domingo, 9 de julho de 2023

Possível cassação de Moro enfileira interessados no cargo de senador, FSP

 


CURITIBA

As duas ações de investigação que tramitam no TRE-PR (Tribunal Regional Eleitoral do Paraná) contra o senador Sergio Moro (União Brasil-PR) ainda estão em sua etapa inicial – com a definição de quais testemunhas de acusação e defesa serão ouvidas.

A despeito disso, no Paraná, políticos já colocaram suas "campanhas na rua", de olho na possibilidade de uma eleição suplementar ao Senado, na hipótese de os processos contra Moro gerarem a cassação do mandato do ex-juiz da Lava Jato.

No meio político, a cassação de Moro é dada como certa e quase dez nomes já circulam entre possíveis candidatos para a vaga. "Tenho um projeto claro: vou concorrer à vaga do atual senador Moro. Estou em campanha, fazendo articulação política. Vou participar deste processo da eleição suplementar", admite o deputado federal licenciado Ricardo Barros (PP-PR), secretário da Indústria da gestão Ratinho Junior (PSD) no governo do Paraná, e ex-líder de Bolsonaro (PL) na Câmara.

O senador Sergio Moro (União Brasil-PR) durante sessão da CPMI do 8 de janeiro
O senador Sergio Moro (União Brasil-PR) durante sessão da CPMI do 8 de janeiro - Gabriela Biló-13.jun.2023/Folhapress

"O caso do Moro é idêntico ao caso da juíza Selma. O tribunal tem direito de mudar seu entendimento, mas a jurisprudência diz que sim, que ele será cassado", afirma Barros, em referência ao caso de Selma Arruda (Podemos-MT), a Juíza Selma, cujo mandato no Senado foi cassado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em dezembro de 2019, por caixa dois e abuso de poder econômico.

Além de Barros, outros nomes estão de olho na mesma vaga, como o deputado federal Sérgio Souza (MDB). Mas o emedebista é mais cauteloso quando trata do assunto. "Me parece uma cassação injusta, mas, se houver mesmo a disputa, eu tenho interesse em me candidatar", resumiu ele.

Dentro do PT, tem até mais de um nome disposto a participar da virtual eleição suplementar, incluindo o da presidente nacional da legenda, a deputada federal Gleisi Hoffmann, que já foi senadora pelo Paraná. O ex-senador e ex-governador do Paraná Roberto Requião e o deputado estadual Requião Filho, que se filiaram ao PT no ano passado, também colocaram os próprios nomes à disposição, assim como o deputado federal Zeca Dirceu.

Ricardo Barros (PP-PR), ex-líder do governo Jair Bolsonaro (PL) na Câmara, durante evento no Palácio do Planalto
Ricardo Barros (PP-PR), ex-líder do governo Jair Bolsonaro (PL) na Câmara, durante evento no Palácio do Planalto - Pedro Ladeira-7.out.2020/Folhapress

O Painel apurou ainda que o interesse pelo Senado aparece também entre políticos que hoje se colocam como pré-candidatos à prefeitura de Curitiba em 2024 – caso do deputado estadual Ney Leprevost (União Brasil), filiado ao mesmo partido de Moro, e do ex-deputado federal Paulo Martins (PL), que, no ano passado, ficou em segundo lugar na disputa pelo Senado. No eventual afastamento de Moro, Martins poderia assumir de forma interina a cadeira.

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Outro nome que surge nos bastidores para uma eventual eleição suplementar é do próprio ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol (Podemos), que, recentemente, teve o mandato de deputado federal do Paraná cassado pelo TSE. Aliados acreditam que a condição de inelegibilidade apontada pelo TSE não está clara e que haveria brecha jurídica para ele disputar eleições.

Muniz Sodré - A overdose de cada dia, FSP

O poeta e semiólogo Décio Pignatari relatou-me certa vez como produziu, por encomenda, a marca nacional de um óleo lubrificante para automóveis: programou no computador uma combinação de palavras oscilantes entre brasilidade e lubrificação, de modo a obter um resultado satisfatório. Faz pouco, o processo me pareceu reverberar numa rua de subúrbio do Rio, onde entrepostos religiosos ostentam variações de "primitiva de Cristo" a "tabernáculo de fogo". Há 150 mil deles no país, e crescem.

Fé não se discute, seja na eficácia de um óleo posto no mercado, numa divindade que passe tempo eterno contabilizando dízimos ou na sacralidade indiana da vaca. Scholars do pensamento social enxergariam com razão preconceito em argumentos contrários.

