domingo, 9 de abril de 2023

Haddad tem um plano maior, VTF FSP

 O novo "arcabouço fiscal" está pronto. Não deve haver novidade em relação ao plano apresentado por Fernando Haddad. A Fazenda apenas trabalha na definição de detalhes técnicos, como o conceito de "receita recorrente". Mais sobre isso mais adiante.

Mas o ministro tem um plano fiscal maior, a ser divulgado até o final do ano, que vai além da "NRF", "Nova Regra Fiscal", como Haddad chamou o "arcabouço" em entrevista à Folha.

O governo tem um plano de conter o "gasto tributário". O programa é encabeçado pelo Planejamento, de Simone Tebet, que tem uma secretaria dedicada ao assunto (de revisão de gastos e programas em geral), mas vai ter a colaboração grande e muito interessada da Fazenda e do TCU.

Ministro da Fazenda Fernando Haddad durante entrevista no prédio do Banco do Brasil em São Paulo
Ministro da Fazenda Fernando Haddad durante entrevista no prédio do Banco do Brasil em São Paulo - Ronny Santos - 6.abr.2023/Folhapress

"Gastos tributários", como diz o Tesouro, "são ‘gastos’ do governo realizados por intermédio da redução da carga tributária, em vez de desembolso direto". Nas contas da Receita, o gasto tributário federal neste 2023 seria de R$ 456 bilhões. A receita bruta do governo federal deve ser de R$ 2,3 trilhões neste ano; a líquida, depois de transferências para Estados e municípios, R$ 1,86 trilhão.

Não dá para levar essa conta de gasto tributário ao pé da letra. Se certos impostos voltam a ser cobrados, certos negócios desaparecem, há mudanças de comportamento de pessoas e empresas etc. Ainda assim, é uma enormidade de dinheiro.

Haddad diz que o governo começa a mexer nisso depois da reforma tributária, dos impostos sobre consumo (depois de setembro, imagina).

Os maiores gastos tributários são: redução de impostos do Simples (19,4% do total), Zona Franca de Manaus (12,1%), agricultura e agroindústria (11,8%, dos quais 7,6% para a cesta básica), filantrópicas (7,8%), deduções do IR (6,6%) etc. A lista é imensa e tem muito favor escondido ali. O governo pretende reduzir essas renúncias aos poucos, a depender da necessidade de receita e das condições políticas.

"No Brasil, o que é factível? Mudar a velocidade das variáveis. Essa despesa tem de crescer proporcionalmente mais do que aquela, para chegar a algo mais justo, mais equilibrado, inclusive no que diz respeito ao gasto tributário, mais de R$ 400 bilhões. Vai haver cobrança da sociedade para cortar o gasto tributário? As benesses, os privilégios e tal?", diz Haddad.

É uma briga imensa. Os lobbies costumam vencer. É um motivo maior de iniquidade e ineficiência econômica.

"É um conjunto de distorções que precisa ser corrigida com tempo. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo, porque não se vai fazer nada, vai paralisar o Congresso. Ele tem de ir cortando esse salame em fatias, para ir organizando. Até porque a calibragem das medidas [tamanho de cortes ou gastos] depende de como as decisões forem tomadas. Mas vamos fazer no primeiro ano de governo", diz o ministro.

Quanto ao arcabouço, resta uma definição importante: a de receita recorrente. Pela NRF, a despesa do governo federal pode crescer, por ano, o equivalente a 70% do crescimento da receita (com um teto de aumento de 2,5% ao ano).

O governo também arrecada recursos por vender patrimônio, por receber dinheiros de uma concessão, da venda do direito de exploração de petróleo, dividendos (parte do lucro) de empresas estatais etc. São em geral receitas extraordinárias. Não podem entrar na conta de aumento regular de arrecadação e, pois, de despesa (pois provocariam aumentos insustentáveis).

Vendas de patrimônio ou receitas de concessões devem entrar na conta de "extraordinárias", assim como talvez royalties e até parte de dividendos. O pessoal da Fazenda trabalha nisso ainda.


