quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Viagem protocolar de Lula à Europa vira triunfo diplomático inesperado, Mathias Alencastro, FSP

 É o pão de cada dia da social-democracia. A convite da Fundação Friedrich Ebert, associada ao SPD, partido alemão de centro-esquerda, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os dirigentes da Fundação Perseu Abramo viajaram à Europa.

Reuniram-se em Berlim com o presidente da instituição, Martin Schulz, conhecido por seu engajamento ao lado do brasileiro, e em Bruxelas com o bloco de partidos da centro-esquerda no Parlamento Europeu, historicamente atento à América Latina. Na França, Lula regressou à Sciences Po, onde recebeu o título de honoris causa dez anos atrás, e encontrou-se com Anne Hidalgo, prefeita de Paris e presidenciável do agora nanico Partido Socialista, outro parceiro histórico do PT no continente.

Até aí, nada de surpreendente na agenda do ex-presidente, que frequenta os círculos políticos europeus desde os anos 1980, quando disputava a atenção das lideranças com outro sindicalista, o polonês Lech Walesa.

O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é recebido pelo presidente francês, Emmanuel Macron, no Palácio do Eliseu nesta quarta - Lula no Facebook

As agendas mais políticas, como o encontro com o discreto Olaf Scholz, líder da SPD e primeiro-ministro designado da Alemanha, e a audiência com Pedro Sánchez, premiê e líder dos socialistas na Espanha, também são esperadas para o ex-chefe do Executivo de uma potência média e líder do maior partido social-democrata do Sul Global, junto com o Congresso Nacional Africano, da África do Sul.

Mas, nesta quarta-feira (17) de manhã, o presidente francês Emmanuel Macron transformou a viagem protocolar em triunfo diplomático. Recebido com protocolos arrojados incomuns para uma visita não oficial, Lula chegou ao Palácio do Eliseu para uma conversa de 30 minutos que se estendeu por mais de uma hora.

Fonte da Presidência francesa explicou que "Macron considerou Lula uma personalidade com a qual era pertinente ele se encontrar". Na cuidada linguagem macronista, o "pertinente" é a palavra-chave.

O francês é um globalista solitário, que se elegeu prometendo colocar o país no centro da arena internacional, mas teve de aprender a conviver com lideranças em declínio, como Angela Merkel, ou em estado de transe permanente, caso de Donald Trump.

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Principal formulador do megapacote de investimentos verdes na África do Sul anunciado durante a recém-encerrada COP26, Macron quer usar a política ambiental para unir em torno do projeto europeu um novo bloco de países do sul. Potência amazônica, democracia em reconstrução e liderança regional, o Brasil idealizado por Lula na Sciences Po, onde Macron estudou, seria uma peça-chave na estratégia internacional de um eventual segundo mandato do presidente francês.

A proximidade com Lula também ajuda o europeu em suas ambições eleitorais. O petista goza de prestígio considerável entre o eleitor francês de esquerda, que Macron precisa a todo custo mobilizar para fugir da armadilha da abstenção em um provável segundo turno contra um candidato de extrema direita nas presidenciais de 2022.

A aura do ex-presidente brasileiro aproxima o mandatário dos apoiadores de Hidalgo e do esquerdista Jean-Luc Mélenchon, do mesmo jeito que Barack Obama —ex-presidente de quem Macron se aproximou na campanha de 2017— o ajudou a consolidar as suas credenciais entre os eleitores centristas.

Todos esses fatores estimularam Macron a enforcar o protocolo diplomático, mas nada contribuiu mais para o encontro desta quarta do que o vandalismo diplomático de Jair Bolsonaro. Foi o presidente brasileiro que, em 2019, trocou uma audiência com o poderoso chanceler francês por uma ida ao cabeleireiro e enterrou o acordo entre a União Europeia e o Mercosul.

Nos meses seguintes, as piadas homofóbicas de seus apoiadores sobre Macron respingaram nas redes sociais europeias, e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, aproveitou os protestos dos coletes amarelos para chamar o francês de idiota.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, foi ainda mais longe e agrediu com insultos misóginos a primeira-dama Brigitte Macron. A vingança é um prato que se come frio, de preferência acompanhado por um bom vinho francês.

No final das contas, o contraste entre o triunfo diplomático de Lula no espaço franco-alemão e a viagem oficial de Bolsonaro a países árabes não poderia ser mais gritante.

Na indiferença da humanidade, Bolsonaro e Guedes passaram os últimos dias discutindo nióbio e grafeno em palácios conhecidos por abrigar autocratas decadentes e membros de honra da lista dos Paradise Papers. Para os investidores, a mensagem é clara: o Brasil entra no ano eleitoral em uma situação de Presidência bicéfala, em que um candidato dialoga com o mundo enquanto o presidente delira no deserto.

