segunda-feira, 10 de julho de 2023

Governo encerra programa de desconto para carros 'populares' ,FSP

 Lucas Marchesini

BRASÍLIA e SÃO PAULO

O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Comércio, Indústria e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), disse nesta sexta-feira (7) que o programa de descontos para carros de até R$ 120 mil foi encerrado. Segundo ele, a medida foi um sucesso.

Todos os R$ 800 milhões disponibilizados para o programa que concedeu descontos à compra de carros "populares" foram esgotados. A iniciativa, que tinha um orçamento inicial de R$ 500 milhões, durou um mês ao todo.

"Nós estamos encerrando a parte do estímulo dos créditos tributários para os veículos leves, que foi um sucesso. O presidente Lula teve muita sensibilidade social em relação ao emprego e à importância da indústria neste momento que estamos passando. Temos uma ociosidade de quase 50%. Isso poderia levar à perda de emprego", afirmou Alckmin durante coletiva da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

Um dos objetivos do programa era incentivar o setor automotivo, que sofre com a diminuição nas vendas de carros novos. De acordo com o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), 125 mil veículos foram vendidos com descontos graças ao programa.

"Houve um crescimento de 14,2% nos emplacamentos em junho ante maio", disse o vice-presidente. Segundo ele, em 30 de junho, houve o recorde histórico de emplacamentos, com 27 mil carros.

O vice presidente Geraldo Alckmin fala com jornalistas após reunião do presidente Lula com empresários do setor varejista em 14 de junho - Pedro Ladeira/Folhapress

"[A indústria] estava com estoque gigantesco, não tinha como produzir. Vendendo, retoma", avaliou. Ele espera que com a queda na taxa de juros, as vendas de carros voltem a crescer, ajudando o setor.

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Questionado sobre possíveis novos programas de estímulo para o setor, Alckmin afirmou que o caminho é "melhorar renda da população, emprego, competitividade, mas há momentos excepcionais nos quais ajudamos".

O programa permitia um desconto entre R$ 2.000 e R$ 8.000 para veículos de até R$ 120 mil. Do total de R$ 800 milhões, R$ 650 milhões foram para os descontos. Os R$ 150 milhões restantes servirão para compensar a perda de arrecadação de impostos causada pelo desconto.

Mais cedo, o ministro Fernando Haddad (Fazenda) descartou a possibilidade de um novo aumento de recursos para o programa que concede descontos à compra de carros "populares".

"Isso exige compensação. Estamos chegando em um momento ano que não tem mais espaço fiscal para isso. Eu penso que [o programa de carros] foi importante, sobretudo porque ainda há espaço para ônibus e caminhões, menos poluentes, importante para renovar frota", disse.

A montadora que mais recebeu créditos foi a FCA Fiat Chrysler, com R$ 230 milhões, seguido pela Volkswagen, com R$ 100 milhões, e Renault, com R$ 90 milhões. Completam a lista a Hyundai, com R$ 80 milhões, GM e Peugeot Citroen, cada uma com R$ 50 milhões, Nissan e Toyota, com R$ 20 milhões cada, e a Honda, com R$ 10 milhões.

Como a Folha antecipou, o licenciamento de veículos leves e pesados acelerou na última semana de junho, que terminou com 189,5 mil unidades licenciadas. O resultado representa alta de 7,4% em comparação a maio.

Ao se considerar apenas os carros de passeio, que foram o principal alvo da medida, as vendas tiveram alta mensal de 11,4%. Foram emplacadas 142 mil unidades no último mês.

A Anfavea diz que registrou, na última semana de junho, 27 mil unidades emplacadas em um único dia, o que representou o terceiro maio emplacamento diário da história do setor e o melhor dos últimos dez anos.

Com o fim do programa, o presidente da entidade, Márcio de Lima Leite, diz que o preço dos carros terão um aumento. "O que vai acontecer tem que ser monitorado. Mas, quando a gente combina isso com uma redução da taxa de juros, que é natural que ocorra, talvez uma coisa compense a outra", afirma.