RUY CASTRO O passado que hoje é presente, FSP

 Às vezes, herdo ou sou agraciado com um objeto a que me referi em algum livro. Em "Chega de Saudade", sobre a bossa nova, falei da caixa de fósforos Beija-Flor que, em 1956, Vinicius de Moraes botava de pé ao lado do copo, no bar Villarino, como generosa medida para sua dose de uísque. Pouco depois, o jornalista Edmilson Siqueira, de Campinas, surpreendeu-me com uma igualzinha. Até hoje, sempre que a vejo, imagino Vinicius pondo sua Beija-Flor junto ao copo para que o garçom o servisse à altura da caixa.

Ingresso de Flamengo x Botafogo, no Maracanã, em 9 de novembro de 1958; no detalhe, a data do jogo carimbada, com o "8" de "58" rasgado; o Botafogo venceu por 3 a 2 - Mauricio Neves

Numa entrevista sobre "O Anjo Pornográfico", minha biografia de Nelson Rodrigues, contei como custei a descobrir a marca de um objeto onipresente nas Redações de jornal em 1929: a escarradeira. Até que descobri: Hygéa. Pois não é que o produtor cultural Marcio Debelian me presenteou com um anúncio de uma linda Hygéa que encontrou numa revista antiga?

E, há dias, contei sobre um regalo inestimável que recebi: um lápis e uma pena que pertenceram a J. Carlos, o gênio do desenho no Rio moderno dos anos 20 e personagem de "Metrópole à Beira-Mar". Tal gentileza só podia partir de seu neto José Carlos de Britto e Cunha.

Agora, outro presente vem me desmontar: um ingresso do jogo Flamengo x Botafogo, no dia 9 de novembro de 1958, de que falei em "Estrela Solitária", sobre Garrincha. Chegou-me de Lages (SC), enviado pelo diretor de arte Mauricio Neves, colecionador de raridades referentes ao Flamengo.

Foi um jogo importante para Garrincha e falo dele no livro. Mas a razão de minha emoção diante desse ingresso é outra. Naquela tarde de 1958, eu estava lá, com meu pai, na arquibancada, em meio à torcida do Flamengo. Foi a minha primeira vez no Maracanã. Ao manuseá-lo, volto a ter 10 anos e, aterrorizado, vejo Garrincha driblar de novo toda a nossa defesa e cruzar mais uma bola que resultará em gol. Incrível, esse passado existiu e hoje é presente.

Elio Gaspari - Isabel e Luiz Gama são parte da História, FSP

 O Ministério dos Direitos Humanos extinguiu a Ordem do Mérito Princesa Isabel e, no mesmo dia, criou o prêmio Luiz Gama. À primeira vista, acabou com um crachá criado por Bolsonaro e exaltou a figura de um abolicionista negro. Com a simultaneidade, o governo praticou um ato mesquinho e inútil. Bolsonaro gostaria de ver um Brasil sem Luiz Gama. O comissariado quer um Brasil sem o crachá de Isabel. Os dois fazem parte da mesma História. Mutilando-a ninguém ganha.

Uma coisa é criar um prêmio para exaltar a memória de Gama, um negro vendido em 1840 pelo próprio pai branco. Ele fugiu, formou-se em direito, lutou pela abolição, conseguiu a libertação de centenas de negros e morreu em 1882, sem vê-la. Bem outra é cassar a Ordem do Mérito de Isabel. Nenhum poder da República poderá apagar o fato de que foi ela, como regente durante viagens do pai, quem assinou as leis do Ventre Livre, em 1871, e da abolição, em 1888. As duas iniciativas haviam sido aprovadas pela Câmara e pelo Senado.

Lula sopra as brasas da inflação ao brigar com BC

Durante quatro anos, Bolsonaro sonhou com cataclismas que nunca vieram.

Com menos de cem dias de governoLula está soprando as brasas da inflação ao brigar com o Banco Central e ao dizer que "se não pode cumprir [o teto de 4,75%], é melhor mudar".

