domingo, 4 de janeiro de 2026

Uma grande democracia europeia dá uma lição sobre liberdade de expressão. Deveríamos prestar atenção, OESP

 Por Fernando Schüler

Atualização: 

Quem me acompanha, por aqui, sabe do meu gosto pelo acontecimento. Pelos fatos, eles mesmos, e o que eles podem nos ensinar. Nossa era é de excesso retórico. Dizem que há perto de 200 zettabytes de informação, rodando o planeta, nesta entrada de 2026, contra pouco mais de um, década e meia atrás. Vem daí a força do acontecimento. Quando Voltaire quis mostrar os males do fanatismo religioso na França, no século XVIII, nada foi tão poderoso quanto mostrar a inocência de Jean Calas, condenado e martirizado pela horda de fanáticos, em Toulouse, por um crime que não havia cometido.

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O Brasil de hoje é seguramente menos dramático do que a França de Voltaire, mas vale o mesmíssimo princípio. Se alguém quiser entender a debacle do nosso estado de direito, observe aquela prisão de meio ano, ou mais, de Filipe Martins, por uma tentativa de fuga que sabidamente não existiu. Se quer saber um pouco sobre a loucura` da censura prévia, pergunte por que Luciano Hang foi censurado por mais de dois anos, ou quem sabe o professor Marcos Cintra ou o PCO. Tente sair, por um momento que seja, do reino da retórica fácil, e pergunte sobre os fatos. Não digo que seja fácil, em especial para os apaixonados. Mas é possível.

Ainda agora tivemos um caso revelador. Foi a negativa da Espanha de extraditar Oswaldo Eustáquio. Para quem não se lembra, Eustáquio é um jornalista paranaense censurado pelo nosso STF, preso e tudo mais, e que se refugiou na Espanha. Seu processo correu, o Brasil gastou um bom dinheiro tentando provar ao Tributal espanhol que ele era um criminoso, mas não conseguiu. Agora, na decisão final, a Espanha diz que parte relevante das posições de Eustáquio estão protegidas “pelo direito fundamental à liberdade de expressão”. Diz também que ele exerce a profissão de jornalista, e que uma extradição representaria um sério risco de que sua situação se “agravasse por causa de suas opiniões políticas”.

Para você

Na prática, o que o Tribunal espanhol está dizendo é que aquele País não criminaliza a opinião política, como o Brasil está fazendo. O problema disso tudo é simples: na Constituição brasileira também não existe “delito de opinião”. E é isto que torna este caso particularmente vergonhoso, para o Brasil. Ao longo dos últimos anos, escutamos que a liberdade de expressão era “uma coisa dos americanos, com sua Primeira Emenda”. Pois bem: não é. A Espanha, um país europeu, é que está nos oferecendo uma lição.

Nas últimas semanas, tenho lido sobre a retomada do “jornalismo investigativo”, ou ao menos do “jornalismo crítico”, no Brasil. Haveria um certo cansaço com a lógica da exceção e do abuso de poder, agora inclusive por questões éticas, e seria a hora de dar um basta e se retomar algum respeito pelo direito e pela ética, no País. Confesso meu ceticismo. Nosso jornalismo silenciou durante anos, em casos como o de Eustáquio. Agora temos que escutar de um alto tribunal espanhol o que não tivemos coragem de dizer a nós mesmos, nos anos recentes. Oxalá, dessa vez, sejamos capazes de prestar alguma atenção.

'Com fascista não se conversa, se debate para desmascarar', diz Jones Manoel, FSP

  

Historiador, escritor e comunicador, Jones Manoel, 35, se tornou um dos principais nomes da extrema esquerda brasileira nas redes sociais ao protagonizar debates que acumulam milhões de visualizações. Pernambucano, nascido e criado no Recife, ele ganhou projeção ao enfrentar, em mesas de discussões transmitidas pelo YouTube, influenciadores e políticos de direita e extrema direita, no formato 1 contra 20.

