domingo, 9 de abril de 2023

Elio Gaspari - Inelegibilidade de Bolsonaro será teste de qualidade para Kassio, FSP

 O julgamento da inelegibilidade de Bolsonaro será um teste de qualidade para o ministro Kassio Nunes Marques.

Ele poderá votar contra, até porque ninguém espera que vote a favor. Nesse caso, ficará com a minoria, mas jogará o jogo pelas boas regras.

Noutra possibilidade, poderá pedir vista, engavetando o processo por até dois meses.

Nunes Marques sabe o tamanho de seu prestígio no Supremo Tribunal. Se decidir jogar pelas regras dos Bolsonaro, terá feito a pior escolha.

Bolsonaro fala a embaixadores
Bolsonaro durante pronunciamento a embaixadores; tela mostra notícia com tradução errada ao inglês - Reprodução

THOMAS TEVE UM MESTRE

O juiz Clarence Thomas, da Corte Suprema americana, foi apanhado beneficiando-se com presentes e mordomias oferecidas por um ricaço. O doutor disputa com folga o título de pior juiz da corte em várias gerações. Ficou famoso pelo seu silêncio durante as sessões.

Por pior juiz que seja Clarence Thomas, ele herdou o gosto pelas boquinhas de Antonin Scalia, o brilhante conservador do tribunal. Ele gostava de caçar e pescar. Morreu durante a noite numa pousada de luxo. Fez pelo menos 85 viagens nas quais quase sempre o jatinho era patrocinado.

O que é bioeconomia, e qual o lugar do Brasil nesse campo - Mariana Vick, NExo PP

 Artigo afirma que, apesar da abundante diversidade de espécies, Brasil investe pouco na produção de itens que derivam de substâncias naturais e têm alto valor agregado, como remédios. Pesquisadora do BIOTA/FAPESP comenta o cenário ao ‘Nexo Políticas Públicas’

FOTO: RONALDO ROSA/EMBRAPA
De costas, uma pessoa, usando jaleco branco, manuseia o pedaço de uma planta em um aparelho semelhante a um microscópio, debaixo de uma luz forte. Ela usa pinças de laboratório para manusear.
 CIENTISTA ANALISA TECIDO VEGETAL EM LABORATÓRIO DE BIOTECNOLOGIA

A biodiversidade brasileira é uma fonte rica de recursos químicos e biológicos que podem ser usados para criar produtos naturais sofisticados, mas, por não investir o suficiente em tecnologia, o país desenvolveu poucos itens a partir de substâncias encontradas na fauna e na flora.

Um artigo publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências analisa o cenário e aponta caminhos para o Brasil estimular o desenvolvimento de produtos naturais de alta tecnologia, ramo que pode contribuir para o crescimento econômico e estimular novos modelos de produção sustentável.

A publicação, escrita pelas pesquisadoras Vanderlan Bolzani e Marilia Valli, integrantes do BIOTA/FAPESP, um dos parceiros do Nexo Políticas Públicas, destaca o potencial da bioeconomia, segmento que se baseia no uso racional da biodiversidade para criar produtos nas áreas de alimentos, saúde e bioenergia, entre outras.

“As plantas são uma explosão dessas moléculas, dessas substâncias que a gente chama de produtos naturais. E nós os imitamos [na indústria]. Não existe um ser humano que produziu modelos moleculares tão fascinantes quanto a natureza”

Vanderlan Bolzani

professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista), integrante do BIOTA/FAPESP e presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, em entrevista ao Nexo Políticas Públicas

A produção de novos itens acontece quando pesquisadores isolam determinadas substâncias da fauna e da flora e descobrem que elas podem ter novos usos (aliviar uma dor, por exemplo). A partir de então, eles replicam essas moléculas e podem usar a descoberta para novos produtos, como um novo remédio.

“A morfina é o exemplo mais emblemático de uma molécula fascinante produzida pela biodiversidade que aplicamos na medicina”, afirmou Vanderlan Bolzani ao Nexo Políticas Públicas. “Até hoje, apesar de todo o desenvolvimento de analgésicos, ainda usamos a substância ou derivados dela.”

