sexta-feira, 7 de julho de 2023

ESTADÃO / POLÍTICA Jorge Polêmica do artigo 142 levou militares amigos de Mauro Cid a consultar Ives Gandra sobre golpe

 


12 minde leitura

Às 19h36, de 27 de abril de 2017, o então major Fabiano da Silva Carvalho, aluno do 2.º ano da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), mandou um e-mail para o professor Ives Gandra Martins. Depois de se apresentar, o oficial pediu ao jurista um parecer que “elucidasse” o que, para as Forças Armadas, caracterizaria o dever de “garantia dos poderes constitucionais”.

Correspondência entre o major Fabiano da Silva Carvalho e Ives Gandra Martins
Correspondência entre o major Fabiano da Silva Carvalho e Ives Gandra Martins Foto: Reprodução/Estadão

A manifestação de Gandra – disse o oficial – seria “de extrema relevância” na elaboração de um manual de segurança integrada do Exército. “A garantia dos poderes constitucionais é uma missão imposta para as Forças Armadas e prevista no art. 142 CF (Constituição Federal), assim como a defesa da Pátria e a garantia da lei e da ordem”, escreveu o major, que anexou ainda nove perguntas ao professor.

Seis anos depois, o trabalho dos alunos da Eceme foi encontrado pela Polícia Federal no telefone celular do tenente-coronel Mauro César Barbosa Cid, um dos integrantes do grupo da escola da qual participava o então major Fabiano. O documento se tornou um dos indícios de que Cid e seus companheiros buscavam argumentos para justificar um golpe de Estado e impedir a posse do petista Luiz Inácio Lula da Silva. Na próxima semana, o tenente-coronel deve ser questionado no Congresso sobre o documento na CPMI dos ataques do dia 8 de janeiro.

Estadão procurou refazer a discussão sobre o artigo na Assembleia Nacional Constituinte, para recuperar as intenções e desígnios dos constituintes, bem como para reconstruir a ação dos alunos da Eceme, no biênio 2016-2017. “Desde agosto, quando falavam que havia risco de golpe, eu respondi que ele era zero sobre zero. E escrevi um artigo dizendo isso. O artigo 142 é para nunca ser usado e depende sempre de um Poder pedir”, afirmou Ives Gandra Martins à reportagem.

professor contou que leciona há 34 anos para os futuros generais do Exército. “Participei de banca de mestrado na escola e, se algum aluno me telefonasse, eu atendia. Esse major não foi meu aluno, mas ele me pediu que eu respondesse a algumas questões. Eu nunca deixei de responder para qualquer aluno, ainda que não fosse meu aluno. Tenho esse hábito como professor universitário.”

Política

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Resposta de Gandra Martins para o major Fabiano
Resposta de Gandra Martins para o major Fabiano Foto: Reprodução/Estadão

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O e-mail de Gandra foi enviado ao major no dia 3 de maio de 2017. Ali estava a segunda pergunta enviada pelo major. Ela era a seguinte: O emprego das Forças Armadas na garantia dos poderes constitucionais pode ocorrer em situação de normalidade ou apenas em estado de exceção? A resposta de Gandra, que suscitou interpretações polêmicas, nos anos seguintes, foi: “Pode ocorrer em situação de normalidade se, no conflito entre Poderes, um deles apelar para as Forças Armadas, em não havendo outra solução”.

Intervenção é discutida há anos

Era justamente esse tipo de conflito que militares investigados pela PF vislumbravam existir entre o presidente Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2022. Mas a discussão sobre o papel das Forças em uma crise entre os Poderes nascera muito antes, como prova não só a troca de e-mails entre o major e o jurista, mas também manifestações públicas de generais.

Em outubro de 2017, um deles, o general Luiz Eduardo Rocha Paiva – já na reserva, ele mantinha relações com o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas – escreveu um artigo que começava afirmando que, na Constituição, estava claro “não haver nenhum dispositivo legal” que autorizasse “o emprego ou a intervenção das Forças Armadas por iniciativa própria”. Mas, em seguinda, o militar que comandara a Eceme de 2004 a 2006 dizia: “A intervenção militar será legítima e justificável, mesmo sem amparo legal, caso o agravamento da crise política, econômica, social e moral resulte na falência dos Poderes da União”.

