quarta-feira, 15 de julho de 2026

Um show coletivo da Espanha - Tostão ,FSP

 A Espanha está na final. A equipe anulou o poderoso time francês por meio da posse de bola e da troca de passes, como costuma fazer. Mais que isso. Quando não tinha a bola, se posicionava muito bem, alternando a pressão para recuperá-la rapidamente, com a marcação mais recuada para fechar os espaços.

A França não teve uma única clara chance de gol. A Espanha fez dois gols: um de pênalti, outro após uma bela troca de passes. E teve oportunidades para fazer o terceiro gol. Foi uma aula, um show coletivo, com ótimas atuações individuais, especialmente do meio-campista Rodri. A França decepcionou mais pela atuação coletiva da Espanha do que pela falta de inspiração de seus craques.

Rodri é o pêndulo, elo entre o meio-campo e o ataque. Ele se movimenta de um lado a outro da própria intermediária e inicia as jogadas com um ou dois toques na bola e passes precisos. Raramente erra um passe, pois não tenta o passe impossível. Quando é necessário, dá excelentes passes longos, de um lado para o outro ou para a frente. Craque não é só quem faz muitos gols.

Além de Rodri, a Espanha tem dois excepcionais meio-campistas: Fabián Ruiz, que iniciou o jogo, e Pedri, que entrou no segundo tempo. Isso é uma das principais deficiências da seleção brasileira, não ter um grande craque no meio-campo.

A derrota da França não diminui a qualidade de seus jogadores ou da equipe. A multicultural França passou a ter grandes jogadores por causa das escolinhas nas periferias, com a presença de um grande número de imigrantes e pela eficiência do projeto esportivo do Centro Nacional de Futebol, em Clairefontaine. O excepcional futebol francês não existe por acaso.

A Espanha vai enfrentar na final o vencedor entre Inglaterra e Argentina. As duas seleções não tiveram grandes atuações, mas, graças aos craques, à força coletiva, à capacidade de superar as dificuldades e ao acaso, são candidatas ao título. Não há favorito. São equipes diferentes no desenho tático e na estratégia.

A Inglaterra joga com quatro defensores, dois meio-campistas, um meia-atacante centralizado (Bellingham), dois pontas rápidos e dribladores e um centroavante (Kane), que se movimenta por todo o ataque. Já a Argentina atua com quatro defensores, quatro no meio-campo e dois atacantes pelo centro (Messi e Álvarez), sem pontas.

Enquanto a Argentina preenche mais o meio-campo para trocar passes e ficar com a bola, uma estratégia parecida com a da Espanha, até Messi recebê-la para acelerar em direção ao gol, a Inglaterra prioriza as transições rápidas e os lançamentos longos.

Por causa da enorme rivalidade, da Guerra das Malvinas e de jogos históricos —como no Mundial de 1986, quando Maradona fez dois gols inesquecíveis, um driblando vários adversários, até o goleiro, e outro com a malandragem de usar a mão—, os argentinos esperam uma grande vitória e uma excepcional atuação de Messi para homenagear Maradona. As comparações entre os dois fenômenos serão ainda mais frequentes.

Messi, por ter uma longa, espetacular e regular carreira, é mais craque. Mas os momentos deslumbrantes de Maradona são mais empolgantes e artísticos que os maiores de Messi. O craque atual representa a realidade, a razão, o máximo possível de ser feito, enquanto o grande Maradona simboliza a paixão, o tango, o trágico e o sonho impossível.

Muitos argentinos gostam mais de Maradona porque ele representaria a ambição, a inconsistência, a esperteza e a loucura humana.

A política da motivação contra a economia da atenção, Rui Tavares, FSP

 A primeira coisa que é preciso fazer quando queremos conversar com alguém é atrair a sua atenção. Isso é verdade, mas é curto. Se você quiser que a pessoa continue a conversa, então é preciso algo mais: motivação.

Esta é a explicação simples de por que é que —a meu ver— estamos todos errados na maneira como vemos a comunicação política hoje em dia. A economia da atenção sempre foi importante, mas nos últimos anos a emergência e consolidação das redes sociais fizeram dela o modo dominante, e por vezes quase único, de entender a interseção entre comunicação e política. Nas redes sociais, os textos tendem a ser curtos, os vídeos mais curtos ainda, e o nosso cérebro está habituado a doses constantes de pequenos estímulos para nos manter atentos.

A ascensão dos populistas e demagogos na política internacional, em particular a partir de 2016, com a vitória do Brexit e a primeira eleição de Trump, deu à política baseada na economia da atenção a chancela do sucesso. Passou a ser irrelevante saber se a proposta faz sentido ou não. A única coisa que verdadeiramente conta é quantos cliques, likes e visualizações ela teve.

Imagens geradas por inteligência artificial publicadas em perfis pró-Trump nas redes sociais - Chris Delmas - 7.mai.26/AFP

Isso fez com que mesmo os disparates mais absurdos e os erros mais trágicos pudessem sempre ser desculpados com recurso a essas métricas, e tudo o resto minimizado. O candidato pode ser um idiota e o presidente comportar-se de uma maneira grotesca —desde que tenha talento para captar e manter a atenção de milhões de pessoas.

Mas será que, dez anos depois, não há uma alternativa? Eu creio que ela sempre esteve debaixo do nosso nariz.

Em primeiro lugar, o uso da economia da atenção na comunicação política não é uma estratégia. É uma tática. As duas são frequentemente confundidas, mas não servem para a mesma coisa. A tática é de curto prazo e esgota-se quando não está enquadrada por uma estratégia.

Em segundo lugar, o uso levou ao abuso, e o abuso traz retornos decrescentes. Os políticos da "economia da atenção" são obrigados a ser cada vez mais grotescos e a captar cada vez menos atenção. Se há verdade constante sobre a humanidade, é que os humanos se aborrecem. E também se aborrecem com quem lhes chama constantemente a atenção sem dar nada em troca.

Em terceiro lugar, até a nossa atenção está mais fragmentada do que antes. Tem menos duração, é preservada menos tempo, e dificilmente partilhável num contexto interpessoal que não seja mediado pelos aplicativos. Há um meme ou outro mais memorável e comunicável. O resto é ruído de fundo.

Mas e então? Isso significa que um político já não é obrigado a aparecer o tempo todo, fazer figuras ridículas, manter toda a gente num estado de irritação constante? Eu acredito que é possível fazer de outra maneira. Mas, acima de tudo, acredito que aquilo de que precisam os políticos democratas e progressistas é um tipo diferente de atenção. Uma atenção mais prolongada no tempo, mais construtiva e com mais retorno: motivação. E isso só se consegue com propostas boas e que façam sentido.

Deixem o pessoal distrair-se com memes. Voltarão, ano após ano, desde que lhes saibamos dar motivos para isso. No longo prazo, a política da motivação pode derrotar a economia da atenção.