A baixa quantidade de produtos nacionais desenvolvidos a partir de substâncias descobertas no país é incompatível com a pesquisa acadêmica a respeito do tema, segundo o artigo de Bolzani e Valli. Inúmeras substâncias foram isoladas da biodiversidade do país, mas o conhecimento acadêmico ainda não chega à indústria brasileira.

Entre os produtos descobertos no Brasil está a bradicinina, substância do veneno da Jararaca-da-mata. Por inibir agentes que elevam a pressão arterial, ela deu origem a uma classe de remédios que tratam hipertensão, como o Capoten. Outro produto é o óleo essencial da erva-baleeira, base do anti-inflamatório Acheflan.

O que é bioeconomia

A bioeconomia é o conjunto de atividades que visam à produção e à distribuição de bioprodutos, ou seja, produtos que têm origem nos recursos biológicos, como biofármacos, insumos para a bioenergia, alimentos funcionais, produtos biodegradáveis e outros itens derivados de matéria natural.

O segmento se distingue de outros setores que usam os recursos naturais por dois motivos: pelo uso da biotecnologia (entre outros conhecimentos científicos de ponta) e pelo objetivo de construir um modelo de produção sustentável a longo prazo, baseado no uso de recursos renováveis e limpos.

2 trilhões

de euros é quanto a bioeconomia movimenta no mercado mundial, segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico)

Um exemplo de iniciativa que pode ser classificada dentro da bioeconomia é o Proálcool (Programa Nacional do Álcool), que surgiu no Brasil nos anos 1970, durante a crise mundial do petróleo. Com o programa, o país passou a produzir etanol para gerar energia a partir da cana-de-açúcar.

FOTO: ADILSON WERNECK/EMBRAPA
Vasos, dentro de ambiente fechado e iluminado, contêm plantas da soja.
 SOJA PLANTADA EM CASA DE CONTENÇÃO PARA PRODUÇÃO DA PROTEÍNA CIANOVIRINA, UM FÁRMACO

A bioeconomia faz parte das estratégias de mais de 40 países para o futuro, segundo o artigo de Bolzani. Por usar produtos naturais no lugar de recursos não renováveis, o setor tem potencial de fazer frente à mudança do clima e a outros desafios relacionados ao ambiente, à economia, à transição energética, à segurança alimentar e à saúde.

Ao Nexo Políticas Públicas, Bolzani disse que a definição de bioeconomia (como produção baseada na natureza) pode ser vaga, e que sua pesquisa tem como foco produtos que “vão além das monoculturas” como soja e açúcar. Entre eles estão medicamentos, produtos de higiene e fragrâncias criadas a partir de ativos identificados na natureza.

“[Apostar na bioeconomia] seria muito interessante para o país”, afirmou a pesquisadora. Ela diz, contudo, que o setor exige investimento. “[Investir] não é uma tarefa simples. É custosa, dispendiosa e, muitas vezes, frustrante, porque as pessoas querem resultados muito rápido.”

Qual o potencial do Brasil

biodiversidade do Brasil é a maior do mundo. A variedade de espécies que se encontram no país inclui cerca de 103 mil animais e 43 mil tipos de vegetais, distribuídos em seis biomas terrestres e três ecossistemas marinhos, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

A quantidade de formas de vida originárias do país abriga plantas de importância econômica mundial, mas também uma diversidade química e biológica que, de acordo com o artigo de Vanderlan Bolzani, traz oportunidades para a inovação baseada em produtos naturais.

20%

do número total de espécies no mundo podem ser encontradas no Brasil, segundo informações do Ministério do Meio Ambiente

A fraca atuação do Brasil nesse campo se explica por opções que fez no passado. O país apoiou o desenvolvimento econômico na exportação de commodities (produtos básicos, como soja e açúcar) e não investiu em tecnologia para transformá-las em produtos de valor agregado, disse Bolzani ao Nexo Políticas Públicas.

