terça-feira, 11 de julho de 2023

João Pereira Coutinho - A pessoa que me convidou esperava que trabalhasse 92 horas para ela, FSP (definitivo)

 

João Pereira Coutinho

Assisto ao documentário "Quanto Tempo o Tempo Tem", de Adriana L. Dutra, na Netflix, uma bela meditação sobre a única riqueza que verdadeiramente temos: o tempo.

E dou por mim a pensar nos convites que recebo para escrever e falar sobre um tema meu.

Normalmente, leio a mensagem. Releio. Ainda confuso, imprimo. E até uso uma lupa de Sherlock Holmes para decifrar melhor o texto do email.

Frustrado, concluo que a mensagem não inclui o valor do pagamento. "Deve ser esquecimento", digo para mim.

Escrevo de volta, só para perguntar. A pessoa não responde. Ou, então, confessa que não há pagamento. Em certos casos, revela até incompreensão pela minha pergunta. Ou revolta, quando a medicação não é tomada com regularidade.

Aconteceu recentemente: caro professor Little Couto, você teria duas horas para falar sobre as ideologias políticas?

Minha cabeça fez as contas: para falar das principais —liberalismo, conservadorismo, socialismo, anarquismo— seriam 30 minutos para cada uma delas. Difícil, essa concisão.

Relógio esférico de sol, como uma roleta, emanando várias letras ao vento
Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho, 10.jul.2023 - Folhapress

Mas, antes de falar, era preciso estudar: uma semana com cada ideologia, ou seja, um mês de leituras. Se, por dia, dedicasse três horas, seriam 21 horas por semana, ou seja, 84 horas por mês. Só em leituras.

Depois era preciso preparar a intervenção: mais seis horas, ao menos, totalizando 90 horas. Ou 92 horas, com a palestra.

Pois bem: como lembra um dos participantes no documentário sobre os ladrões do tempo, a pessoa que me convidou esperava que eu trabalhasse 92 horas para ela como escravo.

Mas o pior nem é isso. É ter visão mais ampla do fenômeno: tenho 47 anos. Se as coisas correrem bem, tenho mais 31 anos de vida —em Portugal, a expectativa média de vida para os homens ronda os 78 anos.

É uma estimativa otimista, atendendo aos meus hábitos aberrantes. Vamos baixar a régua para uns realistas 70. Restam 23 anos. Restam 276 meses. Restam 8.395 dias. Restam 201.480 horas. De vida biológica, não de vida biológica com qualidade, certo?

Nesse caso, é preciso seguir a ciência, como dizem os espíritos finos: na Europa, quem chega aos 65 tem normalmente mais nove anos de vida saudável antes do ocaso doloroso. Dá 74 anos de vida saudável.

Ou, adaptando ao meu caso, uns 65. Restam-me 18 anos, ou seja, 157.680 horas. De vida saudável, não vida consciente.

Se nesses anos restantes eu continuar dormindo sete horas por noite —o mínimo indispensável para manter minha beleza natural—, ficam apenas 111.694 horas. De vida consciente, mas não totalmente livre.

No fim das contas, preciso do trabalho. Se o horário básico de um trabalhador contemporâneo é de oito horas diárias, de segunda a sexta, numa média de 40 horas semanais em 48 semanas de trabalho, podemos roubar 34.560 horas. Ficam apenas 77.134 horas. É muito?

Não é. Porque você tem de fazer escolhas. Com 18 anos pela frente e, descontando sono e trabalho, isso dá uma média de 11,7 horas livres por dia. Ou, fora refeições, umas dez horas.

Se você dividir essas dez horas pelas paixões mundanas —livros, filmes, amigos, família, vagabundagem diversa— sobram duas horas para cada universo, ou 730 horas por ano.

Eis o ponto: para eu trabalhar 92 horas gratuitamente, terei de roubar esse tempo aos meus livros, aos meus filmes, aos meus amigos, à minha família, aos meus vícios. Por que motivo eu faria isso?

Ficando apenas nos livros: duas horas por dia soma 14 horas por semana. Contas por alto, isso me permite ler três livros por semana, mantendo ritmo razoável de 4,6 horas por livro.

É verdade: a pessoa me está pedindo que, a troco de nada, eu prescinda de 20 livros por causa dela, qualquer coisa como 5.000 páginas, mantendo uma média de 250 páginas por livro. E que livros serão esses?

No momento em que bato essas linhas, olho a estante dos clássicos inexplorados. Vejo os dois volumes da "Cidade de Deus", com 1.184 páginas, "Os Buddenbrook", com 744, os vários volumes de "Em Busca do Tempo Perdido", com 3.152, isso para ficar em 5.000 páginas.

Quando recebo convites insultuosos, a pessoa não está só roubando meu tempo. Aos meus ouvidos, ela proclama, orgulhosa: "Eu sou mais importante que Santo Agostinho! Mais importante que Thomas Mann e Marcel Proust juntos!".

Da próxima vez que você sentir a tentação de roubar o tempo de alguém sem oferecer uma indenização, imagine a vítima no leito derradeiro. Imagine a morte, sorridente, confessando: "Você ainda teria mais uns meses, mas alguém enrolou você com convites irrecusáveis".

E peça pelo perdão enquanto o tempo está do seu lado.