Com esse tipo de declaração ele estimula as expectativas inflacionárias e aí fica uma questão: o que ele pretende com isso.

Bolsonaro sonhava com um caos que lhe permitisse tentar um golpe. Esse sonho não está no acervo de Lula.

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, durante cerimônia na sede do Tribunal Superior Eleitoral em Brasília - Adriano Machado-07.mar.2023/Reuters

CAMPOS E SUA COMUNICAÇÃO

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, admitiu que "às vezes eu me vejo com alguma deficiência na comunicação" e prometeu melhorar.

Basta não agredir a inteligência de quem o ouve. Na sua entrevista ao programa Roda Viva, quando lhe perguntaram sobre a camiseta da seleção brasileira de futebol que vestiu ao ir votar, o doutor respondeu: "Voto é um ato privado".

A pergunta tratava de sua camisa.

EXECUTIVO PREVIDENTE

Ainda não se conhecem os nomes dos diretores da rede varejista Americanas que venderam cerca de R$ 240 milhões de ações da empresa no ano passado, quando já sabiam que o negócio estava emborcado com um rombo bilionário.

Sabe-se, contudo, que pelo menos um deles transferiu o ervanário para as contas de familiares no exterior.

PAX AMERICANAS

O anúncio de que os três grandes acionistas da rede Americanas colocarão até R$ 12 bilhões no poço da empresa esfriou o fervor de pelo menos um banqueiro contra o trio.

luiz gama
Ilustração de Luiz Gama no livro "Lições de Resistência", das Edições Sesc - Divulgação

Isabel foi uma princesa carola, apagada pela figura de D. Pedro 2º. Salvo um acidente ocorrido na sua juventude, quando furou um olho de uma amiga, nunca fez mal a ninguém. Para horror de alguns cortesãos, era amiga do engenheiro negro e abolicionista André Rebouças. Ele registrou em seu diário que no dia 4 de maio de 1888 a princesa mandou construir um abrigo para 14 negros fugidos. (Em maio de 88 a abolição era fava contada. Vale lembrar que, em março, fazendeiros paulistas espancaram e mataram o promotor Joaquim Firmino de Araújo Cunha diante de sua família, por proteger negros fugidos.)

Se o comissariado petista não gostou da criação da Ordem do Mérito Princesa Isabel, bastava que a esquecesse, não concedendo o crachá.

A simultaneidade da cassação da Ordem com a instituição do prêmio Luiz Gama foi uma mesquinharia. Eles pertencem a mundos diferentes, a princesa viveu no andar de cima. Gama batalhou no de baixo. Defendia escravizados, denunciava os crimes de fazendeiros. Foi um radical.

No abolicionismo branco de figuras ilustres como Joaquim Nabuco há o combate à escravidão. No de Luiz Gama estão negros de carne e osso, como Brandina, Antonio e Raimundo.

Seus radicalismos estavam todos certos. Não só na abolição, mas também na República. Foi profético quando lembrou a D. Pedro 2º que o povo, num "cântico à liberdade", poderia repetir o 7 de abril de 1831, repetindo o "sinistro banimento" de seu pai. (Oito anos depois, sem que o povo entrasse na cena, Pedro e Isabel foram banidos. Eles morreriam na França.)

Em 1881, um grupo de admiradores de Luiz Gama formou uma comissão para custear o pagamento de um quadro retratando-o. Eis a sua resposta:

"[Empreguem] o dinheiro colhido, com algum auxílio, se precisão houver, na libertação de um escravo, que indicarei. Assim prestaremos todos à humanidade um relevantíssimo serviço, merecedor de melhor apreço do que a tela, na qual pretendem imortalizar-me a óleo."

Nos dias de hoje, o advogado Luiz Gama incomodaria as autoridades denunciando as sortidas policiais que matam "suspeitos", quase sempre negros, nos bairros pobres das cidades.

Serviço: A obra completa de Luiz Gama, com 11 volumes, foi organizada e anotada pelo historiador Bruno Rodrigues de Lima. Publicada pela editora Hedra e está à venda na rede.