quarta-feira, 9 de junho de 2021

Interior de SP vê Covid-19 se espalhar e não consegue frear infecções, FSP

 Marcelo Toledo

RIBEIRÃO PRETO

Em uma cidade, a prefeitura decretou lockdown e os novos casos e mortes em decorrência da Covid-19 caíram, mas já estão em alta novamente. Em outra, a prefeitura mal consegue cumprir o cronograma de restrições devido a ações judiciais que permitem a abertura de estabelecimentos. Numa terceira, leitos são abertos constantemente, mas as internações não param de crescer.

Apesar das medidas adotadas em cidades do interior de São Paulo para combater o coronavírus, as cidades não têm conseguido frear as infecções.

O cenário é agravado com o desrespeito cotidiano às medidas defendidas desde o início da pandemia, como distanciamento social e uso de máscaras. Especialistas apontam ainda a falta de uma coordenação nacional no apoio a estados e municípios para a adoção de medidas.

O caso mais emblemático é o de Araraquara (a 273 km de São Paulo), primeira cidade a decretar lockdown, ainda em fevereiro, uma aceleração de casos, internações e óbitos ligada a uma nova variante, mas Ribeirão Preto (a 313 km de SP) e Franca (a 400 km de capital) vivem situações semelhantes.

Em Araraquara, a prefeitura emitiu na terça (8) alerta máximo após 21,1% dos testes feitos (sintomáticos e assintomáticos) darem positivo para Covid. Um decreto estabelece que, se isso ocorrer durante três dias seguidos (ou cinco em uma semana), um novo lockdown será colocado em vigor por ao menos sete dias ou até que os índices fiquem abaixo de 15% por três dias seguidos.

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A cidade também será fechada se os casos sintomáticos alcançarem 30%, diante das mesmas condições. Nesta terça, o índice foi de 28,32%.

Dois meses após o lockdown, Araraquara tinha registrado queda de 62% nas mortes, mas em maio elas voltaram a subir —uma alta de 20,4% em relação a abril. E já há novamente pacientes intubados (dois) na UPA da Vila Xavier à espera de leitos para internação.

“Esses índices mostram para nós que a transmissão da doença cresceu muito em Araraquara. E isso vai significar, em questão de dias, uma pressão absurda sobre os nossos leitos, principalmente de UTI. Pela primeira vez em 90 dias estamos com pacientes na UPA da Vila Xavier, inclusive dois intubados, aguardando leitos e não temos para oferecer”, disse em live o prefeito Edinho Silva (PT).

Na semana concluída no domingo (6), a cidade teve 1.149 casos. Foi a segunda pior na pandemia, só atrás do período de 15 a 21 de fevereiro —data em que o lockdown entrou em vigor—, com 1.327 casos.

Há 108 pacientes internados, o pior cenário desde 19 de março, mas ainda abaixo dos 209 de quando o lockdown foi decretado.

O total de pacientes atendidos na UPA, que é um polo de triagem, está em franco crescimento: 343 na segunda (7), contra 417 de 8 de fevereiro, no pré-lockdown. O menor índice foi 104, em 18 de abril.

Outro exemplo é Ribeirão Preto, que não para de abrir leitos de UTI, mas mesmo assim só vê a ocupação crescer e o sistema cada vez mais pressionado.

Em janeiro, a cidade tinha 99 leitos de UTI exclusivos para pacientes com Covid-19, número que nesta terça é de 323. Dos 62 pacientes que iniciaram o ano em UTIs, hoje são 305, mas já foram 313.

Depois de manter atividades mais restritas que as determinadas pelo governo estadual por oito dias —supermercados fechados e transporte coletivo suspenso—, nesta segunda o comércio reabriu e as ruas ficaram lotadas, assim como os ônibus. O cenário é agravado por uma greve da categoria. Um lockdown já tinha sido feito entre 17 e 21 de março.

“Não temos como abrir leitos infinitamente”, disse o prefeito Duarte Nogueira (PSDB). Nesta terça, a Secretaria da Saúde registrou 33 mortes na cidade, recorde desde o início da pandemia.

O cenário de lockdown e restrições, seguidos de desrespeito da população, fez a Acirp (associação comercial) divulgar no último dia 27 um comunicado “clamando” por mais fiscalização e união da cidade.

“Mesmo com empresas e a maior parte da população se esforçando para seguir os protocolos de higiene e distanciamento, e por mais que se ampliem leitos e reforce a estrutura de saúde, nada será suficiente se as aglomerações continuarem”, diz trecho.

Já em Franca, que está em lockdown até esta quinta (10), a prefeitura foi alvo de pressões de indústrias calçadistas, farmácias, supermercados e curtumes pela reabertura. Houve ações judiciais, como uma das fábricas de sapatos, rejeitada pela Justiça.

Supermercados chegaram a reabrir após conseguirem uma liminar que a prefeitura conseguiu derrubar depois.

Enquanto isso, nos últimos dias o pronto-socorro Álvaro Azzuz, que concentra o atendimento na rede pública, registra filas diárias de pacientes à espera de vaga para internação. Nesta terça, eram 54 —28 deles à espera de leitos de UTI.

Mesmo assim, o prefeito Alexandre Ferreira (MDB) anunciou a flexibilização das regras a partir de sexta (11). O comércio seguirá sem atendimento presencial e chácaras e áreas de lazer não poderão ser locadas.

“Somos todos contra o lockdown, infelizmente numa condição extrema ele é necessário”, disse ele, que justificou a medida com base na redução do índice de transmissão.

