segunda-feira, 13 de julho de 2026

Ruge um tigre de papel - Muniz Sodré - FSP

 Fato patibular não é só que os colombianos tenham elegido um presidente de extrema direita, mas que Abelardo de la Espriella seja um outsider da política e da realidade do país, terceira economia sul-americana, fornecedor de dois terços da cocaína consumida no mundo. Advogado, empresário, milionário, com dupla nacionalidade (colombiana e americana), residente entre Florença e Miami, em meio a rumores de ligação com a CIA, ele atraiu multidões a seus comícios com camisa amarela da seleção, rugindo como um tigre. Citando Trump, Bukele e Milei para garantir que pode administrar o Estado como uma empresa, diz que, em seu governo, "bandido que não se submeter será abatido".

De empresa e bandidagem, "O Tigre", como se intitula, sabe muito. Defendendo com sucesso nos tribunais astros de futebol paramilitares, narcotraficantes e políticos corruptos, ele acumulou fortuna suficiente para abrir a loja "De la Espriella Style", onde comercializa marcas próprias, desde rum e vinho até camisas e lenços de seda para "defensores da pátria". Aos criminosos comuns, acena com medidas duríssimas: prisioneiros confinados em megapresídios de dez andares abaixo da terra e alimentados "a pão e água". Antes, tinha prometido "estripar a esquerda".

Homem de cabelo curto e barba faz saudação com a mão direita na testa. Ele veste camiseta amarela com detalhes vermelhos e escudo no peito, com a frase 'FIRME PELA PÁTRIA'. O funda é escuro.
O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, durante encontro com apoiadores em Barranquilla - Juan Barreto - 22.jun.26/AFP

Venceu por um ponto de diferença. Para entender o fenômeno, é preciso considerar o cansaço dos colombianos com a progressão da violência e do crime organizado. Levaram a sério o rugido de Espriella, enquanto outros ouviam apenas miado de gato. Daí a oportuna distinção entre povo republicano e massa, numa escala de conscientização civil que pode decrescer até a estupidez terminal. Índice máximo da pior forma de iletramento, segundo Bertolt Brecht: o analfabetismo político. E, no entanto, são bons, comparados à média sul-americana, os índices de leitura livresca na Colômbia.

Mas não tem a ver com leitura. Há elementos no avanço internacional da ultradireita que reescrevem o mito fascista do "homem novo" na forma do outsider da política, assim como o estupor estático diante de líderes carismáticos por admiração a personagens com discursos esdrúxulos. Não mais ritos de união mística do chefe com a multidão nem dramatizações simbólicas de unidade nacional por meio da liderança. O mote direitista de regeneração da política não resiste à degeneração de caráter dos militantes.

A nova massa se reconhece na videogenia de aplicativos como Instagram e TikTok, adequada a caricatos fac-símiles humanos tipo Trump, Milei, Bukele, Bolsonaro. Um reencena Nero como imperador do mundo; outro é cantor de rock, assessorado por cachorros mortos; outro, presidente de presídios, após acordos secretos com as facções; aquele outro, já encarcerado, era bufão do golpismo permanente. Na Colômbia, um showman no papel de tigre.

A escola americana de espiões, Helio Schwartsman, FSP

 

São Paulo

"The American School of Spies", de Stephan Talty, tem algo de Indiana Jones. Não costumamos pensar a Grécia como um dos principais teatros de operações da Segunda Guerra Mundial, mas a ocupação nazista ali foi brutal. Estima-se que 5% da população grega tenha perecido direta ou indiretamente no conflito.

Os americanos despacharam dois grupos de agentes para terras helênicas. O primeiro era composto por voluntários greco-americanos, que dominavam o idioma e se passavam por locais. Seu objetivo era reunir informações sobre tropas alemãs e juntar-se à Resistência Grega em missões de sabotagem, coordenando tudo com as forças regulares dos aliados.

O segundo grupo, apelidado de Divisão Grega, era formado por arqueólogos, classicistas e epigrafistas. Eles eram liderados por Rodney Young, sob comando do general William J. Donovan, o primeiro chefe do OSS, a agência precursora da CIA. Young era um arqueólogo de família riquíssima e cultivada, terceira geração de Princeton. O grupo que ele reuniu tinha perfil semelhante. Eram em sua maioria homens, Wasps, ricos e eruditos. Um deles está entre os últimos pós-graduandos de Harvard a ter entregado sua dissertação em latim.

