domingo, 9 de dezembro de 2018

Como os 'coletes amarelos' da França alcançam metas sem precisar negociar, Lucas Neves, FSP

Mobilização francesa se assemelha a episódio de caminhoneiros no Brasil, diz sociólogo

    Lucas Neves
    [RESUMO] Movimento dos "coletes amarelos" na França usa falta de lideranças, agenda difusa e mobilização via redes sociais para alcançar metas sem negociar, segundo sociólogo, de modo similar ao episódio dos caminhoneiros, em maio, no Brasil.

    A dispersão que caracteriza, na França, o movimento dos “coletes amarelos”, tanto em termos de reivindicações quanto de hierarquia, tem se mostrado um trunfo para os manifestantes, que ocupam ruas e estradas do país desde meados de novembro. Na avaliação do sociólogo francês Albert Ogien, quanto menos o coletivo (que não destacou porta-vozes nem consolidou uma pauta única) negocia com a gestão Emmanuel Macron, mais este cede.
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    Foi o que aconteceu na última semana, quando, escaldado pela violência da terceira jornada de mobilização, no dia 1º, o governo finalmente recuou da medida que fora a fagulha dos protestos: o aumento de uma taxa sobre combustíveis que deveria financiar a transição energética do país para fontes limpas. 
    Segundo o pesquisador do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), o que se entende hoje por “coletes amarelos”, referência ao acessório obrigatório em carros que circulam na França, é mais uma miragem midiática, com fortíssima presença na TV e em redes sociais —especialmente o Facebook—, do que um movimento de carne e osso. E aí reside outra de suas singularidades.
    Na ausência de líderes, na agenda pletórica e no uso ostensivo da internet para difundir palavras de ordem e imagens de alto valor simbólico, a sequência de atos espelha muito do que foi a paralisação dos caminhoneiros no Brasil em maio deste ano. Há ainda, atendo-se ao horizonte francês, paralelos com maio de 1968, como tem martelado a mídia local.
    ​“[Aquele movimento] coagulou aos poucos todas as amarguras das pessoas, tudo que as desagradava, mas que elas aceitavam havia muito tempo”, afirma Ogien, lembrando que, 50 anos depois, Macron sofre o desgaste dos 18 meses de um “rolo compressor” reformista que não abriu espaço a negociações. “As pessoas se sentiram desprezadas.”
    Agora, prossegue ele, o diferencial preocupante é que a tolerância à violência aumentou, o que pode fragilizar o discurso governamental da volta à legalidade e ao diálogo social.
    Leia a seguir os principais trechos da entrevista do sociólogo à Folha.