Em meio à Operação Lava Jato, Rocha Paiva concluía que “o Executivo e o Legislativo, profundamente desacreditados pelo envolvimento de altos escalões em inimagináveis escândalos de corrupção, perderam a credibilidade para governar e legislar”. E previa que o agravamento do cenário, em médio prazo, “poderá levar as Forças Armadas a tomarem atitudes indesejadas, mas pleiteadas por significativa parcela da população”.

O tenente-coronel Cid, que deve depor na próxima semana na CPMI do 8 de Janeiro
O tenente-coronel Cid, que deve depor na próxima semana na CPMI do 8 de Janeiro Foto: Dida Sampaio/Estadão

Polícia Federal não conseguiu detectar se os integrantes do grupo de estudos do então major Fabiano procuraram outros juristas ou militares para tratar do tema abordado por Gandra Martins e pelo general Rocha Paiva. Ou se pesquisaram os anais da Assembleia Nacional Constituinte para reconstruir os debates que levaram à formulação da redação atual do artigo 142 da Constituição.

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Esse foi um trabalho feito pelo cientista político e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Antonio Sérgio Carvalho Rocha, que coordena o Projeto Memória Constituinte. Ele reúne pesquisadores de outras sete instituições do Rio e São Paulo – o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec) e as instituições de ensino USP, Unicamp, Uerj, UFSCar, Unesp e Mackenzie.

Desde 2007, o grupo entrevistou 152 políticos, juristas e atores da sociedade para explicar a Constituição de 1988. Entre eles está o então ministro do Exército, o general Leônidas Pires Gonçalves, falecido em 2015. Leônidas disse aos pesquisadores que o Exército conseguiu tudo o que queria na Constituinte, aprovando 26 pontos que considerava importantes na Assembleia.

“Não se pode dissociar a experiência brasileira do regime que veio antes. Na literatura comparada, existem três exemplos de transição. O primeiro é o da Espanha (Pacto de Moncloa, nos anos 1970), que consegue não só uma transição exitosa do franquismo para a democracia, mas também submeter os militares ao poder civil. Trata-se de caso paradigmático. Na Argentina (a redemocratização após a Guerra das Malvinas, em 1982), houve um caso intermediário e, no Brasil, houve um fiasco quase total de submeter os militares ao poder civil”, disse o professor Carvalho Rocha. O primeiro dos 11 volumes da pesquisa será publicado neste ano.

No Brasil, houve um fiasco quase total de submeter os militares ao poder civil.”

Antonio Sérgio Carvalho Rocha, professor da Unifesp

Carvalho Rocha sabe que a polêmica sobre o artigo 142, o que define o papel das Forças Armadas, não foi inventada pelo coronel Cid e seus amigos. Desde o começo da Constituinte, esse tema esteve entre os que mais suscitaram debates na Assembleia. No final de 1987, durante as sessões da comissão de sistematização, havia três posições: a do general Leônidas, a do senador Fernando Henrique Cardoso (PMDB) e a do deputado federal José Genoino (PT).

O professor Antônio Sérgio de Carvalho Rocha, da Unifesp, coordenador do Projeto Memória Constituinte, em seu apartamento, em São Paulo
O professor Antônio Sérgio de Carvalho Rocha, da Unifesp, coordenador do Projeto Memória Constituinte, em seu apartamento, em São Paulo  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Conta Carvalho Rocha que a direita era favorável a dois pontos defendidos por Leônidas: a de que as Forças Armadas destinavam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, só por iniciativa do Executivo, da lei e da ordem. A esquerda queria a exclusão da expressão “lei e ordem” e dar aos outros Poderes a capacidade de convocar os militares. Coube a FHC a solução conciliatória. A expressão “lei e ordem” foi mantida, mas a iniciativa para a convocação das Forças foi estendida ao Legislativo e ao Judiciário.

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Genoino temia que a expressão “lei e ordem” servisse no futuro para o que o constitucionalista Oscar Vilhena chama de “interpretação fraudulenta da Constituição”, a de que aos militares teria sido conferido uma espécie de Poder Moderador entre os Poderes da República, em caso de conflito entre os Poderes. Daí porque desejava circunscrever a ação constituicional das Forças à defesa da Pátria, contra inimigos externos.

Conciliação

“O dissenso entre Genoino e Fernando Henrique não era um dissenso entre golpistas. Era de vítimas da ditadura, os dois”, afirmou o desembargador aposentado Walter Maierovitch. É o que ficou registrado nos anais da sessão de 6 de novembro de 1987, na comissão de sistematização, quando a emenda do petista foi derrotada, prevalecendo o texto defendido por Fernando Henrique.

