terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Rodrigo Toniol - Igrejas devem ser isentas de imposto?, FSP

 Não é incomum que, em discussões sobre as mazelas do Brasil, alguém aponte: "É só no Brasil que igreja não paga imposto." Essa característica seria um atestado das relações promíscuas entre Estado e religião no país. No entanto, essa prática é comum nas democracias liberais. A verdadeira jabuticaba brasileira não reside na existência do benefício, mas na disputa política para esticar indefinidamente o seu alcance.

Recentemente passei uma temporada de um ano como pesquisador visitante na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Assim que cheguei à cidade e fui me registrar na prefeitura recebi um formulário no qual deveria responder, entre outras questões, minha religião. Se eu me declarasse pertencente a alguma religião, eu passaria a pagar regularmente um imposto eclesiástico.

Esse é um modelo que vigora na Alemanha e também, com algumas variações, nos países nórdicos. Nesses casos, o Estado não somente oferece isenção para algumas estruturas religiosas, como também recolhe impostos e os repassa diretamente para as igrejas de acordo com a autodeclaração dos cidadãos.

Auditório lotado com centenas de pessoas vestindo roupas claras, distribuídas em três níveis. Um homem em primeiro plano, de costas, gesticula para a plateia enquanto fala em um púlpito.
Batismo coletivo na igreja Assembleia de Deus do Belém, em São Paulo - Lalo de Almeida - 25.out.17/Folhapress

Já noutros países, como na Inglaterra e na França, as regras fiscais estão diretamente associadas aos edifícios que são locais de culto religioso. Nesse formato, não são as denominações religiosas que são isentas de impostos, mas sim os prédios cuja finalidade é prioritariamente de culto. Isso exclui, por exemplo, casos em que uma igreja é dona de um edifício e o aluga como ponto comercial.

Estados UnidosCanadá e Austrália operam noutra lógica. Nesses países as igrejas podem ser inscritas no mesmo regime de instituições de caridade ou sem fins lucrativos e receberem concessões de impostos. Para isso precisam comprovar que realizam ações de interesse público.

A despeito das variações nas regras, o fato é que na maior parte das democracias liberais do mundo há sistemas de isenção, concessão e até recolhimento estatal de impostos para igrejas. Em todos esses casos emerge o mesmo dilema: o que, afinal, conta como finalidade religiosa, o que é apenas acessório, em que ponto uma igreja passa a operar também como empreendimento econômico?

No Brasil vigora desde 1988 uma garantia constitucional de imunidade tributária para entidades religiosas. A cobrança de impostos sobre templos de qualquer religião é proibida, e a imunidade também alcança patrimônio, renda e serviços prestados pelas igrejas.

Se há um traço particularmente brasileiro nessas questões é a disposição recente de ampliar ainda mais esses benefícios. Exemplo disso é a PEC 5/2023, de autoria de Marcelo Crivella (Republicanos), que propõe a ampliação da imunidade tributária de igrejas na compra de bens e impõe isenção fiscal na contratação de serviços necessários à formação do patrimônio, à geração de renda e à prestação de serviços para entidades religiosas.

A PEC foi aprovada em duas comissões e está pronta para pauta no plenário. Enquanto isso, não faltam iniciativas estaduais e municipais com este espírito já consolidadas. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por exemplo, concedeu isenção de ICMS a igrejas. Desde dezembro de 2024, a prefeitura do Rio aprovou lei que isenta templos religiosos de taxas para uso de áreas públicas em eventos.

Durante sua gestão, Bolsonaro anistiou dividas tributárias de igrejas que acumulavam débitos estimados em R$ 1,4 bilhão.

Pesquisadores brasileiros, como Magali Cunha, do Iser (Instituto de Estudos da Religião), convergem no reconhecimento de que é comum no roteiro da política brasileira que em anos eleitorais, como o de 2026, ocorra uma intensificação de propostas de ampliação desses tipos de benefícios.

Ao esticar o que cabe no conceito de "finalidade religiosa", a ponto de incluir importações e realização de grandes eventos religiosos, o Estado faz escárnio do princípio da laicidade e ultrapassa o limite do razoável na legítima e necessária proteção à liberdade de crença.

Empresas deixam de investir R$ 36,8 bilhões em portos privados desde 2013, FSP

  

Brasília

Um grupo de 17 terminais portuários privados que receberam autorização do governo para serem construídos após a Lei dos Portos, de 2013, nunca saiu do papel, uma frustração de obras que deixou de gerar R$ 36,8 bilhões em investimentos, além de 533 mil empregos no país.

