quarta-feira, 5 de abril de 2023

O Estado não pode conduzir uma economia, Deirdre Nansen McCloskey, FSP

 Você já deve ter ouvido falar que os bancos centrais pretendem aumentar a taxa de juros para "combater a inflação, mas não causar uma recessão".

Eu já lhe disse por que é uma missão tola.

taxa é definida da mesma forma como são definidos os preços mundiais do café, do milho ou do ferro —pela oferta e demanda. Os bancos centrais não têm um controle maior sobre a taxa de juros do que aquele que o Brasil tem sobre o preço do café.

De qualquer forma, aumentar a taxa de juros não tem nada a ver com inflação. Imprimir dinheiro sim —como os brasileiros aprenderam em 1990. Os formuladores de políticas não sabem.

Hoje, porém, tenho um ponto mais radical. Exceto quando for utilizada para prevenir violência ou fraudes, qualquer política que vise coagir as pessoas a fazerem o que elas não fazem espontaneamente é estúpida e perversa. Por exemplo: os bancos centrais e seus Estados devem abandonar totalmente o negócio de dirigir a economia. Um adesivo de para-choque: "Separação entre economia e Estado".

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O Estado não pode conduzir uma economia.

Sede do Banco Central, em Brasília - Lúcio Távora - 23.mar.23/Xinhua

É verdade que pode arruiná-la facilmente ao, por exemplo, adotar uma proteção maciça contra importações ou estabelecer uma idade compulsória de aposentadoria absurdamente baixa ou enviar escravos para conquistar homens livres. O Brasil costumava fazer o primeiro. A França faz o segundo. Putin acabou de fazer o terceiro. A demolição dá às pessoas a ideia de que deve haver uma boa "não demolição" em algum lugar. Imaginar que "nós" podemos definir a taxa de juros, digamos. Não. É demolição de alto a baixo.

As razões são muitas. Você ouvirá economistas afirmarem que a economia privada tem "imperfeições" que o Estado pode reparar. Mas as imperfeições nunca são medidas cientificamente. E é uma loucura a noção de que um Estado ignorante, corrupto e acostumado a se mover por hábitos poderia repará-las. Os políticos não são todos maus. Nem todos os economistas são anticientíficos. Os cidadãos não são todos tolos. Mas muitos deles são maus, tolos não científicos que, quando recorrem à política e ao Estado para resolver problemas, veem que eles não funcionam muito bem.

De qualquer maneira, qual é a ética? Devemos nos tornar filhos perpétuos do Estado?
Você está dirigindo um carro através de uma névoa muito densa. O volante não funciona bem. Os instrumentos mentem. Os freios não são confiáveis. O que fazer?

Pare de tentar dirigi-lo. Puxe o freio de emergência. Saia do banco do motorista antes que você mate todos nós.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves


Mariliz Pereira Jorge - Quem leva Datena a sério?, FSP

 José Luiz Datena é um gênio. De tempos em tempos, volta a estampar capas de jornais e homes de portais de notícias. Mas não pelo conteúdo ou pela audiência do seu programa. Oferece-se como uma figura relevante na política. Não é. Pelo menos não enquanto não colocar à prova sua habilidade e sua capacidade de atrair eleitores.

Por enquanto, apenas aproveita para ser assunto. Datena manipula o meio político e a imprensa, ganha evidência, não se candidata a nada e permanece onde sempre esteve: na TV, ganhando dinheiro ao mostrar as tragédias que ele a cada dois anos promete ajudar a resolver. Essa estratégia tem mais de uma década e continua dando certo. Para ele.

Em geral, o apresentador surge no cenário político em época eleitoral. Desta vez surpreendeu ao aparecer, já em 2023, em uma conversa supostamente vazada, sugerindo a Guilherme Boulos uma dobradinha na corrida à Prefeitura de São Paulo, que só acontece no ano que vem. Provoca o deputado do PSOL sobre a disputa pela vaga de herdeiro político de Lula.

Parece óbvio que partidos vejam nele um grande fazedor de votos. É um comunicador hábil, que conversa com um público consumidor do sensacionalismo exibido em seu programa e das pautas que exaltam a truculência da polícia e o combate à corrupção e já escorregaram em todo tipo de preconceito. Eleitores não faltariam. Mas a única razão que move o apresentador parece ser valorizar seu passe como tal, nada mais.

Foram quatro ensaios de se lançar candidato a prefeito de São Paulo, foi cotado como vice de Bruno Covas, ameaçou concorrer ao Senado em 2018. Em 2021, chegou a anunciar sua saída da TV para concorrer à Presidência. Negociou ser vice na chapa de Ciro Gomes em 2022. No mesmo ano, cozinhou Jair Bolsonaro com a promessa de que tentaria ser senador. Se alinha e se desalinha a políticos de todo o espectro. Quem ainda leva Datena a sério?

Hélio Schwartsman - Trump e Bolsonaro podem ter mesmo fim de Al Capone- FSP

 Al Capone foi um gângster. Envolveu-se em múltiplas atividades criminosas, inclusive assassinatos, mas foi preso por evasão fiscal. Foi só o que se conseguiu provar contra ele.

O caso de Al Capone tem algo de paradoxal. Prendê-lo era a coisa certa a fazer, mas ele foi encarcerado pelas razões erradas. A pena tem duas funções principais. A primeira é que ela tira o criminoso de circulação. Sob esse aspecto, o delito pelo qual o bandido é preso não faz tanta diferença. A sociedade fica mais segura com a sua reclusão.

Os ex-presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro durante jantar na Flórida (EUA) - Alan Santos - 1º.dez.21/AFP

Só que a pena também tem função dissuasiva. Quando ela é aplicada, a sociedade sinaliza a seus membros que eles não devem imitar os passos do criminoso. Aqui, as razões se tornam mais importantes, já que, para o efeito exemplo se materializar como deveria, é preciso que haja coerência máxima entre o comportamento que se deseja inibir e a sanção.

Num exemplo prático, que lição você daria a seu filho a partir do caso de Al Capone? Não assassine ninguém para não ser preso por evasão fiscal? Meio confuso, não? É claro que você poderia ser mais cínico e dizer a seu filho que ele deve se comportar, ou o Estado encontrará uma forma de colocá-lo na linha. A mensagem que sairia daí, porém, não seria exatamente pró-social. Teria até um tom de arbítrio.

Faço essas observações a respeito de Trump Bolsonaro. O americano tornou-se réu num intricado caso de contabilidade de campanha, e o brasileiro poderá em breve ter seus direitos políticos cassados por crime eleitoral. Considerando que uma eventual volta ao poder dos dois seria muito ruim para a democracia, não critico essas ações judiciais. Mas não há como deixar de observar que, dado que eles cometeram crimes muito maiores, como tentativa de golpe, uma eventual condenação por esses delitos menores deixaria um gostinho de Al Capone no ar. Eles estariam recebendo uma punição necessária, mas pelas razões erradas.