sexta-feira, 14 de julho de 2023

SARAH O'CONNOR - Está na hora de reaprender a arte perdida do lazer, FSP

 As pessoas sonham há muitos anos com um mundo sem trabalho. Em um ensaio em 1891, Oscar Wilde imaginou um futuro onde, "assim como as árvores crescem enquanto o homem do campo dorme, enquanto a humanidade estiver se divertindo, ou desfrutando um lazer refinado –que é o objetivo do homem, e não o trabalho–, ou fazendo coisas bonitas, ou lendo coisas bonitas, ou simplesmente contemplando o mundo com admiração e deleite, as máquinas estarão fazendo todo o trabalho necessário e desagradável".

Este ano, os rápidos desenvolvimentos da inteligência artificial reavivaram as perguntas sobre se as máquinas poderão um dia substituir totalmente a necessidade do trabalho humano. Sou cética, até porque nós, humanos, temos uma capacidade notável de arrumar trabalho para nós mesmos. Mas vamos supor por um momento que o progresso tecnológico tenha trazido uma era de lazer. Seríamos realmente capazes de lidar com ela?

Woman on beach in summer
Mulher relaxa em cadeira de praia - Adobe Stock

Quando John Maynard Keynes especulou sobre as "possibilidades econômicas para nossos netos" em 1930, ele pensou que o fim do trabalho como o conhecemos poderia provocar um "colapso nervoso" coletivo, dizendo: "Penso com pavor no reajuste dos hábitos e instintos do homem comum, criados nele por incontáveis gerações, que ele poderá ter de descartar dentro de algumas décadas".

Quase um século depois, não parecemos muito mais perto de nos adaptarmos a uma vida de lazer. Pelo menos quando Keynes escreveu as pessoas caminhavam gradualmente para menos trabalho em suas vidas, com reduções constantes nas horas semanais de trabalho de uma geração para a outra. Mas essa tendência parou na década de 1990: desde então, as horas semanais habituais para trabalhadores em tempo integral são em média cerca de 40 nos países da OCDE.

Em alguns setores e países, os trabalhadores ainda pressionam por mais tempo de lazer. O IG Metall, maior sindicato industrial da Alemanha, está considerando defender uma semana de quatro dias para os trabalhadores do aço em seu próximo processo de negociação coletiva, em novembro.

PUBLICIDADE

Mas outros parecem mais comprometidos com o trabalho do que nunca. Uma grande pesquisa com trabalhadores nos Estados Unidos feita pelo Pew Research Center este ano constatou que 46% nem sequer tiram todas as férias remuneradas a que têm direito.

Os motivos mais comuns citados pelos trabalhadores foram que eles não "sentiam necessidade" de mais folgas e temiam ficar para trás. Plataformas como a PTO Exchange surgiram para permitir que os americanos troquem suas licenças não utilizadas por "outras coisas de valor", como fundos de aposentadoria ou pagamentos de empréstimos estudantis.

O tempo de lazer também se tornou, para alguns, mais performático e focado em objetivos ou realizações. As corridas não são apenas apreciadas, mas cronometradas e rastreadas; os livros não são apenas lidos, mas contados e compartilhados nas redes sociais. Como Oliver Burkeman escreveu em seu livro "Four Thousand Weeks" [Quatro mil semanas], muitas pessoas sentem uma sensação de "desconforto com qualquer coisa que se pareça muito com perda de tempo".

Os passatempos são um pouco embaraçosos, mas as "atividades paralelas" são legais. Ele exorta os leitores a dedicarem mais tempo a "atividades atélicas" –que não têm um objetivo final e são feitas apenas pelo prazer de fazê-las. Inspirada, inscrevi-me num curso de cerâmica no ano passado. Tentei dizer a mim mesma que era para construir o caráter, que eu era a pior da classe e não importava que não estivesse realmente fazendo potes utilizáveis. Mas no final desisti.

Até mesmo não fazer nada agora é comercializado para os ansiosos ou ambiciosos como uma forma indireta de ser mais produtivo. O excelente livro de Alex Soojung-Kim Pang, "Rest" [Descanse], tem o subtítulo "Por que você faz mais quando trabalha menos". Uma meditação da consultoria de negócios ProNappers reafirma aos ouvintes que "cochilar é um ótimo uso do seu tempo".