Apesar do otimismo com a medida de estímulo do governo, Leite disse que ainda é cedo para revisar a projeção anual dos números do setor para cima. "Nós começamos o ano com números baixos. Tivemos alguns meses que não foram legais. É fundamental ver como vão se comportar os meses de julho e agosto. Mas ainda não tem fundamentos para a gente rever os números do final do ano."

Quando o programa foi lançado, em 5 de junho, a estimativa era de que teria duração de cerca de quatro meses. Com o sucesso do plano, os recursos para os automóveis atingiram R$ 400 milhões em apenas duas semanas.

Na semana passada, Lula assinou uma medida provisória que ampliou em mais R$ 300 milhões os recursos destinados ao programa.

Menor preço, maior eficiência energética e maior densidade industrial (capacidade de gerar emprego e crescimento no entorno) foram os três critérios levados em conta para a definição das faixas de desconto. Quanto maior a pontuação nesses requisitos, maior o desconto aplicável.

A formulação do programa para fomentar a compra de automóveis foi anunciada pela primeira vez em 25 de maio por Alckmin. Inicialmente, o foco da política eram os carros de até R$ 120 mil, mas o governo decidiu contemplar também caminhões e ônibus –com descontos que vão de R$ 33,6 mil a R$ 99,4 mil.

O programa destinado para ônibus e caminhões continua. Para caminhões, as montadoras já requisitaram R$ 100 milhões dos R$ 700 milhões disponíveis. Já para ônibus, foram utilizados R$ 140 milhões do total de R$ 300 milhões. "Esse programa se pudesse deveria ser permanente", ponderou Alckmin. A duração da iniciativa é de quatro meses.

Para conseguir o crédito, é necessário dar baixa em um caminhão ou ônibus velho. De acordo com Alckmin, há um gargalo no programa nos Detrans estaduais, que demoram para fazê-lo. "Falei com Denatran [Departamento Nacional de Trânsito], eles se responsabilizaram em falar com todos os Detrans", disse.

Colaborou Nathalia Garcia

domingo, 9 de julho de 2023

O presidente que acreditou na força de sua milícia e acabou sozinho no mato, OESP

 


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Presidentes que pregam a intolerância, desqualificam adversários e rejeitam o diálogo costumam pagar um preço alto mais tarde. A faixa presidencial e, sobretudo, o séquito de bajuladores podem inebriar chefes do Executivo, levá-los a acreditar que o poder não é efêmero. Fora do cargo, restam para eles a decepção, a mágoa e o sentimento de traição.

Muitos são os casos de governantes que abusaram de práticas autoritárias e depois não conseguiram se manter no jogo político. Deodoro da FonsecaFloriano Peixoto Hermes da Fonseca foram os primeiros nomes dessa tradição tão antiga quanto a República.

Houve o caso de um ex-presidente que chegou a imaginar que sua milícia era capaz de derrotar até a força do Estado. Ao assumir o poder em 1922, o mineiro Artur Bernardes, do Partido Republicano Mineiro, já pegou o País em estado de sítio, mas aumentou o ambiente de violência. Mandou prender adversários, bombardeou São Paulo para atacar opositores e buscou a aprovação da censura contra jornalistas. O Brasil virou um pária. O país se afastou da Liga das Nações.

Em 1926, o paulista Washington Luiz foi eleito presidente. Bernardes, então, foi para Minas reorganizar sua ala no PRM – e sua milícia. Quatro anos depois, a aliança entre oligarquias políticas de Minas, do Rio Grande do Sul e da Paraíba levaria Getúlio ao poder, após um golpe.

Artur Bernardes, presidente do Brasil entre 1922 e 1926; fora do poder, convocou seus seguidores a se insurgirem e foi facilmente derrotado pela tropa legal.
Artur Bernardes, presidente do Brasil entre 1922 e 1926; fora do poder, convocou seus seguidores a se insurgirem e foi facilmente derrotado pela tropa legal. Foto: ARQUIVO NACIONAL

Quando a oligarquia de São Paulo se revoltou contra Getúlio, em 1932, os mineiros ficaram a favor do presidente. Mas Artur Bernardes, na época senador, era quase um outsider na política mineira e decidiu enfrentar o governo central. O apoio de Bernardes aos paulistas tinha características de guerra pessoal, ainda que ele levantasse a mesma bandeira dos revoltosos do Estado vizinho. Aliás, esteve na trincheira oposta a dos paulistas nos conflitos de 1924 e 1930, sempre do lado legal - era presidente no primeiro e senador no segundo.