O modelo consiste em colocar um debatedor sozinho frente a 20 pessoas que questionam ou confrontam sua posição. Os embates renderam repercussão ampla nas redes, com cortes que ultrapassaram dezenas de milhões de visualizações.

A estratégia, segundo ele, foi pensada como forma de furar a bolha e ampliar o alcance de um discurso político mais denso, baseado no marxismo.

O historiador e comunicador Jones Manoel - Rebecca Buzato/Divulgação

Militante comunista há mais de uma década, Jones é crítico da gestão Lula e afirma que a maioria do que se chama hoje de esquerda no Brasil não pode ser classificada como tal. Para ele, a política econômica do atual governo segue uma lógica neoliberal, centrada em austeridade fiscal, parcerias público-privadas e estímulo ao capital privado.

Você esperava que os seus debates iriam viralizar desse jeito?
Sim. Esse formato de debate entre esquerda e direita já é muito consolidado nos Estados Unidos e sempre teve grande audiência. Quando decidi começar a fazer, já esperava uma repercussão alta. No caso do debate com os 20 conservadores, só os cortes nas minhas redes passaram de 120 milhões de visualizações.

Na linguagem clássica do marxismo, a gente tem a distinção entre agitação e propaganda. Passei muitos anos fazendo propaganda, que é basicamente um debate teórico mais complexo, mais denso, que trabalha muito mais numa formação político-ideológica. E a agitação seria um negócio mais rápido, mais superficial, mais para capturar atenção e o senso comum imediato das pessoas. Foi uma tática pensada para furar a bolha.

Qual foi o maior desafio ao debater com tantas pessoas de posições tão diferentes?
Lidar com certos perfis. Havia pessoas [com quem debati] que fizeram carreira defendendo agressores de mulheres, por exemplo. Isso exige muito estômago. Foi preciso controlar o asco, mas cumpri o objetivo do debate.

Se eu não virar presidente, viro comediante.

Jones Manoel

historiador e comunicador

Você acredita que todo diálogo é válido?
Depende do objetivo. Com a extrema direita, não se trata de construir consenso, mas de desmascarar e desmoralizar. Eu jamais teria uma conversa com figuras como [os deputados federais] Nikolas Ferreira [PL-MG] , Carlos Jordy [PL-RJ], Marco Feliciano [PL-SP]. Mas adoraria, por exemplo, fazer um debate com o Nikolas Ferreira para mostrar para a população brasileira, em particular de Minas Gerais, que ele é um grande de um desocupado e inimigo do Brasil.

Como você avalia o avanço do conservadorismo entre os jovens?
As redes sociais não são neutras. A lógica algorítmica favorece conteúdos conservadores e de extrema direita. Um exemplo clássico é o genocídio contra o povo palestino em que se você publica qualquer coisa a favor dos palestinos você recebe punições das redes sociais. As redes como espaço de portabilidade e formação de consciência estimulam conservadorismo e grupos como os red pill [movimento que dissemina ideologias machistas e misóginas].Por outro lado, a esquerda deixou de apresentar um projeto alternativo de país, de mobilizar sonhos e esperança.

A perspectiva de transformação radical do Brasil acabou se adaptando à ordem dominante, ao modelo político e econômico. Isso fez com que ficasse um espaço vago para uma propaganda política e da lógica da extrema direita. Eu acho muito significativo que os maiores partidos ditos de esquerda com representação institucional não têm nenhuma política séria de comunicação. Hoje não existe nenhum youtuber ou comunicador petista que tenha, por exemplo, mais inscritos e mais visualizações do que eu.

Não há provas de ligações do governo Maduro com narcoterroristas. Trata-se de uma disputa geoestratégica. É uma ação imperialista clássica

Jones Manoel

Historiador e comunicador

Você afirma que não há saída possível dentro do capitalismo. Como seria esse rompimento que defende?
Nós defendemos um programa de lutas da classe trabalhadora, com mudanças de curto, médio e longo alcance. Para nós, a ruptura com o capitalismo se dá em três dimensões articuladas: uma atuação voltada a aumentar cada vez mais o nível de organização da classe trabalhadora, a partir de movimentos populares; um processo de luta por reformas estruturais; e nas próprias lutas imediatas por políticas públicas, por conquistas pontuais. A forma como essa transformação vai se dar depende de uma série de contingências históricas.