Para Vilhena, diretor da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, para entender a redação final do artigo é preciso lembrar que a Constituinte é parte do processo de transição entre a ditadura militar e a Nova República. “Isso significa que os militares ainda tinham muita força. O que vinha do Palácio do Planalto por intermédio do ministro Leônidas não era algo a ser descartado.” Para ele, a proposta de Fernando Henrique diferenciava o texto das Constituições anteriores, pois retirava dos militares por completo a autonomia para qualquer tipo de conduta dentro do mundo civil.

“Ele (o militar) só pode agir para garantir. Não posso usar os militares para destituir a Justiça Eleitoral. Só para garantir a integridade do TSE, sem ofender a ordem constitucional. E ele não é o intérprete do que é a ordem constitucional. O texto não dá espaço para que o militar decida quando e por que intervir. A redação proposta pelo Genoino seria melhor, mas a concessão que o Fernando Henrique propôs ao Leônidas deixa claro que isso só pode acontecer se há convocação de um dos Poderes e para a defesa da Constituição”, disse Vilhena.

O texto não dá espaço para que o militar decida quando e por que intervir. A redação proposta pelo Genoino seria melhor, mas a concessão que o Fernando Henrique propôs ao Leônidas deixa claro que isso só pode acontecer se há convocação de um dos Poderes e para a defesa da Constituição.”

Oscar Vilhena, professor da FGV

Toda essa discussão se baseava no fato de o Brasil republicano registrar um histórico de intervenções militares que tinham como origem a ideia de que os militares podiam interpretar quando deviam ou não obediência ao poder civil e autonomia para resolver conflitos políticos. Fernando Henrique sabia disso. Gandra Martins concorda com a ideia de que o futuro presidente da República conciliou as propostas da esquerda e da direita (leia reportagem no Acervo Estadão aqui).

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Reportagem do 'Estadão' sobre a votação do artigo 142 na Comissão de Sistematização da Constituinte
Reportagem do 'Estadão' sobre a votação do artigo 142 na Comissão de Sistematização da Constituinte Foto: Reprodução/Estadão

“Foi o Fernando que contrariou no Genoino, que queria uma outra redação”, disse Gandra ao Estadão. Nesta semana, ele voltou a conversar com o relator da constituinte, Bernardo Cabral, para recuperar parte do ambiente da Assembleia e da discussão sobre o título 5.º da Constituição, denominado como Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas, no qual estão definidos o estado de sítio, o estado de defesa e o papel das Forças Armadas e das forças policiais.

“Era um título que foi colocado de uma forma para nunca ser utilizado, o que chamo de regime constitucional das crises. O estado de sítio, por exemplo, citado naquele decreto estapafúrdio, tem de ser mandado para o Congresso e, se em 24 horas, ele não aprovar por maioria absoluta, deixa de existir.” Gandra se refere ao documento apreendido pela PF na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, um decreto de estado de defesa dentro do TSE para cancelar as eleições.

Era um título que foi colocado de uma forma para nunca ser utilizado, o que chamo de regime constitucional das crises.”

Ives Gandra Martins, jurista

Para Maierovitch, além das amarras constitucionais e das intenções da maioria da Constituinte, a história não sustenta a interpretação de que o artigo 142 concederia o poder moderador às Forças Armadas. “O Benjant Constant de Rebecque (pensador francês) entendia que, nas monarquias constitucionais, o poder moderador era do monarca, o que foi importado pelo Brasil no Império. Historicamente, ele aplica-se somente às monarquias e ele é do imperador. Jamais se falou em Forças Armadas. Jamais o autor da doutrina do poder moderador chegou a tal absurdo.”

Ele aponta ainda não haver dúvida de que a convocação das Forças Armadas estará sempre submetida à apreciação do Judiciário. “Está na Constituição, como garantia, que nenhuma violação a direito será subtraída à apreciação do Poder Judiciário. Com o devido respeito, só mentes tomadas por uma interpretação gramatical absurda podem chegar à conclusão de que o Poder Moderador é das Forças Armadas. Esse tipo de distorção só interessa a golpistas.”

