segunda-feira, 23 de julho de 2012

As ficções malignas, por Mario Vargas Llosa


Os seres humanos não podem viver sem ficções - mentiras que parecem verdades e verdades que parecem mentiras. E, graças a essa necessidade, existem criações maravilhosas como as belas artes e a literatura, que tornam mais suportável a vida das pessoas. Mas há as ficções benignas, como as que saíram dos pincéis de um Goya ou da pena de um Cervantes, e aquelas malignas, que negam sua natureza subjetiva, ideal e irreal e se apresentam como descrições objetivas, científicas, da realidade.
Mais recentemente, tivemos muitas oportunidades de ver os efeitos perniciosos das ficções malignas, disseminadas por alguns gurus, que dizem respeito principalmente à economia como um todo. A mais recente é a de Paul Krugman que, em sua coluna no New York Times, anunciou um próximo "corralito" na economia espanhola, o que por acaso contribuiu para acelerar a fuga de capitais da Espanha e deve ter deixado estupefatos muitos dos seus admiradores que ainda não tinham percebido que também os ganhadores do Nobel de Economia, quando se transformam em ícones da mídia, às vezes dizem bobagens.
Vale a pena dizer que os assustados com as profecias apocalípticas do professor de Princeton deveriam acreditar mais no presidente da Telefônica, César Alierta, que acabou de afirmar, categoricamente, que "a Espanha é um país solvente, tanto no setor público como no privado". Tenho certeza absoluta de que Alierta está melhor informado do que o doutor Krugman sobre a saúde econômica do país.
Uma das ficções malignas que, desde a Idade Média, é um tópico da cultura europeia é a da decadência do Ocidente. Em suas origens, ela tinha uma hipotética base religiosa e apocalíptica. No Ocidente ocorreria o fim dos tempos, da história, e o final seria precedido de um longo período de anarquia e catástrofes, matanças, pestes, confusão e ruína. Mais tarde, essas sombrias previsões foram perdendo sua conotação bíblica e adotando um semblante mais realista. Não seriam os inescrutáveis desígnios de Deus, mas a insensatez e a loucura dos próprios europeus que precipitariam a ruína e o colapso do Ocidente.
A verdade é que, apesar de guerras, epidemias, genocídios e de todas as formas de destruição e extermínio ao longo de sua história, a Europa, berço da cultura da liberdade, ainda está viva e ativa, enterrou as duas ameaças mais poderosas à democracia - o fascismo e o comunismo - e é a única região do planeta onde está em curso a construção de um grande projeto de integração de nações, sociedades, culturas, economias e instituições sob o signo da legalidade e da liberdade.
A ficção maligna em moda hoje é proclamar o fracasso da União Europeia, esse trabalho graças ao qual o Ocidente vive o mais longo período de paz e convivência da sua história e conseguiu reduzir ao mínimo os regimes antidemocráticos em seu centro e na sua periferia.
E conseguiu ainda diminuir a pobreza e elevar de maneira significativa o nível de vida da população. Diariamente, surgem relatórios técnicos, análises administrativas, pesquisas sociológicas e, principalmente, estudos econômicos demonstrando a insolvência do euro e o seu declínio inexorável, o fracasso da tentativa de unir economias avançadas e sólidas e aquelas de países pobres e subdesenvolvidos. Estatísticas fantásticas indicam que a abertura das fronteiras dentro da Europa fizeram disparar a imigração ilegal, a delinquência e abriram as portas para os terroristas radicais islâmicos.
Mudança. Provavelmente, essas ficções malignas, resultado do desvio sadomasoquista do louvável espírito crítico que caracterizou a melhor tradição da cultura ocidental, está infligindo mais danos à Europa do que a grave crise econômica que o continente enfrenta. Em todo caso, favoreceram o crescimento de partidos extremistas, de esquerda e de direita, que querem acabar com a Europa e voltar ao tempo das nações voltadas para si mesmas. Não é possível que consigam.
A crise econômica é, seguramente, muito séria e constitui um teste duro para todos os países que integram a UE. E muito mais duro, claro, para os que dilapidaram seus recursos de maneira irresponsável e viveram acima das suas possibilidades, recorrendo a créditos que agora os sufocam. Mas a crise é perfeitamente superável desde que sejam feitos os sacrifícios necessários, como demonstrou a Alemanha - país que, segundo uma outra ficção maligna do nosso tempo, devemos odiar por não permitir que a orgia de gastos continue.
A ficção maligna representa Angela Merkel como um ser insensível, para quem apenas os números importam e tem a ideia perversa de que o crescimento europeu só surgirá a partir de um ajuste fiscal e uma redução dos gastos públicos, ou seja, dificilmente serão implementadas políticas expansionistas antes de a casa ser colocada em ordem.
E a ficção maligna acrescenta que, felizmente, no escuro túnel da decadência da Europa surgiu uma luz salvadora que se chama François Hollande, que acaba de vencer as eleições na França com uma bandeira clara, simples e generosa: em primeiro lugar não está a austeridade, mas o crescimento. Bravo! Isso é ser sensível à injustiça do desemprego e à queda dos salários.
A estupidez é contagiosa, principalmente no campo político e o extraordinário é que muita gente consciente da situação real da economia europeia acredita que essa receita simplista e fantasiosa de Hollande, que lhe serviu para vencer a eleição, será também a coluna vertebral da sua política, agora que chegou ao poder. O crescimento econômico como um ato de vontade.
Se assim é, por que Grécia, Itália, Portugal e Espanha não decidem crescer e crescem? Ah, é em razão do espírito tacanho e mesquinho dos seus governantes e a da maldade inerente do capitalismo. Se tivessem um Hollande no comando...
Isso não ocorrerá pela simples razão de que um enfermo não pode correr uma maratona sem antes se curar, sob pena de morrer no caminho. E essa cura exige um período de enormes sacrifícios que são mais fáceis de suportar quando se tem a certeza de que assim a saúde e as energias serão recuperadas. A França é um país muito antigo, experiente e sábio para se suicidar cedendo a essa tentação do impossível que encheu sua cultura de tantas obras-primas. Mais cedo do que se espera, Hollande e seus colaboradores terão de reconhecer publicamente que as coisas não são tão simples como diziam e pedirão coragem e patriotismo ao povo francês para continuar apertando o cinto. Então, virá a decepção dos eleitores enganados e, bem, conhecemos o resto da história.
Desafios. Tentar o impossível somente dá resultado no mundo da arte e da literatura. No da economia e da política só provoca desastres. E a prova é a crise que hoje vive a Europa e, dentro dela, os países que gastaram mais do que tinham, que construíram Estados exemplarmente generosos, mas incapazes de investir, que se endividaram além das suas possibilidades sem imaginar que também a prosperidade tem limites. Tudo isso se paga, cedo ou tarde, é impossível evitar.
Todos os governantes europeus sabem disso, mas, entre eles, somente a chanceler alemã se atreve a dizer e agir em consequência. Com sua aparência de abadessa ou de mãe de família numerosa, Angela Merkel tem uma personalidade de ferro e se move em meio às tempestades ao seu redor com uma serenidade e uma coragem admiráveis. É possível que as ficções malignas acabem com seu governo, mas, se isso ocorrer, ela passará para a oposição com a consciência tranquila. Na verdade, ela deixou seu país muito melhor do que o encontrou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Governo altera futuras linhas de metrô e trem


