quarta-feira, 5 de abril de 2023

Espião russo que se passou por brasileiro tinha esconderijo para equipamentos e mensagens em SP, OESP

 BRASÍLIA - Sergei Cherkasov, o espião russo preso após tentar entrar na Holanda com identidade brasileira falsa usava esconderijos para deixar dispositivos eletrônicos e mensagens que poderiam ser recuperados por outros integrantes de sua organização. Um dos pontos para ocultação de equipamentos era uma ruína localizada dentro de uma mata às margens da Rodovia Raposo Tavares, em Cotia, região metropolitana de São Paulo.

O espião vivia em São Paulo, usava o nome falso de Victor Muller Ferreira e se passava por brasileiro. Ele usou essa identidade para ir estudar na Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, de onde tentou conseguir estágios em agências governamentais e internacionais. Ao conseguir um cargo no Tribunal Internacional em Haia, foi descoberto por autoridades americanas e holandesas e deportado para o Brasil.

O local foi descoberto porque no celular de Cherkasov havia rascunhos de mensagens acompanhadas de um mapa com fotos do local exato onde objetos poderiam ser encontrados, exatamente em uma falha na junção de duas paredes da construção abandonada.

Com a descoberta do esconderijo de Cotia, policiais federais foram ao local e encontraram “equipamentos eletrônicos” no local indicado. O material foi entregue ao FBI. A dispensa de equipamentos de comunicação em locais remotos onde contatos podem recuperá-los é uma prática relativamente comum no mundo da espionagem, segundo relatórios de contrainteligência.

O espião foi preso no aeroporto de Guarulhos no dia 3 de abril de 2022 após ter a entrada negada na Holanda. Ele se preparava para um estágio no Tribunal de Haia, onde teria interesse em acessar informações sobre investigações relacionadas a crimes de guerra praticados pela Rússia no conflito com a Ucrânia.

Imagens encontradas em celular de espião russo com indicações de endereço de um esconderijo em Cotia, SP.
Imagens encontradas em celular de espião russo com indicações de endereço de um esconderijo em Cotia, SP. Foto: Reprodução/FBI

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Atos de espionagem

O russo viveu como estudante brasileiro nos Estados Unidos e na Irlanda. Como mostrou o Estadão, um inquérito aberto na Polícia Federal de São Paulo mapeia “atos de espionagem” de Cherkasov também no Brasil. Também há suspeitas de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Sergei Cherkasov viajou à Holanda em 31 de março de 2022, quando acabou barrado e deportado. Às vésperas do embarque, ele esteve no esconderijo de Cotia. Ele fez uma viagem com carro de aplicativo até o local às 17h55 do dia 19 de março, menos de duas semanas antes de tentar deixar o Brasil.

O espião foi condenado a 15 anos de prisão pela Justiça Federal de São Paulo por causa do uso continuado de documentação falsa. Desde dezembro ele está em um presídio federal de Brasília.

O governo da Rússia pediu a extradição de Sergei Cherkasov. Na versão do país de Vladimir Putin, trata-se de um membro de uma organização de traficantes de heroína que fugiu para não cumprir a pena. Os crimes dele teriam sido cometidos entre 2011 e 2013. Os registros da imigração brasileira, porém, apontam que a primeira viagem dele ao Brasil ocorreu em 2010. Em 2011, entrou no País pela segunda vez.

No celular do russo Sergey Cherkasov foram encontradas indicações, fotos e mapa de um esconderijo de equipamentos e mensagens em Cotia, São Paulo.
No celular do russo Sergey Cherkasov foram encontradas indicações, fotos e mapa de um esconderijo de equipamentos e mensagens em Cotia, São Paulo. Foto: Reprodução/FBI

O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), concordou com o pedido, mas frisou que ele só poderá ser atendido depois que a investigação da PF em São Paulo chegar ao fim.

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Em uma audiência virtual no fim do ano passado, Sergey Cherkasov admitiu a identidade falsa e manifestou interesse em ser deportado o mais rápido possível. “Gostaria de permanecer em silêncio. Eu só gostaria de reiterar que eu quero ser extraditado para a Rússia. Eu concordo com as acusações que a Rússia fez e pretendo responder aos fatos dos meus crimes (...) o mais rápido possível”, disse.

O passaporte original diz que Sergey Cherkasov nasceu em 11 de setembro de 1985. Os documentos falsos que obteve no Brasil têm 4 de abril de 1989 como data de nascimento. Como nome da mãe, ele usou a identidade de uma mulher que morreu em março de 2010 e que não teve filhos.

Para as falsificações, o espião contou com a ajuda de uma mulher ligada a um cartório. Em agradecimento aos serviços chegou a presenteá-la com um colar Swarovski que custou cerca de US$ 400. Em uma mensagem recuperada por investigadores, Cherkasov disse que ela poderia ajudar com documentos falsos de outros espiões russos.

