quarta-feira, 5 de abril de 2023

Tribunal paulista elege desembargadora para Órgão Especial, FSP

 

SÃO PAULO

Sob o título "Mulheres têm presença histórica no Órgão Especial do TJ-SP", a Apamagis (Associação Paulista dos Magistrados) comemora em seu site a eleição da desembargadora Silvia Rocha para o órgão de cúpula do Tribunal de Justiça de São Paulo:

"Pela primeira vez na história, o Órgão Especial do TJ-SP é composto por três mulheres. O número foi alcançado com a entrada da desembargadora Silvia Rocha em eleição realizada em fevereiro. As outras duas desembargadoras são Márcia Regina Dallas Dea Barone e Luciana Almeida Prado Bresciani".

O Órgão Especial é composto por 25 membros. Ou seja, as mulheres têm presença reduzida nesse colegiado, ainda distante da pretendida paridade de gênero nos tribunais.

O quadro é mais grave em outros estados. Treze tribunais possuem apenas desembargadores homens.

Machismo nos tribunais: juízes comemoram eleição de terceira mulher em órgão de cúpula do TJ-SP
Desembargadoras Luciana Bresciani, Márcia Barone e Silvia Rocha - TJ-SP/Divulgação

O destaque à eleição de Silvia Rocha ocorre quando a participação feminina nos tribunais é tema que ganha mais espaço no debate jurídico.

O Conselho Nacional de Justiça propôs estabelecer a igualdade de gênero nas comissões e bancas de concurso da magistratura. De certa forma, o TJ-SP chegou antes.

Silvia Rocha presidiu a Comissão Examinadora do 189º Concurso de Provas e Títulos de Ingresso na Magistratura do Estado de São Paulo.

O blog discutiu a ideia de tornar mais rigorosos os exames psicotécnicos para ingresso de candidatos a magistrados. O debate foi motivado pela revelação do site G1 de que o juiz Valmir Maurici Júnior, de Guarulhos (SP), foi acusado pela mulher de praticar violência física, sexual e psicológica.

O episódio trouxe à tona o desgaste do TJ-SP com a demora para punir o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, que ficou conhecido nacionalmente ao ofender e humilhar um guarda municipal.

Os abusos atribuídos ao magistrado paulista são antigos. No início da carreira, a desembargadora Maria Lúcia Pizzotti o processou por injúria e difamação.

"O tribunal esperou 42 representações contra o desembargador para tomar uma atitude", disse uma das entrevistadas pelo blog.

Essa atitude foi tomada em 2022, quando o Órgão Especial puniu Siqueira com a pena de disponibilidade por ofender e intimidar uma policial militar.

A relatora foi Luciana Almeida Prado Bresciani, uma das três desembargadoras homenageadas pela Apamagis.

"O comportamento do magistrado é grave e não pode passar sem punição", disse Bresciani na ocasião.

Seu voto foi apoiado pelo presidente do tribunal. "Nós, desembargadores, temos que dar o exemplo", disse Ricardo Anafe.

Outra analista consultada pelo blog disse que "os tribunais mais conservadores, como o de São Paulo, sempre tiveram o estigma de dificultar a participação feminina nos concursos".

Na reportagem da Apamagis, Márcia Barone relembrou o desafio no início da carreira:

"Na época em que ingressei na magistratura (junho de 1989), o grande desafio era a aprovação no concurso público, na medida em que existia muita resistência ao ingresso de mulheres, até então com predominância masculina."

Barone é secretária do Conselho Consultivo, Orientador e Fiscal da Apamagis. Segundo ela, a presença no Órgão Especial é decorrência do maior número de mulheres promovidas ao cargo de desembargadora.

"A participação feminina na administração do tribunal pode auxiliar nas melhores decisões para toda carreira", afirma Barone.

"Há muito tempo temos juízes do sexo feminino, tanto em 1º como em 2º graus. Não pode ser diferente no Órgão Especial e no Conselho Superior da Magistratura", diz Luciana Bresciani.

"Não se trata de estabelecer uma discriminação positiva, ao revés, apenas refletir o que somos, sem qualquer distinção", afirma.

"Sempre preferi considerar os desafios como iguais, com muito estudo, muito trabalho, manter postura discreta, mas com voz independente e segura, indispensável à prestação jurisdicional", diz Bresciani.

Alguns magistrados rejeitam a crítica de analistas que consideram o TJ-SP uma corte conservadora.

O tribunal paulista ficou em último lugar no item transparência no "Prêmio de Qualidade do CNJ 2021".


Os Cem Dias de governo em 2023 e os de 2019, Elio Gaspari - FSP

 Na próxima semana Lula chegará aos cem dias de governo. Como fazem quase todos os governos, a data será comemorada com promessas e propaganda. Contudo, a melhor comemoração desses cem dias está na comparação do mesmo período com os de seu antecessor.

Nos primeiros cem dias de Bolsonaro, foram demitidos dois ministros.

Primeiro caiu o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno. Esse advogado carioca ligara-se ao capitão quando todos os bolsonaristas cabiam numa Kombi. Em fevereiro de 2019, ele foi atropelado por intrigas do círculo familiar do presidente e saiu arrependido: "Tenho vergonha de ter acreditado nele. É uma pessoa louca, um perigo para o Brasil". Bebianno morreu meses depois, aos 59 anos, entristecido.

Jair Bolsonaro e Lula durante debate no segundo turno da eleição presidencial de 2022 - Sérgio Zalis - 28.out.22/TV Globo

O segundo ministro a cair, perto da marca dos cem dias, foi Ricardo Vélez, da Educação. Personagem pitoresco, teria sido recomendado pelo escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo. Pouco depois de assumir, Vélez disse que "o brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião". Antes mesmo dos cem dias, Olavo de Carvalho informava: "E eu sou o guru dessa porcaria. Eu não sou o guru de merda nenhuma".