Quanto devemos pagar para preservar a Amazônia?, Pablo Acosta, FSP

 O Brasil corre o risco de perder a Amazônia. Desde o surgimento da agricultura, há cerca de 12 mil anos, os humanos vêm gradualmente alterando —e destruindo— as paisagens naturais do planeta. Apenas cerca de 13% da terra ainda permanece em seu estado selvagem.

No Brasil, a fronteira agrícola continua avançando cada vez mais rumo ao "pulmão do mundo", destruindo ecossistemas milenares, que abrigam uma biodiversidade excepcional e 300 mil indígenas, colocando em risco o clima regional e global. Felizmente, muita atenção tem sido dada à proteção do bioma, inclusive com o apoio de mais de 60% da população do Brasil, país que abriga dois terços da Amazônia.

Desmatamento na fronteira entre a Amazônia e o Cerrado em Nova Xavantina (MT) - Amanda Perobelli - 28.jul.2021/Reuters

Com áreas protegidas e territórios indígenas em seus nove estados amazônicos, o Brasil é pioneiro na conservação florestal. Diversos municípios foram incluídos em listas de exclusão, enquanto produtores de soja e pecuaristas comprometeram-se a criar zonas livres de desmatamento. O sistema brasileiro de monitoramento por satélite em tempo real permite ao país detectar rapidamente o desmatamento ilegal e mobilizar as autoridades.

No entanto, ao longo dos últimos sete anos, o desmatamento voltou a crescer, fazendo com que a Amazônia deixasse de ser um sumidouro de carbono e se transformasse num emissor líquido desse gás. Há o risco real de que cheguemos a um ponto de inflexão que desencadearia a morte permanente de grandes extensões florestais.

Quanto custaria fornecer incentivos para deter o desmatamento? O primeiro passo é estimar o valor monetário da Amazônia. É impossível avaliar todos os componentes da floresta em pé, mas fizemos uma estimativa a partir de valores mínimos.

Os valores privados incluem o turismo e a produção sustentável de madeira, castanha-do-pará, borracha e outros bens.

Já os valores públicos regionais envolvem benefícios ecossistêmicos para todo o continente, por meio da regulação do clima local e da precipitação (os "rios voadores" nascidos na Amazônia, que beneficiam todo o continente), da polinização e da proteção das florestas intactas contra incêndios.

São valores públicos globais aqueles que representam a maior parte do valor da Amazônia, em grande parte devido a sua enorme capacidade de armazenar CO2, que, segundo uma avaliação conservadora, vale US$ 40 por tonelada. Além disso, um considerável "valor de opção" —uma espécie de arca do tesouro medicinal para a indústria farmacêutica, por exemplo— está associado à biodiversidade da Amazônia.

Nossos cálculos mostram que a Amazônia gera um valor anual de pelo menos US$ 317 bilhões, o que supera largamente as estimativas do valor associado ao corte dessas florestas para extração de madeira, pecuária, soja ou mineração, algo entre US$ 43 bilhões e US$ 98 bilhões.

Como esse valor pode ser monetizado? Recursos de doação (como o Fundo Amazônia, apoiado pela Noruega e pela Alemanha) podem ser de grande ajuda. Em termos globais, parece haver apoio para isso: as estimativas indicam que os brasileiros estariam dispostos a pagar US$ 120 milhões por ano, ao passo que os americanos pagariam US$ 340 milhões, e os canadenses, US$ 38 milhões. Além disso, os mercados de carbono oferecem oportunidades crescentes para financiar a conservação.

Uma grande parte do financiamento deve ir para os governos do Brasil e dos estados da Amazônia Legal para proteger a floresta e promover desenvolvimento sustentável.

Quanto devemos pagar? A Amazônia brasileira encolhe a uma taxa de 0,3% ao ano. Os pagamentos podem ser feitos apenas para a parte da floresta que corre risco real de desmatamento, vinculando a compensação necessária pelo desmatamento evitado ao valor de oportunidade de conversão da floresta para outros usos.

Se a área estimada da floresta em risco em determinado ano fosse de 12.200 km² (área perdida em 2021) e se essa área fosse totalmente protegida, de US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões precisariam ser desembolsados, além do custo de aplicação das leis de proteção florestal.

São incentivos consideráveis. Um valor intermediário de, digamos, US$ 7 bilhões corresponde a 0,4% do PIB nacional. Contudo, se considerarmos apenas os nove estados da Amazônia Legal brasileira, o valor equivale a 6% do PIB da região, ou 23% dos orçamentos anuais desses estados, o que é muito significativo.

Preservar essa riqueza natural é valorizar a diversidade sociocultural e ecológica, além de incentivar a redução das desigualdades regionais em um bioma vital para o planeta.


Esta coluna foi escrita em colaboração com meus colegas do Banco Mundial Marek Hanusch, economista líder de programa no Grupo de Práticas para Crescimento Equitativo, Finanças e Instituições, e Jon Strand, economista e consultor.

Hoje me despeço dos leitores que me acompanharam neste espaço por dois anos, pois deixo o Brasil para assumir outros desafios em Washington (EUA). Agradeço a todos pela companhia. Foi um prazer e uma honra compartilhar ideias em um dos mais prestigiosos veículos da imprensa brasileira. Em breve, esta coluna passará a ser assinada por minha colega Shireen Mahdi, economista líder do Banco Mundial para o Brasil.