domingo, 9 de julho de 2023

BBC News Brasil - As lições de Aristóteles para entender se somos amigos por prazer ou por interesse, FSP

 

Emily Katz
THE CONVERSATION* | BBC NEWS BRASIL

Embora a maioria das músicas seja inspirada nas alegrias e dissabores do amor romântico, as relações entre amigos podem ser tão intensas e complicadas quanto as amorosas.

Muita gente se esforça para fazer novos amigos ou manter uma velha amizade, e um rompimento com um amigo próximo pode ser tão doloroso quanto terminar um namoro.

Apesar dos riscos potenciais, os seres humanos sempre valorizaram a amizade. Como escreveu o filósofo Aristóteles no século 4º a.C.: "Ninguém escolheria viver sem amigos", mesmo que pudesse ter todas as outras coisas boas no lugar.

O filósofo grego Aristóteles afirma que a pura amizade é recíproca e reconhecida - Getty Images via BBC

Aristóteles é conhecido, acima de tudo, por sua influência na ciência, na política e na estética, e não exatamente por seus escritos sobre amizade.

Estudo a filosofia grega antiga e, quando abordo esse assunto com meus alunos, eles ficam surpresos com o fato de um pensador grego da Antiguidade conseguir lançar tanta luz sobre seus próprios relacionamentos. Mas talvez não seja surpresa: a amizade existe há tanto tempo quanto os seres humanos.

Eis, então, três lições sobre esse tema que Aristóteles ainda pode nos ensinar.

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1. A AMIZADE É RECÍPROCA E RECONHECIDA

A primeira lição vem da definição de amizade de Aristóteles: boa vontade recíproca e reconhecida. Diferentemente da paternidade/maternidade ou da irmandade, a amizade só existe se for reconhecida por ambas as partes.

Como diz Aristóteles: "Convém, então, que um tenha boa vontade com o outro e se desejem todo o bem, e e que entendam isso um do outro, e isso por algumas das razões que já foram ditas."

Aristóteles ilustra esse ponto trazendo para a discussão o relacionamento parassocial: um tipo de relacionamento unilateral em que alguém desenvolve sentimentos amigáveis e até sente que conhece uma figura pública.

Em seu exemplo, o filósofo menciona um torcedor que pode desejar o melhor a um atleta e se sentir emocionalmente envolvido em seu sucesso. Mas como o atleta não retribui ou reconhece essa boa vontade, eles não são amigos.

Isso é tão verdadeiro hoje quanto era na época de Aristóteles. Pense em como você não pode ser amigo de alguém no Facebook, a menos que a pessoa aceite a solicitação de amizade. Por outro lado, você pode ser seguidor de alguém nas redes sociais sem que necessariamente o dono da conta te conheça.

Hoje, contudo, pode ser mais difícil distinguir amizades de relacionamentos parassociais.

Estátua de Aristóteles - Getty Images via BBC

Quando os criadores de conteúdo compartilham detalhes sobre suas vidas pessoais, seus seguidores podem desenvolver uma sensação unilateral de intimidade. Eles sabem coisas sobre a pessoa que estão seguindo que, antes do advento das redes sociais, apenas um amigo próximo saberia.

O criador de conteúdo, por sua vez, pode sentir boa vontade para com seus seguidores, mas isso não é amizade. A boa vontade não é genuinamente recíproca se uma das partes a sente em relação a um indivíduo, enquanto a outra a sente em relação a um grupo.

Desta forma, a definição de amizade de Aristóteles esclarece a natureza de uma situação essencialmente moderna.

2. TRÊS TIPOS DE AMIZADE

Em seguida, Aristóteles distingue três tipos de amizade: aquela baseada na utilidade, no prazer e no caráter. Cada uma surge a partir do que é valorizado no amigo: sua utilidade, o prazer de sua companhia ou seu bom caráter.

Embora a amizade baseada na índole seja a forma mais elevada, só se consegue ter alguns amigos íntimos. Demora muito para conhecer o caráter de alguém — sendo preciso passar muito tempo junto para manter uma amizade assim.

Como o tempo é um recurso limitado, a maioria das amizades será baseada no prazer ou na utilidade.

Às vezes, meus alunos argumentam que relacionamentos utilitários não seriam realmente amizades. Como duas pessoas que se usam podem ser amigas? No entanto, quando ambas as partes enxergam sua amizade da mesma forma, elas não estão explorando uma à outra, mas se beneficiando da relação.

Como explica Aristóteles, "diferenças entre amigos geralmente surgem quando a natureza de sua amizade não é o que eles acreditam que seja".

Se sua colega de estudos pensa que vocês são amigos porque você gosta da companhia dela, mas, na verdade, a amizade está baseada no fato de que ela explica bem cálculo, ela pode se sentir magoada.

Para Aristóteles, o contato é crucial no cultivo de amizade verdadeira - Getty Images via BBC

Mas se ambos entenderem, por exemplo, que um precisa melhorar a nota de cálculo e o outro, a de redação, vocês podem desenvolver boa vontade e respeito mútuos com base nos pontos fortes de cada um.

