segunda-feira, 9 de março de 2026

Como os prédios de Artacho Jurado se tornaram objetos de culto - Andanças na Metrópole = FSP

 

Durante décadas o arquiteto autodidata e empresário João Artacho Jurado (1907-1983) foi tratado como um sujeito cafona e megalomaníaco pelos colegas de profissão formados na universidade. Suas obras eram consideradas extravagantes, coloridas demais e fora dos padrões do modernismo brutalista que então imperava em São Paulo. Hoje ele é enaltecido e suas construções maximalistas se tornaram objetos de culto e símbolos da cidade.

Essa reviravolta aconteceu porque Artacho se revelou um sujeito à frente do seu tempo. Embora não estivessem alinhadas aos ideais de bom gosto dos arquitetos intelectualizados, suas construções agradavam ao mercado, eram bonitas, funcionais e anteciparam tendências, como a inclusão de espaços de convivência para os moradores, incluindo piscinas, grandes terraços com salões de festas e bar e brinquedotecas. A classe média ficava fascinada.

Corredor do hall de entrada do edifício Bretagne com pilotis revestidos com pastilhas cor-de-rosa - Alberto Rocha/Folhapress

O que se vê hoje é gente passando em frente a um prédio do Artacho suspirando de emoção e deslumbrada com suas fachadas cobertas com pastilhas azuis e cor-de-rosa. Suas obras, como o edifício Viadutos, na praça General Craveiro Lopes, ou o Louvre, na avenida São Luís, rompem com a monotonia da paisagem e remetem a um imaginário cinematográfico hollywoodiano. Hotéis e cassinos norte-americanos eram algumas de suas referências.

Algo que incomodava os detratores de Artacho no passado era sua estratégia comercial eficaz e divertida. Sabia como ninguém unir arte e consumo. Vendia a maior parte dos apartamentos na planta e transformava a inauguração dos prédios em grandes acontecimentos. O que ele fazia era incomum nos anos 1940 e 1950. Com seu marketing agressivo, vinculava suas obras a um estilo de vida sofisticado e cosmopolita, unindo ócio e prazer.

Edifício Viadutos de Artacho Jurado
O edifício Viadutos tem 27 andares, 368 apartamentos, 12 elevadores e um terraço panorâmico - Vicente Vilardaga/Folhapress

Para a inauguração do Bretagne, no bairro Higienópolis, por exemplo, ele contratou o ator Roy Rogers, que interpretava caubóis em filmes e séries de faroeste, e também a miss Estados Unidos Eurlyne Howell. Como de costume, pôs bandas e fanfarras para tocar e também trouxe políticos e celebridades locais. Isso garantia uma grande cobertura da imprensa e valorizava os apartamentos.

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Esse esforço promocional vinha desde a criação da Construtora e Imobiliária Monções, que ele comandava junto com o irmão. Para vender seus imóveis na Cidade Monções, na zona sul, então uma região muito afastada, ele oferecia carros e telefones aos compradores. Antes disso, já havia construído prédios baixos, de dois ou três andares (Tupã e Cláudio) e sobrados na Vila Romana, na zona oeste.

Ao lado da mulher e da filha, o arquiteto corta um bolo no formato do Edifício Viadutos em 1950 - Acervo família Jurado/Divulgação

Descendente de espanhóis, Artacho começou sua carreira na publicidade, desenhando letreiros em neon e estandes de feiras na década de 1930. Entrou na arquitetura por vocação e como não era formado, estava impedido de colocar seu nome como responsável pelas obras, embora concebesse os edifícios, sempre ao som de óperas, desenhasse as plantas e definisse sua estética. Para assinar os projetos e assumir a responsabilidade técnica, trabalhava com arquitetos e engenheiros como Aurélio Marazi, Guido Petrella e João Birman.

Seus projetos se concentram nas cidades de São Paulo e Santos. Na capital ergueu 12 edifícios, 5 deles no bairro Higienópolis: o Piauí, o Cinderela, o Parque das Hortênsias, o Apracs e o Bretagne. Outros três foram construídos na cidade do litoral —entre eles o Nosso Mar e o Enseada. Artacho encerrou as atividades da Monções no final dos anos 1950, devido a sérios problemas financeiros. Nunca teve seu valor arquitetônico reconhecido em vida. Mas hoje os apartamentos que construiu estão entre os mais cobiçados da cidade.