Críticos associam a ideia de ruptura ao risco de autoritarismo. Que modelo de democracia o senhor defende?
É curioso associar autoritarismo a uma proposta comunista anticapitalista, porque, na história brasileira, os responsáveis pelo autoritarismo foram representantes políticos da classe dominante. Tivemos uma ditadura militar de 21 anos, por exemplo. O modelo de democracia que defendemos é o da democracia dos trabalhadores, em que o poder político emane da maioria cujos interesses estão ligados a quem produz a riqueza. Detalhar previamente toda a institucionalidade é impossível.

Como o senhor avalia a ação dos EUA contra a Venezuela?
Os Estados Unidos não são responsáveis pela democracia, pelos direitos humanos ou pelas liberdades do mundo. Eles se arrogam o papel de polícia global, usando justificativas variadas —antes o comunismo, depois o terrorismo, agora o narcoterrorismo— para intervir. Não há provas de ligações do governo [Nicolás] Maduro com narcoterroristas. Trata-se de uma disputa geoestratégica. É uma ação imperialista clássica.

E o governo Lula, como você avalia?
O grande mérito do Lula é não ser fascista nem genocida. Fora isso, a política econômica é neoliberal, baseada em austeridade fiscal, PPPs [Parcerias Público-Privadas] e estímulo ao capital privado. O programa econômico define tudo e esse não é um programa de esquerda.

Você vê alguma esperança na esquerda para os próximos anos?
Há quadros jovens muito bons, mas ainda não conseguimos colocar um nome claramente identificado com um programa de esquerda para disputar a Presidência. Por isso, defendo a construção de uma alternativa de esquerda radical para 2026.

Gosto de videogame, musculação, artes marciais, pedalar na orla do Recife. O que faz um comunista? O que todo mundo faz.

Jones Manoel

historiador e comunicador

O que achou da condenação de Bolsonaro pelo STF?
Comemorei, mas sem euforia. Ele não foi julgado pelo genocídio da pandemia. Além disso, o STF também deu respaldo a várias medidas neoliberais do governo Bolsonaro. Foi um episódio importante, mas a democracia não está salva. Comemorei, fiz um churrasquinho, tomei uma cervejinha, mas não deixo de ter uma visão crítica.

Como você se tornou comunista?
Virei comunista aos 18 anos, quando já tinha conseguido meu primeiro emprego com carteira assinada. Achei que seria um bom trabalho, mas enfrentei assédio moral e atraso de salário. Nesse período, ouvi pela primeira vez, por meio do meu amigo Júlio César, a explicação sobre o conceito de mais-valia, de Karl Marx. Aquilo fez sentido imediatamente. Ele me indicou um livro, e eu li esse livro de sociologia do ensino médio. A partir daí, passei a me considerar marxista. Antes mesmo de iniciar o curso de história, abri um cursinho popular na minha comunidade, a favela da Borborema [no Recife], junto com meu amigo Júlio César. Isso ocorreu no mesmo período em que eu, Júlio e Felipe Bezerra [outro amigo] fomos aprovados no vestibular.

Nós três nos tornamos os primeiros jovens da história da Borborema a ingressar em uma universidade pública. Foi ali que comecei minha militância política. Ao ingressar na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), procurei uma organização juvenil e conheci a União da Juventude Comunista (UJC).

Você pretende ser candidato?
Existe esse debate. Pode ser à Presidência ou à Câmara dos Deputados. Ainda estamos discutindo internamente no PCBR [Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, sigla que não é reconhecida pelo TSE nem tem direito de participação em eleições] e buscando construir uma unidade da esquerda radical.