Homem com chapéu e jaqueta escreve em caderno próximo a artefatos gregos antigos, incluindo vaso, busto e relevo. Ao fundo, dois soldados nazistas conversam diante de bandeira com suástica e o Partenon no topo da colina.
Ilustração de Annette Schwartsman para a coluna de Hélio Schwartsman - Annette Schwartsman

A missão do grupo era ajudar os gregos a salvar seu patrimônio arqueológico das garras dos nazistas. Os próprios argivos iniciaram esse processo antes da invasão, enterrando os tesouros em locais secretos. Mas era preciso mantê-los escondidos e tentar preservar o que não fora enterrado. Os nazistas saquearam a Europa inteira, mas as peças gregas corriam risco especial, já que pelas ideias delirantes de Himmler, os aqueus eram originalmente arianos, de modo que seus sucessores legítimos seriam os alemães.

Talty se concentra em contar as histórias desses dois grupos, mas deixa escapar algumas reflexões mais gerais. É lícito disfarçar agentes secretos de acadêmicos? O antropólogo americano Franz Boas, comentando um caso da Primeira Guerra Mundial, sustentava que não e acusou seu próprio país de "prostituir a ciência" ao fazê-lo.

O dia do futebol arte - PVC FSP

 A CBF divulgou vídeo institucional que começa com um ato falho impressionante para quem usa estratégia de comunicação: "Eu sei o que vocês estão sentindo". Para quem pensou em criar conexão com a torcida, o pronome escolhido não poderia ser pior. A confederação poderia, pelo menos, incluir-se no sentimento geral da nação.

O objetivo da peça publicitária, além de dar satisfação aos patrocinadores, foi anunciar que o próximo ciclo terá mais estabilidade e organização.

Já se tratou das razões da pior campanha do Brasil em Copas nos últimos 60 anos. Parte do roteiro é a troca incessante de técnicos, cinco em quatro anos e meio, presidentes, três em cinco anos, e de jogadores, 95 depois da derrota para a Croácia no Qatar 2022.

Não é só isso.

Os desmandos podem até explicar, mas não justificam a semana que se seguiu à eliminação contra a Noruega.

Carlo Ancelotti foi para sua casa, em Vancouver, no Canadá, em vez de voltar com o grupo ao Rio de Janeiro, onde poderia conceder uma entrevista coletiva em que explicasse o fracasso e projetasse o sucesso nos próximos quatro anos.

Vinicius Junior alugou uma mansão em Ibiza.

Neymar foi para Las Vegas, para jogar pôquer e mostrar ao mundo seu compromisso com uma casa de apostas do baralho, da qual é embaixador cultural, seja lá o que signifique isso quando o assunto é fazer um royal straight flush.

Assim como Neymar, a CBF fez um gol contra. A metáfora é bem mais fácil de compreender do que se alguém dissesse que o ex-craque brasileiro fez um high card, o que quase só ele sabe o que significa, embaixador da nossa tristeza.

A campanha do novo ciclo, o da recuperação do futebol brasileiro, precisa começar pelo respeito ao nosso sentimento. Foi até surpreendente o envolvimento das grandes cidades do Brasil quando a Copa do Mundo se iniciou. Para quem passou a última década ouvindo que ninguém mais liga para a seleção, o país se vestiu de amarelo, e não foi por política, mas por paixão.

Ninguém, num país de 210 milhões de habitantes, é gente demais. Talvez essa frase feita, esse clichê que se criou, de que a seleção já não nos comove, seja verdade na Faria Lima, em São Paulo, ou na Dias Ferreira, no Leblon, mas é difícil estender essa suposta ausência de sentimento e pensar que isso existe do Monte Roraima ao Chuí, norte a sul do Brasil.

A CBF já fez o diagnóstico de que muita gente está interessada na seleção. E, no entanto, comete o ato falho: "Eu sei o que vocês estão sentindo". E você, querido dirigente, não está sentindo nada?

Voltar a ser campeão mundial passa por recuperar a identidade de jogo. A coincidência da data, 5 de julho, da eliminação para a Noruega e da queda no Sarriá, em 1982, poderia nos fazer pensar em por que a seleção não se apresenta ao mundo como Brasil, mas como um time qualquer, que poderia vestir qualquer camisa. O estilo apresentado na Copa poderia ser o da Croácia, do Peru, do Paraguai, da Noruega até.

No dia 5 de julho começa o novo ciclo para sermos "ainda mais fortes", diz a CBF. Ainda mais do que quando? Do que fomos em 1970 ou em 2002? A data poderia ser apresentada como o Dia Mundial do Futebol Arte.

Isso, sim, ajudaria a redesenhar o ciclo para chegar a 2030 como Brasil. Todos nós.