O dado faz parte de diagnóstico elaborado pela Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários), ao qual a Folha teve acesso. As informações foram encaminhadas ao MPor (Ministério de Portos e Aeroportos). Essa paralisia vai levar a mudanças regulatórias do setor e pode resultar, inclusive, na retomada de áreas para novos empreendedores. As medidas são estudadas pelo ministério.

Barcaça sendo rebocada por um rebocador em rio próximo a estrutura industrial de terminal portuário com esteiras transportadoras e galpão.
Pará é o estado que concentra maior número de projetos, com 46 terminais de uso privado já contratados

A preocupação do governo não se limita ao descumprimento de projeto. É preciso definir um destino para todas essas áreas, porque ficaram bloqueadas desde as autorizações originais. Esse território, que envolve tanto a margem litorânea quanto os principais rios do país, soma 48,3 milhões de metros quadrados, o equivalente a 6.800 campos de futebol.

Procurada pela reportagem, a Antaq não comentou o assunto. O MPor também não se manifestou até a publicação deste texto.

Em média, os terminais privados que recebem autorização têm prazo de cinco anos para entrarem em operação. Dados obtidos pela Folha mostram que cada um dos 17 portos recebeu aval do governo entre 2013, ano em que a lei passou a valer, e 2019. Todos, portanto, já ultrapassaram o limite.

Esses terminais privados, conhecidos como "TUPs", são instalações portuárias localizadas fora da área dos portos públicos. Eles são explorados por empresas e operam por conta e risco do investidor, sem uso de recursos públicos.

Até 2013, esses terminais eram chamados de "privativos" porque, em regra, só podiam movimentar carga própria. A partir da Lei dos Portos, eles passaram a ser "privados", podendo atender livremente qualquer cliente e movimentando cargas de terceiros.

A mudança destravou investimentos e provocou aumento no número de autorizações. Entre 2013 e 2019, 70 autorizações para TUPs foram emitidas pelo governo, quase o dobro da média anual registrada antes da lei. O problema é que essa expansão não se converteu em implantação efetiva em muitos casos.

Do total de 70 TUPs autorizados no período, 53 terminais começaram a operar. Ocorre que estes não eram os principais projetos solicitados, como se vê no volume de investimento que fizeram: um total de R$ 10,3 bilhões, enquanto os 17 projetos frustrados concentraram R$ 36,8 bilhões que não se viu.

A maior parte dos 17 TUPs tinha a missão de movimentar cargas como minérios e produtos do agronegócio, além de combustíveis. Alguns eram voltados para contêineres.

Entre os motivos alegados para o descumprimento do prazo estão dificuldades com obtenção de licenças ambientais, situação comum em projetos localizados em áreas sensíveis, como regiões costeiras e margens de rios.

Entraves financeiros e judiciais também foram mencionados, além de situações em que o projeto foi autorizado sem que houvesse investidor garantido ou contratos firmes de carga. Há, ainda, situações de omissão, quando o empreendedor simplesmente não apresentou justificativas nem demonstrou avanço na obra.

Dos 17 terminais, 14 pediram novas prorrogações de prazo, entre 2026 e 2029. Em três terminais, porém, não há sequer pedido de prorrogação, ou seja, estão em um limbo administrativo.

Um desses casos é o Terminal Buritirama, de Barcarena, no Pará. A empresa teve a falência decretada em julho de 2023, por decisão judicial da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. O caso tramita no STJ (Superior Tribunal de Justiça), aguardando parecer do Ministério Público Federal. Por isso, a Antaq pediu ao MPor que declare a extinção da autorização.

Outra situação de impasse envolve o Terminais Ponta Negra, no Rio de Janeiro, que está impedido de iniciar as obras devido a decisões judiciais. Além disso, o terminal enfrenta três ações civis públicas devido à sua localização, e aguarda uma autorização da prefeitura de Maricá.

O plano do governo, conforme fonte ouvida pela Folha, não é restringir a abertura do setor, mas avançar em regulações que melhorem o cenário e destravem essas áreas paralisadas. O Pará é o estado que concentra maior número de projetos, com 46 terminais de uso privado já contratados e outros 25 em fase de análise para futura construção.

A partir dos dados compilados pela Antaq, o MPor pediu, no mês passado, um relatório nacional detalhado do setor, para mapear fragilidades e "evitar riscos de ociosidade, fragmentação excessiva da oferta e impactos concorrenciais indesejados".