Paralelamente à alta dos indicadores, as cidades têm tomado medidas para coibir festas, aglomerações e pancadões, entre outros.

Em Franca, até um motel foi autuado e, numa academia, 23 pessoas ficaram escondidas por cinco horas para tentar escapar da fiscalização. Não conseguiram.

Para o epidemiologista Pedro Hallal, professor da escola superior de educação física da Universidade Federal de Pelotas, coordenador do Epicovid-19 e colunista da Folha, ainda que os esforços sejam no sentido correto —e ele cita Araraquara como exemplo—, os governos locais acabam sofrendo pressões de setores da sociedade para que as medidas tenham duração menor do que deveriam.

“Araraquara chegou muito perto de botar os números no chão, dá para dizer que botou, mas o vírus não vai desistir. E, se chegar pessoas de outras cidades em Araraquara, vai piorar de novo. É o que estamos observando.”

Ele afirma que não adianta fazer lockdown de curta duração e que o ideal é que a medida seja seguida por municípios vizinhos. “Sempre advoguei por um lockdown nacional, já que não há barreiras para se deslocar de uma cidade para outra. E lockdown nacional não foi feito nenhuma vez. As cidades não são ilhas, são cidades dentro do mesmo país, cujo presidente é negacionista.”

Também epidemiologista, a professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia Gloria Teixeira disse que falta coordenação do governo federal no apoio a estados e municípios para a adoção de medidas como distanciamento e lockdowns.

“Governos e prefeitos sofrem pressões de comércio, de indústrias, porque é muito difícil segurar isso sozinho, com o governo federal dando os piores exemplos de aglomeração.”


Vinicius Torres Freire Economia dá mais sinais de despiora, FSP

 Não se deu muita bola para as vendas do comércio em abril, divulgadas nesta terça-feira (8) pelo IBGE: cresceram além da conta de quase todo mundo. Sim, o comércio vem claudicando desde dezembro, com a seca dos auxílios emergenciais e repiques horrendos da epidemia. Abril teria outra baixa, pelos mesmos motivos, era o que se previa, como foi registrado nestas colunas. Só que não.

Receita de impostos, PIB trimestral e comércio tiveram desempenho acima do esperado. Nas entranhas desses indicadores há coisas feias: a inflação ajuda a engordar a arrecadação tributária, o consumo das famílias no PIB caiu. Ainda assim, houve despioras significativas.

O indicador de emprego formal dos economistas do Itaú teve alta em maio. A população ocupada cresceu 5,5%, voltando ao nível anterior ao da epidemia.

Antes de passar às más notícias, convém lembrar outras despioras relevantes. As taxas de juro de prazo mais longo (mais de dois anos) no atacadão de dinheiro andam caindo. Depois de tomar um calmante em meados de abril, o preço do dólar relaxou ainda mais, voltando à casa de R$ 5. O ingrediente mais importante desse calmante foi o fim das turbulências no mercado financeiro americano, com umas pitadas de juros mais altos por aqui e de indícios de que o teto de gastos não desabaria.

O resumo do primeiro ato desta ópera é: 1) a economia real não afundou com o morticínio e as restrições de março e abril; 2) houve um alívio das condições financeiras; 3) os donos do dinheiro grosso acham que a gambiarra fiscal brasileira é tolerável ou, pelo menos, deram fim ao faniquito do primeiro trimestre e, por fim: 4) continua razoável acreditar que o PIB cresça 5% neste ano.

Um crescimento de 5% neste 2021 apenas leva o PIB ao mesmo nível médio de 2019. Isto é, a uma economia ainda deprimida pela recessão de 2015-2016. Ainda pior, será uma economia com menos emprego e envenenada pelos efeitos da inflação sobre a renda, dos mais pobres em particular. Mas a despiora e o alívio em relação ao ano do tombo da epidemia, 2020, serão relevantes, embora desiguais.

Sim, há riscos de que a gente vá para o vinagre, crescentes a partir de 2022.

A ameaça mais óbvia é a de um repique ainda mais assassino da epidemia. No entanto, sem que apareça variante mais pestilenta, a epidemia tende a arrefecer ao longo do restante do ano, dado o número crescente de vacinados e de infectados (em tese imunizados). Como queria Jair Bolsonaro, a epidemia vai acabar de morte morrida, sem que a tenhamos um dia controlado.

Há algum risco de faltar energia, pontualmente, em novembro. Com algumas providências, é possível prevenir colapsos. Se houver inércia, a mera percepção do risco aumentado de apagões pode ser um problema. Isso quanto a 2021. Quanto a 2022, vamos depender da chuva que deveria cair entre novembro e abril.

Há uma inflação enorme nos preços do atacado (o IPA foi a quase 50% nos últimos 12 meses). Não se sabe bem quanto disso será repassado aos preços para o consumidor (IPCA). Se a carestia do IPCA não amainar a partir de junho, a perspectiva de alta de juros pode sabotar parte do crescimento de 2022, que já seria mixuruca.

Por fim, os americanos estão entretidos a discutir se a inflação deles vai voltar (a meros 2,5% ao ano). Caso achem que sim, pode haver algum sururu a partir do final do ano, com alta de juros na praça e fim do relaxamento monetário. Uma reviravolta dessas nos EUA pode nos machucar ou até nos quebrar as pernas. Em 2013, coisa parecida balançou as finanças por aqui e foi um dos fatores da derrocada.​