Quem é Jones Manoel fora da política?
Sou pernambucano, filho de mãe solo, comecei a trabalhar aos 11 anos, fui o primeiro da família a fazer faculdade. Gosto de videogame, musculação, artes marciais, pedalar na orla do Recife [onde mora]. O que faz um comunista? O que todo mundo faz.

Em 2025, desenvolvi um gosto novo. Todos os meses fui, no mínimo, para algum espetáculo de stand-up comedy. Gosto muito. Inclusive, em algum momento da minha vida, eu quero fazer stand-up também. Se eu não virar presidente, viro comediante.

Uma instituição que se decompõe, Muniz Sodré - FSP

 Ao sancionar o Orçamento de 2026, o presidente da República sanciona também a obscena transição no poder do velho patrimonialismo clientelista para o tribalismo predatório e extrativista das novas gerações, atraídas por Bolsa e fortuna política, agora acoitadas no Parlamento. O império da desfaçatez não comporta uma ética da vergonha na cara: os cortes nas verbas da Capes e do CNPq foram redirecionados para completar os R$ 61,2 bilhões em emendas. Escândalo que passa batido.

Seres vivos e civilizações morrem, assim como os regimes. O mesmo com instituições, incapazes de autorreflexão: elas não pensam, e sim os indivíduos que as compõem. Acontece a formas parlamentares de governo nos regimes democráticos. De um lado, o destino artificial da humanidade, em que estão imbricadas a razão econômica, a digital e a biológica, tornando anacrônico o que não diga respeito ao domínio gestionário das máquinas. De outro, o puro e simples apodrecimento institucional.

Plenário de câmara legislativa com assentos em semicírculo ocupados por parlamentares e pessoas em pé no centro. Painéis eletrônicos exibem informações ao fundo, e mesa diretora está à direita.
Plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, durante sessão de votação - Pedro Ladeira - 18.nov.25/Folhapress

Apodrecer não é figura de retórica, mas a justa medida descritiva de instituições e homens afetados pela impunidade da corrupção nos mecanismos de Estado. Já no século passado, Carl Schmitt enxergava o parlamento como vocacionado para o centro e a corrupção. De direita, com pendor para os extremos, Schmitt tinha insights valiosos, como esse atinente a processos corruptivos. É algo que convoca o instinto ou o faro, elevado a virtude filosófica por Nietzsche: "Sou o primeiro a ter sentido —a ter farejado— a mentira como mentirosa... Todo meu gênio está em minhas narinas..." ("Ecce Homo").

Mas não requer genialidade sentir os miasmas deste século quando, por toda parte, desaparecem as inibições de ordem moral. Trump, presidente da potência apregoada como baluarte da democracia no mundo, assume o discurso cínico da pirataria internacional. A guerra permanece como forma de atualização da força destrutiva necessária à consolidação dos mercados, só que agora apoiada na liberação de "energias infames", ou seja, o racismo, o machismo e a xenofobia de Estado.

Isso que numa dimensão global aponta para novos mecanismos de planetarização do capital, adquire entre nós aspectos peculiares de rebaixamento. A eleição de Bolsonaro deu o tom de ruptura dos limites, com o pano de fundo de uma surdez moral inaudita. Até hoje choca a insensibilidade coletiva diante de um indivíduo que lamentava o fato de a ditadura militar ter torturado em vez de matar 30 mil cidadãos. O mesmo cuja reação à morte de 700 mil brasileiros pela epidemia resumiu-se à frase "não sou coveiro". Os descendentes do público que assistiu "bestializado" à Proclamação da República acrescentaram ao fenômeno político a bestialização moral. Essa é a natureza da crise.

Assim, a Conferência Nacional dos Bispos acaba de condenar a Câmara por "corrupção e perda de decoro". Tornou-se instrumento de abolição dos valores republicanos em benefício de irmãos e parentes. Seu jovem presidente é menino de vó: entre a cruz e a água-benta, diz ter como sol do entendimento a própria avó. Decomposição e dejeção fazendo par, o nariz talvez se ponha ao alcance de todos.