Joisa Dutra- Quem está pagando o pato da conta de luz?, FSP

 Em 2026 haverá eleições presidenciais no Brasil —e, como sempre, é ano de não desagradar o eleitorado. Como a satisfação do cliente-eleitor começa pelo bolso, ou pela percepção do que o incomoda, vale olhar com mais cuidado para um tema recorrente do debate público: a conta de luz.

Nos últimos anos, a agenda ambiental e climática trouxe para o centro das discussões a chamada affordability —a capacidade de pagamento dos usuários. Não basta estar conectado à rede, algo que já é realidade para mais de 99,8% da população. Vida digna também significa poder consumir energia: ligar o ar-condicionado, tomar banho quente, usar eletrodomésticos sem medo da fatura no fim do mês.

Subestação de distribuição de energia elétrica em Marília (SP)
Subestação de distribuição de energia elétrica em Marília (SP) - Alf Ribeiro - 13.mar.24/Folhapress

O tema não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump prometeu reduzir os custos de eletricidade pela metade em um ano de governo, atribuindo o problema às renováveis variáveis. Até agora, não entregou. Na Europa, o desafio também é grande: a descarbonização exige investimentos vultosos, mesmo com a queda expressiva dos custos da solar e da eólica.

Mas, para dar substância ao debate, é preciso ir além da narrativa.

Os dados mostram que, no Brasil, a tarifa de eletricidade não cresceu sistematicamente acima da inflação quando observada em horizontes mais longos —seja nos últimos 10 ou 5 anos. Mesmo considerando o impacto da crise hídrica de 2021, o comportamento do IPCA-eletricidade não revela uma explosão tarifária persistente.

O que mudou foi outra coisa: a volatilidade. Desde 2012, as tarifas passaram a oscilar mais, refletindo políticas públicas, intervenções e arranjos regulatórios que pouco têm a ver com sinalização eficiente de custos. Volatilidade não é um problema em si —desde que reflita custos reais. O problema é que não reflete.

O verdadeiro motor da pressão sobre a conta de luz está nos encargos setoriais, em especial na CDE (Conta de Desenvolvimento Energético). Prevê-se um aumento de cerca de 7% da CDE em 2026 — número que deve ser lido com cautela. Em 2025, o orçamento inicialmente submetido pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) à consulta pública era da ordem de R$ 40 bilhões, mas encerrou o ano próximo de R$ 49 bilhões.

Criada e ampliada ao longo do tempo, a CDE financia políticas legítimas —universalização do serviço, tarifa social, geração em sistemas isolados, incentivos a tecnologias emergentes, como solar e eólica. O problema não é a política pública em si, mas onde ela é financiada. Ao ser embutida na tarifa, a CDE mascara ineficiências, perpetua subsídios e transfere custos de forma pouco transparente entre consumidores.

O resultado é regressivo. Com o avanço da micro e minigeração distribuída e a abertura do mercado livre, consumidores que podem reagir —residenciais de alta renda, comércios e indústrias— saem do ambiente regulado. A conta fica para quem permanece: em geral, consumidores de menor renda.

Nossa análise para a área de concessão da Cemig mostra que cerca de 75% dos adotantes de painéis solares em 2024 estavam entre os 40% de maior renda. Se as regras permitem essa arbitragem regulatória, é difícil condenar o comportamento individual. No agregado, porém, o efeito é conhecido: reforça-se a espiral da morte na distribuição, na qual quem sai deixa custos para quem fica.

Affordability é, sim, um problema —e um tema eleitoral poderoso. Mas errar o diagnóstico leva a soluções ruins. O custo da energia caiu com o avanço das renováveis, mas os ganhos de competitividade vêm sendo apropriados por grupos capazes de redesenhar a regulação a seu favor. Essa tese não é nova: desde os anos 1970, Gary Becker e Sam Peltzman apontavam que a regulação poderia ser capturada para distribuir rendas, mais do que estimular eficiência.

O setor elétrico se acostumou a discutir a duck curve —a curva do pato da transição energética. Falta discutir quem está pagando o pato. A maior parte da população brasileira está na chamada classe média baixa, fora do CadÚnico e sem acesso a programas de proteção. É esse grupo que hoje financia, silenciosamente, escolhas distributivas feitas longe das urnas —mas sentidas todo mês na conta de luz.

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