sexta-feira, 20 de julho de 2018

Canudinho é reciclável; plástico não faz mal à saúde, diz presidente da Fiesp

Taís Hirata
SÃO PAULO
Há muitas notícias falsas e estudos sem embasamento que levaram à má fama do plástico, segundo José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e da Abiplast, associação que representa a indústria dos transformados plásticos.
No momento em que vários países e empresas estão abandonando o uso do canudo plástico pelos danos que causariam ao meio ambiente, ele diz que os canudinhos e outros descartáveis representam uma parcela mínima do consumo total do material. 
“Esse barulho todo é canudinho e copo, que não dá 2%. Às vezes um cara pega o negócio de canudinho, tem uma baleia lá, põe os canudinhos na boca dela”, diz.​
José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Fiesp e da Abiplast, associação da indústria de transformados plásticos
José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Fiesp e da Abiplast, associação da indústria de transformados plásticos - Karime Xavier/Folhapress
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O empresário minimiza o impacto da ingestão do plástico pelo ser humano, diante de pesquisas que encontraram microplásticos até mesmo na água da torneira. 
“Plástico é hidrogênio e carbono. O stent [tubo usado em procedimento médico], a prótese, tudo é feito de plástico, isso não faz mal nenhum ao ser humano”, afirma.
A indústria tem buscado alternativas sustentáveis, diz Roriz, como o desenvolvimento de embalagens mais finas, com menos matéria-prima.
No entanto, a mudança não é imediata, diz. “Meu sonho é comer o alimento e a embalagem, que nem sorvete e casquinha. Mas não existe. Estamos sendo desafiados, isso é bom, isso move a cadeia.”