O jurista Ives Gandra Martins afirmou que o risco de golpe em 2022 era zero
O jurista Ives Gandra Martins afirmou que o risco de golpe em 2022 era zero Foto: Divulgação/Gandra Martins Advocacia

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Além da minuta do golpe apreendida com o ex-ministro Torres e das respostas de Gandra Martins para o estudo do major Fabiano, a PF aprendeu ainda com o tenente-coronel Cid uma segunda “minuta do golpe”. O documento seria um modelo de decreto para a convocação das Forças Armadas por meio da decretação de operação de garantia da lei e da ordem com o objetivo de reverter o resultado da eleição de 2022.

Cabe agora ao Congresso, à PF e ao STF verificar até onde o mero debate acadêmico dos colegas de Cid passou do limite do grupo de estudo para se tornar um instrumento para legitimar os atos dos que atacaram a Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro. Ou seja, se Cid reuniu esses documentos com o objetivo de obter suporte jurídico e legal à execução de um golpe de Estado.

BBC News Brasil Câncer: O mistério dos micróbios que vivem em tumores, FSP

 

Roberta Angheleanu
BBC NEWS BRASIL

Nossos corpos são também habitats para outras formas de vida.

O intestino, a boca, o nariz e a pele abrigam diversas comunidades de micróbios que podem ser bons ou ruins para nossa saúde.

Nos últimos anos, cientistas encontraram indícios da existência de micróbios em um lugar ainda mais surpreendente: os tumores.

É comum pensar nos tumores como simplesmente alterações celulares que cresceram demais. Mas, na verdade, são comunidades de muitos tipos celulares diferentes, o que explica em parte a dificuldade de eliminá-los sem danificar tecidos saudáveis.

Bactérias e fungos também vivem em tumores
Bactérias e fungos também vivem em tumores - Getty Images

Os tumores, no entanto, também abrigam uma coleção de células de outras formas de vida: bactérias e fungos. Alguns prosperam no ambiente ao redor do tumor, enquanto outros vivem dentro das próprias células cancerígenas.

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Até recentemente não se sabia claramente qual o papel que os micróbios desempenhavam nos tumores. Agora os cientistas estão começando a desvendar se esses microrganismos são cúmplices que ajudam as células cancerígenas a se desenvolverem ou apenas espectadores presos no tumor.

As respostas para tal pergunta podem ajudar no desenvolvimento de novas abordagens para tratar e prevenir o câncer.

BACTÉRIAS QUE PROTEGEM OS TUMORES

Em um estudo de 2017, Ravid Straussman, biólogo especializado em câncer do Instituto de Ciência Weizmann em Israel, e sua equipe provaram que algumas bactérias que vivem dentro de tumores no pâncreas podem protegê-los de medicamentos quimioterápicos comuns.

Eles descobriram que uma classe particular de bactéria, conhecida como Gammaproteobacteria, poderia interromper o efeito da gencitabina, um medicamento usado para tratar vários tipos de câncer, incluindo aqueles encontrados na bexiga, mama e pâncreas. Ou seja, ela ajuda os tumores a se tornarem resistentes ao medicamento.

Quando a equipe injetou a bactéria em camundongos com câncer de cólon, os tumores também se tornaram resistentes à droga. Mas quando os pesquisadores deram aos camundongos um antibiótico junto com a droga quimioterápica, a resistência desapareceu.

Além dessas descobertas, uma pesquisa publicada em 2019 por uma equipe da Universidade de Tohoku, no Japão, analisou retrospectivamente pacientes com tumores avançados tratados apenas com quimioterápicos e outros que receberam antibióticos além da quimioterapia, na tentativa de prevenir ou tratar uma infecção existente.

Eles descobriram que os pacientes que receberam antibióticos responderam melhor ao tratamento.

Embora o estudo não tenha analisado o número de bactérias presentes no tecido canceroso desses pacientes, os pesquisadores especularam que os antibióticos podem ter matado as bactérias associadas ao tumor e interferido no tratamento do câncer.

Os estudos atuais podem oferecer pistas importantes sobre o que acontece dentro dos tumores.

Straussman e sua equipe agora esperam avançar sua pesquisa com a realização de um ensaio clínico envolvendo pacientes com câncer pancreático que não obtiveram resultados positivos mesmo com tratamentos de primeira linha.

Eles darão aos pacientes um antibiótico que funciona contra a Gammaproteobacteria, junto com a gencitabina, para verificar se o antibiótico melhora seus resultados.