Na verdade, a natureza limitada de uma amizade utilitária pode ser exatamente o que a torna benéfica. Considere uma forma contemporânea de amizade útil: o grupo de apoio entre pares.

Como só se pode ter um pequeno número de amizades baseadas no caráter, muitas pessoas que estão passando por traumas ou lutando contra doenças crônicas não têm amigos próximos que estão passando por essas experiências.

Os membros de um grupo de apoio estão em uma posição única para ajudar uns aos outros, mesmo que tenham valores e crenças pessoais muito diferentes. Essas diferenças podem significar que as amizades nunca vão se basear na índole de cada um; no entanto, os membros do grupo podem sentir boa vontade uns pelos outros.

Em suma, a segunda lição de Aristóteles é que existe um lugar para todo tipo de amizade — e que uma amizade funciona quando há um entendimento compartilhado de sua origem.

3. A AMIZADE É COMO ESTAR EM FORMA

Finalmente, Aristóteles tem algo valioso a dizer sobre o que faz as amizades durarem. Ele afirma que a amizade é um estado ou disposição que deve ser mantido por meio da atividade: assim como a forma física é mantida pelo exercício regular, a amizade é mantida fazendo coisas juntos.

Então, o que acontece quando você e seu amigo não podem participar de atividades juntos?

Aristóteles escreve: "Amigos que... se separam não são amigos ativamente, mas têm disposição para sê-lo. Pois a separação não destrói absolutamente a amizade, embora impeça seu exercício ativo. Porém, se a ausência se prolonga, parece provocar um esquecimento do próprio sentimento de amizade".

Pesquisas recentes confirmam isso: a amizade pode ser mantida mesmo sem atividades compartilhadas, mas, caso seja esta a situação por muito tempo, a amizade desaparece.

Pode parecer que o argumento de Aristóteles perdeu sua relevância, uma vez que as tecnologias de comunicação — do correio tradicional ao FaceTime — possibilitaram manter amizades a grandes distâncias.

Redes sociais podem dificultar contato mais íntimo - Getty Images via BBC

Mas mesmo que a separação física não signifique mais o fim de uma amizade, a lição de Aristóteles ainda é válida.

Pesquisas mostram que, apesar da tecnologia, as pessoas que reduziram suas atividades no primeiro ano da pandemia de Covid-19 sentiram um declínio correspondente na qualidade de suas amizades.

Hoje, assim como na antiga Atenas, os amigos devem continuar fazendo atividades juntos.

Aristóteles não poderia ter imaginado a tecnologia de hoje, o surgimento de grupos de apoio online ou os tipos de relacionamentos parassociais que as redes sociais proporcionam. No entanto, apesar de tudo que mudou no mundo, seus escritos sobre amizade ainda são relevantes.


*Emily Katz é professora associada de filosofia grega antiga na Michigan State University, nos Estados Unidos.

Este artigo foi originalmente publicado no site The Conversation e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Usuários da cracolândia são 4 de cada 10 atendidos em novo centro antidrogas de SP, FSP

 

SÃO PAULO

Menos da metade dos atendimentos em centro de tratamento para dependentes químicos inaugurado pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) é de frequentadores da cracolândia. A maior parte é de usuários de drogas de outras regiões da cidade em busca de uma vaga de internação.

Inaugurado no início de abril, o HUB de Cuidados em Crack e Outras Drogas foi anunciado nos primeiros dias do governo em meio a um pacote de medidas para ampliar as taxas de internação das pessoas que frequentam as ruas conhecidas pelo uso de drogas na região central de São Paulo.

Centro de tratamento para dependentes químicos foi inaugurado pelo governo estadual no dia 11 de abril
Centro de tratamento para dependentes químicos que foi inaugurado pelo governo estadual no dia 11 de abril - Divulgação/Governo SP

De acordo com o diretor do HUB, Quirino Cordeiro Júnior, a inauguração do centro atraiu uma grande demanda reprimida de dependentes químicos de todas as partes da cidade em busca de internação para superar o vício. "Temos uma preocupação específica com as cenas abertas de uso de drogas e estamos fazendo esse trabalho [da busca ativa de usuários], porém, quando nós abrimos o serviço, nos deparamos com a demanda reprimida absurda", disse. "Isso é uma coisa que nós não conseguimos controlar porque a ideia da criação do HUB é um serviço porta aberta", continua.

Ele se refere a moradores de outras regiões da cidade, não necessariamente em situação de rua, que procuraram o serviço após o governo ter anunciado a ampliação de vagas em hospitais psiquiátricos e comunidades terapêuticas.

Na gestão anterior, segundo ele, eram oferecidos apenas acompanhamentos ambulatórios aos usuários de drogas que procuravam o equipamento inaugurado em 2013 como Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas). "Ofertamos o cuidado de acordo com a necessidade dos pacientes, diferente do que acontecia antes, quando as internações não eram oferecidas", disse.