Culto realizado na Igreja de Obra e Restauração Cura e Milagre, em Praça Seca, na zona oeste do Rio de Janeiro - Tércio Teixeira -13.nov.22/Folhapress

A discussão pode incidir, entretanto, sobre o cabimento de projetos de ampliação da isenção tributária das igrejas que tramitam na Câmara. Livros, fora de cogitação. Ou então sobre a tragédia que seria a organização social da fé assumindo uma feição desmedida na exploração do povo-massa espiritualmente desenraizado e sofrido, com insidiosas inclinações políticas.

A palavra-chave para uma reflexão proativa está no "comum", que sempre se construiu como algo coletivo e diverso, mas que no âmbito de configurações religiosas estreitas é anulado pela mesmerização privatista (mistificação da prosperidade, rentabilização da crença) e pela ausência de fé em finalidades sociais. Cooperação e solidariedade são figuras de retórica pastorais.

Progressistas ainda perplexos com a penetração de discursos abstrusos da ultradireita na esfera civil teriam muito a ganhar com a leitura de Ernst Bloch, para quem "os homens querem ser enganados" (em "Princípio Esperança", 1976). Ele se referia aos anos de "estupidez funcional e sistêmica" da primeira metade do século passado, mas o diagnóstico permanece atual na ficcionalização eletrônica do mundo. Não se trata mais de "ópio do povo" (Marx) e sim da droga tecnologicamente fabricada como relação social na hegemonia ético-política do capital globalizado.

O fio que liga os polos verticais dessa fabricação é a magia redentora do dinheiro, atuante nos bilionários que tripulam espaçonaves pelo êxtase extraplanetário ou nos danados da Terra vulneráveis a logros sobre prosperidade individual. Passa despercebida a crueldade de se condicionar, como sanguessugas de esperança, a fé ao preço.

A metástase dos entrepostos com denominações aleatórias, um deepfake bíblico, desenha a face miserável do capitalismo convertido em religião. Uma pirâmide extrativista: no topo, lavam-se bilhões e se elegem bancadas parlamentares, enquanto na base lavam-se cérebros por overdose de fé integrista.

 

Ruy Castro - Típica salada de Paris, FSP

 Em Paris é assim. Você procura um endereço histórico, encontra-o e descobre, ao lado, outro ainda mais importante. Deu-se comigo outro dia, quando saí atrás da rue Campagne Première, em Montparnasse, onde Jean-Luc Godard filmou a sequência final de "Acossado" (1959) —em que Jean-Paul Belmondo recebe ordem de prisão dos tiras, tenta fugir, é baleado e sai trôpego pelo asfalto, seguido pela câmera, até cair e morrer. Mal sabia eu que, no número 29 da rua, quase em frente de onde cai Belmondo, fica o Hotel Istria.

Fachada do Hotel Istia, na rue Campagne Première, no bairro de Montparnasse, em Paris --- Heloisa Seixas
Fachada do Hotel Istria, na rue Campagne Première, no bairro de Montparnasse, em Paris - Heloisa Seixas

A placa na fachada é impressionante. "Na efervescência criadora dos anos 1920", diz ela, "o Hotel Istria acolheu, entre outros, Francis Picabia, Marcel Duchamp, Moïse Kisling, pintores, Man Ray, fotógrafo, Kiki de Montparnasse, modelo e musa, Erik Satie, compositor, Rainer Maria Rilke, Tristan Tzara, Vladimir Maiakovski, poetas, e Louis Aragon, que se encontrava aqui com Elsa Triolet." E segue-se um couplet de Aragon, dizendo que "só se apaga quem brilha e, ao sair do Hotel Istria, tudo era diferente na rue Campagne Première, em 1929, por volta do meio-dia." Aragon, naturalmente, era o poeta e romancista, e Triolet, escritora, casada com ele e cunhada de Maiakovski.

Uns pelos outros, esses homens e mulheres —franceses, russos, vienenses, americanos, uma típica salada de Paris— geraram o cubismo, o dadaísmo, o surrealismo, o ready-made, a pop art, o teatro do absurdo etc, e estilhaçaram o verso.

Namoravam o comunismo, esbofeteavam padres nas ruas e seguiram o enterro do medalhão Anatole France aos gritos de "Um cadáver já em vida!". E praticaram entre si várias combinações sexuais de gênero, etnia e estado civil. Não eram modernistas de salão. Correram riscos, pagaram para ver.

E pensar que essa turma vivia ali, naquele então modesto endereço, cruzando-se nos corredores e dizendo besteiras e genialidades uns para os outros!

Placa do Hotel Istia, na rue Campagne Première, no bairro de Montparnasse, em Paris --- Heloisa Seixas
Placa do Hotel Istria, na rue Campagne Première, no bairro de Montparnasse, em Paris - Heloisa Seixas