    Ineditismo
    A primeira singularidade da mobilização é sua origem: uma petição contra o reajuste de uma taxa sobre o combustível, ou seja, algo que tinha como base a relação das pessoas com seus carros. Em uma série de manifestações cujo ponto de partida é o automóvel, há uma ligação entre a forma material que o protesto assume, com o bloqueio de rotatórias, e a reivindicação que se faz.
    Esse expediente tem a vantagem de poder ser estendido a todo o país, porque há muitos entroncamentos e pessoas que dependem de seus carros para se locomover em periferias e no interior, gente para quem o veículo virou quase um segundo corpo.
    Então, não estamos diante de grupos que vão ao centro das cidades com bandeiras, mas de manifestantes que se servem de carros para encontrar modos de ação. Lembra o que os caminhoneiros fizeram no Brasil [na paralisação de maio] ou a maneira como motoristas de ambulância ou de táxi podem agir.
    E essa pulverização geográfica dificulta a repressão. Sabe-se o que é um ato no centro de uma cidade e como contê-lo. Até aqui, havia uma certa estrutura: líderes submetiam à polícia um pedido de autorização para um protesto, ele era aprovado, os organizadores informavam seu itinerário, e os policiais tinham como gerenciar a situação.
    Agora, a questão é: como controlar um território inteiro em que grupelhos de dez pessoas travam rodovias? São miniocupações dispersas.
    Lideranças e pautas
    Não há reivindicações claras, unívocas, nem líderes oficiais. É um movimento impalpável para o poder público. E isso faz parte de sua estratégia: a recusa em ser completamente assimilado, compreendido. Já vimos isso nas grandes ocupações de praças, como na Primavera Árabe, na tomada da Porta do Sol [em Madri] pelos indignados, no Occupy Wall Street. Tampouco é possível identificar por trás deles partidos ou sindicatos.
    Mobilização via internet
    O uso maciço do Facebook para mobilizar participantes é outra novidade. Nessa escala, é algo nunca visto na França, ainda que já tenha acontecido em outros lugares.
    Mesmo que não sejam líderes incontestes, algumas pessoas despontam na internet como chefes de fileira. É gente com 50 mil, 200 mil seguidores. Então, é possível, sim, apontar as figuras mais marcantes, as “cabeças”, que criam grupos e depois querem levar crédito pela força dessas formações.
    Elas são convidadas a dar entrevistas à TV e apoiam sua legitimidade na quantidade de seguidores que possuem na internet. Só que, quando se oferecem para negociar, são ameaçadas, às vezes até de morte.
    Na verdade, trata-se de um movimento que existe muito mais na mídia do que no plano da realidade. Vi alguns “coletes amarelos” no interior da França. São grupos de cinco pessoas em rotatórias, que de vez em quando dormem, jogam cartas, depois se levantam para bloquear dois carros, e então voltam para casa.
    Instrumentalização
    Uma das coisas que marcaram o começo do movimento foi a tentativa de apropriação pela direita e pela extrema direita. Nicolas Dupont-Aignan, líder do França de Pé, fez essa sinalização, e, em seguida, os partidos Reunião Nacional [de Marine Le Pen] e França Insubmissa [este de esquerda radical].
    Havia uma força presente desde a eclosão —e aqui podemos estabelecer um elo com o que aconteceu com Jair Bolsonaro no Brasil—, a mão de Steve Bannon [ex-estrategista de Donald Trump considerado peça-chave na eleição deste e na difusão global do nacional-populismo de direita]. Ao lado dele, existe uma articulação da extrema direita com vistas à eleição para o Parlamento Europeu [em maio de 2019].
    A tática deles é a de criar o caos para que ao menos uma pequena parcela do eleitorado seja atraída pela extrema direita. Quando estourou o movimento dos “coletes amarelos”, era previsível que eles fossem aproveitar a ocasião para incitar distúrbios e orientar os eleitores na direção do radicalismo.
    Esse desejo de caos, essa disposição em impedir o retorno à normalidade é um estratagema típico do fascismo para defender a ascensão de um “homem forte”. Nessa linha, vale lembrar que um porta-voz dos “coletes amarelos” sugeriu que o general Pierre de Villiers [ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, escanteado por Macron] assumisse o comando da França.
    Mas acho que, por enquanto, o movimento tem conseguido controlar bem essas pulsões.
    A resposta da esquerda
    A esquerda ficou em uma situação incômoda. “Entendemos e defendemos suas reivindicações sobre poder aquisitivo, então como a direita pode ter se apropriado disso?” A extrema esquerda então decidiu imprimir uma tonalidade progressista aos atos, e os sindicatos estenderam a mão aos participantes.
    Então isso gerou um grande debate democrático em escala nacional, com a mediação de canais de TV, emissoras de rádio e grupos de Facebook, em que as reivindicações de direita e de esquerda duelam, sem que se consiga definir precisamente a inclinação dos “coletes amarelos”.
    Há uma tensão entre uma orientação de extrema direita à insurreição e uma pauta de esquerda que nunca se concretizou, porque os sindicatos e legendas de esquerda eram fracos demais.
    Tudo temperado por uma condescendência da mídia, que em todo lugar se sente culpada por não ter dado voz ao “povo real” —e, assim, não ter conseguido antever a eleição de Trump, o brexit e outras surpresas eleitorais. Grandes asneiras vão ao ar sem qualquer contestação. Quanto mais os “coletes amarelos” falam, mais contradições afloram.  
    Resultados sem negociação
    Isso produz alguns efeitos, sobretudo recuos governamentais diante de uma pauta imensa e difusa, típica de períodos eleitorais, mas que logo depois desaparecia. Esse sistema ruiu, tudo está à mesa, e ninguém sabe bem o que fazer.
    O mais estranho é que, mesmo não existindo uma lista consolidada de pedidos ou uma negociação formal em curso, o governo cede. O movimento recusa-se a dialogar, e essa abordagem vem se mostrando correta, porque quanto menos eles negociam, mais resultados positivos obtêm. Ninguém aparece para conversar, a coisa meio que anda sozinha.
    O que de fato acontece é uma explosão de violência semanal, aos sábados. No resto da semana, tudo vai bem. Chega sábado, vem a insurreição. No domingo, acabou, a turma vai ver o futebol. Os que estão nas rotatórias nos outros dias são aposentados e desempregados, não atrapalham a economia. É uma atmosfera sossegada. Por isso, esse ritmo semanal tem algo de cômico.
    Ecos de 1968
    Em maio de 68, foi necessário um mês de insurreição, de caos, de greve geral para que entidades patronais e governos se sentassem à mesa de negociações com os sindicatos.
    Um episódio-chave desse movimento foi a grande marcha da direita na avenida Champs-Elysées, com 1 milhão de participantes, para defender o governo. Hoje, se tentassem fazer algo similar, acho que ninguém desceria à rua para defender Macron. De repente, ninguém mais acha correto o seu jeito de governar.
    Ao ser eleito, o presidente achou que tinha o caminho livre para fazer as reformas de que o país precisava. Abriu várias frentes que rompem hábitos antigos da sociedade francesa. Por um ano e meio, deram-lhe razão.
    Mas rancores se acumularam, porque as medidas não foram negociadas. As pessoas se sentiram desprezadas, e isso ajuda a explicar a grande aprovação dos “coletes amarelos” pelos franceses [da ordem de três quartos da população].
    Da mesma maneira, o movimento de 68 começa, nas universidades, em março daquele ano e explode em maio. Coagulou aos poucos a amargura das pessoas, tudo o que as desagradava, mas que elas aceitavam havia muito tempo.
    Hoje, como sabemos que muitas categorias estão desgostosas de sua situação, do regime de austeridade a que são submetidas há décadas, existe um receio real de que o que aconteceu 50 anos atrás se repita.
    E o problema é que a tolerância das pessoas à violência aumentou. Elas não tomam mais distância de movimentos sociais quando eles degeneram, acham que o uso da força visa a defendê-las. Assim, o governo perde o argumento do apaziguamento, o discurso do “agora retornemos à legalidade”.

