quinta-feira, 16 de julho de 2026

Quantas árvores existem na Terra? Uma análise dos números por trás de nossas florestas. IE

 As árvores são tão comuns que é fácil presumir que ninguém jamais as contou. Surpreendentemente, os cientistas o fizeram. Embora ninguém tenha contado fisicamente cada tronco e galho, pesquisadores combinaram imagens de satélite, inteligência artificial, inventários florestais e mais de 400.000 medições em campo para estimar o número de árvores em nosso planeta.

A resposta? Cerca de 3,04 trilhões de árvores. Aproximadamente 390 árvores para cada pessoa na Terra. Mas isso é só o começo da história. Para entender o que esse número realmente significa, também precisamos analisar onde essas árvores são encontradas, quantas já perdemos e por que proteger as florestas é, muitas vezes, mais importante do que simplesmente plantar novas.

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Como os cientistas contaram os trilhões de árvores?

Durante décadas, as estimativas sugeriam que a Terra continha apenas cerca de 400 bilhões de árvores, porque os cientistas se baseavam principalmente em imagens de satélite que mostravam a cobertura florestal. O problema é que os satélites podem revelar onde as florestas existem, mas não a densidade de crescimento das árvores sob a copa.

Em 2015, uma equipe internacional liderada pelo ecologista Thomas Crowther desenvolveu o primeiro mapa global de densidade de árvores, combinando observações de satélite com centenas de milhares de medições de campo coletadas em todos os continentes, exceto na Antártida. O estudo estimou que a Terra abriga atualmente cerca de 3,04 trilhões de árvores, quase oito vezes mais do que as estimativas anteriores. O trabalho continua sendo uma das avaliações mais abrangentes já realizadas sobre a quantidade de árvores no mundo.

Quais partes da Terra têm o maior número de árvores?

Nem todas as florestas são iguais. Curiosamente, as maiores densidades de árvores ocorrem nas florestas boreais do norte do Canadá, Alasca, Escandinávia e Rússia, onde os climas frios favorecem florestas de coníferas densamente agrupadas.

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No entanto, a maior concentração de árvores encontra-se nas florestas tropicais e subtropicais da América do Sul, África Central e Sudeste Asiático . Juntas, essas regiões abrigam mais de 40% de todas as árvores da Terra, principalmente porque as florestas tropicais cobrem áreas enormes, apesar de apresentarem densidades arbóreas ligeiramente menores do que algumas florestas boreais. A floresta amazônica, por si só, contém centenas de bilhões de árvores, o que a torna um dos ecossistemas florestais mais ricos do planeta.

A Terra já teve quase o dobro de árvores.

Talvez a estatística mais alarmante não seja quantas árvores restam, mas sim quantas desapareceram. Com base em modelos históricos, pesquisadores estimam que a Terra perdeu cerca de 46% de suas árvores desde o início da civilização humana. Agricultura, expansão urbana, exploração madeireira, mineração e desenvolvimento de infraestrutura transformaram vastas paisagens florestais ao longo de milhares de anos.

Ainda hoje, as perdas continuam. Os cientistas estimam que mais de 15 bilhões de árvores são removidas todos os anos, embora a regeneração natural e o reflorestamento compensem parte desse declínio. A tendência geral, no entanto, permanece sendo a de perda florestal a longo prazo, particularmente em regiões tropicais, onde a biodiversidade é maior.

Será que podemos simplesmente plantar árvores suficientes para resolver o problema?

As campanhas de plantio de árvores se tornaram uma das soluções climáticas mais populares do mundo, mas os cientistas alertam cada vez mais que a resposta é mais complexa do que plantar bilhões de mudas. Árvores jovens precisam de décadas para amadurecer, e muitas florestas plantadas são compostas por apenas uma ou duas espécies. Essas plantações geralmente armazenam menos carbono, sustentam menos animais e são menos resistentes à seca, doenças e incêndios florestais do que as florestas naturais.

Os pesquisadores agora enfatizam que a proteção das florestas existentes geralmente proporciona maiores benefícios ambientais do que o seu replantio posterior. As florestas maduras já armazenam enormes quantidades de carbono, regulam as chuvas, preservam a biodiversidade e mantêm os solos saudáveis. Funções que as florestas recém-plantadas podem levar muitas décadas para recuperar, se é que chegam a recuperá-las.

Há espaço para mais árvores?

Embora o reflorestamento global seja uma importante ferramenta climática, cientistas afirmam que ele não substitui a redução das emissões de gases de efeito estufa. Um estudo recente estimou que compensar o carbono contido nas reservas de combustíveis fósseis das maiores empresas de petróleo, gás e carvão do mundo apenas com o plantio de árvores exigiria uma área aproximadamente do tamanho da América do Norte e Central juntas. Uma solução inviável nessa escala.

