domingo, 9 de julho de 2023

Por que o futuro não é das máquinas, mas de quem as programa, Ricardo Araújo Pereira, FSP

 

Mark Zuckerberg criou uma nova rede social. Era mesmo do que o mundo precisava. Ficamos com uma rede de redes sociais, que operam nessa rede que é a internet.

A nossa vida parece um barco de pesca. A nova rede chama-se Threads, e pretende competir com o Twitter. Propõe-se a ser mais civilizada, mas não parece começar da melhor maneira: para dizer o seu nome é preciso pôr logo a língua de fora. E agora os jornais dedicam-se a medir, entusiasmadamente, o sucesso de ambas as redes. Qual será mais bem-sucedida? A Threads, de Zuckerberg, ou o Twitter, de Elon Musk?

No desenho de Luiza Pannunzio um homem branco vestindo camiseta e calça, descalço - está deitado em posição fetal, de cabeça para baixo. Próximo a sua cabeça há um smartphone com a imagem do Twitter, rede social de Elon Musk, ocupando a tela. Próximo aos seus pés desse personagem, um notebook está aberto com a nova rede social de Mark Zuckerberg, Threads, preenchendo a tela.
Ilustração de Luiza Pannunzio para coluna de Ricardo Araújo Pereira de 8 de julho de 2023 - Luiza Pannunzio

É um campeonato de bilionários que as pessoas acompanham com genuíno interesse. Eu continuo perplexo. São aplicativos de celular. Criados por programadores. No meu tempo, os informáticos eram alvo de um sensato desdém. De repente, passaram a ser heróis.

Sempre achei que o filme "Matrix" não era especialmente fantasioso no enredo. Aquele futuro em que os seres humanos eram subjugados pelas máquinas, mas conseguiam dominar o espaço cibernético a ponto de serem capazes de se desviar de balas e saltar por cima de prédios não me impressionou muito.

Onde se notava que "Matrix" era ficção científica era no fato de todos aqueles informáticos terem estilo. Neo, Trinity e Morpheus eram três especialistas em computadores e, no entanto, nenhum deles tinha espinhas ou usava óculos. Era um primeiro sinal de que as coisas estavam mudando.

"Matrix" não era um aviso de que o mundo do futuro ia ser dominado por máquinas, era um aviso de que o mundo do futuro ia ser dominado por informáticos. Uma previsão ainda mais inquietante, porque nenhum de nós, na escola, zombou de uma máquina. Mas que atire a primeira pedra quem nunca caçoou do colega que gostava de falar sobre Cobol.

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Confirmou-se: hoje, tudo o que é entusiasmante e perigoso é feito por informáticos.

Se um jovem quer ser milionário, fará bem em estudar informática, como Bill Gates. Se quer que a sua vida dê um filme, fará bem em estudar informática, como Mark Zuckerberg. Se quer ser pirata, fará bem em estudar informática, como os hackers.

Na escola, ninguém falava com os colegas que gostavam de informática. Não eram convidados para as festas, não jogavam bola, não sabiam onde nos encontrar. Agora, inventaram dispositivos que nos convencem a dizer-lhes tudo, a toda a hora, e eles enriquecem vendendo nossos dados. É a suprema vingança. Parabéns.


Antonio Prata Para baixo e avante!, FSP

 

Você tá descendo uma pirambeira numa mobilete, sem freio, em direção a um abismo. Aí chega um pessoal e propõe "Vamos botar uma turbina nessa joça!". É mais ou menos o que tá rolando com a Inteligência Artificial. O mundo tá virado pro lado errado: aumentar a eficiência no percurso só vai nos fazer despencar mais rápido.

Vai vendo: na revista New Yorker da semana passada tem uma matéria apavorante sobre plástico e microplásticos. Entre a Califórnia e o Havaí surgiu um lixão flutuante com 1,6 milhão de quilômetros quadrados. Uma ilha gigante, maior que o estado do Amazonas, feita de garrafas PET, sacolas de supermercado, potinhos de iogurte, embalagens de miojo, enfim, esses itens realmente essenciais para a subsistência do Homo sapiens.

A ilustração de Adams Carvalho, publicada na Folha de São Paulo no dia 9 de Julho de 2023, mostra a pintura de uma garrafa de refrigerante sendo carregada por duas mãos saindo de um mar.
Adams Carvalho

Saindo do macro e indo pro micro –plástico. O microplástico é um problema sério. Com a passagem do tempo, todos esses cacarecos vão esfarelando, aí a gente os come e os respira, trazendo pro corpo um monte de substâncias cancerígenas. Acharam microplástico no Ártico, na placenta, no leite materno e no mecônio (aquele primeiro cocô do bebê). O atrito dos pneus com o solo faz com que trilhões de partículas sejam lançadas ao ar, todo dia, toda hora. Até as roupas sintéticas que a gente usa (e hoje quase todas são) soltam micro fiapos que acabam indo agasalhar nossos alvéolos.

Vai vendo: na Piauí deste mês tem uma matéria excelente da Consuelo Dieguez sobre a falência das Lojas Americanas. Ou, mais especificamente, sobre o modus operandi dos três empresários que, por décadas, posaram de exemplos do empreendedorismo e da "meritocracia" no Brasil. Segundo a matéria, Lemann, Telles e Sicupira subiram na vida pisando na cabeça dos outros. Compravam empresas, demitiam geral, diminuíam os salários e aumentavam os bônus por resultados. A consequência era uma guerra de todos contra todos que, não raro, ia dar em chute no saco e dedo no olho, i.e., na ilegalidade. Para turbinarem seus números, as empresas do trio achacavam fornecedores e atrasavam pagamentos, davam calotes e fraudavam os resultados. Tony Soprano ficaria orgulhoso. O fato de o Brasil ter feito vista grossa por décadas para esse capitalismo demente mostra o tamanho do buraco em que estamos.

Nesta mesma semana ouvi uma reportagem na CBN: duzentos refugiados afegãos estavam, fazia meses, presos no aeroporto de Guarulhos. Sem banho. Ficavam imundos, até que alguns voluntários os levassem para se limpar num hotel ali por perto. Houve um surto de sarna. Acabei de dar uma olhada na Amazon: um chuveiro portátil de camping sai por R$ 65,00. Ou seja, com R$ 650,00 você compra dez desses e resolve uma questão humanitária, de saúde pública e de respeito aos direitos humanos.

Eu não fiz uma pesquisa para esta crônica. Estou falando só de notícias que caíram no meu colo. Chegaram por baixo da porta, pelo meu iPad, pelo rádio do carro. O mundo tá muito errado e não precisamos do ChatGPT para resolver nossos problemas. Qualquer vovó interiorana sabe o que deve ser feito. Mas em vez de botarmos a mão na consciência, preferimos acelerar a mobilete ladeira abaixo. A inteligência artificial não vai ser usada para acabar com a miséria ou para alfabetizar as crianças brasileiras, mas para encontrar formas mais eficientes de produzir mais embalagem de miojo para aumentar a ilha de plástico no norte do Pacífico –demitindo o maior número de pessoas possível.