domingo, 9 de abril de 2023

Nesta Páscoa, celebre a droga leve que a natureza pôs no cacau, FSP

 Ovos de Páscoa guardam muito mais camadas do que as de chocolate aderidas a uma forma. Quem come o doce, neste domingo de alegria ressuscitada, nem imagina quanta história e quanta química cabe dentro desse signo ancestral de fertilidade gourmetizado para o paladar contemporâneo.

Ovos de Páscoa já existiam na Europa bem antes de ali chegar o chocolate. Ovos de galinha eram presenteados para encerrar o jejum da Quaresma, ou pintados com a cor do sangue de Cristo para lembrar sua paixão (sofrimento).

Linha de produção da fábrica de chocolate Di Siena, em Perdizes (SP)
Linha de produção da fábrica de chocolate Di Siena, em Perdizes (SP) - Eduardo Knapp - 21.mar.23/Folhapress

Como receptáculos de vida nova, os ovos simbolizam a ressurreição. Ou então, uma vez drenados de conteúdo e decorados, o sepulcro vazio do Messias renascido. A simbologia é pródiga, renovada a cada geração que comemora a festa em família.

A incorporação do cacau constitui ainda uma marca daquele que foi talvez o maior encontro de civilizações da história, entre Velho e Novo Mundo. (Sim, foi também, e principalmente, um choque de civilizações, com proporções genocidas sob o tacão colonizador, mas o dia hoje não é para verdades amargas.)

Amargo, de toda forma, era o sabor da bebida preparada com o pó das drágeas da árvore Theobroma cacao por povos originários do México e outras partes da América. Na Europa, acabou misturado com açúcar e leite, alquimia que o transmutou na delícia do chocolate, como bebida ou sólido.

O primeiro nome científico da planta, que em latim quer dizer algo como alimento dos deuses ou manjar divino, poderia sugerir algum elo com a religião cristã e a Páscoa, só que não. É apenas uma celebração de seu sabor celestial.

Do mesmo gênero é o cupuaçu (Theobroma grandiflorum). Ambas as iguarias cabem bem na classe dos aptônimos, como diria o confrade Claudio Angelo, na qual o nome da coisa ou da pessoa combina à perfeição com seu traço mais saliente —como Marília Marreco, secretária de Meio Ambiente e Proteção Animal do DF.

Do nome feliz se batizou o principal alcaloide do cacau, a teobromina. Trata-se de uma xantina, estimulante próximo da cafeína. Embora com efeito menos pronunciado sobre o cérebro que o café, persiste a lenda de que o chocolate pode também estimular a cognição.

Já entre os povos originários da América se atribuíam ao cacau vários benefícios para a saúde, até mesmo afrodisíacos (outra associação com fertilidade e reprodução, mas que não combina muito com a Páscoa em família). Certo é que chocolate baixa a pressão sanguínea e acelera os batimentos cardíacos.

Mais duvidosa é a crença de que chocolate cause dependência, ou pelo menos que o responsável por tornar as pessoas chocólatras seja a teobromina, prima da cafeína. O alcaloide típico do cacau tem mais dificuldade que o do café para ultrapassar a barreira hematoencefálica e chegar ao cérebro, sugerindo que a culpa recaia mais sobre o açúcar e a gordura das barrinhas viciantes.

Embora sem propriedade psicoativa destacada, ingere-se o cacau —amargo, preparado só com água, eventualmente com especiarias— como sacramento em cerimônias de povos indígenas do México, por exemplo. É considerado uma planta sagrada, como os potentes tabaco (nicotina) e peiote (cacto com o psicodélico mescalina).

Melhor parar por aqui, pois a conversa que começou com ovos de Páscoa já caminha para soar pecaminosa a ouvidos cristãos. Celebrem-na com os seus e com chocolate, ou qualquer outro alimento. Divino, de verdade, é poder sentar-se à mesa e compartilhar as dádivas da natureza.


Jardinagem de guerrilha revitaliza espaços públicos por meio do cultivo independente, FSP

 

SÃO PAULO

Em frente a um prédio com fachada espelhada na avenida Faria Lima, na zona oeste de São Paulo, crescem em um pequeno canteiro uma bananeira, pés de abóbora, feijão guandu e batata-doce, além de vários tipos de plantas comestíveis e medicinais.

O mesmo acontece a quase 20 quilômetros dali em uma praça no bairro Parada Inglesa, na zona norte, onde o gramado, antes degradado, divide espaço com um pé de pitanga e cultivos de batata-doce, boldo, hortelã, cúrcuma, taioba roxa, ora-pro-nóbis, mitsubá (salsinha japonesa), manjericão, entre outras hortaliças.