A soja, por exemplo, é uma commodity. A isoflavona de soja (substância extraída do grão e usada para aliviar sintomas da menopausa) tem valor agregado e é um produto que demanda maior tecnologia para ser produzido, assim como outros do ramo da bioeconomia.

“Acho que, nos últimos 15 ou 20 anos, o país fez uma opção suicida de deixar de investir em alta tecnologia e começar a importar tudo, porque na época era conveniente, barato”, afirmou Bolzani. “Muitos setores nacionais deixaram de produzir. Mas hoje já não é tão fácil importar, por agora temos a alta do dólar.”

FOTO: AGÊNCIA BRASIL
Homem sem camisa está sozinho num pequeno barco, remando num grande rio. Atrás aparece a vegetação verde.
 HOMEM REMA EM BALSA NA AMAZÔNIA

Além da falta de tecnologia, Bolzani criticou o desmatamento em biomas como a Amazônia. Segundo a pesquisadora, ele traz prejuízos para o conhecimento da biodiversidade. “Não são todos os lugares que têm florestas como a nossa. Quando você perde essa informação biológica [com o desmate], ela não tem volta.”

O artigo que Bolzani escreveu com Marilia Valli defende que o Brasil invista em educação, ciência e infraestrutura para mudar esse cenário. As pesquisadoras afirmaram que o país tem condições de se tornar o líder em uma transição para uma economia sustentável, baseada no uso racional de produtos naturais fabricados com alta tecnologia.

Para tentar resolver um problema que pode ser de acesso à informação, o artigo apresenta o NuBBE, banco de dados de produtos naturais da biodiversidade brasileira. A base disponibiliza 2.223 estruturas de produtos naturais on-line e fornece informações sobre as substâncias. A criação é de Marilia Valli com orientação de Bolzani.


sexta-feira, 7 de abril de 2023

Quando não ser não basta, HÉLIO SCHWARSTMAN, FSP

 Hélio Schwartsman

SÃO PAULO

Com pouco mais de três meses de existência, já deu para sentir um gostinho de como será o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Comecemos pelos aspectos positivos. Lula trouxe de volta à Presidência um pouco de normalidade. Não temos mais um mandatário que debocha das vítimas da Covid-19 ou que governa pela sabotagem, editando decretos e portarias que erodem as leis que deveriam regulamentar e nomeando desqualificados ou mesmo infiltrados para dirigir órgãos com cuja missão não concorda.

Homem de cabelos, barba e bigode brancos, vestindo terno e gravata escuros e tendo mais pessoas à sua volta, gesticula e fala com um microfone na mão
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa de café da manhã com jornalistas no Palácio do Planato nesta quinta-feira (6) - Pedro Ladeira/Folhapress

Mais do que isso, foi bom ver o governo federal finalmente agindo para retirar os garimpeiros ilegais de territórios indígenas e enfatizando a importância de políticas públicas básicas, como a vacinação. Lula não é Bolsonaro, e isso é ótimo. Convenhamos, porém, que não ser Bolsonaro é a parte fácil. Infelizmente, não basta para credenciar Lula, à frente de seu terceiro mandato, como um bom presidente.

É aí que eu começo a me preocupar. Minha impressão é que Lula já não exibe a mesma forma política de antigamente. Trocou o pragmatismo que caracterizou suas duas primeiras gestões por uma espécie de anseio em acertar as contas com o passado. Contrariando a ideia de governo de união nacional esboçada durante a campanha, Lula parece guiar-se pelo menos parcialmente pelo fígado, voltando-se contra as principais leis aprovadas durante o governo de Michel Temer e a tudo o que evoque, ainda que muito vagamente, a operação Lava Jato.

Ao fim e ao cabo, o que definirá o sucesso ou fracasso de Lula 3 não serão reinterpretações da história e sim o desempenho da economia. Aqui os sinais são ambíguos. O presidente parece hesitar entre uma agenda estruturante, que permitiria uma retomada consistente mais adiante, e a ideia, tão popular quanto equivocada, de que basta um bom volume de gastos públicos para assegurar o crescimento.

Lula vai bem em não ser Bolsonaro, mas precisamos de muito mais.