Política

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Em 1932, ele transformou sua casa em Viçosa num bunker contra as tropas de Getúlio e do interventor de Minas, Olegário Maciel. O ex-presidente reuniu prefeitos e fazendeiros e organizou uma campanha de recrutamento e compra de armas, fardas e alimentos. Agricultores pobres que nunca calçaram um sapato colocaram os pés dentro de pesadas botinas. Mulheres se reuniram nas ruas dos povoados em mutirões de costura de fardas. O clima era de festa.

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O governo mineiro temia que os bernardistas tomassem Belo Horizonte. Mas Olegário Maciel tinha a caneta de governador e a polícia. O Judiciário não se envolveu na querela que só interessava ao ex-presidente. Os chefes políticos locais também não quiseram entrar nessa briga que não era deles. Os fazendeiros ligados a Bernardes, por sua vez, tinham dívidas com bancos federais e estaduais e precisavam pensar na lavoura do ano seguinte.

No Rio, a imprensa não esquecera os anos de terror do governo Bernardes e pediu uma caçada sem tréguas à “jagunçada”. Viçosa foi cercada pela tropa oficial. Os milicianos se renderam, um a um. Num confronto direto 20 deles morreram. Os bernardistas presos foram colocados num vagão de trem, em Viçosa, e levados à capital federal.

Artur Bernardes viu que não tinha força o suficiente para reagir à máquina repressiva do Estado que antes dominara. Também percebeu a necessidade de articulações amplas para enfrentar governo não eleito - era o caso - ou eleito. Mesmo revoluções e quarteladas dependiam de negociações.

Os mais próximos do ex-presidente foram rendidos ou fugiram. Sozinho, ele começou a passar uma noite em cada fazenda, na tentativa de escapar.

Passados alguns dias, o governo enviou a Viçosa uma equipe de investigadores para caçar o ex-presidente. Os agentes chegaram a uma fazenda de um bernardista radical. Pressionados, o fazendeiro e seus filhos contaram que Bernardes dormira na casa e, pela manhã, seguira no rumo de uma choupana na mata, depois do canavial.

Os agentes encontraram um homem pálido, exausto, com roupas rasgadas e um revólver Colt na cintura. Artur Bernardes não reagiu à prisão, mas pediu que não fosse levado escoltado a Belo Horizonte e pudesse passar três dias em Viçosa. Ao fazer um terceiro pedido, ouviu que não era mais uma “autoridade maior”. Ali, era apenas um chefe miliciano. Também foi embarcado num trem para o Rio, onde amargou a prisão na Ilha das Cobras, local onde havia trancafiado seus adversários. Finalmente foi mandado para o exílio em Portugal, para alívio de muitos bernardistas. Anos depois, retornou ao Brasil e moderou o discurso. Afinal, tinha filho disposto a disputar eleição.

Alguém poderá lembrar uma exceção: Getúlio Vargas comandou uma ditadura sangrenta, de 1937 a 1945. Após sofrer um golpe, se recolheu num primeiro momento em sua fazenda em São Borja, no Rio Grande do Sul, mas depois de quatro anos voltou ao Palácio do Catete, pelo voto. Não quis saber quem estava no governo nem de armas. Se preocupou apenas em fazer alianças políticas e discursos em defesa do bem-estar e da industrialização.

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O líder trabalhista, porém, cairia mais tarde no canto da milícia. Em seu governo democrático, a partir de 1951, pôs capatazes de sua fazenda na sua segurança pessoal. Os homens se envolveram em denúncias de corrupção e, num atentado contra Carlos Lacerda, mataram o tenente Rubens Vaz, que acompanhava o jornalista. A guarda presidencial alimentou uma crise que resultou no fim do mandato e da vida do chefe. A tensão econômica e política era mais forte que a milícia.

Na História do Brasil, quem confundiu a força de uma legião de fiéis seguidores, armados ou dispostos a tudo, com o poder do Estado ou minimizou a negociação política se deu mal.