quarta-feira, 9 de junho de 2021

Projetos ambientais podem gerar empregos e crescimento, FSP

 Ignacia Holmes

Oficial de Agricultura Sustentável e Resiliente da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) para a América Latina e o Caribe

Dafna Bitrán

Especialista em biodiversidade da FAO para a América Latina e o Caribe

Estamos em um momento crucial. A pandemia de Covid-19, com seus enormes impactos econômicos, humanos e sociais, uniu-se ao grande desafio de nosso tempo: a mudança climática. A atenção do mundo hoje está voltada para conter a crise sanitária: é mais urgente do que nunca reconstruir economias, restaurar empregos e rendas. Mas a pergunta que devemos fazer é: que tipo de recuperação nós queremos?

Aceitaremos o mesmo modelo que implantávamos antes da pandemia ou aproveitaremos essa oportunidade para impulsionar uma recuperação com transformação climática, na qual avançamos em conjunto, com esforços contra as mudanças do clima e com a redução da pegada ambiental na agricultura?

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As evidências estão cada vez mais claras: proteger o meio ambiente, enfrentar a mudança climática e avançar rumo a uma agricultura sustentável são algumas das melhores maneiras de melhorar a qualidade de vida das pessoas de nossa região.

Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as mudanças estruturais necessárias para atingir um cenário de produção neutra em carbono até 2030 na América Latina e no Caribe poderiam gerar 15 milhões de empregos.

Um estudo de Nicholas Stern e Joseph Stiglitz mostra que, após a crise de 2008, medidas de estímulo com foco ambiental geraram mais empregos e melhor crescimento do que as alternativas tradicionais.
Não podemos mais pensar que conservar, sustentar e reduzir as emissões são restrições que afetam o desenvolvimento produtivo. A tarefa complexa e necessária é identificar estratégias e soluções concretas que nos permitam resolver a equação do desenvolvimento sustentável em suas dimensões econômica, social e ambiental.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) afirma que a transformação sustentável do setor agroalimentar, através de inovações tecnológicas e institucionais, será uma fonte de retomada do crescimento econômico.

Na América Latina e no Caribe há muitos exemplos disso: no Equador, um projeto de pecuária inteligente permitiu que mil pequenos agricultores aumentassem sua renda em 40%, melhorassem a qualidade do solo em 40 mil hectares e reduzissem suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 20%, evitando a emissão de 24.000 toneladas de carbono equivalente.

No México, um projeto para promover tecnologias eficientes e de baixa emissão na agricultura e na agroindústria permitiu que 1.842 agronegócios reduzissem suas emissões líquidas de GEE em 6 milhões de toneladas de CO2, além de produzir energia a partir da biomassa.

No Uruguai, um projeto sobre as melhores práticas e alternativas ao uso de pesticidas, que trabalhou com mais de 2.000 técnicos e produtores, demonstrou que, ao fazer ajustes na gestão, seria possível reduzir o uso de herbicidas em até 70% em um ciclo de produção de soja, sem afetar o rendimento e sem aumentar os custos, o que significou uma economia média de US$ 40 por hectare para os casos avaliados.

Um projeto de manejo sustentável da pesca de arrasto, principalmente de camarão, reduziu a pesca não intencional de espécies em até 36%, reduzindo seu impacto ambiental no Brasil, no Suriname e em Trinidad e Tobago graças às novas redes e à tecnologia.

Estes e outros exemplos fazem parte de uma nova publicação da FAO, “Rumo a uma agricultura sustentável e resiliente na América Latina e no Caribe”, que será lançada na quinta-feira (10) e que mostra que a recuperação sustentável da pandemia e a transformação dos sistemas agroalimentares são possíveis.

Se pudermos replicar tais iniciativas em grande escala, sem dúvida geraremos melhor produção, melhor nutrição, melhor meio ambiente e uma vida melhor.

Antonio Delfim Netto -​ Apesar de tudo, forte crescimento, FSP

 A recuperação cíclica da nossa economia continua a surpreender positivamente. Números recentes do PIB reforçam o quadro que vinha sendo desenhado por outros indicadores nos últimos meses. Tudo isso a despeito da algazarra política patrocinada por Bolsonaro.

A qualidade dos resultados do PIB também é boa, com aumento robusto das taxas de poupança (o maior desde 2000) e de investimento (mesmo quando se expurgam os efeitos das importações de plataformas de petróleo). Ainda que a economia fique paralisada no resto de 2021, os dados do primeiro trimestre já asseguram crescimento de 4,9% no ano. Assim, as contas para o crescimento voltam a ser refeitas para incorporar, também, um cenário externo ainda mais favorável pela surpresa positiva no nível de atividade nas economias maduras e pelo forte ciclo de commodities em curso.

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Os menos otimistas argumentam que a pandemia deixará cicatrizes. A recuperação do emprego, principalmente dos mais pobres e dos trabalhadores menos qualificados, será lenta, e as desigualdades de oportunidades foram reforçadas neste período. Isso é verdade e deve permanecer alvo das políticas públicas, mas não impede que os dados recentes possam --e devam-- ser celebrados, ainda que não apaguem nossos problemas estruturais.

A agenda para elevar o potencial de crescimento é extensa e conhecida. Embora o Brasil tenha desaprendido a crescer nas últimas décadas, num processo de empobrecimento relativo acelerado, baixo crescimento não é destino. Crescer depende da nossa capacidade de concretizar as políticas de elevação da produtividade, codinome do crescimento econômico.

Há, porém, uma visão sobre o desenvolvimento que recebe menos atenção. O grande historiador econômico Stephen Broadberry sugere que, no longo prazo, países com melhor desempenho econômico são aqueles que experimentam "crescimento negativo" com menor frequência e magnitude. Eles não seriam tão diferentes nos períodos de expansão.

É uma sugestão interessante para um país que encolhe com frequência maior do que gostaríamos, não apenas por crises externas mas por equívocos autoimpostos, como na crise de 2015/2016, que marcou nossa pior década de crescimento econômico. Talvez uma primeira tarefa para o Brasil seja reduzir sua pontuação na escala do "bobajômetro".

Lamento profundamente a perda de um dos maiores conhecedores das finanças públicas brasileiras, Ribamar Oliveira. O Brasil perde um jornalista absolutamente profissional. Meus sentimentos aos amigos e à família.