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Cordeiro Júnior afirma "não ser um problema" o fato de a maior parte dos pacientes do centro não vir da cracolândia, ponto crítico da cidade que reúne pessoas em graus elevados de dependência química. "Atendemos quase 3.500 pessoas meio a meio [de fora e de dentro da cracolândia], mas do ponto de vista numérico, o desempenho é bom. Nós atendemos muita gente", disse.

Dados fornecidos pela secretaria estadual de Saúde apontam que o HUB atende majoritariamente homens (87,6%) com idade entre 26 e 59 anos (85,4%) que consomem crack (71,5%) e são viciados em álcool (77%). Um percentual menor, 15,1%, afirmou usar canabinoides sintéticos, termo científico para a droga conhecida como K9, K2 ou Spice.

Dos 3.400 atendimentos no pronto-socorro do HUB desde abril, 58,6% resultaram em internação; o número de encaminhamentos é quatro vezes maior do que o registrado na gestão anterior, do tucano Rodrigo Garcia. Pouco mais da metade foi para leitos em hospitais psiquiátricos e 43,5% foram para comunidades terapêuticas com convênio com o governo estadual.

Entre os critérios que definem o tipo de tratamento dispensado, o diretor cita a presença de comorbidades psiquiátricas ou clínicas. No caso de quadros psicóticos e com risco de suicídio ou diagnósticos clínicos, como tuberculose, a indicação é encaminhar para hospitais psiquiátricos. "Pacientes que precisam de tratamento em um ambiente protegido e não têm um quadro clínico tão agudo são encaminhados para comunidade terapêutica", diz Quirino Júnior.

Questionado, o diretor não informou o percentual de pacientes oriundos da cracolândia entre as internações.

Entre os cerca de 880 pacientes encaminhados a comunidades terapêuticas, 86 foram para o Grupo de Assistência a Dependência Química Nova Aurora, localizado em São José dos Campos (a 97 km de São Paulo). Usuários levados para lá relataram falta de acesso a especialistas e rodas de orações antes das refeições. Procurada, a diretora Dulcineia Paulino disse que encaminha usuários para atendimento na rede pública e que ninguém é obrigado a rezar.

Segundo o diretor do HUB, o prazo de três meses desde o início de funcionamento do equipamento é curto para avaliar a efetividade das internações. "As comunidades terapêuticas têm um período mais longo de internação, então essa avaliação ainda demanda um tempo", diz.

Levantamento semanal feito pela Secretaria da Segurança Pública apontou que 1.106 pessoas frequentam, em média, a cracolândia por dia, com pico de 1.286. O número se mantém estável com tendência de alta desde o início da divulgação dos boletins das cenas abertas de uso de drogas, na segunda quinzena de abril. Uma semana após a inauguração do HUB foram contabilizadas 898 pessoas na cracolândia, com pico de 1.326 no período da tarde.

Lula erra ao defender Venezuela, mas conceito de democracia comporta graus e variantes, FSP

 jul.2023 às 14h54

A democracia é relativa? Não dá para entender por que Lula ainda insiste em defender ativamente um regime falido e brutal como o de Nicolás Maduro na Venezuela. Fazê-lo é ruim para sua imagem pessoal, para seu governo e para o Brasil. Mas a colocação do presidente brasileiro sobre a relatividade da democracia, se utilizada em outro contexto, seria aceitável.

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, recebe o presidente da Venezuela Nicolás Maduro no Palácio do Planalto - Gabriela Biló/Folhapress

É fácil entender que a democracia não é um estado binário, que se materializa ou não se materializa, sem nuances e meios tons. A melhor prova disso é a profusão de índices e rankings de democracia. Um dos mais prestigiados deles, o V-Dem analisa a democracia em cinco dimensões (eleições, liberdades, participação, deliberação e igualdade) e ranqueia em cada uma delas os 202 países examinados. Pelo relatório de 2022 do V-Dem, o Brasil é uma democracia eleitoral, categoria que fica abaixo das democracias liberais, mas acima das autocracias eleitorais e das autocracias fechadas.

Resumindo, de acordo com o instituto sueco, estamos em pior estado do que nações como Dinamarca, França, EUA, Chile e Uruguai, no mesmo plano que Argentina, Paraguai, Portugal e Zâmbia, e melhor do que Egito, Rússia, Tunísia, Venezuela, sem mencionar, é claro, ditaduras inapeláveis como Síria, Cuba, Arábia Saudita e Vietnã. E, se é possível estabelecer esse tipo de hierarquia, dá para dizer que a democracia é em algum sentido relativa.

O que não dá para afirmar é que a Venezuela é uma democracia porque realiza mais eleições do que o Brasil. Desde que Maduro passou a redesenhar as regras de eleições e a excluir e prender candidatos para assegurar que seu grupo sairia sempre vitorioso, cada pleito realizado no país o afasta em vez de aproximar do ideal democrático. Não deixa de ser irônico que tenha cabido a Lula, que não hesita em afagar ditadores amigos, o papel de resgatar a democracia brasileira das garras do golpismo bolsonarista.