Fusobacterium nucleatum é comumente associada à boca, mas também é encontrada em muitos tumores
Fusobacterium nucleatum é comumente associada à boca, mas também é encontrada em muitos tumores - Alamy

BACTÉRIAS QUE PIORAM O CÂNCER

A bactéria também pode desempenhar outras funções em pacientes com câncer, além de proteger os tumores do tratamento medicamentoso.

Em 2020, a equipe de Straussman analisou mais de 1.500 tumores humanos em sete tipos diferentes de câncer: mama, pulmão, ovário, pâncreas, melanoma, osso e cérebro. Eles descobriram que todos os tipos de tumores eram invadidos por bactérias, que viviam dentro das células cancerígenas e em algumas das células do sistema imunológico.

Diferentes tipos de tumores tinham diferentes comunidades de bactérias. "Cada uma dessas bactérias se adaptou ao microambiente tumoral único em que vivem", diz Straussman.

"No câncer de pulmão, mostramos como as pessoas que fumam têm mais bactérias que podem quebrar a nicotina, que é um metabólito relacionado à fumaça."

Nos tumores ósseos, vemos bactérias que metabolizam a hidroxiprolina, que é um metabólito enriquecido em tumores ósseos."

Em muitos casos, ainda não está claro se a bactéria ajuda o paciente a manter as células cancerígenas sob controle.

Bactérias encontradas em alguns tipos de câncer de mama, por exemplo, podem desintoxicar o arseniato, um tipo de carcinógeno conhecido por aumentar o risco de câncer de mama.

Outros podem produzir uma substância química chamada micotiol, que ajuda a reduzir os níveis de moléculas reativas de oxigênio que podem danificar o DNA.

No entanto, há evidências crescentes de que, em alguns casos, as bactérias que vivem nos tumores podem piorar o câncer.

"Existem cada vez mais trabalhos mostrando como elas podem fazer parte da carcinogênese", diz Straussman.

A bactéria também pode alterar a capacidade do sistema imunológico de atacar e destruir as células cancerígenas, acrescenta. "Estamos realmente arranhando a superfície."

Straussman diz que muito mais precisa ser feito para estudar os efeitos que as bactérias dentro dos tumores têm no curso da doença.

ALGUMAS PISTAS

Há algumas pistas. Um estudo de 2022 realizado por cientistas na China sugere que algumas bactérias em tumores de mama podem facilitar a disseminação das células cancerígenas para outras partes do corpo.

Os pesquisadores encontraram bactérias que vivem dentro das células tumorais da mama circulando no sangue de camundongos. Essas células se desprendem do tumor primário e podem viajar para outras partes do corpo, desenvolver metástase e crescer.

No entanto, à medida que as células tumorais circulam pela corrente sanguínea, elas são submetidas a um estresse que causa a ruptura de algumas delas.

Os pesquisadores chineses descobriram que os micróbios dentro dessas células tumorais móveis parecem protegê-los de parte do estresse que experimentam. Ao fazer isso, eles ajudam a reorganizar as estruturas internas de suporte celular, conhecidas como citoesqueleto, para tornar as células mais robustas.

Quando os cientistas removeram essas bactérias dos tumores nos camundongos, as lesões pareceram perder a capacidade de metástase, embora o câncer de mama primário continuasse a crescer.

"Existem evidências crescentes de que micróbios específicos no intestino, pele e outros órgãos mucosos, bem como em tumores, podem promover o crescimento e a progressão do tumor ou, alternativamente, antagonizá-lo", diz Douglas Hanahan, médico do Instituto Suíço Experimental para o Câncer em Lausanne, na Suíça.

"Mas é muito complicado. Embora existam pistas, não há clareza definitiva sobre quem faz o quê."

BACTÉRIAS QUE MIGRAM

Outros estudos analisaram uma bactéria oral chamada Fusobacterium nucleatum, que está associada a doenças da gengiva, mas também pode estar ligada a vários tipos de câncer.

Ao que parece, essas bactérias podem migrar da boca para as células de câncer colorretal através da corrente sanguínea.

Cada bactéria carrega partículas específicas em sua superfície que se ligam à superfície das células cancerígenas, permitindo que ela as colonize.

Uma vez estabelecida, a bactéria pode acelerar o crescimento e a disseminação de tumores, dificultando a capacidade do sistema imunológico de matar células cancerígenas.

A bactéria também implanta um arsenal molecular que torna as células cancerígenas mais resistentes à quimioterapia.

