 2017. Sua prisão aconteceu somente em 2020, nove anos depois da condenação de 2011. Ele cumpre prisão domiciliar.

Na decisão que determinou sua prisão, o empresário foi apontado como responsável por um esquema que envolveu a “inserção dos dados falsos na contabilidade da administradora de consórcio”. Segundo o juiz do caso, Marcelo Cavali, Mansur “evitava assinar documentos com o intuito de evitar sua futura responsabilização criminal”.