Mariana Marchesi cuida de um canteiro no largo da Batata, na região oeste de São Paulo
Mariana Marchesi cuida de um canteiro no largo da Batata, na região oeste de São Paulo - Karime Xavier/Folhapress

Em comum, as duas hortas foram plantadas, e são mantidas, por moradores do entorno que decidiram revitalizar espaços públicos, literalmente, com as próprias mãos, como parte do movimento jardinagem de guerrilha.

As mudas são plantadas em espaços públicos de forma espontânea e sem respaldo do poder municipal. "Nos canteiros das árvores, tinham mudas muito tristes", diz a educadora ambiental Mariana Marchesi, 38, da época que iniciou o cultivo no gramado no largo da Batata, em 2015. "A ideia era criar jardins resilientes para criar árvores que resistissem às intempéries porque precisávamos de verde e de sombra."

Naquele ano, o largo havia acabado de passar por uma reforma que o pavimentou com cimento. Sobrou um pequeno gramado onde já haviam algumas árvores plantadas, como um pé de guabijú, espécie nativa da mata atlântica.

"Fizemos uma agrofloresta ao contrário. As árvores já estavam lá e plantamos no entorno para criar uma vegetação mais fechada", diz Mariana sobre o sistema que usa plantios de espécies diferentes de forma simultânea para simular o que ocorre na natureza.

Para manter as plantas irrigadas nas épocas de estiagem, ela conta que usava uma mangueira longa o bastante para atravessar a avenida Faria Lima a partir de uma cervejaria parceira no outro lado da via, que a permitia usar a água do estabelecimento.

Na Parada Inglesa, a permacultora e artista plástica Regina Yassoe Fukuhara, 56, começou "de fininho" o cultivo há cerca de dois anos em uma praça perto de sua casa.

Para não chamar atenção, ela conta, enche uma sacola grande com mudas colhidas em seu quintal e as empurra em um carrinho de feira até a praça. As ferramentas também são transportadas escondidas. "Eu estou sempre abarrotada de plantas. É a resistência. Sinto como se a natureza estivesse me usando para disseminar as plantas", diz.

Na empreitada, ela tem como cúmplice uma vizinha que mora em frente à praça. Sem combinar, elas passaram a manter o canteiro em ordem. Quando Regina chegou, ela conta que a vizinha já tinha plantado capim-limão na praça. "É um movimento um pouco à margem, uma coisa meio solitária. Já tentei fazer mutirão, mas não deu certo", diz.

O mesmo problema é enfrentado por Mariana para manter o projeto Batatas Jardineiras, no canteiro em Pinheiros. Atualmente, a missão é desempenhada por ela, uma amiga e um ajudante que recebe R$ 300 por mês para tirar o lixo que se acumula em meio às plantas.

Ele também é responsável por conscientizar os moradores de rua para não transformarem o canteiro em banheiro.

Outro desafio é educar os frequentadores do largo para que não usem as floreiras instaladas em meio aos bancos de madeira como lixeiras. "Conseguimos doação de terra e plantamos boldinho lá, é uma planta bastante resistente."

A Prefeitura Regional de Pinheiros afirmou em nota que há muitas pessoas em situação de rua, com barracas que geram um grande volume de lixo. "No entanto, acontece a varrição diária em toda extensão do Largo da Batata para manter o local sem acúmulo de lixo e sujeira."

Jardineiro de guerrilha há 14 anos, o educador técnico Rodrigo Burckauser Robert, 37, explica que o termo ainda é novo no Brasil, embora seja usado na Europa. "Gosto de chegar em um lugar inóspito, tirar o lixo e começar a plantar. Sair desse lugar e ver as pessoas cuidarem", diz.

Isso foi feito em um terreno baldio transformado em depósito irregular de lixo atrás de uma escola estadual no Jaçanã, na zona norte. Hoje, o lugar é frequentado por moradores que colhem as mudas de plantas. "Escolhemos o pior lugar, com mais lixo. A energia do bairro todo muda", diz Robert.

Mais um terreno baldio abriga há cerca de dois anos uma horta comunitária que alimenta cerca de 100 famílias em uma ocupação, no Jardim Julieta, na divisa da capital paulista com Guarulhos, na Grande São Paulo. "Sempre trabalhei em empresas e comecei a me relacionar com pessoas do movimento ambiental. Não nasci na roça, por isso tive que aprender na prática", diz o professor Beto Corunha, 37, que deu início à horta comunitária como parte do mestrado em ciências sociais.

Hoje, todos os domingos os moradores colhem repolho, couve, coentro, banana, boldo, pimenta, taioba, limão, cana-de-açúcar. "As pessoas fazem fila porque, no geral, comem muito mal", diz Corunha que conta ter começado a horta com apenas uma enxada e precisou de três dias para tirar todo o lixo do terreno.