quinta-feira, 6 de julho de 2023

Sérgio Rodrigues - Corram, é o sabichão preposicional!, FSP

 Agradeço ao leitor que, na área de comentários da coluna, emendou o "a rigor" que eu tinha escrito para "em rigor". Me deu a deixa pra falar de uma das mais insidiosas formas de sabichonismo, o preposicional.

Como alguns dos leitores da coluna já devem estar enjoados de saber, chamo de sabichonismo o hábito de apontar na fala e na escrita dos outros "erros de português" que não existem, ou melhor, que só existem porque os sabichões fazem muita questão.

Não gosto do sabichonismo. Custa caro à inteligência linguística coletiva, deixa os falantes inseguros e os convence de que o mais importante numa língua é ela ser um coletivo de pegadinhas.

foto mostra página página de dicionário aberto, é possível que há várias páginas anteriores por baixo
Dicionário Aurélio - Fabio Braga - 25.set.15/Folhapress

A bronca é com a doença, não com os doentes. Sabichões são vítimas, eu mesmo por pouco não virei um e sei. O contágio é como o dos zumbis, cada mordida de sabichão cria um novo.

São quase sempre recuperáveis. Talvez não saibam o que Celso Cunha (1917-1989) escreveu: "A rigor, o adjetivo só existe referido a um substantivo". Isso: "a rigor", não "em". Cunha era um normativo, um conservador, mas como todo bom gramático não alimentava bizantinices.

O sabichonismo prep (para abreviar) deve muito aos puristas da língua portuguesa, caçadores inclementes de ecos do francês, idioma imperialista da época. A preposição "a" foi um dos seus alvos preferidos, e tome prescrição de locuções artificiosas como "em rigor", "em cores", "em longo prazo" etc.

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Sim, alguns desses casos de "a" podem ter influência do francês (e daí), mas outros não. No caso da TV a cores, a acusação de galicismo não se sustenta em tribunal algum – os franceses dizem "en couleurs".

Contudo, o caso mais famoso de sabichonismo prep não parece ter a ver com caçadores de estrangeirismos. A recomendação de "entrega em domicílio" é um enrosco doméstico mesmo.

Escreveu sobre "entrega a domicílio" o ultraconservador Napoleão Mendes de Almeida (1911-1998), gramático popular em seu tempo: "Expressão espúria, conquanto generalizada; emende-se para ‘entregas em domicílio’, pois a entrega é ‘em’ um lugar".

O argumento não é lá essas coisas. Finge que preposições não têm certo grau de volatilidade e faz uma leitura estreita do critério espacial —como o entregador não entra em casa, fica à porta, o raciocínio oposto seria igualmente válido.

O problema maior é o desprezo a um uso consagrado que não afronta a gramática. Napoleão, vá lá. Mais triste é ver que um dicionário como o Houaiss está nessa até hoje.

Alguma flexibilidade talvez fosse recomendável. Refletiria a aprovação, por outros gramáticos, da forma que o uso escolheu. Domingos Paschoal Cegalla (1920-2013) afirma: "Deve-se observar que, embora correta, a locução ‘em domicílio’ se divorcia da língua corrente".

Em Portugal o "a" está assimilado. Lá encrencam é com a falta do artigo: deveríamos dizer "entrega ao domicílio" ou "no domicílio". Temos a quem puxar.

Segundo uma velha máxima, língua é um dialeto com exército e marinha. O ultraconservadorismo que sustenta a visão sabichona não chega a tal poderio, mas tem uma dimensão institucional e todo um mercado editorial e de ensino em torno dos concursos públicos.

Não é simples entender a persistência de frivolidades como o sabichonismo na paisagem cultural brasileira. Parece provável que entre na equação certo amor mórbido pela bacharelice, pelo verbo ornamental como emblema de distinção numa sociedade violentamente dividida.

Não apoiar Nunes em SP seria traição do PSDB a Bruno Covas, diz secretário, FSP

 

SÃO PAULO

Secretário-executivo do gabinete de Ricardo Nunes (MDB), o tucano Fábio Lepique afirma que uma eventual decisão do PSDB de não apoiar a reeleição do atual prefeito de São Paulo seria uma traição do partido ao projeto de Bruno Covas.