Competindo com as excentricidades de Vélez, o primeiro chanceler de Bolsonaro, o diplomata Ernesto Araújo, assumiu falando grego e tupi durante o discurso de posse. Inaugurando a prática das caneladas na China, ele dizia que "lembrar-se da pátria, não é lembrar-se da ordem liberal internacional, não é lembrar-se da ordem global. (...) Vamos escutar menos a CNN e mais Raul Seixas". Tempos depois o doutor diria que "sejamos pária". Conseguiu.

Bolsonaro chegou ao Planalto querendo forjar um novo tipo de relação com os militares. Saudando o antigo comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, mostrou o cabo do revólver: "Meu muito obrigado, comandante Villas Bôas. O que nós já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por estar aqui. Muito obrigado, mais uma vez". Semanas depois, mostrou o cano: "Democracia só existe se as Forças Armadas quiserem".

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Os primeiros meses de Bolsonaro serviram para que seus colaboradores e aliados distribuíssem utopias. O superministro da Economia, Paulo Guedes, prometia reformas que salvariam o país dos "piratas privados, burocratas corruptos e criaturas do pântano político se associaram contra o povo brasileiro".

Wilson Witzel, um juiz desconhecido que havia sido eleito governador do Rio de Janeiro na onda bolsonarista de 2018, prometia severidade na defesa da ordem: "A Lei Antiterrorismo pode dar penas de 50 anos, em estabelecimentos prisionais destacados, longe da civilização. Precisamos ter a nossa Guantánamo". Em 2021, a Assembleia do Rio retirou-o do cargo, aceitando as denúncias de corrupção que arruinaram seu governo. (Ecoando conversas, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, defendia a abertura de cassinos na cidade.)

Nos primeiros cem dias de seu governo, Bolsonaro fez pelo menos 82 afirmações falsas. Além disso, escanteou o vice-presidente, general Hamilton Mourão, transferindo seu gabinete para um anexo do Planalto. Durante o Carnaval, postou um vídeo escatológico.

Isso tudo antes da chegada do vírus da Covid.

MARCELO MITERHOF -BNDES: lucros e fragilização, FSP

 Marcelo Miterhof

Economista do BNDES

Os resultados financeiros do BNDES em 2022, divulgados no último dia 14 de março, mostram uma situação paradoxal, mas útil para entender um banco de desenvolvimento.

O lucro líquido foi de R$ 41,7 bilhões. O valor é recorde, em termos nominais e reais (descontando a inflação). No entanto, o lucro recorrente foi de R$ 12,5 bilhões, obtido pela exclusão de eventos extraordinários, em especial os dividendos pagos pela Petrobras (R$ 17, 2 bilhões), o efeito contábil de reclassificação da JBS como não coligada (R$ 5,8 bilhões) e as vendas de ações (R$ 2,3 bilhões).

Sede do BNDES, no Rio de Janeiro - Lucas Tavares - 18.jul.2017/Folhapress - Lucas Tavares/Folhapress

Outro aspecto é a trajetória dos ativos totais. A carteira, que em 2014 era de R$ 1,4 trilhão, fechou 2022 em menos da metade, R$ 684 bilhões, patamar em reais equivalentes de 2008, mas bem inferior em proporção do PIB. Isso é explicado pela redução da carteira de crédito, pelas antecipações dos empréstimos da União ao BNDES de 2008 a 2014 e pela venda de participações acionárias.

Os desembolsos de 2000 a 2007 representavam cerca de 2% do PIB. Em 2021, tal número chegou ao piso de 0,74% do PIB e, em 2022, foi a 1%.

O quadro aponta duas conclusões. Primeiro, os altos lucros que o BNDES teve em 2022 e anos anteriores foram fruto principalmente do desempenho da carteira de ações formada até 2015, em especial na gestão de Luciano Coutinho: Petrobras, JBS, Vale, Suzano e Eletropaulo, entre outras, trouxeram alto retorno para o BNDES, cuja carteira teve de 2002 a 2022 mais que o dobro da rentabilidade do Ibovespa.

A segunda é que os lucros elevados ocorreram enquanto o BNDES se fragilizava. Isso porque a carteira de ações não foi reciclada: o usual é reinvestir de 10% a 20% dos valores vendidos. E porque a carteira de crédito vem caindo sistematicamente, em razão da queda da taxa de investimento e da perda de competitividade do BNDES com a criação da TLP, uma taxa de baixo uso no mercado e pouco adequada para quem sofre com restrição de crédito, enquanto o mercado de capitais contava com os subsídios de instrumentos financeiros incentivados.

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Um banco que atua com ativos de tão longo prazo pode gerar altos lucros perdendo sustentabilidade financeira. A rentabilidade do trabalho feito no passado escamoteia o que ocorre no presente. A contrapartida é que a retomada das operações também vai demorar a se refletir nos resultados.

Mas não há outro remédio. O BNDES precisa ter condições de operar com fontes de recursos adequadas às necessidades para voltar a desembolsar no patamar de 2% do PIB. O banco precisa ter condições de captação de recursos compatíveis com o desafio de financiamento a projetos intensivos em externalidades. Condições especiais para tais projetos são justificadas pelo alto retorno social e por remover constrangimentos financeiros a investimentos eficientes e produtivos.

O BNDES também precisa voltar a ter na atuação com ações uma forma de apoiar investimentos mais desafiadores —de maior risco, mas maior chance de ganho— e de reforçar sua sustentabilidade e capacidade de emprestar a taxas mais baixas.

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