Em vez disso, os ecologistas defendem cada vez mais a restauração de florestas nativas em áreas que historicamente as sustentavam. As espécies arbóreas nativas geralmente são mais bem adaptadas aos climas locais, sustentam muito mais vida selvagem e criam ecossistemas mais saudáveis ​​e resilientes do que grandes plantações de monocultura. Em muitos casos, proteger florestas maduras já existentes pode proporcionar maiores benefícios climáticos e de biodiversidade do que substituí-las por árvores recém-plantadas décadas depois.

Um número que ainda está mudando.

A cifra de 3,04 trilhões de árvores deve ser vista como a melhor estimativa científica, e não como uma contagem definitiva. As florestas estão em constante mudança, à medida que as árvores crescem, morrem, se regeneram ou são desmatadas para atividades humanas. Novas missões de satélite e técnicas de mapeamento cada vez mais sofisticadas continuam a aprimorar a compreensão dos cientistas sobre as florestas globais a cada ano.

Talvez a conclusão mais notável não seja o número em si, mas a escala do impacto da humanidade. Mesmo com trilhões de árvores ainda de pé, quase metade da cobertura florestal original da Terra já desapareceu. Preservar as florestas remanescentes e restaurar as que foram degradadas pode, em última análise, revelar-se muito mais valioso do que simplesmente perseguir metas cada vez maiores de plantio de árvores.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Os Bilionários Não Pagam Imposto de Renda e Nós Vamos Acabar Com Isso - Leonardo Neiva - GAMA


Já faz algum tempo que taxar os ultrarricos se tornou uma grande pauta econômica e social no mundo todo. E o economista francês Gabriel Zucman é uma das principais vozes que se levantam em defesa dessa bandeira. Professor da Escola de Economia de Paris e da Escola Normal Superior, além de diretor do Observatório Fiscal Internacional (ITO), ele está hoje entre os maiores especialistas quando o assunto é tributação e desigualdade. E acaba de lançar no Brasil sua principal obra em defesa do tema: “Os Bilionários Não Pagam Imposto de Renda e Nós Vamos Acabar Com Isso” (Zahar, 2026, trad. Jorge Bastos), que traz ainda um texto de apresentação do sociólogo Marcelo Medeiros e um prefácio especial do autor.

O fato é que, no Brasil e em praticamente qualquer outro país, os bilionários pagam pouco ou quase nenhum imposto de renda na comparação com os meros mortais. Entre os motivos para que essa lógica da desigualdade siga se perpetuando, costumam se repetir à exaustão argumentos como o de que essa taxação iria coibir o crescimento econômico, os investimentos, a geração de empregos, e por aí vai. Mas, neste livro curto e de grande poder informativo, Zucman os desmonta um a um.

Além de expor com rigor e clareza a necessidade urgente de taxar os ultrarricos, ele sintetiza em poucas páginas anos de pesquisa sobre desigualdade, evasão fiscal e tributação das grandes riquezas. E, embora aborde o caso específico da França, mostra que boa parte dessa realidade ecoa como um padrão global — o que se comprova, inclusive, pelos dados disponíveis sobre o assunto aqui no Brasil. Assim, criar um imposto mínimo de 2% sobre os ultrarricos, principal linha de ação apontada pelo economista, surge como uma alternativa cuidadosamente calculada para reduzir ao menos um pouco a defasagem entre os sistemas tributários e o crescimento desenfreado das riquezas contemporâneas.


Por quinze anos cartografei as grandes fortunas mundiais, focado em suas técnicas para driblar o imposto em paraísos fiscais, de Luxemburgo às Ilhas Virgens britânicas.

Aos 21 anos de idade eu já esmiuçava arquivos de bancos suíços, mergulhado em balanços de caixa de diversos países, com o seguinte intuito: quantificar o montante dos bens dissimulados nos centros financeiros offshore e compreender melhor essa grande evasão por tanto tempo abstrata, mas que acabou, com os Panama Papers, por virar manchete de jornal, na metade dos anos 2010.

Em seguida, me voltei para as empresas multinacionais, interessado nas suas complicadíssimas contabilidades, com técnicas que fazem lucros obtidos na França ou na Alemanha irem parar na Irlanda ou nas Bermudas, para escapar do imposto.

Essa evasão fiscal internacional teve um papel considerável no crescimento das desigualdades, no aumento das dívidas públicas e, mais ainda, no triunfo de uma sensação de impotência, terreno em que prosperaram os movimentos reacionários contemporâneos.

Essa evasão fiscal internacional teve um papel considerável no crescimento das desigualdades, no aumento das dívidas públicas e, mais ainda, no triunfo de uma sensação de impotência

Mas não é na Suíça, nas ilhas Cayman ou na Irlanda que o essencial se passa. Não é em esquemas absconsos ou em territórios exóticos que se desmancham nossos princípios fundamentais de justiça. É aqui mesmo na França, sob os nossos olhos, numa evasão das mais simples e frequentemente legal, mas com efeitos estarrecedores: os ultrarricos não pagam, ou quase não pagam, imposto de renda.