Folha - O plástico se tornou alvo de uma série de campanhas de ambientalistas. Como isso afeta a indústria?
O plástico é aproveitado em todos segmentos da economia. 80% requerem larga duração. Na construção civil, se puder durar a eternidade, melhor ainda. Para aquele plástico de utilização rápida, o ideal é que seja reciclado. Isso requer educação, coleta adequada, desenvolvimento de mercados para o plástico reciclável. 
 Qual é o papel da indústria?
É fabricar produtos mais amigáveis ao meio ambiente, que sejam facilmente reciclados. Toda matéria prima plástica pode ser 100% reciclada. Mas tem coisas que não são percebidas. Muita gente gosta de embalagem com dez cores. A partir do momento que se faz isso, dificulta a reciclagem.
O plástico é um produto novo, que aumentou sua participação rapidamente nos últimos anos. E por que? Porque é barato e traz benefício grande. Graças ao plástico, há menos lixo hoje, há produtos mais baratos. 
 Como assim tem menos lixo? 
É um produto leve e resistente. A embalagem de feijão, por exemplo. Em um mundo sem plástico, você usaria papel, que tem espessura maior, que rasga. Existe uma conta, feita por empresas especializadas, de que caso não existisse o plástico, o volume de lixo gerado seria três vezes maior, porque seriam usados outros materiais de maior peso. 
A parte da indústria tem sido feita?
Sim. Tem pressão do consumidor e das empresas. 
 Esse esforço é suficiente?
Sim, mas isso não é feito de uma hora para a outra. Tem também pressão das pessoas por produtos mais cômodos, embalagens individuais. 
 Qual pressão é mais forte?
As duas. Vai depender muito da educação do consumidor. 
 Mas colocar na conta da educação do consumidor não é se livrar do problema?
Não. Vou te dar um exemplo fácil. Se vai em comunidade com menos educação, o lixo está à vista. 
 O que a indústria de plásticos tem feito?
Muitas vezes, o cliente [indústria compradora do plástico] cobra um produto ambientalmente sustentável, mas pede dez cores, quer misturar materiais, o que dificulta a reciclagem. O nosso papel [indústria fornecedora] é mostrar para eles que, ao fazer isso, estão indo contra a economia circular.
 Há muita resistência? 
Muitas vezes o pessoal de marketing está preocupado em vender, está disputando espaço na prateleira, está disputando a preferência do consumidor. São coisas antagônicas. 
 Quem são as principais indústrias compradoras de plástico?
A primeira é a de embalagens de alimentos, bebidas, cosméticos. Depois, vêm a construção e o setor automobilístico. 
 Qual é o peso do plástico que o consumidor usa, o canudinho, a sacola?
O canudinho e todas as embalagens descartáveis são cerca de 2,1% do total. Esse barulho todo de [poluição no] mar é canudinho e copo, que não dá 2%. 
 Há certo exagero, então? 
Às vezes um cara pega o negócio de canudinho, tem uma baleia lá, põe os canudinhos na boca dela e fala que ela… o material é reciclável, o canudinho é a coisa mais fácil de reciclar. 
 Mas se é tão simples, por que tem tanto lixo plástico, até mesmo na água da torneira? 
Na água da torneira? 
Sim, um estudo [feito pela organização Orb Media, com participação da Folha e análise da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Minnesota, nos EUA] mostrou que tem plástico até mesmo na água da pia.
Esses estudos não tem comprovação científica nenhuma. E se tiver, o plástico é hidrogênio e carbono. O stent [tubo usado em procedimento médico], a prótese, tudo é feito de plástico, isso não faz mal nenhum ao ser humano.
 Há uma evolução?
Essa discussão é ótima. Meu sonho é colocar o alimento no micro-ondas e comer o alimento e a embalagem, que nem sorvete e casquinha. Mas não existe. Estamos sendo desafiados, isso é bom, isso move a cadeia. Para nós, quanto mais pressão tiver melhor, mas pressão no bom sentido. Dizer que os oceanos vão ficar cheios de plástico… O problema é também a visibilidade do descarte. Se joga vidro, metal, ele afunda, e o plástico não. Você vê o plástico e acha que os outros não existem. 
 O que tem sido feito em inovação?
Embalagens que possam ser mais reaproveitadas, com menos matéria prima e ter um tempo de prateleira maior. A partir do momento que elevo validade do produto, perco menos produto, além de usar menos logística para levar e trazer. E há a linha de desenvolver materiais de fontes que façam parte da economia circular. Posso fazer um polímero de batata, mandioca, cana. São os bioplásticos. 
Os bioplásticos já são realidade? 
Têm participação pequena ainda, ficam bem mais caros, e isso encareceria o preço do produto final. É algo que será complementar. 

    Mara Gabrilli: Por que a mulher faz política, mas está fora dos governos?, FSP

    Faltam investimentos em campanhas femininas

    A deputada federal Mara Gabrilli, em evento em São Paulo em 2016
    A deputada federal Mara Gabrilli, em evento em São Paulo em 2016 - Greg Salibian - 30.jul.16/Folhapress
    Recentemente, Pedro Sánchez, novo premiê da Espanha, nomeou seu gabinete com mulheres na maioria dos postos de liderança. Pela primeira vez na história do país, o número de mulheres é quase o dobro do de homens: são 11 para 6.

    No Brasil, a sub-representação da mulher na política ainda é realidade. Eu mesma faço parte dos tímidos 10% de mulheres na Câmara, percentual quase tão baixo quanto os 16% da bancada feminina no Senado.

    Apesar de as brasileiras terem progredido em áreas como educação e saúde, a baixa representação na política foi o principal responsável pelo desempenho no relatório do Fórum Econômico Mundial, que mede igualdade entre homens e mulheres. Em 2017, o Brasil perdeu 11 posições e caiu para 90º entre 144 países.

    Além da igualdade de gênero, precisamos lutar por mais diversidade. Afinal, a maior característica do nosso país é a heterogeneidade, ainda pouco representada no Congresso.

    Se analisarmos nossos políticos, encontraremos muito mais padrão do que diferenças. Deixamos de ampliar nosso olhar a outras camadas sociais. É o que ocorre não só com mulheres e pessoas com deficiência, mas também com a população LGBT e a indígena, por exemplo.

