segunda-feira, 23 de julho de 2018

Várias ameaças podem travar o sistema de ônibus de SP, Leão Serva, FSP

A concorrência do sistema de ônibus paulistano travou mais uma vez, novamente no Tribunal de Contas do Município (TCM), e tudo leva a crer que pode desandar definitivamente caso não se altere logo algum dos elementos institucionais envolvidos. 
Há várias outras ameaças ao funcionamento da rede de coletivos: o custo cada vez mais elevado (R$ 8 bilhões/ano) força a alta dos subsídios (R$ 3 bi/ano); inúmeras intercorrências reduzem a velocidade do veículos; e para piorar, a demora dos novos contratos faz as empresas adiarem a renovação da frota, a qualidade dos carros piora.
Os atrasos provocados pelo TCM são reveladores de problemas estruturais no sistema político-administrativo paulistano. Nossa democracia tem freios e contrapesos demais que, em vez de limitarem o exercício imperial do poder pelo Executivo, paralisam suas ações.
Eleito para administrar, sob vigilância e moderação dos demais Poderes, o prefeito frequentemente não pode executar medidas porque o TCM (não eleito para isso) discorda delas. É o caso do tempo de validade dos contratos em licitação (20 anos). Ele consta em lei aprovada pelo Legislativo (os vereadores são eleitos para propor e aprovar leis), o Executivo não pode propor um contrato mais curto do que esse sem mudar a lei, o que a Câmara não quer. Mas o TCM exige, mesmo sendo um órgão subordinado ao Legislativo. 
No início do ano, o TCM comunicou à Prefeitura que não admitiria mais prorrogações dos contratos com as empresas que operam os ônibus da cidade. Estão em vigor acordos assinados em 2003 pela administração Marta Suplicy (na época do PT, 2001-2004), que já deveriam ter sido encerrados durante a gestão de Fernando Haddad (PT, 2013-2016).
Haddad começou a nova licitação em 2013, mas suspendeu na época dos protestos de junho daquele ano; retomou o processo em 2015, quando o TCM o suspendeu e só liberou depois da vitória de João Doria, no final de 2016. Doria levou um ano para fazer alterações pedidas pelo tribunal de contas e outras que julgou necessárias; quando o processo foi reiniciado, o tribunal o suspendeu de novo por achar que as correções não foram suficientes. E ao mesmo tempo diz que não aceita novas prorrogações.
João Dória (à esq.), Milton Leite e Bruno Covas
João Dória (à esq.), Milton Leite e Bruno Covas - Leon Rodrigues/SECOM Prefeitura de S.Paulo
Quando o tribunal de contas suspende uma concorrência para esclarecimentos ou pedindo alterações, frequentemente dá prazos curtos para que o Executivo reaja aos questionamentos; mas o próprio órgão não tem um tempo para analisar as respostas. Se o período em que a licitação ficou parada no TCM fosse adicionado à vigência dos contratos, certamente Bruno Covas (PSDB) poderia prorrogar os convênios por pelo menos mais um ano.
A prefeitura está numa sinuca. O novo prefeito, Covas, anunciou que fará contratos emergenciais (com duração de apenas 6 meses). É muito provável que esse tempo não seja suficiente para chegar a um modelo de concorrência que agrade à prefeitura, ao Legislativo, ao TCM e ao Ministério Público, além, claro, das empresas e usuários. 
No arranjo institucional existente no país hoje, todos esses agentes públicos têm voz prévia na implantação de um serviço de competência do Executivo. O que é um erro: o prefeito é eleito para administrar, os outros devem moderá-lo, vigiá-lo e puni-lo quando for o caso, a posteriori.
O então prefeito João Doria e o presidente da Câmara, Milton Leite, chegaram a dizer que o TCM deveria ser extinto. Nos anos 1980, o PT propunha o mesmo. Eles estavam certos: o órgão foi criado nos anos 1960, em época de vacas gordas, e se tornou uma sinecura para políticos em fim de carreira, que era mais barato homenagear com bustos. Como auditor, é desnecessário, ineficiente e custa demais.
O problema é que Leite e Doria só se lembraram de espernear quando seus interesses foram afetados pelo TCM, que já vem travando medidas do Executivo (tanto corretas quanto ruins) há décadas, com predileção bastante peculiar pelos valiosos contratos na área de Transportes.
Sem entrar no mérito específico da licitação dos ônibus (o tempo é realmente excessivo, por exemplo), o fato é que o arranjo alcançado é fruto de uma longa negociação e parece expressar o possível. O governo e a Câmara entendem que a licitação está correta: então ela deve avançar. Seus autores e partícipes que corram os riscos de futuras punições pelo Judiciário.
Enquanto isso, Covas pode submeter ao Legislativo a proposta de extinção do TCM, remetendo suas funções ao Tribunal de Contas do Estado e atribuindo os nomes dos conselheiros a ruas e praças. O dinheiro que será economizado deve ser utilizado para subsidiar as tarifas de transportes públicos. Certamente renderá a um bom desconto.


    Leão Serva
    Jornalista, foi coordenador de imprensa na Prefeitura de São Paulo (2005-2009). É coautor de "Como Viver em São Paulo sem Carro".