    Lucas Neves é correspondente da Folha em Paris.

    Drauzio Varella Criacionismo outra vez, FSP

    Questionar veracidade da teoria da origem das espécies, desculpem, é ignorância

    Voltamos a falar no ensino do criacionismo nas escolas. A mania de andar para trás teima em nos perseguir.
    Até 1859, quando Charles Darwin publicou o livro sobre a origem das espécies, todos acreditavam que Deus as havia criado num único dia.
    Essa crença começou a ser questionada no século 19, época em que os museus ingleses passaram a exibir plantas e esqueletos de animais já extintos. Como justificar o desaparecimento de tantas espécies tão semelhantes às que ainda povoavam a Terra?
    A explicação corrente era a de que a ira divina exterminava periodicamente algumas espécies para criar outras, parecidas com as anteriores.
    Ilustração
    Libero/Folhapress
    Darwin entendeu que a ciência devia estudar a grande variabilidade existente entre os indivíduos da mesma espécie, característica que não era levada em consideração pelos naturalistas da época.
    Suas observações sobre os pássaros das ilhas que visitou a bordo do Beagle, bem como a leitura dos trabalhos de Malthus a respeito da finitude dos recursos naturais, levaram Darwin a concluir que a vida é uma eterna competição pelo acesso a eles, na qual os indivíduos que não se adaptaram às exigências do ambiente foram eliminados por seleção natural.
    Como consequência, todos os seres vivos deviam ter ancestrais comuns. O homem, por exemplo, seria descendente do mesmo ancestral que deu origem aos demais primatas.
    Imaginem o furor que essa ideia provocou na Inglaterra vitoriana e no mundo religioso. Negar que fôramos criados à imagem e semelhança de Deus era uma blasfêmia inaceitável (ainda hoje considerada como tal por muitos religiosos).

    Desde então, a teoria que Darwin enunciou naquele tempo foi exaustivamente testada e confirmada. O conceito de mutação gênica, a descrição da molécula de DNA e as descobertas da genética e da biologia molecular nos séculos 20 e 21 demonstraram que a seleção natural está presente até nos mecanismos moleculares das funções fisiológicas das células.
    Theodosius Dobzhanski, um dos maiores geneticistas do século passado, afirmou: “Nada em biologia faz sentido senão à luz da evolução”. 
    A seleção natural é um mecanismo universal que explica a evolução da vida na Terra e em qualquer planeta em que venha a ser encontrada.
    Ao contrário do pensamento científico, o religioso está alicerçado na fé. Como não preciso de experimentos para provar que Deus existe, que Jesus Cristo foi seu filho e que a vida eterna é o nosso destino, posso crer que a Terra tem 10 mil anos e que Eva foi criada a partir de uma costela de Adão.
    Nada contra os crentes, a ciência não é a única forma de entender o mundo, as religiões procuram fazê-lo por outros caminhos. No entanto, assim como os cientistas têm obrigação de respeitar crenças alheias, os religiosos não devem se opor ao conhecimento científico.
    O problema não está no ensino do criacionismo como pensamento religioso que ainda influencia muitas pessoas, mas em apresentá-lo como alternativa em pé de igualdade à evolução das espécies por seleção natural.
    Questionar a veracidade da teoria da origem das espécies enunciada por Darwin e Wallace há mais de 150 anos, desculpem, é ignorância. É o mesmo do que duvidar da gravitação universal de Newton, colocar outra vez a Terra no centro do universo sem levar em conta Copérnico e Galileu, negar a relatividade enunciada por Einstein ou a teoria quântica de Max Planck.
    A Terra não tem 10 mil anos, mas 4,5 bilhões. A vida surgiu a partir das moléculas primordiais de RNA que se formaram há uns 4 bilhões, assim que o planeta esfriou. Chimpanzés e bonobos compartilham conosco mais de 95% dos genes que herdamos de nosso ancestral comum. Não fosse um meteorito cair na península de Yucatán, no México, há 65 milhões de anos, os dinossauros ainda dominariam a Terra e, nós, dificilmente estaríamos por aqui.
    Há os que preferem crer que a mão de Deus deu origem ao homem e a todos os seres vivos. Alguns não negam as evidências da evolução, mas propõem que Ele está por trás de todas as mutações gênicas adaptativas que selecionaram as espécies. Para eles, admitir que surgimos como resultado dos acasos envolvidos na seleção natural não faz sentido.
    Para mim, imaginar que um ser superior criou tudo num passe de mágica reduz a complexidade da biologia que através de mecanismos seletivos chegou ao único animal que se atreveu a desvendar os mistérios da criação da vida.
    Drauzio Varella
    Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”.