    Hoje já há a reserva mínima de 30% das vagas nos partidos para mulheres, mas isso não se refletiu nos Parlamentos. Muito se deve à falta de investimento das próprias siglas em campanhas femininas e na formação política de mulheres. Por mais vagas que se criem, a disputa com homens ainda é desigual. Sem falar nas "candidatas laranjas", usadas só para cumprir a legislação.

    Além de os partidos se mostrarem legítimos redutos masculinos, a política brasileira ainda se mostra como um "jogo sujo", desanimando mulheres a se filiarem e seguirem a vida pública. Por outro lado, o número de lideranças femininas fora do Congresso cresce a cada dia.

    Sempre cito as mulheres de periferias, que me procuram na luta por inclusão de pessoas com deficiência, melhoria na educação e saúde, entre outras demandas. Daí, percebemos o quanto perdemos quando não temos mais mulheres em cargos públicos, trazendo um olhar diferenciado na elaboração de políticas públicas.

    A democracia se fortalece quando há equilíbrio entre homens e mulheres compartilhando experiências. A Espanha já entendeu isso. O que falta para alcançarmos tal pensamento?
    Mara Gabrilli
    Deputada federal (PSDB-SP) desde 2011 e eleita para representar o Brasil no Comitê da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2019-2022)

      Sem âncora diplomática, América do Sul fica à deriva

      “Não podemos admitir novas aventuras antidemocráticas [em nosso continente]”, disse Lula no Palácio do Planalto. Era julho de 2010, e o presidente estava no auge de sua influência pessoal.
      Enquanto se arrumava para tirar foto oficial ao lado de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, decidiu fazer uma brincadeira: “Com certeza vai ter manchetezinha amanhã: Presidentes do ‘eixo do mal’ celebram encontro”. 
      Naquele momento, o auge não era apenas da influência pessoal do presidente, mas também da capacidade de o Brasil moldar seu ambiente externo. 
      O país estava longe de ser uma potência regional clássica. Não tinha recursos militares para impor sua vontade à marra na vizinhança, como o faz a Rússia a sua volta.
      Tampouco tinha disposição para custear instituições regionais densas e com capacidade de resolver de modo eficaz os problemas típicos da ação coletiva, como o faz a Alemanha na Europa. 
      No entanto, o Brasil tinha, sim, condições de organizar o seu entorno regional. 
      Parte dessa história era econômica. O ABC paulista virara o centro de gravidade da atividade industrial na América do Sul, e o país gozava da posição de principal comprador, vendedor e investidor em seus principais vizinhos. 
      Mais que isso, o ajuste fiscal exitoso de FHC e do primeiro governo Lula haviam arrumado as contas públicas, principal recurso de poder do Brasil no sistema regional. Contas arrumadas, afinal, alinham as moedas dos vizinhos ao real e abrem as portas para um tipo de interdependência econômica que é sempre benéfica aos interesses brasileiros. 
      Parte da história era política. O Brasil da época havia construído um acervo sólido de contribuições à estabilidade regional. Montara uma parceria inédita com a Argentina e criara uma rede de relacionamentos antes impensável. A integração regional ocorria por meio de grandes obras de infraestrutura com capital e tecnologia do país. 
      Isso, por sua vez, permitia ao Brasil jogar seu peso em favor das regras do jogo que mais lhe convinham, como é o caso da norma da democracia. 
      Aquele mundo, entretanto, acabou. E com sua morte chegou ao fim também o ordenamento regional inventado em Brasília desde os primeiros anos da Nova República. 
      Nossa incapacidade de reagir ao descenso da Nicarágua de Ortega ao autoritarismo mais escancarado —assim como ocorreu com a crise daVenezuela— apenas ilustra o problema. 
      A norma democrática está rachada e novos conflitos pipocam por toda a vizinhança, mas o Brasil não mais funciona como âncora da estabilidade regional. 
      Um dia, essa situação será revertida. Por enquanto, trata-se do fim de uma era.