Além de eventuais ações de espionagem no Brasil, a polícia brasileira apura a existência de uma rede de apoio e de outros espiões russos em funcionamento no território nacional.

Região de floresta em Cotia, SP, onde estava um esconderijo do espião russo para equipamentos e mensagens.
Região de floresta em Cotia, SP, onde estava um esconderijo do espião russo para equipamentos e mensagens. Foto: Reprodução/Google Maps

Outros casos

Nos últimos meses, outros dois casos de espiões russos com identidades brasileiras falsas vieram à tona. Em outubro, o serviço de inteligência da Noruega deteve Mikhail Valeryevich Mikushin. Ele se apresentava como o pesquisador José Assis Giammaria, na Universidade de Tromsø.

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E Gerhard Daniel Campos Wittich era o nome falso de um outro russo que morou no Rio de Janeiro por cinco anos e se dizia brasileiro com ascendência austríaca. Ele foi descoberto pela inteligência da Grécia, segundo o Guardian, porque a mulher dele, também espiã, estaria atuando em Atenas.

'Broker', de Kore-eda, traz beleza do caos com vendedores de bebês, Inácio Araújo FSP

 

BROKER - UMA NOVA CHANCE

  • Quando A partir de quinta-feira, dia 6
  • Onde Nos cinemas
  • Classificação Não disponível
  • Elenco Song Kang-ho, Gang Dong-won, Bae Doona
  • Produção Coreia do Sul, 2022
  • Direção Hirokazu Koreeda

Hirozaku Kore-eda é um cineasta da família, que seus filmes observam nas situações mais variadas. Em "Broker – Uma Segunda Chance", a empreitada parece atravessada por ironia e a família que se forma não deixa de ser surpreendente.

Existe, para começar, uma mãe solteira que deixa seu bebê recém-nascido numa caixa para adoção. A caixa é operada por dois traficantes de bebês, isto é, sujeitos que pegam as crianças e as revendem. O que, para começar, caracteriza sequestro. Isso acontece por conta das dificuldades que as leis impõem, o que leva famílias ricas a buscarem vias um tanto tortas para adoção, isto é, a compra de crianças.

Acontece que a jovem mãe, no caso, reaparece de maneira inesperada e, claro, embaraçante para os dois, que não se sabe se usam uma lavanderia como fachada de seu negócio ou se o comércio de crianças é um tanto ocasional. Os confusos traficantes ficam, assim, mais confusos ainda.

Cena do filme 'Broker; Uma Nova Chance', de Hirokazu Kore-eda
Cena do filme 'Broker: Uma Nova Chance', de Hirokazu Kore-eda - Divulgação

Eles agregam a jovem, que se mostra disposta a controlar a negociação, de modo a ter certeza de que o filho estará em boas mãos após ser adotado. A busca encontra alguns percalços. Para começar, são seguidos por duas policiais dispostas a flagrá-los em operação de tráfico.

Algumas dificuldades depois, eles se encontram em um orfanato, onde um menino travesso (e disposto a se tornar jogador profissional de futebol nas grandes ligas europeias) se agrega à trupe. São esses que, sem interromper sua busca por pais que sejam ricos e boas pessoas ao mesmo tempo e estejam dispostos a adotar o bebê.

A sordidez que consiste em fazer de um recém-nascido uma mercadoria vai sendo normalizada, vamos dizer assim, ao mesmo tempo em que a perseguição policial tenta se tornar ardilosa (colocando escutas em supostos pretendentes à compra) e de certa forma imoral. Enquanto isso, o grupo reunido na van da lavanderia troca experiências (notamos, por exemplo, que as experiências de rejeição são bem frequentes entre eles) e aos poucos vai constituindo uma família dos sem-família.

Kore-eda opera, assim, no limite entre farsa e tragédia, policial e comédia, imprimindo leveza inesperada a um assunto em princípio espinhoso, já para não dizer escabroso. De certa forma, seu "Broker" nos convida a observar que pessoas nunca são uma coisa só.

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Com essa entrada num universo criminal da qual fazem parte tanto pauperizados comerciantes de crianças como os ricos compradores, mulheres policiais que podem ter ataques de choro durante sua busca, Kore-eda nos leva a considerar um mundo, bem atual, em que a tolerância desce a níveis não raro insuportáveis.

Partindo do que pode existir de mais sórdido em matéria de objetificação (o tráfico de bebês, portanto de seres completamente indefesos, não é demais lembrar), "Broker" nos coloca aos poucos, e com suavidade, diante de um mundo bem mais complexo do que supõe, por exemplo, o programa do Datena.

Pensar que humanos possam ser mais do que figuras unidimensionais, corpos convenientes a levar tiros ou facadas pelo simples motivo de que nos parece mais confortável do que conhecê-los é, no mínimo, uma empreitada de beleza, num mundo de desequilíbrios tão profundos (aos quais o filme também não é alheio).