"Qualquer proposição do PSDB contra o apoio ao Ricardo é uma traição ao que Bruno Covas desenhou para a cidade", afirma Lepique ao Painel. Para o secretário, o prefeito manteve secretários, presidentes de empresas, subprefeitos, entre outros, filiados ou historicamente ligados ao PSDB e escolhidos por Covas.

Nunes assumiu a prefeitura em maio de 2021, com a morte do tucano, de quem ele era vice.

Ricardo Nunes (MDB) com presente que ganhou na reunião com PSDB-SP
Ricardo Nunes (MDB) com presente que ganhou na reunião com PSDB-SP - Arquivo pessoal

Como mostrou a coluna, reunião de Nunes com o diretório municipal do PSDB na Prefeitura de São Paulo na segunda-feira (3) gerou incômodo em tucanos mencionados no encontro e que atualmente compõem a cúpula do partido.

Foram citados Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul e presidente do PSDB, Marco Vinholi e Orlando Faria, respectivamente presidente e tesoureiro do diretório estadual do partido.

Em sua colocação mais contundente segundo os presentes, Nunes disse que Vinholi estaria descumprindo acordo ao defender candidatura própria do partido na capital.

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Segundo o emedebista, Vinholi participou de reunião em 2022 na qual líderes de MDB, União Brasil e PSDB teriam decidido que todos apoiariam sua candidatura a prefeito em 2024.

Vinholi disse à coluna que tem crescido no partido a opinião de que o PSDB deve "apresentar uma opção ao eleitor da capital". Faria disse que os comentários a respeito de Vinholi não fazem sentido, pois ele estaria apenas repercutindo o posicionamento de Eduardo Leite de que o partido deve buscar candidaturas próprias em todas as capitais.

Fernando Alfredo, presidente do PSDB municipal e articulador da reunião, disse que o partido se comprometeu a apoiar Nunes e que ele, enquanto estiver na sigla, será um garantidor do cumprimento de acordos.

Thiago Amparo- Por trás do deepfake da Elis, FSP

 Não quero lhe falar, meu grande leitor, das coisas que aprendi nos comerciais da TV, por mais emocionantes que possam ser e de fato o são. Quero lhe contar, em vez disso, como muitos não sobreviveram à ditadura e tudo o que aconteceu com eles, inclusive envolvendo empresas. "Na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen, já começou a tortura, já comecei a apanhar ali, comecei a levar tapa, soco", depôs um ex-funcionário da Volks.

Em 2020, a Volks se comprometeu a pagar R$ 36,3 milhões para ex-funcionários presos, perseguidos ou torturados durante a ditadura. E as aparências de hoje não enganam as complexidades de outrora. É sinal muito bem-vindo de maturidade jornalística esta Folha ter publicado no domingo (02) texto em que discorre, em detalhes, sobre o papel do jornal durante a ditadura militar, incluindo as ambiguidades e incertezas ali abertas.

Tecnologia seduz, porém ainda não foi capaz de tornar a filosofia obsoleta, mas sim imprescindível. Na revista acadêmica Filosofia e Tecnologia, alguns desses questionamentos emergiram. Qual é o conhecimento que deepfakes transmitem, pergunta um autor. Seria o mal específico do deepfake a possível rejeição do conteúdo pela pessoa, já falecida, pergunta outra autora. Os desejos da família suprem ou não os desejos de quem já não pode mais oferecer a sua vontade? A quem atribuir direitos autorais?

Preservar a memória é melhor do que sonhar. Eu sei que se emocionar é uma coisa boa, mas também sei que qualquer imagem é menor do que a vida de qualquer pessoa, mesmo no país que faz da amnésia o seu hino nacional. Pode-se gostar do comercial esteticamente ou não; A pergunta da qual não podemos nos esquivar é se, apesar de termos feito tudo que o fizemos, a nossa imagem sobreviverá a nós ou não, contando vil metal. Falta inteligência à artificial para resolver as dúvidas éticas que os deepfakes impõem; apresentá-las faz, de nós, humanos e não máquinas.