CAIO DO VALLE / JORNAL DA TARDE - O Estado de S.Paulo
Menos de um ano após divulgação da futura rede metroferroviária, o governo Geraldo Alckmin (PSDB) já alterou o mapa da malha da Grande São Paulo, prevista para sair do papel até 2030. Algumas linhas sofreram mudanças no traçado. É o caso do monotrilho da Linha 2-Verde, que está em construção entre Vila Prudente e Cidade Tiradentes, na zona leste.
Agora, o Setor de Planejamento da Secretaria Estadual dos Transportes Metropolitanos trabalha com a possibilidade de estender o ramal até a Estação Ipiranga da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), na Linha 10-Turquesa. Ainda não há prazo para que essa construção seja iniciada. O restante da obra, já em execução, deve ser entregue em 2016.
Em nota, o Metrô informou que o objetivo de arrastar a ponta da linha para oeste é "criar maior facilidade de integração com a rede". Essa, porém, não é a única alteração.
O novo mapa revela que a Linha 23, apelidada de Arco Norte, teve a sua extensão trazida mais para o sul, reduzindo-a de 22,8 km para 16,6 km. Integrado à Linha 2-Verde, esse ramal formará o chamado "metroanel", circundando a parte mais central de São Paulo. Partindo da Lapa, na zona oeste, rumo ao entorno da Via Dutra, a linha cruzará avenidas hoje distantes do metrô, como Edgar Facó, Inajar de Souza e Engenheiro Caetano Álvares, na zona norte.
No mapa da futura rede divulgado anteriormente, em setembro do ano passado, a Linha 23 tinha outra cor - prata - e numeração - 16. Apesar de no novo desenho ela aparecer rosa choque, o Metrô afirmou que ainda não há coloração oficial para o ramal, que também não tem data para ser construído.
A Linha 2-Verde também sofreu mudança. Há dez meses, o governo do Estado revelou que pretendia estendê-la da Vila Madalena até a Estação Imperatriz Leopoldina, na Linha 8-Diamante da CPTM, na zona oeste. Contudo, agora o Metrô quer levá-la até o meio do caminho, na Rua Cerro Corá. A empresa informou que sua avaliação é "que a integração com a Linha 8 da CPTM será melhor através da Linha 20, na Estação Lapa".
A Linha 4-Amarela não deverá ir mais ao Pari. As novas diretrizes podem ser vistas no mapa da rede futura publicado no edital para a elaboração do projeto da Linha 20 (ainda sem cor oficial) e do prolongamento da Linha 2 até Cerro Corá.
Alterações. José Geraldo Baião, presidente da Associação de Engenheiros e Arquitetos do Metrô (Aeamesp), diz que mudanças no planejamento de linhas são comuns. "É uma visão que pode ter uma diferença de um governo para outro. Só quando o governante e as condições financeiras permitem é que vão priorizando linhas projetadas."
Fatores sociais também influem. Ele cita como exemplo as linhas antigas, projetadas em 1968. "Houve alteração do traçado original para o atual."