    Ineficiência seletiva, Opinião FSP

    TCE arquivou investigação interna que apurava suposta propina paga a Robson Marinho

    Robson Marinho durante sessão do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, em fevereiro de 2008
    Robson Marinho durante sessão do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, em fevereiro de 2008 - Julia Moraes - 13.fev.08/Folhapress
    Enquanto ações espetaculosas como as da Lava Jato galvanizam boa parte da população e insuflam a esperança de uma Justiça mais célere e eficaz, instâncias menos midiáticas do Judiciário e dos órgãos de controle parecem querer demonstrar que a ineficiência seletiva ainda tem muita força nos tribunais.
    O caso de Robson Marinho, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), destoa radicalmente dos processos julgados pelo juiz federal Sergio Moro.
    No capítulo mais recente, o TCE arquivou investigação interna que apurava suposta propina paga a Marinho pela multinacional francesa Alstom. Segundo documentos obtidos pela Folha, os valores chegam a US$ 3 milhões (hoje equivalentes a mais de R$ 11 milhões).
    O arquivamento envolveu uma estranha sequência de decisões. Em uma ação penal que corria no Superior Tribunal de Justiça, a ministra Nancy Andrighi entendeu ser necessário remeter os autos para a primeira instância. Afirmou que “os supostos fatos criminosos não estão relacionados às funções específicas de conselheiro” do TCE.
    Ora, sendo assim —decerto pensaram os conselheiros do TCE responsáveis pela apuração interna—, a propina, se existiu, nada tem a ver com o órgão. Arquive-se.
    O raciocínio tem duas falhas constrangedoras. Primeiro, o inquérito no STF vem de 2010; como seria possível que, de uma hora para a outra, a situação do conselheiro mudasse drasticamente em relação a um ponto tão básico? Segundo, de acordo com a acusação, a propina foi paga em 1998, quando Marinho já integrava o TCE.
    Para o Ministério Público, Marinho ajudou a Alstom a fechar contrato sem licitação com estatais paulistas de energia, no valor atualizado de R$ 192 milhões. 
    Ele teria força para isso. Fundador do PSDB, foi prefeito de São José dos Campos, deputado federal e presidente da Assembleia Legislativa. Ademais, em 1994 coordenou a campanha de Mário Covas para o governo e chefiou a Casa Civil do tucano antes de receber o cargo vitalício de conselheiro.
    Nesses anos do que só pode ser entendido como corpo mole da Justiça e do TCE, o máximo que aconteceu a Marinho dificilmente se confunde com uma punição: está afastado do órgão paulista desde 2014, mas continua recebendo seu salário de cerca de R$ 30 mil.
    Enquanto isso, Sergio Moro acelera seus julgamentos, por vezes suscitando dúvidas quanto a sua imparcialidade. A Lava Jato peca por certos excessos; suas virtudes de celeridade e rigor estão longe de ser o padrão nacional.

    domingo, 22 de julho de 2018

    Governo paulista ‘refina’ estudo sobre trem entre capital e interior, FSP, Nos Trilhos

    Marcelo Toledo
    O estudo de pré-viabilidade para a implantação do chamado Trem Intercidades, que prevê ligar São Paulo a Americana, foi produzido e passa por análise do governo paulista. A afirmação é da assessoria da gestão.
    Entregue com atraso –o prazo inicial era o fim de maio–, o estudo contempla dados sobre a rota inicial do trem, de 135 quilômetros, entre São Paulo e Americana.
    A ideia é que o trecho tenha nove estações e capacidade de transportar diariamente até 60 mil passageiros.
    “A primeira versão dos estudos, sobre o trecho SP-Americana, foi produzida e está sendo refinada para ser apresentado”, diz trecho de nota enviada pela assessoria do governo.
    Ainda conforme o estado, o prazo para conclusão total é de 20 meses.
    Se implantado em sua totalidade, o objetivo será atender a chamada Macrometrópole Paulista –o que inclui capital, região metropolitana e cidades como Santos, Sorocaba, Campinas e São José dos Campos. O projeto de implantação do trem já é discutido há pelo menos cinco anos.
    Essa região concentra três quartos da população de São Paulo e 80% do PIB (Produto Interno Bruto) paulista.
    De acordo com informações divulgadas pelo governo em fevereiro, a intenção era concluir os estudos de pré-viabilidade até maio e, “na sequência, os estudos de viabilidade serão atualizados com as novas premissas e conclusões obtidas a partir dos estudos de pré-viabilidade”.
    Naquele mês, o governo paulista assinou autorização para que a Secretaria de Logística e Transportes, por meio do DER (Departamento de Estradas de Rodagem), contratasse um estudo para desenvolver um novo sistema de transportes para essa vasta região.
    USO MISTO
    Conforme o governo, a meta é “demonstrar tecnicamente a possibilidade do compartilhamento das vias férreas” entre transporte de cargas e de passageiros.
    Quando estiver concluído, o estudo será enviado ao governo federal para que sejam definidas as regras de compartilhamento da linha férrea. É preciso que a União libere as linhas sob sua responsabilidade para que os trens de passageiros possam utilizá-las.
    A licitação internacional para o projeto custou US$ 6 milhões, o equivalente a cerca de R$ 23 milhões.