Além disso, o DNA da Fusobacterium nucleatum foi encontrado em amostras de câncer de mama humano. Isso sugere que ela também afeta tumores em outras partes do corpo.

Em um estudo, quando a bactéria foi introduzida em camundongos com câncer de mama, ela acelerou a progressão e propagação da doença. Dar antibióticos aos camundongos impediu esse processo.

O RISCO DOS ANTIBIÓTICOS

Pode parecer tentador incluir antibióticos nas terapias contra o câncer, mas não é tão simples assim.

Muitos dos micróbios em nossos corpos são benignos ou mesmo benéficos, então um tratamento com antibióticos pode causar mais mal do que bem, diz Hanahan.

Em vez disso, os pesquisadores devem tentar desvendar toda a complexidade do microbioma associado ao tumor. Comunidades inteiras de micróbios podem ser encontradas dentro de tumores, apoiando-se mutuamente de maneiras inesperadas.

Um desses exemplos gira em torno do principal medicamento usado para tratar pacientes com câncer colorretal, o 5-fluorouracil (5-FU), que parece inibir o crescimento da incômoda Fusobacterium nucleatum.

No entanto, certas cepas de Escherichia coli, bactérias comuns encontradas no intestino, inativam a droga.

Descobriu-se que pelo menos 33 tipos de câncer diferentes têm colônias de bactérias associadas a eles, graças a técnicas desenvolvidas na Universidade da Califórnia em San Diego (EUA), que buscam seu DNA.

Os pesquisadores acreditam que as técnicas também podem ser usadas para desenvolver novas formas de diagnosticar o câncer, procurando o DNA de diferentes bactérias associadas a tumores no sangue de um paciente.

Muitas das bactérias associadas ao câncer colorretal podem trabalhar juntas para piorar a condição do paciente
Muitas das bactérias associadas ao câncer colorretal podem trabalhar juntas para piorar a condição do paciente - Getty Images

A PRESENÇA DE FUNGOS

A equipe por trás deste estudo uniu forças com Ravid Straussman para fazer pesquisas em 2022 que revelaram que outro tipo de micróbio, os fungos, também vive em tumores.

Eles encontraram fungos em 35 tipos de câncer, muitos dos quais abrigam diferentes combinações de espécies.

"Descobrimos que os tumores que têm mais bactérias também têm mais fungos, e aqueles com menos bactérias têm menos fungos", diz Straussman.

"Só podemos assumir neste ponto que alguns tumores são mais restritivos para a presença de micróbios, enquanto outros são mais permissivos", diz ele.

Assim como as bactérias, alguns desses fungos parecem estar manipulando o sistema imunológico a favor do tumor.

Verificou-se que o fungo Malassezia globosa acelera o desenvolvimento de uma forma de câncer pancreático. Os mesmos fungos também foram encontrados em pacientes com câncer de mama que tendem a ter uma sobrevida geral mais curta, de acordo com o trabalho de Straussman e colegas da Universidade da Califórnia em San Diego.

Outra pesquisa descobriu que alguns fungos presentes em tumores pancreáticos sequestram partes do sistema imunológico para promover o crescimento do tumor.

Um estudo de 2022 também mostrou que tumores estomacais ricos em fungos candida mostram expressão aumentada de genes tumorais que promovem inflamação e que tumores de cólon ricos em DNA de Candida têm maior probabilidade de serem metastáticos.

"Isso pode ocorrer porque o aumento do número de Candida pode estar associado à perda da barreira epitelial intestinal [as células que revestem o intestino]", diz Iliyan Iliev, microbiologista da Universidade Cornell, nos EUA, cuja equipe conduziu a pesquisa.

Apesar do ritmo acelerado dessas descobertas, muitas questões permanecem sobre a relação entre os tumores e os micróbios que vivem neles.

Os micróbios desempenham um papel no desenvolvimento do tumor em primeiro lugar? Ou são simplesmente residentes oportunistas que se adaptaram para proteger sua casa cancerosa quando a encontram? Essa comunidade de micróbios pode ser aproveitada para nos ajudar no tratamento contra o câncer?

Nos próximos anos, estudar os micróbios tumorais pode se tornar tão importante quanto ir atrás das próprias células cancerígenas, levando a diagnósticos mais precoces e até a novos tratamentos.

No entanto, esse trabalho está apenas começando.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Future.