Quem me levará sou eu - Canção de Dominguinhos ‧ 1980

 Amigos a gente encontra

O mundo não é só aquiRepare naquela estradaQue distância nos levará
As coisas que eu tenho aquiNa certa terei por láSegredos de um caminhãoFronteiras por desvendar
Não diga que eu me perdiNão mande me acompanharCidades que eu nunca viSão casas de braços a me agasalhar
Passar como passam os diasSe o calendário acabarEu faço voltar o tempo outra vez, simTudo outra vez a passar
Não diga que eu fiquei sozinhoNão mande alguém me acompanharRepare, a multidão precisaDe alguém mais alto a lhe guiar
Quem me levará sou euQuem regressará sou euNão diga que eu não levo a guiaDe quem souber me amar
Quem me levará sou euQuem regressará sou euNão diga que eu não levo a guiaDe quem souber me amar
Fonte: Musixmatch

Brasil testará sua dependência de fantasmas da China, Marcos de Vasconcelos, FSP (atualíssimo)

Sob o olhar ocidental tradicional, as chamadas cidades fantasma na China, construídas sem habitantes, e suas estradas ligando "nada a lugar nenhum" parecem desperdício, ou, no mínimo, uma maneira artificial de aquecer a economia. Essa visão, no entanto, não impediu que o Brasil se tornasse grande fornecedor de minério de ferro e petróleo para essas construções avançarem.

Em 2025, exportamos cerca de US$ 99 bilhões para a China, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Minério e petróleo equivalem a 40% de tudo o que mandamos para lá.

Navio cargueiro vermelho atracado em porto industrial, com guindastes azuis ao lado carregando ou descarregando. Três rebocadores brancos e vermelhos estão próximos ao navio na água.
Navio carregando minério de ferro do Brasil desembarca no porto de Meizhou Bay, na China - Lin Shanchuan/Xinhua

O governo chinês acaba de apresentar seu novo plano econômico, fixando uma meta de crescimento em torno de 5% ao ano, menor do que a média das décadas anteriores, e defendendo uma mudança de modelo: menos investimento imobiliário e em infraestrutura, focando seus esforços no consumo doméstico, serviços e tecnologia. Em outras palavras, estamos vendo o fim da era das grandes construções chinesas.

A verdade é que as cidades e estradas, antes chamadas de fantasmas, não estão mais tão vazias, nem parecem tão artificiais. A urbanização chinesa saltou de cerca de 36% da população em 2000 para mais de 66% hoje.

Além disso, a população envelheceu rapidamente. Cerca de 23% dos chineses têm mais de 60 anos, enquanto a parcela em idade de trabalhar encolheu para aproximadamente 60% da população. O número de nascimentos caiu para menos de 8 milhões por ano, praticamente metade do registrado menos de uma década atrás.

Uma sociedade urbana e envelhecida precisa de menos cidades novas e consome mais serviços. O governo chinês já enxergou isso e começa o trabalho de longo prazo para mudar o rumo do navio da economia na direção correta.

Vale lembrar que o país também já colocou em prática seu plano de atingir a neutralidade de carbono até 2060, garantindo que o pico de emissões de CO2 seja atingido até 2030. Juntando tudo, nossas exportações de petróleo e de minério de ferro para lá parecem estar vivendo seu último grande suspiro.

Como a China é nosso maior parceiro na balança comercial, o Brasil vai precisar mudar os produtos na prateleira antes de ver o cliente abandonar a loja. Mas é difícil pensar em algo que possa tomar o espaço dedicado a minério e petróleo nos próximos anos.

Ainda pelos dados de 2025, 34,5% das exportações brasileiras para a China foram de soja. Em sua esmagadora maioria, ela é usada para alimentação de frangos e porcos por lá. A carne bovina correspondeu a 8,8% das vendas. Ainda que o agro tenha conseguido aumentar bastante sua fatia nessa balança, não parece um caminho simples dobrar o volume de soja e boi embarcados para o outro lado do mundo.

Durante muito tempo, a relação entre os dois países parecia perfeita. A China precisava construir o futuro e o Brasil fornecia o material para isso. Agora, vamos testar o quanto nossa economia depende da criação das cidades e estradas fantasma da China e do seu consumo de petróleo e derivados. Não preciso nem falar como isso afeta a visão sobre Vale e Petrobras.

A reforma tributária pela qual passamos neste momento prometeu incentivar a indústria, para mudar a nossa sina de só exportar matéria-prima. Nosso maior comprador parece concordar com uma mudança no cardápio.