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sem fôlego para correr


18 de julho de 2012 | 3h 07
Rolf Kuntz - O Estado de S.Paulo
Ninguém se iluda: o Fundo Monetário Internacional (FMI) é muito menos otimista em relação ao Brasil e a outros emergentes do que parece indicar, à primeira vista, seu novo estudo sobre as perspectivas globais. O relatório destaca a desaceleração das economias brasileira, indiana e chinesa e atribui esse efeito, em parte, à crise internacional e às políticas de ajuste. Mas o recado importante vem depois. Emergentes cresceram acima da tendência histórica na última década, em parte graças à expansão do crédito e ao desenvolvimento financeiro. Mas seu crescimento potencial pode ser menor que o esperado. Nesse caso, seu desempenho será mais fraco no médio prazo. O documento ressalta, ainda, os perigos para a estabilidade financeira, num ambiente de baixo crescimento global e muita aversão ao risco. É uma herança deixada por vários anos de rápido aumento do crédito.
O alerta sobre o risco financeiro parece valer para todos os grandes emergentes, incluída a China, onde houve sinais de formação de uma bolha de crédito nos últimos anos. Mas a observação sobre o crescimento potencial parece aplicar-se principalmente ao Brasil, país com uma taxa de poupança em torno de 16% do Produto Interno Bruto (PIB), investimento inferior a 20% e baixo padrão educacional. A última novidade sobre as aventuras do país mal-educado surgiu nesta segunda-feira: 38% dos estudantes do ensino superior têm dificuldades graves de leitura e de escrita, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa. Desde 2001 as duas entidades têm produzido um Indicador de Analfabetismo Funcional.
A referência ao crescimento potencial é muito mais relevante, no caso do Brasil, do que as projeções de expansão econômica de 2,5% neste ano e 4,6% no próximo. A estimativa do FMI para 2012 é igual à do Banco Central e superior à mediana das previsões coletadas pelo próprio BC na última pesquisa Focus, 1,9%. Essas projeções caíram por 10 semanas consecutivas, até agora, e têm acompanhado a piora de vários indicadores produzidos pelo governo e por entidades do setor privado.
O governo promete resultados melhores neste semestre e um crescimento superior a 4% em 2013. Mas qual será o desempenho econômico possível nos anos seguintes? A resposta depende do alcance da política econômica, por enquanto voltada principalmente para objetivos limitados.
A Fundação Getúlio Vargas divulgou em fevereiro, na revista Conjuntura Econômica, um artigo sobre o produto potencial da economia brasileira. O cálculo pode ser complicado e inseguro, mas ninguém pode simplesmente menosprezar o problema. Nenhuma política voluntarista será sustentável por muito tempo, nem isenta de custos muito altos. Isso é comprovado amplamente pela experiência brasileira. Mais cedo ou mais tarde - frequentemente mais cedo - acaba-se batendo num limite. A consequência pode ser inflação ou crise no balanço de pagamentos ou uma combinação devastadora dos dois efeitos.
A análise resumida no artigo da Conjuntura Econômica indicou um crescimento potencial na faixa de 3,5% a 4% ao ano. Pode-se avançar com maior velocidade durante algum tempo, mas algum desajuste logo tornará necessária uma freada. Em anos recentes, períodos de rápida expansão foram interrompidos por fortes pressões inflacionárias e pela ação corretiva do BC. Fases de intenso crescimento da demanda interna resultaram também na deterioração do saldo comercial. As compras de produtos estrangeiros tendem a crescer em fase de prosperidade econômica, mas, no caso brasileiro, o descompasso entre importações e exportações tem sido muito sensível. Isso ocorreu antes da crise de 2008 e voltou a ocorrer nos últimos dois anos.
Desta vez, a causa principal do descompasso ficou mais evidente: a indústria brasileira tem sido incapaz de competir tanto no exterior quanto no mercado interno. A valorização do dólar, mais de 20% desde o último trimestre do ano passado, foi insuficiente para mudar o quadro. O problema ultrapassa amplamente a questão cambial. Também vai muito além das carências de produtividade, qualidade e inovação das empresas. As principais ineficiências estão fora dos muros das fábricas e das cercas das fazendas. Se esse é o quadro, é um erro insistir numa terapia de estímulos ao consumo e benefícios fiscais de alcance limitado.
Crescimento potencial e capacidade competitiva são denominações do mesmo problema. Além dos economistas do FMI, muitos outros analistas já perceberam os entraves da economia brasileira. Daí o falatório, recorrente nos últimos tempos, sobre a redução das expectativas, no exterior, em relação ao B dos Brics. Mas isso é conversa de quem ainda se preocupa com o PIB. A presidente Dilma Rousseff parece haver superado essa fase.
* JORNALISTA