Essa necessidade constante de aproveitar cada hora é simplesmente da natureza humana? Não necessariamente. Na época da indústria caseira na Inglaterra, por exemplo, relatos contemporâneos sugerem que as pessoas trabalhavam duro, mas não incansavelmente, e trocavam renda por lazer quando as circunstâncias permitiam. "Quando os tecelões de malhas ou fabricantes de meias de seda cobravam muito pelo seu trabalho, raramente trabalhavam às segundas e terças-feiras, mas passavam a maior parte do tempo na taberna ou no jogo de boliche", resmungou John Houghton, membro da Royal Society, em 1681. "Quanto aos sapateiros, eles preferem ser enforcados a não se lembrar de São Crispim na segunda-feira."

Talvez devêssemos começar a reaprender as artes perdidas do lazer agora, em vez de esperar por um futuro totalmente automatizado que talvez nunca chegue. Como escreve Pang: "Descansar nunca foi algo que você faz quando termina todo o resto. Se você quer descanso, tem que descansar".

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

A empresa que trocou 90% dos funcionários do SAC por inteligência artificial, FSP BBC News

 O diretor-executivo de uma empresa na Índia recebeu uma onda de críticas depois de substituir 90% de seus funcionários de atendimento ao cliente por um chatbot de inteligência artificial (IA).

Suumit Shah, fundador da Dukaan, disse no Twitter que a troca dos funcionários por um chatbot (robô que realiza atendimentos) melhorou drasticamente as respostas iniciais aos clientes e o tempo de resolução de suas consultas.

O tuíte causou indignação em muitos internautas. Ele chegou em um momento em que existem preocupações de que a IA possa deixar muitas pessoas desempregadas, especialmente no setor de serviços.

Cada vez mais a IA está gerando preocupações em trabalhadores que veem seus empregos em risco - BBC News Brasil

UMA DECISÃO "NECESSÁRIA"

Em uma série de tuítes —que acumularam mais de um milhão de visualizações— Shah explicou a decisão de sua empresa de usar um chatbot.

Ele afirmou que demitir funcionários foi uma decisão "difícil", mas "necessária".

"Dado o estado da economia, as startups estão priorizando a lucratividade em vez de tentar se tornar 'unicórnios', e nós também", escreveu ele.

PUBLICIDADE

Shah acrescentou que o suporte ao cliente tem sido um problema para a empresa há muito tempo e ele está tentando consertá-lo.

Ele também escreveu sobre como eles construíram o bot e a plataforma de IA em pouco tempo para que todos os clientes da Dukaan pudessem ter um assistente virtual.

Ele declarou que o bot responde a todos os tipos de perguntas com rapidez e precisão.

"Na era da gratificação instantânea, começar um negócio não é mais um sonho distante", escreveu ele, acrescentando: "Com a ideia certa, a equipe certa, qualquer um pode transformar os seus sonhos empresariais em realidade".

Shah também indicou que a empresa está contratando para vários cargos.

No entanto, muitos usuários criticaram suas postagens e o acusaram de prejudicar a vida de seus funcionários com sua decisão "implacável".

AS CRÍTICAS

"Como esperado, não encontrei nenhuma menção ao fato de 90% dos funcionários terem sido demitidos. Que assistência eles receberam?", perguntou um usuário.

"Talvez tenha sido a decisão certa para o negócio, mas não deveria ter se tornado um tópico de comemoração/marketing", disse outro.

Shah disse que detalhará as medidas de suporte aos funcionários pelo LinkedIn, já que, segundo ele, as pessoas no Twitter estariam procurando "rentabilidade, e não simpatia".

Nos últimos anos, ferramentas de IA generativas, como o ChatGPT, proliferaram e se tornaram mais acessíveis.

À medida que mais organizações usam essas ferramentas para aumentar a produtividade e reduzir custos, aumentam as preocupações de pessoas que temem perder seus empregos para a tecnologia.

Goldman Sachs publicou um relatório em março indicando que a inteligência artificial poderia substituir cerca de 300 milhões de empregos em tempo integral.

Na Índia, várias empresas estão investindo em IA para desenvolver produtos, o que aumentou o medo de possíveis perdas de empregos.

Este texto foi publicado originalmente aqui.