Note-se bem: se todos os nossos bilionários se mudassem amanhã para as ilhas Cayman, a perda de receitas fiscais para o tesouro público francês seria ínfima, cerca de 0,03%. A principal razão para isso é que eles já recebem quase todas as suas rendas através de holdings, situadas em geral aqui mesmo em nosso território, que servem de anteparo contra o imposto — as rendas que nelas se acumulam não são tributadas. São rendas, no entanto, bem reais e de forma alguma “truncadas”: podem ser usadas para reinvestir, para comprar jornais, imóveis ou serem usadas em filantropia — qualquer coisa, enfim, a tal nível de fortuna.

Já é hora de complementar a criação do imposto de renda, imenso progresso democrático do início do século XX, incluindo nele os bilionários que, na verdade, sempre se excluíram. Concluir essa revolução é essencial para a aplicação dos nossos princípios fundamentais de igualdade diante do imposto, inscritos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789. É esse o sentido do imposto mínimo para ultrarricos que eu defendo. Um combate que se deve travar, apesar das dificuldades. Precisei de muitos anos para entender isso, mas vou explicar aqui, com todo rigor e clareza.

Já é hora de complementar a criação do imposto de renda, imenso progresso democrático do início do século XX, incluindo nele os bilionários que, na verdade, sempre se excluíram

Dissipar a opacidade: um projeto de pesquisa internacional

De certa maneira, não surpreende que as escassas contribuições dos bilionários junto ao Tesouro Público tenham levado tanto tempo para se mostrarem com nitidez. É verdade, nossos órgãos estatísticos não falam sobre as fortunas muito grandes. São revistas como a Challenges, na França, e a Forbes, nos Estados Unidos, que preenchem esse vazio. Coletando informações acessíveis ao público — balanços de empresas registradas nas juntas de comércio ou declarações às autoridades dos mercados financeiros — esses veículos se esforçam em estimar o patrimônio dos bilionários. Mas nada dizem quanto aos impostos pagos, que igualmente não transparecem na esfera pública.

Apenas na virada dos anos 2020 essa opacidade começou a se dissipar, graças a um trabalho coletivo de pesquisa universitária. Com Emmanuel Saez, num estudo publicado em 2019, propusemos uma primeira estimativa referente às taxas efetivas de impostos que incidem sobre bilionários estadunidenses. Nossa abordagem era aproximativa, dada a fragmentação dos dados disponíveis à época, mesmo que os resultados obtidos tenham se confirmado em seguida. Essa tentativa pioneira, contudo, motivou outros pesquisadores na França, no Brasil, nos países escandinavos, na Itália. Em todos esses casos, graças a uma evolução determinante: a possibilidade de acesso a dados das administrações fiscais, o graal que permite calcular o verdadeiro rendimento dos bilionários e suas reais contribuições junto às finanças públicas, ligando as grandes fortunas às empresas de que eles são donos e nas quais os seus impostos se evaporam.

O truque bilionário da herdeira de Bill Gates, The News

 

(Imagem: New York Times | Reprodução)

Filho de peixe, peixinho é… Mas, no caso de Phoebe Gates, filha de 23 anos do fundador da Microsoft, a entrada no mundo tech veio acompanhada de uma polêmica no Vale do Silício.

A jovem fundou a Phia, uma AI de compra de roupas que se integra a navegadores — como Chrome e Safari — para comparar preços e encontrar ofertas em dezenas de sites de varejo e revenda. Como um skyscanner do mundo da moda.

Acontece que a startup foi parar nas manchetes depois de ser flagrada inflando artificialmente seus números e reivindicando crédito por vendas online que nunca aconteceram.

O esquema envolvia uma prática proibida no mercado, conhecida como cookie stuffing:

  • Funcionava basicamente como um clique fantasma. Quando você ia finalizar uma compra no celular, a extensão abria uma aba em segundo plano que logo sumia.

  • Essa aba colocava o link da Phia como se ela tivesse te levado até a loja. Com isso, a startup "roubava" os créditos de outros sites e ganhava comissões de marcas como Walmart, Nike e Zara por vendas que aconteceriam de qualquer jeito.

Após ser notificada pelas investigações, a empresa reconheceu o problema técnico em seu código-fonte — que operava de forma silenciosa desde dezembro — e afirmou que a falha já foi corrigida.

Zoom out: Mesmo com o escândalo, não parece preocupar. O app já foi baixado mais de 1,2 milhão de vezes e captou US$ 43,5 milhões de grandes fundos de investimento e celebridades. Hoje, está avaliado em cerca de US$ 185 milhões.