Antonio Delfim Netto - Oportunismo metafísico, FSP

 O clima de polarização parece ter chegado de vez à seara econômica, o que não é um bom prenúncio para os meses vindouros. A qualidade do debate sobre temas importantes —e, consequentemente, sobre as formulações dos caminhos para o Brasil— fica prejudicada quando se perde a objetividade necessária.

A capacidade de o país manter a responsabilidade e a organização fiscal, nossa vulnerabilidade há de muito, volta a ser questionada a partir da infeliz proposta da PEC dos Precatórios.

Além de elevar a insegurança jurídica ao deixar de pagar dívidas que já transitaram em julgado, altera o indexador do teto de gastos de maneira casuística e eleitoreira para acomodar oportunisticamente despesas sob o véu da necessária expansão da rede de proteção social aos mais pobres (que seria factível sem que houvesse a violação das regras fiscais, como já mostraram inúmeras propostas de qualidade superior).

Charge do ilustrador Nico sobre rompimento do teto de gastos pelo governo federal - Nico

É falso, contudo, que o Brasil esteja à beira do abismo fiscal —assim como é falsa a relegação da importância do teto a uma mera entidade metafísica. A trajetória do gasto primário como proporção do PIB continua declinante, e, mesmo depois de ter gastado muito em termos absolutos e relativos, o Brasil conseguiu "segurar" e reverter a dinâmica de dispêndio imposta pela pandemia.

Por outro lado, o estrago causado pela opção (e a forma) de "furar" o teto está relacionado à significância de violar-se a credibilidade de nossa âncora fiscal como elo com um futuro fiscalmente sustentável.
Não é sobre os montantes envolvidos. A dinâmica da dívida pública é endógena e prospectiva, aspectos cruciais que frequentemente passam ao largo deste debate.

Ao reajambrar o teto dessa forma, neste momento, com as motivações implícitas e sem necessidade, corrói-se o mecanismo de coordenação através do qual o Estado brasileiro prometia, a partir da contenção do ritmo de crescimento dos gastos públicos, ser fiscalmente responsável. Isso tem reflexo nos preços, inclusive em parte dos que determinam a trajetória futura do endividamento público.

Pode-se discutir se o teto era o melhor instrumento para atingir tais objetivos, e o Brasil já não escapará de retomar o debate, que se espera seja racional, sobre a reorganização da miríade de regras fiscais vigentes em um arcabouço factível e crível em termos de regras, práticas e gestão orçamentária. Mas isso não altera o ponto central sobre o que representa a alteração hoje sobre a mesa. O resto é chantili.

Lamento profundamente a partida precoce de Cristiana Lôbo. Fará muita falta. Minha solidariedade à família e aos amigos.


Hélio Schwartsman - Covid-19 ainda é um grande problema, FSP

 


Países que acreditaram ter controlado a Covid-19 por meio da vacinação se veem engolfados em novas ondas de contaminação. Meu propósito aqui não é deprimir o leitor.

As novas ondas são substancialmente menos letais que as anteriores e atingem mais o público que escolheu não imunizar-se. São, ainda assim, um problema. O fato de um indivíduo ser tolo não é razão suficiente para que o poder público perca o interesse em preservar sua vida. Quando a circulação do vírus aumenta, aumenta também a morbimortalidade entre os que fizeram tudo certinho, mas tiveram a infelicidade de não responder tão bem ao biofármaco —em geral idosos e imunossuprimidos.

Mesmo que ninguém mais morresse de Covid, novas ondas provocam lotação nos hospitais, o que compromete o atendimento a portadores de outras moléstias, que já fora represado pela epidemia. Por fim, quanto mais o vírus circula, maior a chance de surgirem variantes mais ameaçadoras, talvez até com escape vacinal.

Não estou afirmando que o Brasil vai necessariamente enfrentar uma nova onda. Muitos prognosticaram que a delta faria um enorme estrago aqui e isso não ocorreu. Com a Covid, a única forma de acertar as previsões é abstendo-se de fazê-las. O que estou dizendo é que a aparência de controle pode ser ilusória. Epidemias têm sua dinâmica ditada por inúmeros fatores, biológicos, geográficos e sociais, e diferentes interações entre eles produzem resultados muito diferentes.

O que me parece seguro afirmar é que precisaremos revacinar a população logo. A imunidade mais robusta, próxima à esterilizante, proporcionada pelos anticorpos neutralizantes não dura muito mais que cinco ou seis meses. Depois disso as vacinas continuam protegendo contra quadros graves e mortes, mas não reduzem tanto a circulação do vírus. Essa é uma má notícia para os países pobres, que, por falta de imunizantes, ainda engatinham na primeira dose.