sexta-feira, 20 de julho de 2018

Negociação fracassada deixa sequelas na campanha de Ciro, FSP

No período de namoro com DEM, PP e companhia, cada passo dado fora da cartilha do liberalismo fazia mais barulho do que o normal. A carta que enviou para sugerir a paralisação das negociações entre a Embraer e a Boeing provocou um estrondo no grupo de partidos que é abertamente pró-privatizações.
No fim das contas, o pedetista perdeu também a direita. Recebeu um veto de economistas de viés liberal, reforçou as antipatias do mercado a sua candidatura e terminou sem o apoio do bloco que daria musculatura política a sua campanha.
 
O deslocamento errático pode ter queimado terrenos que Ciro pretendia percorrer no eleitorado de centro. Ele terá poucas alternativas a não ser recuar à esquerda, ainda que precise enfrentar o congestionamento que será causado pelo futuro apoio de Lula a um candidato do PT.
Bem encaminhada, uma aliança com o PSB daria a Ciro a “hegemonia moral e intelectual” que desejava conferir a sua chapa. Será difícil, porém, fingir que não esteve prestes a assinar uma carta de boas intenções com o DEM e o centrão.

Nova política é ausência gritante nas convenções, FSP (pauta)



Atuação bem-sucedida para arejar práticas e pensamentos não ultrapassa o varejo


Na faculdade de direito da USP, dois professores —um de 59 anos, outro de 75— viam um grupo de alunos estender uma faixa divulgando a “Semana do Lesbianismo”.
“No meu tempo, fazíamos política”, disse o mais velho.
“Fazíamos política partidária”, respondeu o mais novo. “Mas eles também estão fazendo política. Outra política”, ponderou.
Há evidências crescentes, não apenas no Brasil, de que jovens que se interessam por política almejam influenciar o debate e até mesmo assumir cargos públicos, mas estão desistindo de fazer isso pelas vias partidárias.
Cientista política, Ilona Szabó de Carvalho contou uma dessas histórias.
Fundadora de um movimento cujo objetivo é aproximar cidadãos da política e torná-la mais participativa, no final de 2017 discutiu seriamente a possibilidade de se candidatar nestas eleições
Não foi adiante.
Não é impressionismo. Até regras como as que obrigam que 30% das vagas, do dinheiro e do tempo de TV sejam para candidatas mulheres são ignoradas, quando não burladas com candidaturas fantasmas
Como Ilona, toda uma nova geração de políticos —bem formada, crítica e talentosa— atua com sucesso para arejar práticas e pensamentos. 
Mas, por mais bem-sucedida que seja, seu alcance não ultrapassa o varejo.
Na ordem institucional que vigora, é da política partidária que sai quem decide as normas pelas quais o país funciona e, principalmente, como é repartido mais de R$ 1 trilhão de dinheiro público.
A partir desta sexta-feira (20), convenções vão escolher os candidatos a presidente do Brasil. Nelas, o silêncio dessa nova política será o aspecto mais gritante.

Intervenção frustrada, FSP

A menos de seis meses de seu término, operação no Rio de Janeiro não disse a que veio

Militares no complexo do Chapadão, no Rio
Militares no complexo do Chapadão, no Rio - Danilo Verpa - 19.fev.18/Folhapress
Em 21 de fevereiro, o Congresso Nacional aprovou decreto da Presidência da República que determinava a intervenção federal na área de segurança pública do estado do Rio de Janeiro, com prazo estipulado até 31 de dezembro deste ano.
A medida previa que o processo fosse comandado por um general, com apoio das Forças Armadas, em particular do Exército. A decisão do presidente Michel Temer (MDB) surpreendeu setores expressivos da sociedade.
Se eram evidentes os sinais de uma escalada da criminalidade no Rio, em meio a graves restrições orçamentárias, a intervenção surgia de modo repentino, sem prévia discussão e preparativos.
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Difundiu-se de imediato a sensação de que se tratava de um ato que atendia a propósitos políticos.
Enfraquecido por acusações de envolvimento em corrupção, desgastado pelas crescentes dificuldades em aprovar a reforma da Previdência e já sob influência do calendário eleitoral, Temer, de maneira imprudente para um político com sua experiência, declarou numa entrevista à TV que havia realizado uma “jogada de mestre”.
O regime excepcional dava ao governo uma desculpa —esfarrapada, é verdade— para não pôr em votação as mudanças essenciais nas aposentadorias, dado que durante intervenções federais não são autorizadas emendas à Constituição. Ao mesmo tempo, colocava em destaque na agenda do Executivo tema de forte apelo popular. 
Em paralelo, criou-se um ministério para o combate ao crime e, posteriormente, aprovou-se no Congresso a criação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp).
À parte os riscos de envolver as Forças Armadas em ações como essa, que deveriam ficar a cargo das polícias ou, em casos excepcionais, de uma Força Nacional de Segurança Pública ampliada, os resultados até aqui são, para dizer o mínimo, frustrantes. 
A menos de seis meses de seu término, a operação não disse a que veio. Os recursos modestos destinados pelo governo federal ainda não estão disponíveis, os índices de violência permanecem altos, o número de mortes causadas em investidas contra quadrilhas em morros cariocas aumentou.
Avaliação análoga pode ser feita quanto ao ministério e ao Susp. Até o momento pouco ou nada de efetivo foi apresentado à sociedade, além de planos e boas intenções.
Premido pela proximidade das eleições, debilitado no campo político e enfrentando recordes de rejeição, Temer não mostra condições convincentes de mudar esse quadro. A tarefa deve ficar para os próximos governantes, nos âmbitos federal e estadual.