segunda-feira, 29 de abril de 2013

Nós entre os outros


Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo
1 - O governo dos Estados Unidos armou uma cilada para enquadrar os irmãos Tsarnaev pelo atentado à bomba contra a maratona de Boston. 2 - O vídeo do sobrevivente Dzhokhar Tsarnaev não prova nada. Por que não liberaram outros trechos do vídeo? 3 - O tiroteio na madrugada de Boston, que resultou na morte de Tamerlan Tsarnaev, está mal explicado. 

As afirmações acima não saíram apenas da boca de Zubaidat, a mãe dos dois acusados, no Daguestão. Foram feitas, em conversas comigo, por amigos brasileiros, jornalistas e profissionais com pós-graduação, mais viajados e cosmopolitas do que a maioria dos americanos.

Se eu trabalhasse em comunicação para o Departamento de Estado em Washington, estaria preocupada. Mas trabalho para um jornal brasileiro e estou mais preocupada ainda. Não porque ignore o fato de que George Bush mentiu para o povo americano e o resto do mundo para começar uma guerra que fez dezenas de milhares de mortos no Iraque. Não porque negue que a manutenção da prisão de Guantánamo seja uma vergonha que mancha a história da democracia constitucional. Não porque não me horrorize com o "dano colateral", a morte de civis provocada pelos ataques de drones. Não porque ignore o fato de que os assassinatos em massa por armas de fogo, como Newtown e Aurora, são crimes hediondos que podiam ter sido evitados. Há muito o que condenar no comportamento dos Estados Unidos depois do 11 de setembro. Mas determinar que milhares de policiais, centenas de figuras públicas e de jornalistas, sem contar testemunhas entre o público fazem uma demonstração sincronizada de falsificação digna da Coreia do Norte é um salto que tenho dificuldade de compreender.

A desinformação folclórica dos americanos que consideravam Buenos Aires a nossa capital, era explicada em parte pelo país continental, o superpoder intervencionista do século 20, enamorado de sua dominação econômica e tecnológica. A desinformação do país no século 21, com candidatos a presidente afirmando que o planeta nasceu há 5 mil anos, é assustadora e possível graças à bolha criada por propaganda, conservadorismo político e religioso. 

Mas como explicar as crenças de uma elite que compra mostarda em Paris, ridiculariza os desinformados do norte e se considera tão esclarecida? E por falar em Paris, lembro que a bela e talentosa Marion Cotillard, depois de sugerir que as torres gêmeas foram destruídas no 11 de setembro para dar lugar a prédios modernos, concluiu com esta pérola: "Será que o homem pisou na lua? Assisti a vários documentários sobre isso, mas fiquei pensando...". Um agente em pânico e os dólares de Hollywood devem ter impedido a ganhadora do Oscar como Edith Piaf de continuar pensando alto.

Depois de uma semana no Brasil, revivi a noção de como o mundo supostamente unido pela mídia social e pelo registro digital instantâneo é, em vários aspectos, um mundo mais isolado. O trajeto da opinião que substitui fatos à teoria conspiratória encurtou bastante. 

Sim, é ultrajante que Dzhokhar tenha sido interrogado por 16 horas antes de lerem para ele o Alerta Miranda, sobre seus direitos à defesa e a não se incriminar, e, só então, parou de falar. Sim, Dzhokhar Tsarnaev não só tem direito a julgamento, como vai ser representado por três advogados, um deles a maior estrela da defensoria pública do Estado de Massachusetts.

E, mesmo se ele confessou que foi autor do atentado que matou três e feriu 200; que planejava mais ataques em Nova York, com os seis artefatos explosivos encontrados; que agiu motivado pelas guerras no Iraque e Afeganistão - tudo isso pode ser contestado pela defesa durante o julgamento. Difícil de contestar é o testemunho do jovem empresário chinês sequestrado pelos irmãos, numa ação atrapalhada que resultou na captura de Dzhokhar e na morte de Tamerlan, ação, diga-se de passagem, fotografada por moradores do bairro.

"Ouviu falar do que aconteceu na maratona de Boston?", disse segundo o sequestrado, Tamerlan Tsarnaev. "Eu fiz aquilo. E acabei de matar um policial em Cambridge." Na entrevista ao Boston Globe, a vítima, que teme revelar seu verdadeiro nome chinês, relata 90 minutos de terror em detalhes que podem ser parcialmente confirmados pelo sistema de navegação do carro e, em seguida, pelo GPS do celular.

Se as forças policiais envolvidas na maior caçada humana da história de Boston contribuíram para a desinformação - Dzhokhar estava armado e não estava, Tamerlan morreu no tiroteio ou atropelado pelo irmão em fuga - a disposição imediata de acreditar numa conspiração governamental em grande escala, num mundo tão documentado pela tecnologia, merece pausa. 

A desconfiança do país que invadiu o Iraque sob falso pretexto, mantém Guantánamo e articulou uma erosão expressiva da privacidade depois do 11 de setembro é justificada. O mesmo não se pode dizer da ideia de que qualquer fato deve ter versões coloridas para combinar com nosso guarda-roupa ideológico.

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