Gotinha contra pólio desaparecerá dos postos em 2024, anuncia ministério, FSP

 

SÃO PAULO

O Ministério da Saúde anunciou na manhã desta sexta-feira (7), em reunião conjunta com a SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), a aplicação exclusiva da versão inativada da vacina contra poliomielite a partir do segundo semestre de 2024.

Conforme a Folha antecipou, a pasta vai encerrar a aplicação da vacina poliomielite oral (VOP), a famosa "gotinha", e substituí-la pela vacina inativada poliomielite (VIP), que é injetável e considerada mais segura.

A mudança, entretanto, não vai retirar das campanhas de vacinação a imagem do Zé Gotinha.

Garoto recebe reforço contra a poliomielite no Parque da Juventude, em São Paulo - Luiz Carlos Murauskas - 25.nov.2010/Folhapress

QUAL A DIFERENÇA ENTRE AS VACINAS?

A VOP é composta pelo vírus da pólio vivo e enfraquecido. Sua presença no organismo leva à produção de anticorpos e depois ele é eliminado nas fezes.

Pode ocorrer, no entanto, uma situação rara. Após ser eliminado, o vírus pode sofrer uma mutação no ambiente e tornar-se capaz de adoecer quem não está vacinado.

Já a vacina injetável, conhecida como Salk devido ao nome de seu criador, o médico americano Jonas Salk, é produzida com o vírus inativado e não tem como causar a doença.

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O REFORÇO COM A GOTINHA É SEGURO?

Sim. De acordo com o Ministério, de 764 milhões de doses de VOP aplicadas em crianças de todo país entre 1989 e 2012, ocorreram apenas 50 casos de pólio vacinal.

Além disso, desde 2016, o esquema vacinal das crianças com menos de cinco anos consiste em três doses da vacina de vírus inativado —aos dois, quatro e seis meses—, com reforço com a gotinha aos 15 meses e aos quatro anos de idade. Com a introdução dessa sequência VIP/VOP, não ocorreram mais casos de pólio vacinal no país.

ENTÃO POR QUE TROCAR?

Segundo Antônio Flávio Vitarelli Meirelles, diretor do IFF/Fiocruz (Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira), a medida tem grande importância para pessoas com imunodeficiência severa, zerando qualquer risco de desenvolvimento de paralisia flácida aguda atribuível à VOP.

R$ 150 MILHÕES PARA VACINAÇÃO

Além da substituição do imunizante contra pólio, o Ministério anunciou durante a reunião um repasse de R$ 150 milhões a estados e municípios para que estes identifiquem quais são seus principais gargalos na vacinação.

De acordo com Éder Gatti, diretor do PNI (Programa Nacional de Imunizações), o objetivo é que a verba seja aplicada em mapeamentos locais que gerem dados para nortear o planejamento das campanhas de multivacinação em cada estado.

Os recursos serão disponibilizados em duas parcelas: 60% antes do planejamento e 40% após a execução dos planos de ação.

Entre as medidas recomendadas pelo ministério para aplicação local estão campanhas de comunicação específicas, com personalidades reconhecidas e admiradas em cada região, busca ativa de pacientes e postos de vacinação com horários diferenciados.

A expectativa é de que as medidas sejam adotadas a partir de julho, com um cronograma específico:

UFPeríodo da multivacinação
Amapá15 a 30 de julho
Roraima12 a 26 de agosto
Maranhão12 a 26 de agosto
Pará12 a 26 de agosto
Rio de Janeiro26 de agosto a 9 de setembro
Espírito Santo26 de agosto a 9 de setembro
Distrito Federal26 de agosto a 9 de setembro
São Paulo30 de setembro a 14 de outubro
Mato Grosso9 a 23 de setembro
Mato Grosso do Sul9 a 23 de setembro
Rondônia9 a 23 de setembro
Paraná14 a 28 de outubro
Santa Catarina14 a 28 de outubro
Rio Grande do Sul14 a 28 de outubro
Alagoas23 de setembro a 7 de outubro
Piauí23 de setembro a 7 de outubro
Ceará23 de setembro a 7 de outubro
Paraíba23 de setembro a 7 de outubro
Goiás30 de setembro a 14 de outubro
Tocantins30 de setembro a 14 de outubro
Bahia7 a 21 de outubro
Pernambuco7 a 21 de outubro
Sergipe7 a 21 de outubro
Minas Gerais21 de outubro a 4 de novembro